escrever como?

tópicos e dicas para escrita

Tag: miguel de cervantes

Rir seriamente

Quando Cervantes escreveu a primeira parte do Don Quixote, terá surpreendido favoravelmente os leitores contemporâneos com aquilo que parecia ser uma sátira aos romances de cavalaria.

(…) a história do famoso dom Quixote de la Mancha, de que todos os moradores do distrito do campo de Montiel têm a opinião de ser o mais casto enamorado e o mais valente cavalheiro que, de muitos anos a esta parte, se viu por aquelas bandas. Não pretendo encarecer-te o serviço que te faço em dar-te a conhecer tão nobre e tão honrado cavaleiro; mas quero que me agradeças o conhecimento que terás do famoso Sancho Pança, seu escudeiro, (…). [do Prólogo d’O Engenhoso Fidalgo don Quixote de la Mancha]

quixote

Para os leitores dos sec.XX e XXI, a segunda parte do mesmo livro (publicada uma década depois da primeira) surpreende mais pelo diálogo de Quixote e Sancho com leitores da primeira parte, discutindo o modo como são relatadas as suas aventuras.

—Desse modo, é verdade que há uma história minha e que foi mouro e sábio quem a compôs?

—É tão verdade, senhor—disse Sansão—, que tenho para mim que no dia de hoje estão impressos mais de doze mil da tal história; senão, diga-o Portugal, Barcelona e Valência, onde se imprimiram; (…).

don-quixote

As duas partes reunidas sob um só título constituem, por isso e pelo mais que o tempo e a crítica vão desvelando, um dos maiores monumentos literários. Não sendo propósito deste blog fazer crítica literária, a referência ao Don Quixote interessa como exemplo de uma obra que se desenvolve para além das pretensões iniciais do escrevinhador.

(…) e o que mais demonstrou desejá-la [a segunda parte do Don Quixotefoi o grande imperador da China, pois em língua chinesa haverá um mês que me escreveu uma carta(…) suplicando-me que a enviasse porque queria fundar um colégio onde se lesse a língua castelhana e queria que o livro que se lesse fosse o da história de dom Quixote. Juntamente com isso dizia que seria eu o reitor de tal colégio. [da Dedicatória ao Conde de Lemos in Segunda Parte do Engenhoso Cavaleiro dom Quixote de La Mancha]

quixote manga

 

Esse ‘desenvolvimento’ é evidente pela aparição da segunda parte (que a primeira não pressupunha), e que decorre da popularidade que narrativa e personagens tiveram logo a seguir à sua publicação. No mínimo, o êxito confirma como é gratificante e potencialmente inspirador o diálogo entre o escrevinhador e os seus leitores.

Diz-me, irmão escudeiro: esse vosso senhor não é um de quem anda impressa uma história que se chama do Engenhoso Fidalgo dom Quixote de la Mancha, que tem por senhora da sua alma a uma tal Dulcineia de Toboso?

O mesmo, senhora—respondeu Sancho—; e aquele escudeiro seu que anda, ou deve de andar, na tal história, a quem chamam Sancho Pança, sou eu, se é que não me trocaram do berço; quero dizer, que me trocaram na estampa.

panel-borders-don-quixote-header

“-Então é verdade que sou tido como uma personagem cómica, agora?”(cartoon de Rob Davies)

 

Por outro lado, talvez a ideia inicial fosse satirizar, mas as personagens de Quixote e de Sancho desenvolveram-se com tal complexidade que se tornaram mais do que simples estereótipos do alienado (Quixote) e do bronco (Sancho), ganhando dimensão, profundidade, ou seja, humanizando-se. Nesse sentido, mais do que uma vez o leitor tende a identificar-se com elas, a percebê-las, a ver pelo seu ponto de vista.

—Isso de os governar bem—respondeu Sancho—não tem que mo recomendar, pois sou caridoso por feitio e tenho compaixão pelos pobres; e a quem coze e amassa, não lhe furtes fogaça; e para minha benção que não me hão-de lançar falsidades; sou cão velho e entendo todos tus, tus, e sei espevitar-me quando é preciso, e não consinto que me deitem areia nos olhos, porque sei onde me aperta o sapato: digo-o porque os bons terão comigo mão e concavidade, e os maus, nem pé, nem entrada.

sancho e quixote

Sem prejuízo do riso que, volta e meia, suscitam pelas suas palavras e actos; mas o riso estende-se às outras personagens, as ditas ‘normais’, as que partilham com o leitor a mesma estranheza e hilaridade frente àquele extraordinário duo.

