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Sobre o famigerado Acordo Ortográfico

Se a gramática não oferece a flexibilidade que permita que a alterem por decreto, já a ortografia pode sofrer mudanças profundas ao longo dum só século.

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. (1)

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Nas últimas décadas, o escrevinhador de língua portuguesa é confrontado com as regras do ‘novo’ Acordo Ortográfico e pode se questionar (legitimamente, entendo eu de que) se o deve seguir. Provavelmente, ao ser publicada, a sua obra será editada de acordo com o Acordo.

Inverdade é o mesmo que mentira, mas mentira de luva de pelica. Vede bem a diferença. Mentira só, nua e crua, dada na bochecha, dói. Inverdade, embora dita com energia, não obriga a ir aos queixos da pessoa que a profere. (…) Não achei a certidão de batismo da inverdade; pode ser até que nem se batizasse. Não nasceu do povo, isso creio. Entretanto, esta moça, pode ainda casar, conceber e aumentar a família do léxicon. Ouso até afirmar que há nela alguns sinais de pessoa que está de esperanças. E o filho é macho; e há de chamar-se inverdadeiro. Não se achará melhor eufemismo de mentiroso; é ainda mais doce que sua mãe, posto que seja feio de cara; mas quem vê cara, não vê corações. (2)

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Sendo um leigo na matéria, tenho o discernimento suficiente do usuário (palavra feia de cara que faz parte da terminologia dominante) para poder acompanhar o debate entre especialistas e formar a minha opinião.

Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência a vossa!/ Éreis um sopro na aragem…/— sois um homem que se enforca! (3)

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A evolução da ortografia (e da gramática) faz parte da ecologia das línguas, mas a partir de certa altura passou a ser regulada pelos critérios académicos que podem (ou não) ter implicações legais e estabelecer a norma a seguir no ensino e nos textos oficiais. Que esses critérios sejam discutíveis não é para admirar, pois mexem em algo tão sensível ao escrevinhador.

A dois séculos de deseducação ministrada por pseudo-humanistas, que de latim só sabiam o latim (tornando-o assim deveras uma língua morta) seguiu-se um século de deseducação ministrada por um anti-humanismo, que nem português, quanto mais latim, sabiam. (4)

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A deriva duma língua por territórios separados milhares de quilómetros, mesmo que praticada pelo mesmo povo e com a mesma cultura, é simplesmente inevitável. Se a língua for falada e escrita por diferentes povos, diferentes culturas, o processo tende a ser mais rápido. Nada de novo para um usuário duma língua neolatina.

Eu tenho notado nas rodas que hei freqüentado, exceto a do Alcides, uma nefasta influência dos portugueses. Não é o Eça, que inegavelmente quem fala português não o pode ignorar, são figuras subalternas: Fialho e menores.

Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre eles um que conscienciosamente procure escrever como o seu meio o pede e o requer, (…). (5)

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Para retardar esse processo, acordos ortográficos entre os países falantes duma língua trazem benefícios evidentes para a comunicação e cultura comuns, assim como para a economia. Isso não impede que cada país desenvolva as suas peculiaridades que podem ser completamente incompreensíveis senão houver explicação/tradução: podem ser regionalismos (no interior do mesmo universo linguístico) como contaminações, heranças, importações de outros universos.

Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. (6)

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Tudo isto é a delícia do viajante apaixonado pelo exotismo das sonoridades, do escrevinhador familiarizado com essas peculiaridades e tentado a explorá-las para melhor caracterização de ambientes e de personagens, do leitor ávido da sedução dos símbolos e dos significantes.

Estilizei, como não, pela necessidade de fugir à melopeia e à pouca extensão do dizer popular: mas o lexicon é o deles; as minhas vozes ouvi-lhas. Sou mais cronista que carpinteiro de romance. (7)

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E quantos escrevinhadores, com maior ou menor sucesso, não se entretêm a recriar ou, mesmo, a criar novas palavras, expressões ou línguas?

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Poema de Augusto de Campos

Quem se dê ao trabalho de acompanhar os posts deste blogue, provavelmente já percebeu que a posição aqui expressa é a da fluidez do sentido e a da plasticidade da palavra, num desafio à inteligência e ao gosto do leitor. Fluidez e plasticidade são tanto mais eficazes e sedutoras quanto o escrevinhador e o seu leitor partilhem referências, ou seja, têm um património linguístico e literário comum.

