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Escrever como terapia…???

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

IDÍGORAS Y PACHI

Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

'Niña leyendo' (1850) de Franz Eybl.

Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

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Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

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A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

FERNANDO VICENTE

cartoon de Fernando Vicente

A propósito de métricas e rimas

Tempos houve em que a expressão poética era avaliada tecnicamente pelo respeito às formas e convenções da época, do meio, da crítica. Na poesia, como em todas as formas de expressão artística, aliás.

Obviamente, a inovação rompia com as regras e acabava por ‘impor’ as suas, não por decisão superior, mas por mera adesão. Veja-se o ‘caso’do poeta Bonagiunta Orbicciani ao cruzar-se com Dante na passagem deste pelo Purgatório (Canto XXIV): não só o distingue como aquele que ‘soube pôr cá fora as novas rimas’, como reconhece ter o ‘doce estilo novo‘ de Dante se libertado do ‘ que o estilo precedente obrigava.

Não menos óbvio, a dominância de um estilo, a mediocridade da maioria dos seus seguidores, a tendência ao mandarinato de uns tantos deles, tudo contribui para converter a novidade em algum tipo de formalismo a ser ultrapassado, mais tarde, por outro ciclo criador.

“-Rápido: une o sujeito ao predicado.” “-Eu…! ” E como resultado da sintaxe experimental da Susana…

Porém, as convenções não são o problema, mas o seu uso ostensivo e sem graça, sem arte, como se aplicação das duas dúzias de regras seja garantia de qualidade. Toda a História da Literatura está cheia de polémicas a este respeito.

Por vezes, estilos datados são recuperados por poetas que lhes dão novo alento, tanto no conteúdo como na forma. Vejam-se os sonetos.

Mas o que caracteriza as Artes em geral, nos últimos duzentos anos, é a reivindicação da liberdade frente a toda a exigência formal (e temática, já agora).

-Acreditas no amor incondicional? -Depende.

-Acreditas no amor incondicional?
-Depende.

O que, na poesia, pode ser expresso pelos versos sem rima, sem métrica, por exemplo. E são melhores por essa razão? Claro que não, e nem se pode dizer que sejam melhores. A questão não é essa.

Vivemos, ao contrário de outras épocas, um período especialmente rico em ‘experimentalismos’, sem sujeição a convenções que abafem a subjectividade do escrevinhador. O que não quer dizer que seja mais fácil publicar (até é, mas por razões meramente técnicas), nem que se deva dispensar a crítica literária impiedosa (pelo contrário, está a fazer mais falta do que nunca!).

Pessoalmente, não valorizo muito a métrica (por total incapacidade de ser metódico e ordenado, na verdade), nem a rima, apesar de, se quiser perceber a razão pela qual certo poema soa tão bem, muitas vezes confirmo que é (ou também é) pelo uso discreto e eficaz de uma ou da outra.

"A prosa dele é tão musculada"

“A prosa dele é tão musculada.”

Quando o escrevinhador se sente confiante em usar ou dispensar algum tipo de regra, deve fazê-lo ciente de que o faz. E a razão por que o faz. No meu caso, parece-me ser pela sonoridade, ritmo, o que tem a ver com a acentuação (que pode implicar uma métrica) e, eventualmente, com a rima. Mas faço-o ‘de ouvido’, sem preocupações formais de corresponder a um modelo.

"Se não acreditares em ti, quem acreditará?"

“Se não acreditares em ti, quem acreditará?”

A verdade, verdadinha, é que sempre fui um péssimo aluno a matemática e sempre entendi a gramática como a matemática da língua. Como poderia eu dar-me bem com sistemas métricos ou outros? Ou seja, a ser problema é problema meu, daí não servir de exemplo.

 

 

Sobre o escrevinhador negligente

Se listar quais são, na minha opinião (que se baseia na estreita faixa da realidade que conheço), os defeitos mais comuns do comum dos escrevinhadores, surge um retrato que não me parece muito diferente do de outras épocas.

No topo dessa lista coloco a negligência: fico sempre abismado pelo descaramento como alguém se atreve a escrever (para ser lido e publicado) sem se preparar minimamente.

(…) Se há um plano/Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…)/Não tenciono escrever outro poema/Tenciono só dizer que me aborreço/(…)/Todo o conteúdo de mim é porco/E de uma chatíssima miséria/(…)/Para que escrevo? É uma pura perda. (1)

A preparação pode ter fases distintas, sendo a primeira a bagagem para esta aventura, ou seja, leituras variadas, de qualidade (tanto o texto, como a leitura).

