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Nem poesia, nem ficção.

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

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Sem musa e sem paixão escrevem-se livros?

Há quem escreva para poder cumprir o fado de ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore. Se ter um filho é um acto de consequências previsíveis e imprevisíveis e plantar uma árvore é sempre um benefício, escrever um livro tanto pode causar muito mal como algum bem.

-Uma vez descobri uma partícula assim de pequena. -Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!

-Uma vez descobri uma partícula assim pequenina.
-Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!                                                                                             BASÓFIAS NO LAR DOS FÍSICOS E ESCRITORES IDOSOS

O problema é escrever sem paixão (o que também se poderá dizer de ter um filho, evidentemente). Mas a paixão não é uma condição, somente um benefício.

Lima Barreto, no início do sec.XX, comentava assim os círculos literários cariocas que frequentava:

(…) uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopeia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal (in Diário Íntimo de Lima Barreto)

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Se o candidato a escrevinhador sente a comichão de um tema e a vontade em o desenvolver, não precisa de autorização superior para deitar mãos à obra. E se conseguir desenvolvê-lo com alguma extensão, profundidade e elevação, a ideia passa a ter as necessárias três dimensões para se tornar um objecto apreciável.

Poesia ou ficção sem paixão não deve ser fácil, mas com algum entusiasmo ou motivação fazem-se coisas.

Mais acessível para aqueles que não se sentem arrebatados pela musa, são os estudos e monografias, memórias e relatos, trabalhos escritos que exigem, principalmente, conhecimento do tema e técnica expositiva.

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Aí o escrevinhador cruza as fronteiras nebulosas da literatura e entra em domínios mais rigorosos, sujeitos a outro tipo de escrutínio: rigor, fundamentação, lógica, entre outros requisitos.

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Ah, vocabulário adequado e gramática limpinha também ajudam.

A ter em conta, quando escrever…

"Queridos Mãe e Pai. Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade de me tornar uma escritora."

“Queridos Mãe e Pai: Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade que tivesse de me tornar uma escritora.”

Três tópicos para abordar a escrita de não-ficção: explicar, temperar e vaguear. Juntos ou em separado:

– a pessoa que se propõe escrever tem algo para dizer a propósito de alguma coisa, então convém que se explique ao que vai, como vai, porque vai, e outras minudências que podem incluir ainda o “porquê” ele, autor, a escrever sobre tal ou tais coisas;

– o modo como lida com o tema e outros temas que traga a propósito, o tom e o ritmo como aborda temas e como os relaciona, passando duns para outros, até à (in)conclusão final;

– a objectividade no tratamento dos temas, avançando para uma conclusão anunciada desde o início ou que o enredo vai construindo. Em qualquer dos casos acumulando factos, desenvolvendo raciocínios, citando testemunhos, estudos;

– ou a descarada subjectividade de quem fala seriamente em alhos, jamais esquecendo a importância dos bugalhos, estabelecendo afinidades, antagonismos, relacionamentos, cumplicidades, que tanto podem estar subjacentes à realidade de uns e de outros, como podem depender (quase) exclusivamente da sensibilidade de quem escreve.

Conta a experiência de vida do autor? Como não poderia contar? Para o melhor, ou para o pior, a experiência de vida de cada autor está presente de modo indelével. Até para aqueles autores moralistas, celibatários e castos, que escrevem longamente sobre as virtudes (e os perigos, claro) do amor conjugal, da vida sexual a dois, da educação da prole e outros temas assim.

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E conta, claro, a inevitável cultura, seja académica, seja bibliográfica, seja pelo convívio com outras criaturas da mesma espécie, humana ou outra. Dito de outra maneira: é preciso aprender, é preciso ler, é preciso debater. Sem dúvida, viver plenamente a vida ajuda muito. Mas isso leva a outras discussões, a começar logo pela própria pertinência e sentido desse “viver plenamente”.

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Não se trata aqui de apresentar receitas, sempre insisto em lembrar, mas de sugerir que a escrita goza duma extraordinária liberdade formal, se bem que não isente o seu autor das consequências.