Deixa que fale dos/ pássaros/ a voarem do meu peito (8)

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Dito de outra forma: a língua tem uma história, segue padrões estabelecidos segundo critérios consagrados, evolui e diverge no tempo e no espaço (mas também nas diferentes comunidades de falantes), outras vezes enriquece-se com vocábulos completamente estranhos. Alguém disse até que é um vírus.

Vida toda linguagem/ feto sugando em língua compassiva/ o sangue que criança espalhará—oh metáfora activa!/ leite jorrado em fonte adolescente,/ sémen de homens maduros, verbo, verbo. (9)

Pela minha parte, sem pretensões elitistas ou preconceitos culturais (quero crer…), entendo que todo este processo é mais rico e produtivo se houver consciência dessa história e desses padrões, mesmo que seja ao nível básico de estranhar uma consoante muda e ter curiosidade em saber a razão da sua persistência: fóssil vivo do latim original ou indicador da acentuação duma vogal? Mesmo sem perceber a dúvida, abre-se ao escrevinhador (e ao leitor) todo um mundo novo.

Ouvi dizer que este homem possui mais línguas mortas que uma salsicharia. Quanto às vivas, já transpôs os penetrais da Europa à cata de alfabetos; e, quando tiver explorado a glótica dos hemisférios ambos, tenciona estudar as elegâncias da língua pátria e mais a retórica do padre Cardoso. (10)

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Porém, entendo o critério contabilístico que passa por cima das dúvidas e recomenda a formatação simples de modo a fazer de nós—falantes, leitores e escrevinhadores— meros usuários e consumidores.

(…) até que o pranto/ De todas as palavras me liberte (11)

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(1) in Água Viva de Clarice Lispector, ed.Rocco

(2) Machado de Assis, artigo publicado n’A Semana em 14 de Março de 1893

(3)  ‘Romance LIII ou das Palavras Aéreas’ in O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

(4) ‘Poemas’ in Apreciações Literárias-bosquejos e esquemas críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(5) in Diário Íntimo de Lima Barreto

(6) João Guimarães Rosa, entrevista a Arnaldo Saraiva em 1966

(7) ‘Dedicatória a Carlos Malheiro Dias’ in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, ed.Livraria Bertrand

(8)  ‘Entrançamento’ de Maria Teresa Horta in Só de Amor , ed.Dom Quixote

(9) ‘Vida toda linguagem’ de Mário Faustino in Antologia da Poesia Brasileira, ed.Verbo

(10)  ‘Sebenta, bolas e bulas’ de Camilo Castelo Branco in Boémia do Espírito, ed.Lello & Irmão

(11) ‘Que poema…’ in Coral de Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética vol.I ed.Caminho

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Escrever baba e ranho

Escrevinhar expondo sentimentos e emoções —pessoalmente prefiro dizer ‘estados de espírito’— é arriscado e já o disse por aqui. Mas não quero com isso dizer que seja de evitar, antes entenda-se como um aviso e um desafio.

E os sinos dobram a defuntos,/ Dlim! dlão! dlim! dlom!/ E os sinos dobram, todos juntos,/ Dlom! dlim! dlim! dlom! (1)

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Há poemas e novelas com tanta dor e tristeza que fazem escorrer lágrimas por mais que se torça o livro… e o efeito redunda no oposto do pretendido: o escrevinhador é motivo de chacota, tudo o que rodeia a sua escrita (personagens ou atribulações) provoca a gargalhada.

Mas vocês juraram agora fabricar a saudade artificialmente, sem os ingredientes necessários: sem o rei absoluto e o pai tirano, sem o convento e sem o gato. É impossível, meus santinhos, é absurdo. (…) É pena, é, mas que querem vocês que eu lhes faça? (2)

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Porém, grande literatura se escreve a propósito dos temas mais dolorosos e tristes imagináveis. Lendo alguma dela, talvez dê para entender o que a distingue do ‘choradinho’ de tantos escritos, uns famosos e a esmagadora maioria nem por isso. Sem esquecer que existe público para ambos.