E como não mentem—disse nesta altura dona Rodrigues, a dona, que era uma das ouvintes:—que meteram ao rei Rodrigo, vivo vivo, numa tumba cheia de sapos, cobras e lagartos, e que daí a dois dias disse o rei de dentro da tumba, com voz baixa e dorida: Já me comem, já me comem/ por onde mais pecado havia; e por isto, muita razão tem este senhor [Sancho Pança] em dizer que quer mais ser lavrador do que rei, se lhe vão a comer os bicharocos.

quijote

Porém, esse outro riso poderá ter um travo amargo, levar a uma reflexão inesperada, fazer simpatizar com o alvo habitual da troça. O que não é outra coisa senão actuar ao nível dos nossos preconceitos.

(…) Daqui aproveitou a ocasião o duque em fazer-lhe aquela partida: tanto era o que gostava das coisas de Sancho e de dom Quixote; (…). E disse mais Cid Hamete [o ‘verdadeiro’ autor de dom Quixote e de quem Cervantes se diz mero tradutor]: que tem para si serem tão loucos os burlões como os burlados, e não estavam os duques dois dedos de parecerem tontos, pois tanto afinco punham em enganar dois tontos.

'What happened to your windmill?'

cartaz: Seguradora La Mancha                                          ‘O que é que aconteceu ao seu moinho de vento?’

Anúncios

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

1509654_10152863924725841_4846414522989401024_n

Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

11026307_10200254102233207_1550211503471874572_n

Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

11202818_10205603365255709_6792181659525463828_n

Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

11836727_731204370341746_6074052884073995403_n

Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

invas

O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

15253489

(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

O (des)equilíbrio entre a palavra e a ideia

O uso da palavra como matéria-prima essencial do texto nunca deveria ser menosprezado, mesmo pelo escrevinhador sem pretensões literárias. Esse menosprezo apenas revelará suas próprias limitações. O que não é o mesmo que dizer que o fetichismo da palavra seja garantia de qualidade.

“Ler bem” é ajustar a proximidade da presença sentida num texto a todos os níveis do encontro: espiritual, intelectual, fonético e até “carnal” (o texto actua sobre o nervo e sobre o músculo, como a música). (1)

“Permission to write a poem, sir?”

“Permissão para escrever um poema, capitão?

Recorrer a palavras ‘caras’ (difíceis, raras, em desuso) pode ser um bom artifício, como uma excelente proposta de reflexão e ponto de partida para um algures narrativo ou ensaístico. Mas todo o cuidado é pouco para evitar o pedantismo ou as dificuldades de comunicação para além do razoável.

Mas devo reconhecer que foi precisamente o desencontro, a ambiguidade, esta melancolia face ao efémero e ao precário, a origem da literatura na minha vida. (2)

shit-happens-mickey-mouse

Na poesia a palavra tem um peso diferente daquele que pode adquirir num texto em prosa, apesar das distinções entre uma e outra estarem esbatidas nos últimos 150 anos: o texto poético valoriza (ou tende a valorizar) a materialidade da palavra pela sonoridade no texto, criando efeitos tanto maiores quando lidos ou expressos em voz alta. Igualmente, o texto duma peça de teatro procura retirar efeito dessa materialidade.

Juan: Devias estar em casa. / Yerma: Entretive-me. / Juan: Não compreendo em que te tenhas entretido. / Yerma: Ouvia cantar os pássaros. / Juan: Está bem. Assim darás com que falar às pessoas. / Yerma: Juan, que pensas? / Juan: Não o digo por ti, digo pelas pessoas. / Yerma: Punhalada que lhes dêem às pessoas! / Juan: Não amaldiçoes. Fica feio numa mulher. / Yerma: Oxalá fosse eu uma mulher. (3)

segundo-a-nova-regra-ortografica-plateia-nao-tem-mais-acento-agora-todos-ficam-em-pe-1870

Num caso ou no outro, pode consegui-lo com efeitos mais estéticos (digamos assim, para facilitar) do que dramáticos. Pode fazê-lo melhor ou pior, e certamente não agradará a todos (o que, em si, não só não deve constituir um problema, como é uma fatalidade). A vacuidade das ideias, a indolência do enredo, a banalidade do texto, os efeitos espampanantes e ocos, são perigos frequentes nestes mares da polémica em que tanta escrita naufraga sem deixar glória, nem saudade.