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A seguir, talvez fosse de privilegiar a combinação da atenção com a reflexão: se o escrevinhador estiver ‘ligado’ a uma qualquer (ou mais do que uma) dimensão do real, e sobre isso desenvolver algum tipo de reflexão, naturalmente irá construir uma perspectiva sobre essa mesma realidade.

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!/A chegada pela manhã a cais ou gares/Cheios de um silêncio repousado e claro!/Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…/E o som especial que o correr das horas tem nas viagens… (2)

Depois, o exercício metódico da escrita irá apurando algo das fases anteriores, permitindo ao escrevinhador explorar, perceber os seus próprios limites e horizontes, corrigir trajectórias e cumprir metas.

O que resulta daqui é um dos milagres da actividade dos escrevinhadores: a de escreverem bem sobre temáticas interessantes, sem terem que ter qualquer experiência pessoal ou formação específica (para usar a terminologia horrorosa corrente).

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No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores/Mas no meu verso, por mais que o ice, há só ritmos e ideias,/Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,/Não há a realidade da pedra mais nula da rua,

Provavelmente, haverá sempre excepções ‘à regra’ que possam contradizer o que acabei de expor, mas creio que o comum dos mortais terá melhor qualidade de vida—vida de escrevinhador, claro!—se respeitar, de algum modo, esta preparação: ler (bem e variado), observar (com perspicácia, sensibilidade, intuição…), conhecer (reflexão, meditação, transe ou outros estados alterados da mente, ou simplesmente racionalizar), comunicar (escrevendo, mas não só).

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Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma/Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias./A minha época é o carimbo que levam todas as facturas,/E sinto que todas as cartas de todos os escritórios/Deviam ser endereçadas a mim. (4)

Posso não me ter feito entender ao usar, mais acima, a expressão ‘abismado pelo descaramento’: não pretendo ser pedante, polícia dos costumes ou coisa parecida, mas tenho lido ‘coisas’ (algumas publicadas) que revelam uma preparação diametralmente oposta àquela que sugiro, no todo ou em parte.

O resultado poético, narrativo, até mesmo documental ou técnico (estou a pensar em teses de mestrado e estudos sobre qualquer coisa, sim), reforça esta convicção.

E eu era parte de toda a gente que partia,/A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava/Da janela afastando-se de comboio…/(…)/E o comboio avança—eu fico… (5)

Deprime-me, confesso, que esta negligência surja  tanto entre pessoas com vinte, trinta anos, como com cinquenta ou mais anos, com cursos superiores ou exercendo profissões onde a escrita (e a leitura) não são ‘competências’ irrelevantes. Frequentemente, até dá para perceber que a ideia era boa, mas irremediavelmente comprometida por deficiências corrigíveis. E não negligenciáveis, também.

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E as suas consequências, não coisas contadas em livros,/Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,/E o sol também real sobre a terra também real/Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! (6)

(1) in Carnaval, de Álvaro de Campos; todas as citações são deste autor retiradas da ‘Poesia de Álvaro de Campos‘, colecção dirigida pelo grande Vasco Graça Moura, ed. Planeta DeAgostini

(2) in poema 15

(3) in Saudação a Walt Whitman

(4) in Ode Marítima

(5) in poema 37

(6) in Ode Marcial

 

 

A escrita preguiçosa

Não tem como confundir o bloqueio da escrita com a escrita preguiçosa. O bloqueio até será frequente quanto já se escreveu (mais ainda se já publicou) algumas obras, enfrentando o escrevinhador a angústia de ter esgotado o assunto, de voltar a repetir temas, tiques e truques. A boa notícia é que está na hora de partir para outra etapa da viagem, a má é que a bela musa teima em não aparecer.

Sobre o bloqueio já aqui, ali, acoli e acolá (e mais além também!) se falou algo, e tanto pode acontecer ao inexperiente, como ao mais bem sucedido dos escrevinhadores. Mas preguiça é coisa totalmente diferente.

"Ele está a trabalhar uma canção de ninar."

“Ele está a trabalhar uma canção de ninar.”

O escrevinhador preguiçoso é uma espécie muito comum entre os principiantes, por falta de experiência e método, provavelmente. Da experiência se pode dizer como os versos de Machado a propósito do caminho Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar. Ora, se a sua tendência for a produção poética, ao fim de um tempo acabará por acumular um acervo razoável de poemas/textos poéticos, onde o crítico poderá confirmar a inconsistência ou a incapacidade de desenvolver o potencial. Falta de método, em qualquer dos casos.