—Senhora, o rei aqui me enviou para que encomendeis a vossa alma àquele que a criou, que a vossa hora é chegada, e não a posso alargar eu.

—Amigo,-disse a rainha- a minha morte vos perdoou eu; se o rei meu senhor o manda, faça-se como ordenou (…).

Suas lágrimas e gemidos ao maceiro enterneceu, com voz fraca tremendo, isto dizendo começou:

—(…) Hoje cumpro dezassete anos, para os dezoito vou. O rei não me conheceu, com as virgens me vou. Castela, diz o que te fiz? Não te atraiçoei, as coroas que me deste, de sangue e suspiros são, mas outra terei no céu, será de mais valor.

E ditas estas palavras, o maceiro a feriu, os miolos da sua cabeça, pela sala os espalhou. (3)

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-Padre, pequei.  -Sim…sim, já tinha percebido isso…

Da tristeza à felicidade, a praga do texto lamechas (na poesia, então…!) sempre esteve presente e não mostra sinais de melhoria para futuro. Mas daí também nunca veio grande mal ao mundo.

No dia seguinte àquele em que me conheceu foi levar-me a casa uma poesia que me é dedicada e em que me aconselha a que siga a escola do Sentimento, ou antes a que escreva apenas o que sinto. A poesia tem um certo perfume oriental. Diz ele que a mandará para o ‘Diário Popular’. Verás… (4)

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Alcool: só bebo para tornar-TE mais interessante!

No extremo oposto do espectro está o humor com toda a sua panóplia de recursos, marcando o tom e a perspectiva do texto. Há escrevinhadores que tomam de emprestado o estilo dum grande satírico de outros tempos e escrevem sobre assuntos contemporâneos com frescura e bom efeito: isso observa-se com frequência em crónicas semanais de jornais e revistas.

O português, regra geral, não acha graça nenhuma à graça propriamente dita. Ri-se, sobretudo da desgraça. Enfim— como a palavra indica— do que não tem graça absolutamente nenhuma. (…) ” É prá desgraça!” é uma expressão que faz rir os mais trombudos (…). (5)

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Tanto o sucesso como o falhanço do escrevinhador em obter o efeito risível pretendido podem ser motivo para intermináveis polémicas, algumas mortalmente violentas. No pior dos casos, o tédio absoluto e o silêncio eterno em seu redor.

QUINTA-FEIRA à tarde, pouco mais de três horas, vi uma cousa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve-me a impertinência; os gostos não são iguais. (6)

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angústia da influência (ver aqui) não deve inibir o impulso da escrita, antes pode levá-la a ultrapassar suas limitações e exercitar a própria voz. Claro que, para isso, há que sofrer a angústia (ter consciência de ser fiel depositário duma tradição) e tentar ir além das influências. Creio que essa é a fronteira entre o estereotipo e a influência propriamente dita.

Chegar atrasado, em termos culturais, jamais é aceitável para um grande escritor, embora Borges fizesse carreira explorando sua secundaridade. O atraso não me parece de modo algum uma condição histórica, mas uma condição que pertence à situação cultural como tal. (7)

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Ora, na expressão das emoções a criatividade é, provavelmente, uma impossibilidade. E, no entanto, vale tudo e nada é garantido.

Eu só queria ter o tempo e o sossego suficientes/ Para não pensar em cousa nenhuma,/ Para nem me sentir viver,/ Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido. (8)

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(1) ‘Os Sinos’ in  de António Nobre, ed.A bela e o monstro

(2) ‘Polémica sobre o Saudosismo texto 3’ de António Sérgio in A Águia selecção de textos de Marieta Dá Mesquita, ed. alfa

(3) ‘Morte da rainha Branca’ in El Romancero viejo, edição de Mercedez Díaz Roig, ed.Cátedra

(4) ‘carta a Silva Pinto’ in Obra Completa de Cesário Verde, org.Joel Serrão, ed.Livros do horizonte

(5) ‘Graça’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed. assírio&alvim

(6) in A Semana de Machado de Assis, Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

(7) in ‘A Angústia da Contaminação’ prefácio à 2ª edição da A Angústia da Influência de Harold Bloom, trad. Marcos Santarrita, ed.Imago

(8) in Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro, ed. assírio&alvim

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Final feliz…ou nem por isso

Não é raro ouvir algum escrevinhador declarar  que não constrói enredos, nem precisa: a narrativa começa e progride ao ritmo da inspiração, tendo muitas vezes como exclusiva preocupação nunca perder a capacidade de ‘agarrar’ o leitor.

