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contar estórias

Sem ofensa: um escrevinhador tem de saber contar estórias, mentirinhas, apropriar-se de narrativas alheias e dar-lhes ‘uma volta’. Inventar, claro. Sobretudo reinventar.

O nosso Cervantes—continua falando Mairena aos seus alunos—não matou, porque já estavam mortos, os livros de cavalaria, senão que os ressuscitou (…). Do mais humilde propósito literário, a paródia, surge—que ironia!—a obra mais original de todas as literaturas. (1)

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Mesmo a literatura académica, séria, científica, tem saborosos exemplos de anedotas reais e relatos de fraudes fabulosas, ou comentários irónicos, capazes de forçar o sorriso ao mais sisudo leitor. Ou episódios simplesmente lastimáveis…

No dia 13 de dezembro (…) saí do carro pelo lado errado e atravessei a Quinta Avenida sem me lembrar de que na América conduzem do lado contrário ao do meu país e sem obedecer ao semáforo vermelho, coisa então desconhecida na Grã-Bretanha. Fui violentamente atropelado e durante dois meses fiquei praticamente inválido. (2)

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DOUTOR JESUS: -Desculpe, mas não posso curá-lo. Você tem um condição pré-existente.

Em verso ou em prosa, o escrevinhador distingue-se por essa extraordinária capacidade de dar a sentir experiências alheias ou imaginárias, sentimentos muito pessoais, emoções fingidas que deveras sente. Através da escrita, obviamente.

Doces galleguiños aires,/(…)/ alegres compañeiriños,/ rum-rum de toda-las festas,/ levái-me nas vosas alas/ como unha folliña seca (3)

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O único escrúpulo será o de não se levar demasiado a sério, a ponto de confundir a verdade do texto com a opaca realidade.

Parece-nos impossível que para os nossos filhos seja já passado irrevogável e desconhecido aquilo que para nós é ainda presente árduo. (4)

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Excepto se tiver pretensões de contar histórias sobre pessoas reais no seu tempo e na sua circunstância, assumindo a intenção de se restringir a documentos, testemunhos e coisas assim: o leitor tem todo o direito de se sentir burlado ao perceber que o escrevinhador é incompetente para tal pretensão ou, pior ainda, um desenvergonhado manipulador. Essa coisa de confirmar se os alegados factos, documentos, testemunhos, são fidedignos, é uma obrigação de que só está isenta a informação nas redes sociais.

—As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se  —disse Polo—  Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco. (5)

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‘PLACEBO-dose máxima’ tão eficaz quanto os melhores tratamentos homeopáticos 16 cápsulas

É como uma espécie de contrato entre o escrevinhador e o leitor, pese embora a flexibilidade com que um e outro possam interpretar as cláusulas não-escritas, nem negociadas.

(…), acreditem nossos leitores todos, que nem uma vírgula se lança neste parágrafo que não seja unicamente ditada pelo interesse público, nosso único móvel. A ninguém, absolutamente a ninguém queremos ofender, (…). (6)

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Dito isto, quantos clássicos da ficção literária universal não se apresentam como escrituras verídicas, senão sagradas?

—Gilgamesh, vou revelar-te uma coisa oculta, vou confiar-te um segredo dos deuses. Foi em Shuruppak, (…) cidade já antiga que aos deuses agradava morar, onde os grandes deuses tomaram a decisão de provocar o Dilúvio. (7)

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cartoon de El Roto

Quando bem escrito, vale tudo realmente.

(…), ela levantou-se em silêncio e arranjou botas de sete-léguas, pegou numa varinha mágica e num bolo com um feijão que dava resposta para tudo. Depois ela fugiu com o príncipe. (8)

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(1) in Juan de Mairena de Antonio Machado, ed.Alianza Editorial

(2) in Memórias da Segunda Guerra Mundial de Wiston Churchill, trad.Manuel Cabral ed.Texto Editores

(3) in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, Ediciones Cátedra

(4) in Danúbio de Claude Magris, trad.Miguel Serras Pereira ed.Quetzal

(5) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, trad.João Colaço Barreiros ed.Teorema

