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Sobre o famigerado Acordo Ortográfico

Se a gramática não oferece a flexibilidade que permita que a alterem por decreto, já a ortografia pode sofrer mudanças profundas ao longo dum só século.

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. (1)

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Nas últimas décadas, o escrevinhador de língua portuguesa é confrontado com as regras do ‘novo’ Acordo Ortográfico e pode se questionar (legitimamente, entendo eu de que) se o deve seguir. Provavelmente, ao ser publicada, a sua obra será editada de acordo com o Acordo.

Inverdade é o mesmo que mentira, mas mentira de luva de pelica. Vede bem a diferença. Mentira só, nua e crua, dada na bochecha, dói. Inverdade, embora dita com energia, não obriga a ir aos queixos da pessoa que a profere. (…) Não achei a certidão de batismo da inverdade; pode ser até que nem se batizasse. Não nasceu do povo, isso creio. Entretanto, esta moça, pode ainda casar, conceber e aumentar a família do léxicon. Ouso até afirmar que há nela alguns sinais de pessoa que está de esperanças. E o filho é macho; e há de chamar-se inverdadeiro. Não se achará melhor eufemismo de mentiroso; é ainda mais doce que sua mãe, posto que seja feio de cara; mas quem vê cara, não vê corações. (2)

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Sendo um leigo na matéria, tenho o discernimento suficiente do usuário (palavra feia de cara que faz parte da terminologia dominante) para poder acompanhar o debate entre especialistas e formar a minha opinião.

Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência a vossa!/ Éreis um sopro na aragem…/— sois um homem que se enforca! (3)

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A evolução da ortografia (e da gramática) faz parte da ecologia das línguas, mas a partir de certa altura passou a ser regulada pelos critérios académicos que podem (ou não) ter implicações legais e estabelecer a norma a seguir no ensino e nos textos oficiais. Que esses critérios sejam discutíveis não é para admirar, pois mexem em algo tão sensível ao escrevinhador.

A dois séculos de deseducação ministrada por pseudo-humanistas, que de latim só sabiam o latim (tornando-o assim deveras uma língua morta) seguiu-se um século de deseducação ministrada por um anti-humanismo, que nem português, quanto mais latim, sabiam. (4)

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A deriva duma língua por territórios separados milhares de quilómetros, mesmo que praticada pelo mesmo povo e com a mesma cultura, é simplesmente inevitável. Se a língua for falada e escrita por diferentes povos, diferentes culturas, o processo tende a ser mais rápido. Nada de novo para um usuário duma língua neolatina.

Eu tenho notado nas rodas que hei freqüentado, exceto a do Alcides, uma nefasta influência dos portugueses. Não é o Eça, que inegavelmente quem fala português não o pode ignorar, são figuras subalternas: Fialho e menores.

Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre eles um que conscienciosamente procure escrever como o seu meio o pede e o requer, (…). (5)

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Para retardar esse processo, acordos ortográficos entre os países falantes duma língua trazem benefícios evidentes para a comunicação e cultura comuns, assim como para a economia. Isso não impede que cada país desenvolva as suas peculiaridades que podem ser completamente incompreensíveis senão houver explicação/tradução: podem ser regionalismos (no interior do mesmo universo linguístico) como contaminações, heranças, importações de outros universos.

Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. (6)

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Tudo isto é a delícia do viajante apaixonado pelo exotismo das sonoridades, do escrevinhador familiarizado com essas peculiaridades e tentado a explorá-las para melhor caracterização de ambientes e de personagens, do leitor ávido da sedução dos símbolos e dos significantes.

Estilizei, como não, pela necessidade de fugir à melopeia e à pouca extensão do dizer popular: mas o lexicon é o deles; as minhas vozes ouvi-lhas. Sou mais cronista que carpinteiro de romance. (7)

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E quantos escrevinhadores, com maior ou menor sucesso, não se entretêm a recriar ou, mesmo, a criar novas palavras, expressões ou línguas?