(…) sempre defendi a importância do desejo e da paixão. Não por serem um ideal em si, mas porque formam o elemento dinâmico da vida. (4)

'If God tells you what to say in your sermon, why do you make so many corrections?'

‘Se Deus diz-te o que vais dizer no sermão, porque fazes tantas correções?’

A saturação de ideias também pode  prejudicar, ainda que de modo diferente, o delicado equilíbrio entre forma e conteúdo: por um lado, os propósitos da escrita revelam uma urgência desmesurada; por outro, traem a insegurança do escrevinhador enquanto tal.

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus/ Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne/ E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito! (5)

QUE QUER DIZER com os meu trabalho estar errado

QUE QUÉ DIZER com o meu trabalho estar errado?!? Copiei TUDO directo da Internet!!

Mas que não se diga que o desafio não possa ser enfrentado com êxito: em toda a história da literatura universal abundam exemplos de textos densos e fascinantes.

Por outro lado, considero que ele a contou e a disse com todas as circunstâncias ditas, e que não pôde fabricar em tão breve espaço tão grande máquina de disparates; e se esta aventura parece mentira, não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la por falsa ou verdadeira, a escrevo. Tu, leitor, por seres prudente, julga o que te parecer, que não devo nem posso mais (…). (6)

media-die-dead-journalist-writer-newspaper-rron6l

“Estou a escrever o meu obituário, mas com uma surpresa: engano a morte no último minuto”

Todavia, o escrevinhador não tem que balançar entre a formulação de ideias e a manipulação da palavra. Expressar-se através da palavra é o que o distingue do escultor ou do músico, e por mais emocional ou inconsciente que sejam as urgências dessa expressividade, sugerem ideias …mesmo que involuntárias.

Na tua voz as palavras são nocturnas (7)

Ilustración de Fernando Vicente1

Ilustración de Fernando Vicente

Ou não fosse por isso que tanto escrevinhador se descobre a si mesmo através da escrita e, por isso, ainda que sem leitores, prossegue escrevendo para o baú.

Se do futuro alguém quer se defender/ Esse sou eu!/ Ninguém mo disputa./ No mercado dos versos, meus amigos/ Sou daqueles que não ficam por vender (8)

como-escrever-um-livro-inspirac3a7c3a3o1

(1) in Paixão Intacta de George Steiner, trad.Margarida Periquito e Victor Antunes ed.Relógio d’Água

(2) in Resistir de Ernesto Sabato trad.Carlos Aboim de Brito, ed.Dom Quixote

(3) in Yerma de Federico García Lorca, ed.Catedra

(4) in O Optimismo de Francesco Alberoni, trad.Cristina Rodriguez e Álvaro Guerra ed.Bertrand

(5) in ‘Saudação a Walt Whitman’ Poesia de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(6) in El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(7) in ‘Partida’ Dia do Mar de Sophia, Obra Poética ed.Caminho

(8) Ibn Ar-Ruh in O meu coração é arábe-a poesia luso-árabe colectânea organizada e traduzida por Adalberto Alves, ed. Assírio&Alvim

Ir além

A autocrítica é entendida como esforço de aperfeiçoamento, um ‘ir além’ que o tempo-que-passa e a exposição dos textos tendem a estimular, sinal de maturidade e de vigor criativo. A qualidade da escrita ressente-se da falta de sentido crítico e autocrítico do escrevinhador (que também é, não o consigo imaginar de outro modo, um leitor).