(6) in Doutrinação Liberal (textos escolhidos de 1826 a 1827) de Almeida Garrett, ed.Publicações Alfa

(7) in Poema de Gilgamesh tábua XI, tradução para castelhano de Federico Lara Peinado, ed.Tecnos

(8) Os contos populares e de fadas originais dos Irmãos Grimm, traduzidos para o inglês por Jack Zipes ed.Princeton University Press

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O bigode da Gioconda

Escrevinhadores excessivamente escrupulosos evitam certas leituras, certos autores, por temor de duvidarem eles mesmos da originalidade dos próprios escritos. Assim, sentem-se de consciência tranquila se surgirem coincidências no enredo, nas personagens, em alguns detalhes da narrativa.

Tenho ao alcance da mão as definições de Elliot, de Arnold e de Sainte-Beuve,  razoáveis e luminosas sem dúvida, e seria me grato estar de acordo com estes ilustres autores, mas não os consultarei. Cumpri setenta e tal anos; na minha idade, as coincidências e as novidades importam menos do que aquilo que se tem por verdadeiro. Limitar-me-ei, pois, a declarar o que sobre este assunto pensei. (1)

EDUARDO ESTRADA5

Mesmo na literatura sagrada das mais diferentes religiões existem coincidências, que tanto se devem aos abismos do inconsciente humano quanto ao contrabando de mitos e crenças. Como há-de escapar às influências o simples escrevinhador, se até escribas inspirados pela voz de um anjo-mensageiro ou por um deus omnisciente repetem velhos estereótipos da criação, ascensão e queda da Humanidade?

Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas algo há na sua imagem que concorda com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em distintas latitudes e idades. (2)

'Ark, Noah - not arc!'

‘Arca, Noé – não um arco!’

Percebo que se evitem certas leituras em dado momento da escrita duma obra, mas duvido da sua eficácia e receio muito pelo que isso implique. Nos últimos vá lá 2500 anos, e de forma cada vez mais avassaladora, é impossível fugir à ‘influência’ —dos temas e outros aspectos da narrativa—  dada a fina malha cultural que entretece o imaginário, a mundividência, nossa memória colectiva.

Suspeito que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve tratar de ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas palavras são sinónimas), não de suas opiniões, que são o mais superficial que há nele. (3)

'It was a last-minute change, but a good one.'

Foi uma mudança de último minuto, mas uma boa mudança. Título do livro: ‘Guerra e Paz e Repolho’

O livro e o ensino, por razões evidentes, expuseram a população mais letrada a uma intensa contaminação de ideias, estórias e fórmulas literárias, mas o imaginário e a mundividência já são bebidos com o leite materno, embalados até adormecer no peito duma qualquer vizinha solícita, escutados com avidez à lareira junto dos mais velhos e assimilados no dia-a-dia entre conhecidos e desconhecidos… ou assim era dantes.

Hoje, a força conjugada dos mass media e da net tornam a influência omnipresente e opressiva, sem disso se ter consciência, e, por isso, sem desenvolver critérios entre o que é ‘original’ e o mero plágio ou estereótipo preguiçoso.

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável (…). (4)

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por aqui falei como uma obra anterior ao sec.V a.C., escrita por um cego grego —que, eventualmente, nem terá existido― pôde influenciar um poeta, guerreiro e zarolho português quinhentista, e um caixeiro-viajante cultural irlandês, que sofria de glaucoma, do sec.XX, os quais, por sua vez, inspiraram, já no sec.XXI, um académico nascido em Angola e que, por alguma razão, usa óculos.

Ou de como, no espaço de duas dezenas de anos, 3 nomes cimeiros da literatura de 3 países diferentes, escrevem sobre o mau comportamento de senhoras muito bem casadas (morrendo todas no final do livro, sujeitas aos comentários depreciativos da parte de outras personagens).

Plágio, em qualquer dos casos, nem pensar. Um insigne académico escreveu sobre a ‘angústia da influência’, e até intitulou o livro, coincidentemente ou não, A angústia da influência.