Não importando agora falar das leis contra a difamação ou para proteção da moral e dos bons costumes, nada, nem ninguém, livra o autor da asneira sem o rigoroso trabalho de investigação a desenvolver pelo próprio, temperado pelo exercício saudável e profilático da autocrítica. E, mesmo assim…

Escrever como quem vagueia

Caminhos escritos com um horizonte longínquo cada vez mais perto, mas ao qual nunca chegamos. E a que sempre regressamos. O pretexto como se desenvolvem outros temas à volta do tema central, numa espécie de peregrinação ou viagem cujo destino final é conhecido, mas que o leitor nem pode imaginar qual seja sem chegar ao fim. Paradoxal? Claro que sim. 

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“Nenhum autor foi ferido ou maltratado na preparação desta história.”

Neste caso, o livro que me ocorre com mais nitidez é um outro título falsamente “geográfico”: Danúbio, de Cláudio Magris (ed.Quetzal). Bem, talvez eu esteja a exagerar um pouco, afinal o início do livro coincide com o início do rio Danúbio (a busca da nascente mítica e a verdadeira); e depois acompanhamos o autor ao longo do curso das águas (quase 2900 km) até à foz.

Mas cedo descobrimos que o rio é pretexto, senão metonímia,  duma aventura cultural: a cultura centro-europeia (Mitteleuropa).

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E até as longínquas águas do Tejo reforçam a corrente da bacia cultural do Danúbio: “Utilizar o termo ‘empregado’ como uma injúria não passa duma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. Este não se parece com Aquiles ou Diomedes, que se enfurecem nos seus carros de guerra, mas antes com Ulisses, que sabe não ser ninguém”. 

E mais adiante, continua: “Kafka e Pessoa viajam não até ao fim duma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a essa consciência, uma extrema resistência da verdade.” O curioso contraponto que estabelece à ‘viagem’ de Kafka e Pessoa são a banalidade do mal, a guerra total, a mentira odiosa, a hipocrisia.

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Mas não é do Danúbio que falamos? Não te impacientes, leitor(a): o homem é um professor de Línguas e Literaturas Germânicas e desce a corrente do rio para nos propor conhecer uma paisagem menos evidente. A dado passo diz que para o autor romeno  Mihail Sadoveanu, é “…como se o Danúbio levasse para o mar e espalhasse à sua volta, galgando as margens, destroços de séculos e de civilizações.

Remota fronteira do Império Romano, fronteira belicosa entre os Impérios Austro-Húngaro e o Turco, fortíssima corrente que une países, que nem assentam nas suas margens, numa história comum, este rio imenso arrasta o autor para as águas que lhe são familiares e preferidas, e com ele o leitor que se deixe fascinar por esta viagem pela cultura europeia.

Em sua defesa, a citação do austríaco Franz Tumler: “Escrever sobre o Danúbio não é fácil, porque o rio flui contínuo e indistinto, ignorando as proposições e a linguagem que articulam e cindem a unidade do vivido.”

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Há quem escreva como quem navega, bússola e mapas debaixo do olho, rumo ao incerto horizonte.

E quem escreva como o rio que vagueia sinuoso, depositando sedimentos aqui, arrastando tudo nas águas violentas ali, desaparecendo da superfície por momentos, e logo reaparecendo mais adiante. Por vezes, sua nascente perde-se no tempo, assim como desagua no mar através dum delta tão variável, quanto impreciso.

Ou como contava aquele empregado do patrão Vasques: “Devaneio entre Cascais e Lisboa. (…) Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação dessas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho do visível. (…) O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.” (Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

 

Escrever como quem explica

O que torna algumas obras de não-ficção memoráveis e exemplares no seu género, não tem de ser o conhecimento especializado, mesmo quando escrito por um académico da área.

Pode ser, por exemplo, a capacidade de comunicar assuntos de imensa complexidade ou erudição de modo acessível ao grande público, sem faltar ao rigor da informação e dos dados.

Clima urso: E que tal te parece? comentário: Ele ainda não notou nada.

Clima
urso: E que tal te parece?
comentário: Ele ainda não deu conta do que se passa.

Para ilustrar com um exemplo, cito o livro Mais rápido que a luz de João Magueijo (ed.Gradiva), doutorado em Física Teórica: “A cosmologia foi durante muito tempo um assunto religioso. É espantoso que se tenha tornado um ramo da física. Que razões temos para esperar que um sistema tão complexo como o universo possa ser tratado cientificamente? A resposta irá talvez surpreendê-lo: pelo menos no que diz respeito às forças que o governam, o universo não é assim tão complexo. (…) É mais difícil descrever a dinâmica de uma ponte suspensa do que a do universo.