‘Pai, Mãe,’ disse a sua irmã, batendo sobre a mesa com a mão como introdução, ‘não podemos continuar assim. Talvez não consigam perceber, mas eu consigo. Não quero chamar este monstro de meu irmão, tudo o que digo é isto: temos de tentar e livrar-nos disto. Tentamos tudo o que é humanamente possível para cuidar daquilo e ser paciente, penso que ninguém nos pode acusar de fazer algo errado.’ (1)

Aplicações disponíveis no Facebook (esquerda) Aplicações úteis (direita)

Aplicações disponíveis no Facebook (esquerda)
Aplicações úteis no Facebook (direita)

Para o principiante o exercício autocrítico é mais penoso, menos óbvio, provavelmente mais urgente. Assim, a bagagem literária, a curiosidade pelo processo como outros escrevinhadores desenvolvem os mesmos temas, a sensibilidade ao modo como as pessoas comunicam, reflectem, actuam, lêem, são algumas ferramentas de trabalho que permitem avaliar a própria escrita.

Entretanto, Xerazad dizia à sua irmã Dunyazad: “Mandarei-te chamar quando estiver no palácio, e assim que chegues e vejas que o rei tenha terminado o seu assunto comigo, me dirás: ‘Irmã, conta alguma estória maravilhosa que nos faça passar a noite’. Então contarei contos que, se Deus quiser, serão a causa da libertação das filhas dos muçulmanos’ (2)

15075223

Na prosa e na poesia, o escrevinhador constrói os textos de modo faseado, tanto na forma como no tempo, mesmo que sinta ter escrito tudo de rajada. Em alguma dessas fases o escrevinhador deve assumir qual é a sua pretensão formal, ou seja, como pretende exprimir algo de modo ‘original’. Essa pretensão tem menos a ver com o tema do que com a perspectiva, o tom, o ritmo, o nível de linguagem, entre outros aspectos que lhe pareçam significativos no material escrito.

Nietzsche é, na esteira dos pré-socráticos que tão caros lhe foram, o filósofo em cujos escritos se fundem a especulação abstracta, a poesia e a música. (3)

11075275_708107802627489_3681859945046642517_n

Querido YOUTUBE, eu vou sempre ‘saltar a publicidade’

O mais estereotipado desfecho pode ser escrito pela enésima vez e surpreender…—como assim?! O assassino é o mordomo? Aparece o príncipe encantado —ou a cavalaria— mesmo antes do final da estória? Não sei, ninguém sabe, nem mesmo o escrevinhador quando cria. Mas, lendo e relendo com menos emoção e mais sentido crítico, talvez uns concluam que a surpresa está na diferença como se aborda o tema, no modo distinto como o desenvolve, pelas perplexidades que sugere ou expõe e que transcendem o género.

(…) é que os contos, uns têm graça por si mesmos, outros pelo modo de contá-los (quero dizer que alguns há que, ainda que se contem sem preâmbulos e ornamentos de palavras, satisfazem); outros há que é necessário vesti-los de palavras, e com demonstrações de rostro e de mãos, e com mudar a voz, resultando algo de muito pouco, e de frouxos e descoloridos se tornam penetrantes e saborosos (4)

11140069_353581498174688_3146290388258527392_n

A estafada polémica da ‘originalidade’ é sempre produtiva quando posta em contexto, um problema tanto maior quando começa a ser difícil encontrar denominadores comuns entre leitores (complexa noção matemática aqui empregue no sentido de leituras comuns).

O verso branco para o elisabetano era novidade tão excitante quanto o ‘close-up’ num filme de Griffith, e ambos são muito semelhantes pela intensidade de ampliação e pelo não-exagero de sentimento que permitem. Mesmo Whitman, arrebatado pela nova intensidade visual do jornal do seu tempo, nada encontrou de maior capacidade de repercussão para o seu grito bárbaro do que os versos brancos. (5)

chickensesamestreet

-Sabes me dizer como chegar, como chegar à rua Sésamo? -Não, não sei. É um lugar de fantasia. Ninguém pode ir lá.

Sem esses comuns denominadores, fica complicado para o escrevinhador entender ou fazer entender toda uma tradição que povoa a literatura de mitos, dramas palacianos ou abismos da alma. Se ele não entende e reproduz, acrítica e inconscientemente, velhas estórias e bem conhecidas intrigas, cai no ridículo, no estereótipo e pode, inclusivamente, ser um sucesso de vendas. Se as entende e recria, corre o risco de ser um criador original sem ser entendido, permanecendo na obscuridade.