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“Nunca penso enquanto estou a trabalhar. Não sou bom a fazer várias coisas ao mesmo tempo.”

Daí surge a ‘escrita preguiçosa’: plena de estereótipos, cultivando o lugar-comum como referência e tradição, desinspirada, abúlica, mais ainda se servida por uma gramática deficiente ou sofrendo um regime pobre em leituras. Porém, muitas vezes passa por voluntariosa, dedicada, sofrida, e outros atributos que têm mais a ver com as emoções do que com a literatura. image004 E, ao contrário do bloqueio, tende a tornar-se uma patologia crónica, maligna, potencialmente contagiosa.

Impulsos aleatórios

Certo: o esboço duma ideia, o fantasma duma memória há muito esquecida, um sentido imprevisto ao escutar algo, o realinhar de perspectiva frente ao horizonte sugerido por uma leitura…tudo rápido e incerto, difícil de expressar, quanto mais de elaborar.

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. (…)

Quero apossar-me do é da coisa. (…) E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro.*

pintura de Clarice Lispector

Ás vezes, nem isso: é o impulso de passar por escrito relâmpagos que se acendem numa tempestade interior, íntima.

Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo às pinturas e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras __ e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão. *

Com que resultado? Ah, pois…!

Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê agora o que se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação energética dos eléctrons, prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e a sua sombra.” *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

As palavras até podem surgir, mas o texto não se parece em nada com o que tão fortemente impressionara o escrevinhador segundos antes. E por mais voltas que dê, entre a ideia-intuição-sensação-não-sei-o-quê e aquilo que é escrito gera-se uma claustrofobia que provoca a sensação de impotência.

As grutas são o meu inferno. (…) Tudo é pesado de sonho quando pinto uma gruta ou te escrevo sobre ela, (…) Quero pôr em palavras mas sem descrição a existência da gruta que faz algum tempo pintei__e não sei como. (…) Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro presente e este livro é uma linha reta no espaço. *

Mas tem um porém.

O que te escrevo não vem de manso, subindo aos poucos até um auge para depois ir morrendo de manso. Não: o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa.

(…)Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz de parar de raciocinar__o que é terrivelmente difícil__ que me acompanhe. (…) Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei onde me levará esta liberdade. *

pintura de clarice lispector

pintura de clarice lispector

Tenha o escrevinhador persistência para acumular estes ‘vómitos’ (conforme já ouvi alguém dizer a propósito do que escrevinhava), coragem para os enfrentar com regularidade e método para os trabalhar, e verá acontecer debaixo dos seus próprios olhos o mecanismo da selecção natural.

(…) sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. 

Vou agora parar um pouco para me aprofundar mais. Depois eu volto.

Voltei. Fui existindo. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Do caos e dos detritos, surgem conjuntos, categorias, ordens, sistemas: relações e desenvolvimentos que se impõe ao próprio escrevinhador, segundo uma lógica e um sentido que tanto podem ser misteriosamente familiares, como espantosamente originais.

Escrevo ao correr das palavras. (…)

No fundo de tudo há a aleluia.

Este instante é. Você que me lê é. (…)

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Haja método para trabalhar a inspiração. Uma outra forma de dizer: seduzir a Musa para que ela se entregue com paixão.

(…)agora quero ver se consigo prender o que me aconteceu usando palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti__mas é fatal.

(…) São sensações que se transformam em ideias porque tenho que usar palavras.(…)

O que te escrevo continua. E estou enfeitiçada. *

* in Água Viva de Clarice Lispector ed. Nova Fronteira

Inspiração, transpiração…

Por muito importante que seja a inspiração, há sempre um problema pratico e arreliante a resolver: método.

Porque, por falta de método, perdem-se ideias e sugestões inspiradoras. Tradicionalmente, o escrevinhador previdente está munido dum bloco de notas para rabiscar imediatamente o que lhe foi sugerido numa conversa ouvida casualmente ou ao passar por certo lugar sob incerta luz.

"Não te importas que escreva no meu diário?"

“Não te importas que escreva no meu diário?”

E, mesmo assim, pode lhe faltar o reflexo de anotar logo ou a argúcia em tomar nota das palavras-chave. Porque a inspiração tem algo de químico, activando hormonas que hão-de despertar memórias, associar ideias,  suscitar estórias ou encadear imagens, etc, etc, e o processo pode ser reactivado horas, dias, anos depois, pela ordem inversa, através das palavras.