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Poema de Augusto de Campos

Quem se dê ao trabalho de acompanhar os posts deste blogue, provavelmente já percebeu que a posição aqui expressa é a da fluidez do sentido e a da plasticidade da palavra, num desafio à inteligência e ao gosto do leitor. Fluidez e plasticidade são tanto mais eficazes e sedutoras quanto o escrevinhador e o seu leitor partilhem referências, ou seja, têm um património linguístico e literário comum.

Deixa que fale dos/ pássaros/ a voarem do meu peito (8)

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Dito de outra forma: a língua tem uma história, segue padrões estabelecidos segundo critérios consagrados, evolui e diverge no tempo e no espaço (mas também nas diferentes comunidades de falantes), outras vezes enriquece-se com vocábulos completamente estranhos. Alguém disse até que é um vírus.

Vida toda linguagem/ feto sugando em língua compassiva/ o sangue que criança espalhará—oh metáfora activa!/ leite jorrado em fonte adolescente,/ sémen de homens maduros, verbo, verbo. (9)

Pela minha parte, sem pretensões elitistas ou preconceitos culturais (quero crer…), entendo que todo este processo é mais rico e produtivo se houver consciência dessa história e desses padrões, mesmo que seja ao nível básico de estranhar uma consoante muda e ter curiosidade em saber a razão da sua persistência: fóssil vivo do latim original ou indicador da acentuação duma vogal? Mesmo sem perceber a dúvida, abre-se ao escrevinhador (e ao leitor) todo um mundo novo.

Ouvi dizer que este homem possui mais línguas mortas que uma salsicharia. Quanto às vivas, já transpôs os penetrais da Europa à cata de alfabetos; e, quando tiver explorado a glótica dos hemisférios ambos, tenciona estudar as elegâncias da língua pátria e mais a retórica do padre Cardoso. (10)

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Porém, entendo o critério contabilístico que passa por cima das dúvidas e recomenda a formatação simples de modo a fazer de nós—falantes, leitores e escrevinhadores— meros usuários e consumidores.

(…) até que o pranto/ De todas as palavras me liberte (11)

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(1) in Água Viva de Clarice Lispector, ed.Rocco

(2) Machado de Assis, artigo publicado n’A Semana em 14 de Março de 1893

(3)  ‘Romance LIII ou das Palavras Aéreas’ in O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

(4) ‘Poemas’ in Apreciações Literárias-bosquejos e esquemas críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(5) in Diário Íntimo de Lima Barreto

(6) João Guimarães Rosa, entrevista a Arnaldo Saraiva em 1966

(7) ‘Dedicatória a Carlos Malheiro Dias’ in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, ed.Livraria Bertrand

(8)  ‘Entrançamento’ de Maria Teresa Horta in Só de Amor , ed.Dom Quixote

(9) ‘Vida toda linguagem’ de Mário Faustino in Antologia da Poesia Brasileira, ed.Verbo

(10)  ‘Sebenta, bolas e bulas’ de Camilo Castelo Branco in Boémia do Espírito, ed.Lello & Irmão

(11) ‘Que poema…’ in Coral de Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética vol.I ed.Caminho

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Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Questões de nível

A escrita, tal como a fala, está sujeita a códigos ‘de etiqueta’ que não se confundem com as regras da Gramática ou com normas ortográficas. Quem escreve pode nem estar consciente de seguir um qualquer código, limitando-se a fazer como sabe e sempre fez.

Se pedir, peço cantando,/ sou mais atendido assim;/ porque, se pedir chorando,/ ninguém tem pena de mim (in Este livro que vos deixo de António Aleixo ed.Vitalino Martins Aleixo)

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Nos finais do século passado ainda se publicavam um preciosos livrinhos que forneciam modelos para correspondência comercial, explicando em que circunstâncias se usava certa adjectivação (prezado, caro, excelentíssimo e aí por diante) ou se terminava oferecendo abraços ou atenções (com um abraço, atenciosamente). A correspondência amorosa também mereceu destaque nesse género de publicações, e não era menos rigorosa na utilização de fórmulas e do vocabulário.