Nada disso invalida o que foi dito nos posts anteriores sobre a importância do enredo. Além do mais, um dos maiores problemas da construção de qualquer narrativa, da simples anedota ao maior épico, é o final frouxo (na anedota, a ausência do punch-line, do final hilariante).

Ludmilla fecha o livro, apaga o candeeiro do seu lado, abandona a cabeça na almofada e diz:—Apaga também a luz. Não estás farto de ler?

E tu:—É só mais um instante. Estou mesmo a acabar Se numa noite de Inverno um Viajante  de Italo Calvino. (1)

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Nada de mais desconsolador, todavia muito comum: uma estória bem esgalhada, redunda num final completamente ineficaz. Porque acontece isso quando é tão evidente?

Já anteriormente o disse: Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória. (aqui)

Com o mesmo resultado, o final tanto pode ser extenso e chato, como simplesmente confuso, desastrado, inverosímil (à luz da própria lógica interna da narrativa).

Ou simplesmente banal ( e viveram felizes para sempre…).

Ora, o que a construção esquemática do enredo permite, em qualquer fase da construção literária da narrativa, é colocar a sua dinâmica em perspectiva…e em perspectiva do quê? Obviamente, do seu final. Mesmo que seja um final aberto, inconclusivo ou ambíguo.

E fá-lo como? Simplesmente por estar ali definido o ‘momento do fecho’, espaço e tempo em que o escrevinhador terá de dar um propósito a tudo o que atrás fora dito.

E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me…A terra lhes seja leve! Vamos à ‘História dos Subúrbios’. [‘História dos Subúrbios’ é o título do livro que a personagem-narrador-autor ia escrever mas adiou para escrever o actual livro primeiro, conforme ele próprio indica no início] (2)

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Belmiro Barbosa de Almeida-‘namoro do guarda’

Não se trata duma ‘mensagem’ (também pode ser), nem duma intenção oculta finalmente revelada (o que também pode ser), ou de um passe mágico que baralha tudo e muda todo o sentido anterior da estória, dando um tapa na cabeça do leitor (ou um murro no estômago…)(mas também pode ser isso, claro).

O propósito, aqui, significa dizer ‘eis ao que chegamos!’ e isso, de algum modo, estando à altura das expectativas criadas ao longo da leitura.

Deambulei à sua volta [das sepulturas], sob aquele céu benigno; observei as mariposas bordejando entre a urze e as campainhas; fiquei atento ao vento suave roçando pelas ervas; e pensei como poderia alguém imaginar sonos inquietos para os dormentes naquela terra tranquila. (3)

Éxtasis de la beata Ludovica Albertoni (entre 1671-1674)

Éxtasis de la beata Ludovica Albertoni (1671-1674) de Bernini 

Pode ser uma expectativa gorada, mas legitimamente gorada: o leitor alimenta suas fantasias e interpreta os factos e personagens narrados como pode, o escrevinhador tem toda a liberdade de o enredar numa teia complexa e dar um final impossível de prever, mas perfeitamente dentro da ‘lógica’ do enredo.

E pode o escrevinhador fazer tudo isto sem ter o enredo esquematizado na cabeça (ou nas estrelas)? Claro que pode, mas assim também fica mais fácil alguma coisa (ou muitas coisas) ficar pelo caminho…

(…) e que todo o escrito neles [os pergaminhos] era irrepetível desde sempre e para sempre porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra. (4)

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Bran Ruz de auclair/deschamps

 

nota: todas as citações são as últimas linhas dos respectivos livros

(1) in E se numa noite de Inverno um viajante, de Italo Calvino, ed.Público trad.José Colaço Barreiros

(2) in Dom Casmurro, de Machado Assis, ed.Europa-América

(3) in Wuthering Heights, de Emily Brontë, ed.Penguin Books

(4) in Cien Años de Soledad, de Gabriel García Marquez, ed.Espasa Calpe

Forma e Conteúdo

Estruturar a obra por partes permite ao escrevinhador observar quebras de qualidade, de ritmo, de interesse, de foco.