Como entendemos uma angústia? Sendo angustiados nós mesmos. Todo leitor profundo é um Perguntador Idiota. Pergunta: “Quem escreveu meu poema?” Dai a insistência de Emerson: “Em toda a obra de génio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados — voltam-nos com uma certa majestade alienada.” (…) A crítica é a arte de conhecer os caminhos ocultos que vão de um poema a outro. (5)

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-Não faço plágio… mas gosto do modo como este tipo expressou os meus pensamentos na secção de opinião.

Sem qualquer angústia, o já conhecido escritor argentino Pablo Katchadjian, em 2009, resolveu fazer aquilo a que chamou de ‘experimento literário’: ‘engordou’ (sic) o famoso conto —O Aleph― do ainda mais famoso escritor argentino Jorge Luís Borges, adicionando-lhe mais 5600 palavras às 4000 originais, dando-lhe o sugestivo nome de O Aleph Engordado. A ‘experiência’ parece que foi bem recebida nos meios literários argentinos, a avaliar pelo que pude ler em artigo publicado no El País por Carlos Cué.

Porém, representando os interesses (ou direitos de autor) da viúva de Borges, o advogado Fernando Soto exprimiu uma perspectiva notável: ‘Isto não é um experimento, afecta directamente o direito moral da obra, que foi alterada dolosamente. Queremos que reconheça que é uma ofensa à obra de Borges. É como se alguém pintasse bigodes na Gioconda.’*

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Vai daí, o autor do O Aleph Engordado é levado a tribunal e condenado (apelou, entretanto). Em sua defesa, alega que é ‘óbvio que não se pretende esconder um plágio de forma dolosa, que para isso se pensou a lei. O livro intitula-se El Aleph engordado e no final há uma explicação do trabalho que havia feito. Borges não é um monumento, é um escritor. A história da literatura é uma constante revisão e reflexão sobre a tradição. Borges defendia o plágio e sustentava que toda a literatura está construída uma sobre a outra, é absurdo este processo, é uma novela delirante.’ *

E sustenta que não tocou no original, só acrescentou.

Este factótum, em vez de limitar-se à tarefa específica, delapidou um tempo precioso lendo as sete lucubrações de Vilaseco. Chegou a descobrir que, salvo os títulos, eram exactamente a mesma. Nem uma virgula, nem um ponto e virgula, nem uma só palavra diferente! A descoberta, fruto gratuito do acaso, carece seguramente de importância para uma séria valoração da versátil obra vilasequista e se o mencionamos à última da hora é a título de simples curiosidade. (6)

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Ora, eu que não li o ‘engordado’, não vou discutir os méritos da obra. Provavelmente, se Katchadjian não tivesse incluído O Aleph original, a decisão jurídica teria lhe sido favorável.

(…) começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é uma linguagem de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? (7)

Mas não me interessam as questões jurídicas, agora. O que acho relevante é a ‘tese’ do dr. Fernando Soto, sobre direitos morais das obras, sobre alterações dolosas, sobre ofensas à obra de alguém, sobre bigodes e giocondas. E a ideia de Katchadjian em ‘engordar’ obras alheias.

Gracias (…) pelo facto do poema ser inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e não chegará jamais ao último verso/ e varia segundo os homens (8)

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Sobre o primeiro, assusta-me a argumentação tão propícia ao fanatismo religioso, nacionalista, ideológico, quando se apropria do património cultural (e literário) e passa a assumir o direito de avaliar e condenar qualquer referência, glosa ou sátira. Daí a queimar livros, esfaquear ou balear escrevinhadores e editores, fazer explodir livrarias, não vai um passo assim tão largo, pelo que tenho visto nos dias da minha vida. Mais corriqueiramente, surgem a censura, a autocensura, a apreensão dos livros, as multas e penas de prisão.

Sobre o segundo, saúdo esta tendência saudavelmente infectante, contagiosa, da obra literária (na verdade, da obra de arte em geral), que nos faz redescobrir textos mais antigos e abrir horizontes insuspeitados por detrás daqueles que já conhecíamos.