Tão pouco te pergunto / meu amor:/ Como responde o corpo/ ao vazio dos lábios? (‘Pergunta’ in Só de Amor de Maria Teresa Horta, ed.Dom Quixote)

Textos com pretensões eruditas podem ser mais facilmente desacreditados se não respeitarem o rigor dos conceitos por de trás das palavras ou a articulação lógica entre diferentes afirmações e parágrafos, assim como um certo comedimento na expressão das emoções, o que não implica excluir frases poéticas ou efeitos cómicos.

O voo dos gansos bravos por cima da minha cabeça diz-nos que o protão perdura por muito tempo, mas não indefinidamente! (in Aves, maravilhosas aves de Hubert Reeves, trad.Francisco Agarez ed.Gradiva)

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Assim sendo, como se pode escrever um texto com aspirações literárias sem se prestar a necessária atenção para os níveis de linguagem? A questão torna-se especialmente pertinente quando o texto aborda a vida quotidiana, as pessoas nos seus diferentes estatutos sociais e contextos, mais ainda se o contexto histórico, geográfico ou outros são, de algum modo, familiares.

O capitão deu ordem de fogo. Arcádio apenas teve tempo de encher o peito e levantar a cabeça, sem compreender de donde fluía o líquido ardente que lhe queimava os músculos.

—Cabrões!—gritou—Viva o partido liberal!

(in Cien años de soledad de Gabriel Garcia Marquez, ed. Austral)

Mas as dificuldades para o escrevinhador serão maiores se não tem o pulso treinado para acompanhar o ritmo e o colorido dos estados emocionais, e não tem o ouvido apurado para as vozes da rua, dos convívios informais, dos encontros profissionais, das relações amorosas. Até mesmo nos insultos, certos escrevinhadores estão tão pouco à vontade que o resultado soa cómico, senão esquisito.

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe., e não apareceu nem respondeu—que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido.Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. (in Grande Sertão:Veredas de João Guimarães Rosa,ed. Nova Fronteira)

'Au!Au!Au!Au!Au!Au!...Au!...Au!... Raios...Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando'

‘Au!Au!Au!Au!Au!Au!…Au!…Au!… Raios…Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando’

Sempre foi o recurso clássico do mau escrevinhador defender-se deste problema recorrendo a uma linguagem ‘difícil’, mais rara do que erudita. Ou a formulações pomposas — ‘gongóricas’ diriam noutros tempos. Ou então, inversamente, cair na linguagem ordinária, calão mesmo, mais à semelhança do que ouve em certos reality shows do que na vida real. Em qualquer dos casos, o vulgar estereótipo.

Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e vários;
Propõe sistemas, tira corolários,
E usurpa o tom d’enfáticos doutores:

Ciência de livreiros e impressores
Tem da vasta memória nos armários;(…)

(‘Soneto ao Leitão’ de M.M. Barbosa du Bocage)

Não é este, de modo algum, um problema menor quando comparado à construção do enredo, à composição das personagens ou aos ritmos da narrativa. Há escrevinhadores que dão tanta relevância à linguagem empregue, que tudo o mais fica ofuscado numa primeira leitura, e digo isso num sentido elogioso, pensando nos exemplos já aqui abordados a respeito da oralidade do texto.

Sempre o mesmo afã de anotar coisas que parecem urgentes, sempre escrevinhando palavras soltas em papéis soltos, em cadernos, e afinal para quê, se quando vejo a minha letra escrita, as coisas a que se refere o texto se convertem em borboletas secas que antes voavam ao sol. (in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed. Planeta DeAgostini)

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O melhor enredo, ou a personagem mais fascinante, podem ser assassinados — pior ainda: cobertos de ridículo— se houver inadequação entre quem fala ou narra e o modo como fala ou narra. Polémicas literárias famosas sempre estalaram violentamente a este respeito, e não é para menos, já que este é um dos pilares da construção literária. Infelizmente, a maioria dos problemas de inadequação na construção do texto literário têm mais a ver com a falta de preparação do escrevinhador do que por questões de gosto.