João Magueijo expõe problemáticas vagamente familiares ao leitor com alguma formação em ficção científica (“a matéria diz ao espaço a forma que há-de ter, o espaço diz à matéria como se há-de mover“), e põe-no a par das ideias aceites desde Einstein, das investigações e das especulações (na qual inclui a sua teoria sobre a velocidade da luz variável [a velocidade, não a luz]).

homem: É um mamute. legenda: microscópio primitivo.

homem: É um mamute.
legenda: Microscópio primitivo

A abertura do livro, por si, já é um polémico e excelente “insight” para o restrito universo da investigação científica e do mundo académico. Para ainda concluir, no final do livro: “No universo ninguém se diverte mais do que nós”.

“Nós”, os cientistas, bem entendido.

Regressando mais uma vez à primeira das Grandes Questões Existenciais…

Existem inúmeros exemplos de obras escritas por “não-especialistas” que tiveram (têm) merecido reconhecimento. E, mais uma vez, insisto: só o escrutínio crítico permite perceber se a obra tem qualidade. Esse escrutínio exige a apreciação, entre outros, de especialistas na área que o autor se propôs escrever.

Apesar de não me ter transmitido qualquer intenção de escrever sobre fósseis de dinossauros, um senhor que conheci há poucas semanas, da Lourinhã, falou-me com entusiasmo da colecção dos fósseis que recolhia quando trabalhava no seu campo agrícola.

Também me falou do espanto duma “doutora da Câmara” que lhe terá dito que ele acumulava mais exemplares num dia do que ela (e a sua equipa) durante um ano. Ainda que ele percebesse haver ali uma velada crítica, creio que nem compreendeu a ironia da “doutora”, nem as razões metodológicas que a obrigavam a ser tão menos produtiva. Por isso temo pelo dia em que este “paleontólogo” se entusiasme em escrever sobre os seus achados…

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

…E daí ao sentimento de injustiça de que “ninguém” se dê ao trabalho de falar, bem ou mal, do livro, vai um passo.

Mas com a quantidade de livros e textos publicados sobre qualquer assunto, como pode o desconhecido não-especialista atrair a atenção dos críticos e dos especialistas? Pois, não precisamos de recorrer a teorias de conspiração para responder: é mera questão retórica.

Por isso, percebo que quem escreva tenha muitas vezes o escrúpulo de se justificar quando não detém um título académico ou profissional. Se até António Aleixo justificou suas Quadras:

Peço às altas competências/Perdão, porque mal sei ler,/Para aquelas deficiências/Que os meus versos possam ter./(…)/Eu não tenho vistas largas,/Nem grande sabedoria,/Mas dão-me as horas amargas/Lições de filosofia. “

Nos acanhados mundos académicos e literários, o intruso fica exposto ao enxovalho ou ao desprezo militante. Que podem, ou não, ser merecidos.

Mas essa é a ecologia típica da selva editorial, e nem me vou estender aqui a falar da situação diametralmente inversa: a do sucesso da mediocridade e da incompetência graças à boa “crítica” dos media, à “boa” imagem mediática do autor e aos bons amigos que dão um “empurrãozinho” na promoção estratégica do autor/livro.

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Memorialismo, monografia, ensaio, estudo, enfim…

Acredito que não há “uma” maneira de se começar (já agora, de continuar e concluir) seja o que for. Inclusive, dos meus incipientes anos de estudo de matemática, recordo haver mais do que um modo de desenvolver determinado cálculo, mas é o mais elegante e simples que leva vantagem, quanto mais não seja pela “facilidade” do entendimento.

Há quem apresente o plano geral do livro, outros apresentam as conclusões e depois desenvolvem todo o processo para aí chegar.

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Mas porque não começar dum modo imprevisto pelo leitor que julgue conhecer o tema? Porque não começar com uma estória, banal ou insólita, que resulte numa introdução ao problema?

Quem tem um estatuto académico/profissional a defender pode se subordinar a certas regras de exigência formal, metodológica e/ou científicas. Ou manda as regras às malvas e “desce” ao nível do grande público, assumindo-se como um divulgador e, eventualmente, um provocador. Os riscos são conhecidos, a solidez dos conhecimentos e a qualidade da obra é que variam muito.