Schopenhauer, Quincey, Stevenson, Mauthner, Shaw, Chesterton, Léon Bloy, formam o censo heterogéneo dos autores que releio continuamente. Na fantasia cristológica intitulada ‘Três versões de Judas’, creio pressentir a remota influência do último. (9)

Mas o mais saboroso é a ironia extraordinária deste pleito jurídico ter como referência a obra de Borges. O mesmo Borges que, cotejando um fragmento do texto original do Quixote de Cervantes com o texto exactamente igual do Quixote de Menard, fictício autor do sec.XX, descobre-lhe as diferenças nas ideias e nos estilos.

O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico (Mais ambíguo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.) (10)

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* do artigo publicado a 28/06/15 no El País por Carlos Cué

(1) de ‘Sobre los Clásicos’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(2) do ‘Prologo’ in El Libro de los Seres Imaginarios de Jorge Luis Borges (com a colaboração de Margarita Guerreiro) ed.Bruguera Alfaguara

(3) do ‘Prologo’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(4) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(5) in A Angústia da Influencia de Harold Bloom trad.Marcos Santarrita, Imago Ed.

(6) de ‘Ese Polifacético: Vilaseco’ in Cuentos de H.Bustos Domecq de Jorge Luis Borges ed.Seix Barral

(7) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(8) d’ ‘Outro Poema de los Dones’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(9) do ‘Prólogo’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

(10) de ‘Pierre Menard, autor do Quixote’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

Ir além

A autocrítica é entendida como esforço de aperfeiçoamento, um ‘ir além’ que o tempo-que-passa e a exposição dos textos tendem a estimular, sinal de maturidade e de vigor criativo. A qualidade da escrita ressente-se da falta de sentido crítico e autocrítico do escrevinhador (que também é, não o consigo imaginar de outro modo, um leitor).

‘Pai, Mãe,’ disse a sua irmã, batendo sobre a mesa com a mão como introdução, ‘não podemos continuar assim. Talvez não consigam perceber, mas eu consigo. Não quero chamar este monstro de meu irmão, tudo o que digo é isto: temos de tentar e livrar-nos disto. Tentamos tudo o que é humanamente possível para cuidar daquilo e ser paciente, penso que ninguém nos pode acusar de fazer algo errado.’ (1)

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Aplicações disponíveis no Facebook (esquerda)
Aplicações úteis no Facebook (direita)

Para o principiante o exercício autocrítico é mais penoso, menos óbvio, provavelmente mais urgente. Assim, a bagagem literária, a curiosidade pelo processo como outros escrevinhadores desenvolvem os mesmos temas, a sensibilidade ao modo como as pessoas comunicam, reflectem, actuam, lêem, são algumas ferramentas de trabalho que permitem avaliar a própria escrita.

Entretanto, Xerazad dizia à sua irmã Dunyazad: “Mandarei-te chamar quando estiver no palácio, e assim que chegues e vejas que o rei tenha terminado o seu assunto comigo, me dirás: ‘Irmã, conta alguma estória maravilhosa que nos faça passar a noite’. Então contarei contos que, se Deus quiser, serão a causa da libertação das filhas dos muçulmanos’ (2)

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Na prosa e na poesia, o escrevinhador constrói os textos de modo faseado, tanto na forma como no tempo, mesmo que sinta ter escrito tudo de rajada. Em alguma dessas fases o escrevinhador deve assumir qual é a sua pretensão formal, ou seja, como pretende exprimir algo de modo ‘original’. Essa pretensão tem menos a ver com o tema do que com a perspectiva, o tom, o ritmo, o nível de linguagem, entre outros aspectos que lhe pareçam significativos no material escrito.

Nietzsche é, na esteira dos pré-socráticos que tão caros lhe foram, o filósofo em cujos escritos se fundem a especulação abstracta, a poesia e a música. (3)

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Querido YOUTUBE, eu vou sempre ‘saltar a publicidade’

O mais estereotipado desfecho pode ser escrito pela enésima vez e surpreender…—como assim?! O assassino é o mordomo? Aparece o príncipe encantado —ou a cavalaria— mesmo antes do final da estória? Não sei, ninguém sabe, nem mesmo o escrevinhador quando cria. Mas, lendo e relendo com menos emoção e mais sentido crítico, talvez uns concluam que a surpresa está na diferença como se aborda o tema, no modo distinto como o desenvolve, pelas perplexidades que sugere ou expõe e que transcendem o género.