O homem célebre é um homem que fez uma porção de coisas pra gente estudar na escola. Eu acho que se não existisse homem célebre nunca havia necessidade de ir na escola, porque nunca tinham inventado nada nem coisa nenhuma. (…) Os homens célebres ficam célebres por uma porção de coisas mas eu acho que a mais importante é a memória, pois todas as estátuas que eu conheço são dedicadas à memória deles. (in Conpozissõis Imfãtis de Millôr Fernandes, ed.Nórdica)

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Mais uma vez, o problema é agravado pela falta de boas e variadas leituras, e parte da solução está aqui. Treinar o ouvido é mais fácil, já que, quando confrontado com exemplos de inadequação, o escrevinhador reconhece facilmente a falha e consegue, quase de imediato, reformular e melhorar o texto. Mas o que dá mais trabalho e leva tempo é exercitar o pulso, pois aí reside aquilo que é específico do fenómeno artístico: a possessão.

(…) Às vezes sou algum/ desses esquivos personagens/ que repentinamente me suplantam,/ e às vezes somente sou/ como que um antecessor do que nunca serei/ ou talvez esse inconstante buscador de respostas/ que acaba sempre defraudado/ pela futilidade das suas pesquisas. / No entanto, minha história pessoal/ pouco tem que ver com essa história:/ Também eu sou aquele que nunca escreve nada/ se não é em legítima defesa. (‘Biobliografia’ de J. Caballero Bonald in Diário de Argónida  Somos el tiempo que nos queda-Obra Poética Completa ed.Austral)

Ou o beijo da bela Musa…

Qué fas ti mentras, meu bem?/ Dime dónde estás,en dónde,/ que te aspero e nunca chegas,/ que te chamo e non respondes./ Morreches, meu queridiño? O mar sin fondo tragóute?  (‘Cando a luniña aparece’ in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, ed.Cátedra)

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

O remate final e o que se lhe segue

O final de um poema ou de uma estória pode ser problemático para o escrevinhador, realmente: a dificuldade em ‘chegar’ ao fim, em estruturar a composição de modo a lhe dar conclusão. É que, muitas vezes, uma boa ideia surge como fragmento de algo maior e difícil de entrever, muito mais ainda de desenvolver e de expressar. E de lhe dar o remate adequado.

El instante que pasa ocupa todo el tiempo.

No hay final ni principio:

sólo el todo y nada equidistando

(‘Didáctica’ de J.M. Caballero Bonald in Diario de Argónida, Obra Poética Completa ed.Austral)

Túmulo do escritor desconhecido

Túmulo do escritor desconhecido

 

Mas pode acontecer o exacto oposto: a narrativa, ou o poema, tem um final aberto que permite progredir facilmente. Na ausência de um prazo para entrega do original para publicação, o escrevinhador prossegue indefinidamente, sem sentir perca de qualidade ou perturbação no equilíbrio original do enredo.

"Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má.”

As sequelas de que se falava no post anterior têm, quantas vezes, origem nessa impossibilidade de dar um ‘fim’. Não que este não pudesse ser dado páginas atrás, mas precisamente por haver uma pulsão das personagens ou do próprio contexto em prosseguir.

Assim como a leitura se torna compulsiva, obcecando o leitor a continuar com sacrifício do tempo para dormir, e depois lhe dá aquela tristeza por chegar ao final, também o escrevinhador pode entusiasmar-se a ponto de não conseguir parar. E se o fizer, sofre o mesmo vazio que o leitor sente ao interromper a leitura que lhe dava tanto prazer.

“Bem sei, bem sei que te seria difícil  terminar o teu ensaio-narrativa (posso chamar-lhe assim, um ensaio-narrativa?) se te não trouxesse eu uns últimos esclarecimentos. Pois ouve, que vou continuar…”

(in Os paradoxos do bem de José Régio, incluído na colectânea O vestido cor de fogo e outras histórias, ed.Verbo)

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Donde vem este entusiasmo criativo, ‘localizado’ numa obra em particular e incapaz de se alargar a outros projectos? Creio que se trata duma feliz combinação entre a louca da casa, que se liberta dos estreitos limites do quotidiano, com a bela musa, seduzida pela ideia e pelo discurso (escrito, claro), às quais se juntam as personagens dotadas de voz própria, de capacidade de escolha, decisão e acção.