O originário, no homem, (…) indica sem cessar e numa proliferação sempre renovada que as coisas começaram muito antes que ele  (6)

Excepto este sacrifício, o resto é simbólico.

“Excepto este sacrifício, o resto é bastante simbólico.

Nada é garantido, na verdade, mas há elevada probabilidade de se ficar na medíocre obscuridade. O que, na verdade, tanto deriva dum mero cálculo estatístico como da natureza criativa.

Escrevo estas linhas.Parece impossível/ Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!/(…)/ Se ao menos eu por fora fosse tão/ Interessante como sou por dentro! (7)

Ilustración para El castillo, de Luis Scafati

imagem de Luis Scafati

(1) in Metamorfose de Franz Kafka, da trad.inglesa de David Wylli Project Gutenberg eBook
(2) in El libro de las mil noches y una noche, da trad. Joseph Charles Mardrus/Vicente Blasco Ibáñez Project Gutenberg eBook
(3) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad.Miguel Serras Pereira ed.Relógio D'Água
(4) in Cipión y Berganza o El coloquio de los perros de Miguel de Cervantes
(5) in A galáxia de Gutenberg de Marshall McLuhan trad.Leónidas G.Carvalho/Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional
(6) in Las Palabras y las cosas  de Michel Foucault, da trad.Elsa C.Frost ed.Planeta
Agostini
(7) in Opiário de Álvaro de Campos

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

Aventuras da vida real:profissões que ninguém

Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

113ffab6-5541-42cc-8619-c8faa4459af8-620x322

Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

14198195

Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

comes-silence-912b

Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

14065195

Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

gg

Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Expressividade

Foi aqui dito já que a pretensão de reproduzir a linguagem oral tal como ela é através da escrita é o maior dos artifícios.

E um artifício complexo, aliás, como se pode ler em páginas e páginas de alguma literatura de hipermercado: diálogos abundantes onde personagens estereotipadas reproduzem frases feitas, expressões supostamente populares em certos meios, etc. Resultado de um enredo banal e da ausência duma ideia, provavelmente. Por vezes perde-se um tema potencialmente interessante. O que não é sinónimo de fracasso comercial.

14030346

Quando uso a expressão ‘literatura de hipermercado’ não significa que seja um fenómeno recente. Desde o sec.XVIII, pelo menos, o mundo literário foi ganhando espaço e leitores pela via dos ‘estados de alma’ mais apelativos; ora, que melhor maneira de os expressar do que utilizando diálogos ‘expressivos’?

“-Cala-te, Sancho,’ disse dom Quixote’ e não interrompas o senhor bacharel, a quem suplico que prossiga em dizer-me o que se diz de mim na referida história.

-E de mim ‘disse Sancho’ que também dizem que sou eu um dos principais presonagens dela.

Personagens, que não presonagens, Sancho amigo. ‘disse Sansão.’

-Temos outro a corrigir voquíbulos por aqui? ‘disse Sancho’ Pois despache-se lá com isso, ou nunca mais acabamos em toda a vida.”

(in Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes)

14002157

Por outro lado, na falta de outros recursos narrativos, o escrevinhador sente-se mais à vontade orientando o enredo através do confronto das personagens, dando pouco ou nenhum espaço ao contexto. O que pode nem ser muito mau, atendendo a alguns tijolos onde, a propósito do contexto, o escrevinhador se embrulha em descrições e erudições que podem ser fatais para a dinâmica narrativa.

“(…)um silêncio pode servir para excluir certas palavras ou então para as manter de reserva, para que possam ser usadas em melhor ocasião. Assim como uma palavra dita agora pode fazer poupar cem, amanhã, ou, então, obrigar a dizer outras mil. De cada vez que mordo a língua, conclui mentalmente Palomar, tenho que pensar não só naquilo que estou para dizer ou não dizer, mas também em tudo aquilo que se eu digo ou não digo será dito ou não dito por mim ou pelos outros. Tendo formulado este pensamento, o senhor Palomar morde a língua e permanece em silêncio.”

(in Palomar de Italo Calvino, tradução de João Reis, ed.Teorema)
"Desejava ter mais imaginação"

“Desejava ter melhor imaginação”

Tendo o escrevinhador maior inclinação para a construção de diálogos, ficando até sem saber como preencher os espaços entre ‘cenas’, talvez lhe seja mais cómodo recorrer a uma narrativa na primeira pessoa, onde alguém assume o relato e pode ter liberdades próprias da linguagem oral.