Daí que, quando o escrevinhador se queixa de falta de assunto, de inspiração ou bloqueio, talvez o problema seja mais simples de entender assim.

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O meu psicólogo diz que vai levar anos para trabalhar os meus problemas de fúria, mas não tenho a certeza. Basta escrever uma estória de violência assassina e sinto-me bastante bem.

Quando ouço em resposta ah, isso dá muito trabalho! ou não se pode estar todo o tempo a tomar notas do que acontece fico com a impressão de que estou a gastar o meu latim com simples curiosos.

Gosto de falar na musa, de exaltar a paixão, de insistir no grãozinho de loucura e todas essas imagens ou ideias que transmitem a possessão no acto da escrita. Faço-o porque sei que, se até o mero leitor, também ele, quando se defronta com um certo poema ou estória, é capaz de sentir o sopro da inspiração, como não há-de senti-la o escrevinhador nas suas horas felizes obsessivas dando forma ao que lhe vai por dentro?

"O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela estão a usar luvas."

“O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela começaram a usar luvas.”

Porém, mesmo o mais sagrado dos mistérios exige ritos banais a seguir com algum escrúpulo e disciplina.

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“Helena,eu apreciaria muito se respeitasses o meu processo criativo.”

Método e improviso

O tempo e esforço dedicados ao plano da obra podem garantir, por paradoxal que pareça, a liberdade e espontaneidade ao longo da sua execução.

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Já aqui trouxe alguns exemplos de livros que podem sugerir, ao leitor mais apressado e impaciente, uma verdadeira cacofonia, desordem e ausência de um fio condutor.

Porém, são obras de um rigor tanto mais extraordinário quando, depois do leitor se aperceber da complexa organização do enredo, o confronta com a torrente de vozes, diálogos, frases soltas, pensamentos, à partes, estranhos vocábulos, tópicos e personagens que formam o texto e dão vida à estória.

O plano funciona como um mapa e bússola que liberta a atenção do escrevinhador para os detalhes, os efeitos sonoros, a recriação oral, as anedotas.

se os escritores fossem medicos - drummond

No meio do caminho
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra”
Carlos Drummond de Andrade

Se o tema é fundamental, o modo como se conta a estória e os artifícios da escrita marcam a diferença entre autores que escrevem sobre o mesmo tema, por vezes a mesma estória com as mesmas personagens.

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Rumo, contingência e metamorfose da narrativa

Acumular dados para suporte da narrativa, anotar esquemas de possíveis desenvolvimentos, caracterizar personagens com rigor biográfico e/ou detalhe clínico, auxiliado por fotos dos ambientes a descrever, tudo isso revela trabalho de investigação e esforço de conceptualização.

Com o desenvolvimento da obra, podem ser elementos úteis para ancorá-la aos propósitos iniciais, ou para perceber onde e quando começaram, personagens e enredos, a ganhar vida própria e a impor sua verdade, seu tempo, seu espaço.

Observador Australiano: "...interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água."

Observador Australiano: “…interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água….”

Tratando-se duma obra ‘cerebral’ (didáctica ou memorialista, p.ex.), o esforço em conter os limites do tema, mantendo-o no rumo inicial, faz sentido e é pertinente.

Porém, todo o projecto é sujeito às contingências do Tempo (o distanciamento e a maturidade do escrevinhador podem mudar as perspectiva iniciais, ou o mundo deu mais algumas voltas, entretanto) e às metamorfoses da Verdade (quanto se aprofunda qualquer assunto, mais se percebe o que se desconhece e o que se dava por garantido à partida, revela-se incerto).

"Esta onda de calor tem sido brutal...toda a parte alta da cidade está desinundada..."

“Esta onda de calor tem sido brutal…toda a parte alta da cidade está à tona da água…”

O envelhecimento precoce dos livros é um risco tanto maior quanto o seu autor é indiferente (ou desatento) às variações possíveis do tema, sinal inequívoco de miopia intelectual ou de falta de preparação.

Também pode ser um acto assumido: aproveitar a espuma dos dias que cedo se desvanece, com um propósito quase fotográfico. Ou sociológico. Ou meramente ‘comercial’.

470 a.C: Sócrates responde às difíceis questões sobre a vida
Sócrates: Assim, se o jogador que recebe a bola está atrás do último defesa quando a bola é jogada…