Já o erudito amador, noutros tempos um pároco de aldeia apaixonado pelos achados arqueológicos e documentos históricos da remota região onde exercia, dispensa essa preocupação. Sem perder noção dos limites do autodidatismo, nem negligenciar consulta da bibliografia especializada, e outras cautelas que evitam erros e omissões demasiado evidentes para um público interessado e bem formado. E recomendo o mais estrito cepticismo a tudo o que se leia na net.

Calvin: "Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?" Hobbes: "Para serem comida de tigre."

Calvin: “Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?”
Hobbes: “Para serem comida de tigre.”

Frequentemente, o autor nem é, nem pretende ser, um erudito. É, simplesmente, alguém que quer recordar outros tempos, outros hábitos e gente que já morreu. Tempos, hábitos e gente que ele viveu, conheceu e com quem conviveu. Ou de que ouviu falar da boca de seus pais e parentes mais velhos.

Se outro valor não tiver, o registo das memórias (mesmo que inexactas, contraditórias, falsas até) por parte de quem teve alguma relação com o tema é matéria e documento para estudos que venham a surgir depois.

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Daí que a apreciação crítica que se faça nunca deva ser no sentido de abafar o impulso de escrever. Porém, sem nunca deixar de lhe apontar os limites, as incorrecções e as distorções que este tipo de literatura fatalmente incorre.

Contaminar pela escrita

Uma “habilidade” do bom texto é o de equilibrar a composição ao não exceder as proporções do acessório em relação ao essencial, o que significa que devo definir o tema central e tudo o mais gira à volta, valorizando-o. Isso tem implicações óbvias no número de palavras que dedico a cada um dos “acessórios”.

Se o objectivo é falar duma tal região, com seus monumentos, gentes, povoações e paisagens, segundo o itinerário que o autor se impôs, com acidentes de percurso e anedotas incluídos, faz todo o sentido que partilhemos o gosto, as preferências e o olhar de quem vagueia por estes caminhos.

O relato não é não tem de ser uma ficha técnica: há uma motivação particular, uma expectativa inicial, o desenrolar dum programa e, finalmente, a conclusão que pode ser a desejada, e que normalmente fica aquém disso. Por vezes sofre sérias desilusões e irritações.

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Partilhar tudo isso pode ser interessante e suficientemente motivador para o próprio leitor desejar empreender idêntica peregrinação.  Contaminar o leitor com a inquietação e o desejo, haverá maior medida de sucesso para o autor?

As “informações didácticas” são perfeitamente pertinentes, quando esclarecedoras e necessárias à explicação do plano da viagem, à descrição visual, ao entendimento de usos e costumes locais. Sem pretensões enciclopédicas, nem “cópia-e-cola” dum artigo da wikipédia. Nem medo de tratar com profundidade aquilo que não se desvela com uma incipiente abordagem.

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Pessoalmente, motivam-me todas as informações, mais ou menos eruditas, que abram horizontes, sugiram outras pistas de leitura, seduzindo-me a partilhar o universo das paixões do autor. E não se trata só do texto: um bom trabalho de fotografia pode ilustrar brilhantemente o que duas ou três linhas (ou todo um capítulo) pretende dizer ou sugerir.

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A iWine app é uma aplicação para “connoisseurs”
-Este é um excelente Merlot!

Daí que o género “livro de viagens” tanto seja um desafio ao leitor, como uma aventura para o autor.

Viajar é preciso

Já é uma tradição antiga desconfiar da veracidade do conteúdo dos livros de viagem, senão na totalidade, pelo menos de certas passagens aparentemente fabulosas. O que é tanto mais extraordinário nas épocas em que o mito, a religião e a lenda se cruzavam indiferenciadamente no conhecimento histórico e geográfico da época.

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O trabalho de autores escrupulosos e a necessidade prática de usar esses relatos para futuras viagens terá aguçado o espírito crítico destas leituras. Porém, se já faz algum tempo que se torna inverosímil relatar que em determinadas zonas da Terra existem dragões ou homens sem cabeça, outros problemas se colocam na apreciação da literatura de viagem.