“Tinha então pouco mais de dezassete…Aqui devia ser o meio do livro, mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase ao fim do papel com o melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta página vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegarei ao fim. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezassete anos. Não sei se alguma vez tiveste dezassete anos. Se sim, deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino forma um só curioso. Eu era um curiosíssimo (…).”

(in Dom Casmurro de Machado de Assis)

A fraqueza do estereótipo

Sobre o tema dos estereótipos levantaram-me algumas questões, assim tentarei agora explicar-me melhor.

1371984020_extras_ladillos_1_0

O estereótipo do ‘grande guerreiro’ tem suas origens antropológicas e registo na literatura oral e escrita mais remota e universal. No sec.XXI podemos constatar que o estereótipo não perdeu nada em violência e fúria, apesar de já não ter ligações ao divino, nem ter implicações morais e culturais.

Provavelmente, sofre a mesma alienação característica das sociedades actuais, vagueando entre o niilismo e qualquer forma de psicopatia. Porém, ainda no sec.XX, o ‘super-herói’ era do ‘Bem’ e lutava inequivocamente contra o ‘Mal’, muitas vezes identificados com países e ideologias políticas reais.

Na literatura europeia, o ‘grande guerreiro’ por antonomásia é Aquiles, filho duma deusa e dum rei, criado entre os homens por um centauro: é ele quem comanda na batalha, embora se distinga mais pela fúria e vigor do que pelas excelências tácticas ou pelo sentido do dever.

Na Ilíada, Homero relata abundante e detalhadamente as venturas e desventuras de Aquiles na Guerra de Tróia, mas dificilmente se pode dizer que o leitor fique cativo pelo retrato de criatura tão arrogante quanto caprichosa (nesse sentido, é um herói de manga). Na mesma obra surge um outro personagem, guerreiro não menos valoroso e respeitado, e que é o exacto contraponto ao estereótipo do ‘grande guerreiro’: Heitor.

Tem sido assinalado que serão das páginas mais belas e comoventes da literatura universal as passagens sobre Heitor em relação à sua mulher e filhos (ver nota). Este é um guerreiro que tendo o sentido mais elevado do dever e da honra, tem-no por amor à sua cidade, ao seu povo e à sua família. A glória, a ambição ou a riqueza não motivam os seus actos heróicos  Ao contrário de Aquiles, é um ‘condutor’ de homens e tem objectivos que transcendem o seu interesse e fama pessoal.

935342_10151571557485865_1442597532_n

Na altura em que o poema terá sido composto, este Heitor seria uma versão diferente do tema do ‘grande guerreiro’, e mais do que uma versão, uma evolução. De certo modo, pressagia o guerreiro da Pólis com séculos de antecedência, que presta serviço militar por dever e para defesa da comunidade, mas que anseia pelo tempo de paz para regressar aos seus afazeres profissionais e prazeres domésticos.

Na Idade Média europeia o tema desenvolveu-se muito na linha do herói Aquiles, com variações notáveis como as expressas nos romances de cavalaria. O género caiu em desuso -ridículo?- por força das transformações sociais e outras, mas sempre se mantém o estereotipo do ‘cavaleiro andante’ valoroso, generoso, etc. Porém, dificilmente sobreviverá ao ridículo da confrontação com essa outra fuga ao estereótipo: Don Quixote de La Mancha, personagem do livro de Miguel Cervantes.

Assim, cuidado ao repetir modelos consagrados: podem já ter passado o prazo de validade.

-Que estás a ver, Papá? -Nada!

-Que estás a ver, Papá?
-Nada.

A malha

Pode não haver enredo? Ou seja, não ter história, narração, sequência? Depende do sentido que se queira dar às palavras, mas a ausência dum enredo pressupõe o quê? Na verdade, o enredo é uma malha que o tempo e as palavras formam, sendo assim, impossível de lhe escapar.

A variedade de malhas possíveis para tecer o enredo (cuja etimologia já implica a ideia da tecelagem) é grande, podendo ser aqui um dos desafios que o autor coloca a si mesmo e ao leitor. Leia o resto deste artigo »