Argumentista de Cinema

Argumentista de Cinema

 

Ou seja, auxilia-o a avaliar as partes na sua relação com o todo, podendo assim eliminar um capítulo que está a mais (ou acrescentar mais um), mudar sua inserção uns tantos capítulos mais adiante ou mais atrás, confirmando se cumpre com as expectativas da narrativa ou se as compromete, etc.

Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade.

Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor.

Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem… *

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Esta divisão não tem de ser assumida de modo evidente e gráfico: capítulo I, capítulo II e segs.. Pode até ser ‘baralhada’ pelo escrevinhador na fase final da escrita, alterando cronologias, sequências, obtendo efeitos como o trair as expectativas iniciais do leitor e surpreendê-lo.

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim,
isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. *

"estou escrevendo o meu obituário, mas com um truque: eu engano a morte no último minuto."

“Estou escrevendo o meu obituário, mas com um truque: eu engano a morte no último minuto.”

Conforme já algures por aqui sugeri, depois do árduo e longo processo de escrever uma estória (ou um livro de poemas, já agora), o escrevinhador pode considerar, mais tranquilamente, mudanças formais.

Meu caro crítico,
(…) O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo. *

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-Ok…então todos concordamos que isto tudo é por minha causa!                                                             A VITÓRIA DO EGOCENTRISMO

 

Essas alterações podem fazer a diferença, permitindo a liberdade e ousadia de lidar com um tema eventualmente banal, chocante, aborrecido, desagradável, absolutamente desinteressante, absurdo ou ridículo, e tratá-lo de forma original.

(…) ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra que mata; a letra dá vida; o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte. *

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* in Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

 

 

 

Elogio à prolixidade

Há quem escreva com tanta atenção ao detalhe que perde o fio da narrativa, secundarizando-a; talvez porque o instante seja decisivo, talvez porque o enredo tenha mais a ver com o sentimento, a emoção, a percepção, do que com a ilusão do tempo progredindo de acontecimento para acontecimento.

Ao Pepe lhe agrada muito dizer frases lapidárias nos momentos de mau humor. Depois vai-se distraindo pouco a pouco e acaba por esquecer tudo.

Duas crianças de quatro ou cinco anos jogam aborrecidamente, sem nenhum entusiasmo, aos comboios entre as mesas. (…)

Pepe observa-os e diz-lhes: —Ainda ides cair…

Pepe fala o castelhano, ainda que leve já quase meio século em Castela, traduzindo directamente do galego. (1)

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Também há quem desenvolva tantos relatos paralelos ao enredo que o submerge; talvez por força do efeito caleidoscópico das diversas dimensões de uma vida, de uma sociedade, de um tempo, recusando comprimi-las, ou anulá-las, numa perspectiva reducionista.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (capítulo CX) a um professor de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. Em si, a matéria é chocha, e não vale a pena de um capítulo, quanto mais dois; mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis. Expliquemos o explicado. (2)

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Quem, ainda, utilize muitos e variadíssimos vocábulos (insólitos até) com suas derivações e efeitos bombásticos, em longas e coloridas formulações frásicas a ponto dos aspectos formais da escrita ganharem preponderância sobre os conteúdos; talvez por assim exprimir as características da oralidade, ou para caracterizar cada personagem nas suas relações e desenvolvimentos.

Com o vezo e a experiência e porque ladrãozinho de agulheta sobe sempre a barjuleta, o João Bispo deitou o pé mais longe. A vizinhança começou a queixar-se de sumiços sobre sumiços, ovos que desapareciam do ninho ainda a pita poedeira a repenicar, queijos frescos da francela e até broa dos açafates. Foi cão, foi gato, foi doninha, e o João Bispo com o odre à ufa. (3)

-Dêem

-Dêem as boas vindas ao Bert Phelps. Ele será o responsável pela segurança de toda a divisão de produtos de capoeira.

E tudo isso pode resultar bem, pois o propósito literário tanto pode ser o de contar mais uma estória, como o de contar de certa maneira.

Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. (4)

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O fluxo do texto ininterrupto, encadeando personagens, acontecimentos, reflexões, ambientes, torna-se hipnótico, sedutor, e tanto mais sensual  quando bem escrito e levando o leitor a saborear a sonoridade das frases, a experimentar o dobrar da língua ao enrolar a sílaba.