Nomeadamente preconceitos sexistas, etnocêntricos, racistas, entre outros, distorcem de maneira mais ou menos evidente factos e observações, graças à peculiar lente pela qual o observador narra suas viagens. O termo “orientalismo” foi crismado por Edward Said para criticar o olhar europeu (ou Ocidental) sobre outras culturas e povos.

Daí ser legítimo perguntar que necessidade terá o autor dum livro de viagens de acrescentar alguma ficção, mesmo que de modo evidente e assumido. Tornar a leitura mais interessante? Certamente, mas porque não tornar interessante, ou mais interessante, o relato propriamente dito?

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É como se fosse preciso viajar até aos antípodas e visitar aldeias de canibais para se poder escrever sobre alguma coisa que motive a leitura. De facto, o mundo está cada vez mais pequeno, somos cada vez mais os que viajamos entre continentes, todos temos histórias sobre os mesmos sítios exóticos. E fotos e vídeos para ilustrar.

Aí está um desafio para quem escreve sobre suas viagens: abordar o já conhecido por um ângulo diferente, com a sensibilidade própria, sem com isso ceder ao preconceito. O facto de se fazerem certos percursos de comboio, de bicicleta ou à boleia já marca uma diferença em relação ao automóvel ou ao avião; a interação com os outros é sempre diferente de pessoa para pessoa, conforme todos nos podemos aperceber na nossa vida quotidiana. O sentido de observação, o humor, a cultura, fazem a diferença entre relatos sobre a mesma realidade.

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Admito que certos roteiros possam desviar o autor para um registo mais confessional, introspectivo, levando-o a fantasiar (seja sobre uma pedra enorme na encosta dum monte, seja sobre o brilho dum sorriso que se cruze com ele no caminho), e que a escolha de certos temas de viagem (o Caminho de Santiago, a vida desta ou daquela personalidade das artes ou da história, os bares de praia da costa algarvia) seja um incentivo a divagações e porque não? a ficções.

Se, a páginas tantas duma viagem de comboio, o autor acorda entre duas estações e, à sua frente, estão sentados uma bela rapariga ou um senhor distinto e impecavelmente vestido que, em ambos os casos, lhe prometem uma série de benesses em troca duma gota de sangue para firmar um contrato, porque hei-de duvidar, por um instante que seja, da verdade desse relato? Haverá alguém a quem não tenha acontecido algo semelhante?

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Obras de não-ficção são, por exemplo, os relatos de viagem ou ensaios temáticos.

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Alguns amáveis leitores  deste blogue estão em vias de escrever (ou já estão em fase de elaboração)  livros que se enquadram numa destas categorias e levantam questões curiosas, das quais destaco as seguintes, reformulando-as um pouco:

-é legítimo “apimentar” o relato com alguma ficção, e sendo legítimo, deve-se assumi-la como tal ou mantê-la em segredo?

-faz sentido acompanhar o relato com informação didáctica (tipo História, Geografia, Etnologia, etc)?

-a fotografia será fundamental para o “êxito” dum livro sobre viagens?

-um ensaio deve começar com a apresentação do assunto a desenvolver?

-o autor deve revelar as razões porque se dedica a tal tema, não tendo actividade académica ou profissional que o justifique?

-o autor pode, ou deve,  incluir um lado pessoal, autobiográfico, sobre um assunto mais geral? Ou, pelo contrário, deve manter uma linha objectiva no desenvolvimento do assunto, sem personalizar?

Nos próximos posts darei a minha perspectiva sobre cada questão, mas desde já antecipo a minha máxima favorita: vale tudo e nada está garantido. Na literatura, bem entendido.

"Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas."

“Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas.”

“Se não é verdadeiro…está bem contado”

Relatos de viagem, crónicas e memórias de tempos vividos (ou ouvidos da boca dos seus protagonistas), autobiografia/biografia, tudo isto são narrativas supostamente de não-ficção, mas podem ser estruturadas como uma narrativa ficcionada: tema, enredo, personagens, ritmo, tempo, desfecho, propósito, tudo elementos que podem estar presentes para auxiliar quem escreve a alinhar os factos e a quem lê acompanhar com interesse.

O que faz a diferença, o que credibiliza essa narrativa na sua pretensão de se ater à “verdade”, está na revelação de fontes, documentos, testemunhos, através de fotos, cartas, registos oficiais, pessoas, locais. Que é a marca d’água da transparência, da honestidade, permitindo que tudo o que está ali escrito seja confirmado por qualquer leitor interessado. E daqui abrem-se as vias para a saudável, desejável polémica. O famoso contraditório, como agora se usa dizer em jargão jurídico-jornalístico.