Isso e mais o contexto em que as personagens vivem e actuam, contexto flutuando conforme as variáveis que o determinam. Tudo isso e mais, ainda, o tempo (ou os tempos) que determinam o ritmo e a sequência dos acontecimentos.

Garantia porém a quem folheia—o tema é de passagem, de passionar, passar paixão e o tom é compaixão, é compartido com paixão.

(‘Terceira Carta I’ in Novas cartas portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, ed. Moraes)

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A que se pode acrescentar ainda uma dimensão trágica, que não tem aqui o sentido de ‘desgraça’ geralmente usado, mas de conflito seguido dum qualquer tipo de desfecho que está para além dos desejos e da vontade das personagens (fatalidade, mistério). O qual, a partir do sec.XX, se pode caracterizar por um não-desfecho, uma indefinição (incerteza, imponderabilidade), ou seja, um final incaracterístico, não-intuitivo, e nem por isso inverosímil.

Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. (…) Assim eu te escrevo para te demorares um pouco.

(in cartas a Sandra de Virgílio Ferreira, ed.Bertrand)

Ou, simplesmente, nada disto: o texto prossegue alegremente repetindo o esquema inicial adicionando episódios que exploram as características das personagens e das suas circunstâncias de modo previsível. Se o escrevinhador está contente, o editor feliz e os leitores maravilhados, é uma receita de sucesso.

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Escrevendo a custo

Perguntam-me se, no último post, propunha ao escrevinhador reescrever o livro logo a seguir a tê-lo concluído.

Creio que essa é a ‘mensagem’ ao longo de todo este blog, a de que não há limites à revisão, correcção, alteração, recriação. Ou, a haver, só termina depois de editado o livro (e mesmo assim!)

"Aonde vais buscar inspiração?"

“Aonde vais buscar a inspiração?”

As razões parecem-me evidentes, de qualquer forma estão apresentadas em diversos posts ao longo do blog.

(…) Penetra surdamente no reino das palavras./Lá estão os poemas que esperam ser escritos./Estão paralisados, mas não há desespero,/há calma e frescura na superfície intacta./Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário/Convive com teus poemas antes de escrevê-los./Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam./Espera que cada um se realize e consuma/com seu poder de palavra/e seu poder de silêncio. (…) (1)

Mas não entendo que o processo tenha que se dar ‘logo a seguir a tê-lo concluído’: tanto pode ser durante, como depois, e, sendo depois, até pode haver vantagem que haja algum tempo de intervalo (mas também sobre isso já foi aqui falado).

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Porém, se volto a este assunto é por saber que há uma resistência por parte de muito escrevinhador em repisar os seus escritos, para além da inevitável revisão dos erros, gralhas e gramática defeituosa.

(…) Vida toda linguagem,/há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome/aqui, ali, assegurando a perfeição/eterna do período, talvez verso/talvez interjectivo, verso, verso. (…) Vida toda linguagem,/vida sempre perfeita,/imperfeitos sòmente os vocábulos mortos (…) (2)

Essa resistência é humanamente compreensível, mas desastrosa. E tanto será maior quanto a motivação para a escrita depender menos do prazer e mais de uma necessidade qualquer.

E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício. (…) Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício o seu sentido. (3)

O ideal, se calhar, é a combinação entre o prazer de escrever (seduzir a bela musa) e a necessidade de exteriorizar certas neuras ou fantasias (a louca da casa).

 (…), de certa idade em diante, quando já o meu fel ia corroer os livros que andava publicando, nasceu esse meu famigerado diário. Sobre ele extravasou o meu fel: o meu ódio, o meu desgosto, o meu desespero. (…) 

“Mas por que publicá-lo”(me dirás tu)”se já cumprira a sua verdadeira função, sendo o escape secreto das tuas raivas?” Ai, amigo! como haver vingança onde não conheça o culpado o mal que o fere? e onde não reconheça a mão, não veja a face do vingador?

(…) O temor de ofender, surpreender, escandalizar, irritar, que tanto, nos meus outros livros, me constrangia, aqui desaparecera por completo. (…) E o resultado foi que nunca, literàriamente, me realizei como nesse livro…” (4)

A necessidade está muito presente na esmagadora maioria dos casos, o mesmo não acontece com o prazer de escrever, que resulta para muitos num exercício penoso. E por aqui já se percebe a resistência em retomar o processo, depois de o ter concluído.