(…) é que os contos, uns têm graça por si mesmos, outros pelo modo de contá-los (quero dizer que alguns há que, ainda que se contem sem preâmbulos e ornamentos de palavras, satisfazem); outros há que é necessário vesti-los de palavras, e com demonstrações de rostro e de mãos, e com mudar a voz, resultando algo de muito pouco, e de frouxos e descoloridos se tornam penetrantes e saborosos (4)

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A estafada polémica da ‘originalidade’ é sempre produtiva quando posta em contexto, um problema tanto maior quando começa a ser difícil encontrar denominadores comuns entre leitores (complexa noção matemática aqui empregue no sentido de leituras comuns).

O verso branco para o elisabetano era novidade tão excitante quanto o ‘close-up’ num filme de Griffith, e ambos são muito semelhantes pela intensidade de ampliação e pelo não-exagero de sentimento que permitem. Mesmo Whitman, arrebatado pela nova intensidade visual do jornal do seu tempo, nada encontrou de maior capacidade de repercussão para o seu grito bárbaro do que os versos brancos. (5)

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-Sabes me dizer como chegar, como chegar à rua Sésamo? -Não, não sei. É um lugar de fantasia. Ninguém pode ir lá.

Sem esses comuns denominadores, fica complicado para o escrevinhador entender ou fazer entender toda uma tradição que povoa a literatura de mitos, dramas palacianos ou abismos da alma. Se ele não entende e reproduz, acrítica e inconscientemente, velhas estórias e bem conhecidas intrigas, cai no ridículo, no estereótipo e pode, inclusivamente, ser um sucesso de vendas. Se as entende e recria, corre o risco de ser um criador original sem ser entendido, permanecendo na obscuridade.

O originário, no homem, (…) indica sem cessar e numa proliferação sempre renovada que as coisas começaram muito antes que ele  (6)

Excepto este sacrifício, o resto é simbólico.

“Excepto este sacrifício, o resto é bastante simbólico.

Nada é garantido, na verdade, mas há elevada probabilidade de se ficar na medíocre obscuridade. O que, na verdade, tanto deriva dum mero cálculo estatístico como da natureza criativa.

Escrevo estas linhas.Parece impossível/ Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!/(…)/ Se ao menos eu por fora fosse tão/ Interessante como sou por dentro! (7)

Ilustración para El castillo, de Luis Scafati

imagem de Luis Scafati

(1) in Metamorfose de Franz Kafka, da trad.inglesa de David Wylli Project Gutenberg eBook
(2) in El libro de las mil noches y una noche, da trad. Joseph Charles Mardrus/Vicente Blasco Ibáñez Project Gutenberg eBook
(3) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad.Miguel Serras Pereira ed.Relógio D'Água
(4) in Cipión y Berganza o El coloquio de los perros de Miguel de Cervantes
(5) in A galáxia de Gutenberg de Marshall McLuhan trad.Leónidas G.Carvalho/Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional
(6) in Las Palabras y las cosas  de Michel Foucault, da trad.Elsa C.Frost ed.Planeta
Agostini
(7) in Opiário de Álvaro de Campos

Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

Pós-produção literária

A escrita move-se com incomparável liberdade nos dias de hoje, se comparada com épocas anteriores. Não me refiro à censura, oficial ou dos costumes, mas às questões de gosto e de estilo. Ao longo da História da Literatura surgem convenções ou tendências que formulam as grandes linhas de orientação, como a aqui expressa por Zola em 1880:

Nos meus estudos literários, muitas vezes falei do método experimental aplicado ao romance e ao drama. O regresso à natureza, a evolução naturalista que marca o nosso século, influência pouco a pouco todas as manifestações da inteligência humana na mesma via científica. Só a ideia de uma literatura determinada pela ciência pôde surpreender, à falta de ser explicada e compreendida. (1)

de EVA VÁZQUEZ

Imagem de EVA VÁZQUEZ

E também são variadas e acessíveis as modalidades de edição e divulgação dos textos. O que não é o mesmo que dizer que se tornem conhecidos e apreciados.