E dissessem o que bem lhes aprouvesse, ele era que não ia se incomodar, como não se incomodou com o olhar de Lindaura de Jacinto, quando entrou na quitanda do marido dela e pediu uma botija—uma botija, não, um botijão— de cachaça, suor de alambique mesmo, coisa de fazer o bafo do bebedor pegar fogo na hora de acender o charuto, coisa de macho mesmo. (5)

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Repetindo a conclusão do post anterior, apesar de me referir a coisa completamente diversa, não é à toa que se associam as noções de conciso, insípido (pobre), desapaixonado: as palavras não são gratuitas, nem a escrita é um mero registo.

(1) in La Colmena de Camilo José Cela

(2) in Dom Casmurro de Machado de Assis ed.Europa-América

(3) in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro ed.Bertrand

(4) in O Evangelho segundo Jesus Cristo de José Saramago ed.Caminho

(5) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro ed.Dom Quixote

Expressividade

Foi aqui dito já que a pretensão de reproduzir a linguagem oral tal como ela é através da escrita é o maior dos artifícios.

E um artifício complexo, aliás, como se pode ler em páginas e páginas de alguma literatura de hipermercado: diálogos abundantes onde personagens estereotipadas reproduzem frases feitas, expressões supostamente populares em certos meios, etc. Resultado de um enredo banal e da ausência duma ideia, provavelmente. Por vezes perde-se um tema potencialmente interessante. O que não é sinónimo de fracasso comercial.

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Quando uso a expressão ‘literatura de hipermercado’ não significa que seja um fenómeno recente. Desde o sec.XVIII, pelo menos, o mundo literário foi ganhando espaço e leitores pela via dos ‘estados de alma’ mais apelativos; ora, que melhor maneira de os expressar do que utilizando diálogos ‘expressivos’?

“-Cala-te, Sancho,’ disse dom Quixote’ e não interrompas o senhor bacharel, a quem suplico que prossiga em dizer-me o que se diz de mim na referida história.

-E de mim ‘disse Sancho’ que também dizem que sou eu um dos principais presonagens dela.

Personagens, que não presonagens, Sancho amigo. ‘disse Sansão.’

-Temos outro a corrigir voquíbulos por aqui? ‘disse Sancho’ Pois despache-se lá com isso, ou nunca mais acabamos em toda a vida.”

(in Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes)

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Por outro lado, na falta de outros recursos narrativos, o escrevinhador sente-se mais à vontade orientando o enredo através do confronto das personagens, dando pouco ou nenhum espaço ao contexto. O que pode nem ser muito mau, atendendo a alguns tijolos onde, a propósito do contexto, o escrevinhador se embrulha em descrições e erudições que podem ser fatais para a dinâmica narrativa.

“(…)um silêncio pode servir para excluir certas palavras ou então para as manter de reserva, para que possam ser usadas em melhor ocasião. Assim como uma palavra dita agora pode fazer poupar cem, amanhã, ou, então, obrigar a dizer outras mil. De cada vez que mordo a língua, conclui mentalmente Palomar, tenho que pensar não só naquilo que estou para dizer ou não dizer, mas também em tudo aquilo que se eu digo ou não digo será dito ou não dito por mim ou pelos outros. Tendo formulado este pensamento, o senhor Palomar morde a língua e permanece em silêncio.”

(in Palomar de Italo Calvino, tradução de João Reis, ed.Teorema)
"Desejava ter mais imaginação"

“Desejava ter melhor imaginação”

Tendo o escrevinhador maior inclinação para a construção de diálogos, ficando até sem saber como preencher os espaços entre ‘cenas’, talvez lhe seja mais cómodo recorrer a uma narrativa na primeira pessoa, onde alguém assume o relato e pode ter liberdades próprias da linguagem oral.

“Tinha então pouco mais de dezassete…Aqui devia ser o meio do livro, mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase ao fim do papel com o melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta página vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegarei ao fim. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezassete anos. Não sei se alguma vez tiveste dezassete anos. Se sim, deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino forma um só curioso. Eu era um curiosíssimo (…).”

(in Dom Casmurro de Machado de Assis)