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Frequentemente, o escrúpulo do autor em apresentar documentação e em manter um relato objectivo, torna a leitura desinteressante para o leitor comum, ainda que útil para os investigadores.

Muitas outras vezes, nem há escrúpulo, nem qualquer pretensão de objectividade, construindo-se uma narrativa que, também por isso, é enfadonha. E por muitas verdades que sejam ditas, o leitor pode se reservar o direito de duvidar de tudo o que lê: primeiro, porque não tem como confrontar afirmações e alegados factos; depois, porque pode legitimamente desconfiar do tom, da perspectiva assumida, do preconceito que o autor manifesta, sem jamais reconhecer.

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Finalmente, há livros (ou textos) que não importa se o que relatam é verdadeiro, aplicando-se-lhes o clássico juízo: ” se non é vero…é ben trovato”. Valha-nos isso!

A escrita de ficção e a escrita de não-ficção serão assim tão diferentes?

Às vezes sou agradavelmente surpreendido com a leitura dum livro que me impressiona de diversas maneiras: traz um assunto radicalmente novo para mim, dá informação suficiente para me informar e poder documentar posteriormente, prende a atenção com o ritmo da narrativa, balançando a natural expectativa do resultado final com as peripécias do protagonista, e concluindo de modo a não só não decepcionar, como a motivar-me a saber mais sobre o tema.

Mundo Monstro

Posso estar a referir-me a um livro de ficção como Nome da Rosa de Umberto Eco: o tema das grandes abadias medievais e o seu papel na preservação de livros antigos, através do custoso trabalho dos monges copistas, a que se associa um livro perdido de Aristóteles sobre o riso, do qual só podemos especular o conteúdo.

Outro tema, menos explícito mas fundamental, é o da força extraordinária das ideias e do conhecimento sobre as paixões dos homens eruditos (e aparentemente cerebrais, racionais). Ou vice-versa.

Mas também posso referir um outro livro, sem ser de ficção ou ter pretensões literárias, em que o autor relata como, no decurso das suas actividades profissionais na Etiópia do anos 80 do sec.XX, foi tomando conhecimento das tradições religiosas e míticas desse país, visitando monumentos históricos e localidades (The Sign and the Seal, de Graham Hancock, que em Portugal foi traduzido sob o título Em busca da Arca da Aliança)

Tempos depois, já na Europa,  Graham Hancock decide regressar à Etiópia (mas em circunstâncias dramaticamente diferentes) para aprofundar a investigação que, entretanto, todo aquele conhecimento lhe suscitara. E o livro prossegue numa excitante mistura de aventura, conhecimento e expectativa, abrindo ao leitor novos horizontes, abordando a história antiga e recente dum país algo remoto, senão mesmo desconhecido. Tudo isto através duma narrativa cuidada, dinâmica e estimulante.

No Nome da Rosa, o autor constrói um cenário, um enredo e seus personagens, tendo como base temas “pesados”, demasiado afastados das preocupações e sensibilidades comuns: filosofia antiga e medieval, história medieval, mentalidades, usos e costumes de monges medievais. Alguém acredita que o autor deste livro terá alguma vez tido a ousadia de sonhar que viria a ser um best-seller?

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No Em busca da Arca da Aliança, o autor “limita-se” a relatar o que se passou em determinada altura da sua vida, dando-nos o contexto pessoal e o do país, utilizando como técnica “obrigar” o leitor a acompanhá-lo na sua busca, partilhando dúvidas e perplexidades, sua ansiedade, seus pensamentos, fazendo o leitor escutar os diálogos que teve em certos momentos e levando-o a ver o que seus olhos viram, tudo numa sequência cronológica normal.

E como estamos a falar da Etiópia, de sua história, religiões, mitos e tradições, em que abundam mosteiros, livros e monges, também nos podemos questionar sobre a sanidade mental do seu autor (para não falar do editor), ao acreditar que um livro assim poderá ter algum interesse para além de meia-dúzia de leitores algo estranhos.

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Antes de se tornar um grande filósofo, Descartes trabalhou para o sector público.
Legenda no mapa: “Você está aqui, logo você existe.”