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(1) in Procura da Poesia, de Carlos Drummond de Andrade, retirado da Antologia da Poesia Brasileira ed.Verbo

(2) in Vida toda linguagem de Mário Faustino, retirado da Antologia da Poesia Brasileira ed.Verbo

(3) in  Novas Cartas Portuguesas (Primeira Carta I) de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, ed.Moraes

(4) in Os Paradoxos do Bem retirado da antologia O Vestido Cor de Fogo e outras histórias, de José Régio ed.Verbo

Poesia, essa coisa esquisita

A escrita da poesia só aconteceu muito depois da produção de obras poéticas, as quais por serem destinadas à recitação, utilizavam recursos que auxiliavam a memorização, a declamação e a compreensão: métrica, rima, repetição.

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A utilização de recursos ‘não-literários’, como a música ou a dramatização, a acompanhar a declamação, garantia maior sucesso entre o público, certamente. Reciprocamente, a música e o teatro apropriaram-se da poesia para desenvolverem géneros musicais e dramáticos.

Os homens muito incultos abanam a cabeça diante de frases estranhas,/ e falam em erros evidentes no ajuntamento das/ palavras;  já os minimamente cultos acariciam a barriga/ como se digerissem uma perna de porco,/ satisfeitos com a declamação de um poema básico, onde/ todos dizem gostar muito da mãe. (in Uma Viagem à Índia canto V de Gonçalo M. Tavares ed.Caminho)

A escrita e, muito mais tarde, o livro impresso, expandiram a divulgação poética, ao mesmo tempo que a transformaram.

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A poesia deixou de estar dependente de declamadores e os recursos estilísticos tornaram-se mais complexos, já que a poesia lida pode ser relida inúmeras vezes. A noção de ‘autor’ impôs-se, reforçando a componente subjectiva, pessoal, libertando-se do espartilho das convenções.

Deponho/ suponho e descrevo/ a pulso  / subindo pela fímbria/ do despido  /  Porque nada é verdade/ se eu invento/ o avesso daquilo que é vestido  (Invento in Só de Amor de Maria Teresa Horta ed.  D.Quixote)

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Inclusivamente, a poesia deixou de ter no verso um elemento essencial, entrando assumidamente no universo da prosa, ao qual, aparentemente, não pertencia.

O que se mantém, provavelmente, é a importância dada ao ritmo, à sonoridade, aos recursos expressivos, à forma. Repito: a importância dada, e não esta ou aquela norma mais ou menos assumida pelos escrevinhadores. Ou a mais popular.

Sou um reflexo no vidro. Olho-me/ fixamente, e o poema capta-me nesta atitude./ Pudesse eu conhecer-me como se conhece/ o poema… (…) No entanto estou aqui. Entre mim e o poema/ opaco a ambos, sem nada para dizer (Descrição de um Lugar in As Inumeráveis Águas de Nuno Júdice ‘Obra Poética’ ed.Quetzal)

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Talvez por tudo isto, seja tão fácil identificar um texto poético e tão difícil defini-lo.

O toque da Musa

Há poemas com a brevidade e a força dum raio caído do céu, a linguagem de tal forma depurada, o raciocínio tão claro, que ferem o leitor. E este fica com a ilusão de partilhar um momento divino: o da musa que tocou o poeta.

Porém, se a inspiração é a matéria-prima da poesia, não esquecer a laboriosa arte do ouvido (ver nota 1), a sensibilidade do corpo ao movimento (ver nota 2), o difícil equilíbrio entre a ideia e a emoção (ver nota 3)

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Título do livro: “Você”
Escritor: -Não é sobre o que você tem…mas sobre quem você é.
Homem na assistência: -E “quem poderia ter sido” não conta?

Sem advogar métodos e normas, parece-me prudente não dar jamais por concluído o poema sem meditar nestes três aspectos.

Rima, métrica?! Falha minha certamente, que nunca fui dado às ciências exactas.