Daí ser pertinente meditar um pouco sobre a escrita ‘original’ e o problema de chegar a um público-leitor mais alargado.

A originalidade é sempre um conceito polémico e algo estéril, mas aqui o entendo como o texto que o escrevinhador realmente gosta, se identifica, ou, mesmo a contragosto, sinta que é aquilo que lhe sai da alma.

Obviamente, esta originalidade não tem de ser criativa, nem ‘única’, e muito menos ser ‘de qualidade’. Sem com isso cair no criticismo que Tolstoi desenvolve à volta do poema Ariette de Verlaine:

Como é que a lua parece viver e morrer num céu de cobre? E como pode a neve brilhar como areia? Toda a coisa não é só meramente ininteligível, mas,  sob a pretensão de provocar uma impressão, desenvolve uma série incorrecta de comparações e palavras.(2)

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Seja como for, a produção de textos (não interessa se prosa, se verso, se longos ou curtos) pode  sofrer uma transformação qualitativa após a sua conclusão.

E creio que o maior erro do escrevinhador está em desvalorizar, descurar ou, simplesmente, ignorar todo o trabalho a desenvolver depois da fase criativa concluída. Trabalho que pode levar mais tempo do que o criativo, na verdade.

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Há escrevinhadores que avançam lentamente porque precisam de corrigir metodicamente o texto escrito conforme progridem; provavelmente, por essa razão não se sentem dependentes do trabalho ‘pós-produção'(na verdade, já o fizeram em grande medida), e pode ser que estejam certos.

Outros, mesmo avançando lentamente, não têm essa preocupação ou método, escrevinhando ao sabor da inspiração (ou do que é que os motive), pouco mais fazendo do que algumas correcções ortográficas no fim. Dizem que é para manter a espontaneidade ou por recearem deitar tudo fora e ter de começar de novo. O problema é se, também eles, estão certos em proceder assim.

Mas o problema é exclusivamente deles, evidentemente…

 

(1)  in Le Roman Expérimental de Emilio Zola

(2) in What is Art? de Leão de Tolstoi

 

 

 

 

Escrever como quem martela ferro frio…

São variados os obstáculos que se põe no caminho do escrevinhador  (bloqueio, inconsistência, desinspiração, etc, etc), faltando-lhe fôlego para animar a obra e dar-lhe ritmo, velocidade, tensão ou qualquer outro ingrediente que provoque a reacção química necessária para que o processo desencadeie.

Claro, tudo isto se pode simular. E simula-se. Com algum trabalho. Mas simula-se. Porque no fundo inspiração talvez não seja mais do que a construção, mais ou menos rápida, de um sistema ou de uma armadilha de palavras que nos prende e nos liberta.(1)

A eterna luta

A eterna luta: levando material daqui para ali.

Na prosa, como na poesia, existe maneira de ultrapassar o problema em termos meramente produtivos: martelando. Que é, no fundo, uma discutível virtude da persistência, da ambição, da vontade, ou o que quer que seja que move o escrevinhador (e que não é, obviamente, a bela Musa).

Você disse que o poeta é um fingidor. Eu o confesso, são adivinhações que nos saem pela boca sem que saibamos que caminhos andámos para lá chegar, o pior é que morri antes de ter percebido se é o poeta que se finge de homem ou o homem que se finge de poeta. Fingir e fingir-se não é o mesmo, Isso é uma afirmação, ou uma pergunta, É uma pergunta, Claro que não é o mesmo, eu apenas fingi, você finge-se, se quiser ver as diferenças, leia-me e volte a ler-se. (2)

"McWit, a tua licença poética expirou

“McWit, a tua licença poética expirou há anos.”

Graças à aplicação correcta das regras gramaticais, do uso de estruturas métricas e/ou de variações estilísticas em moda, copiando a formatação de modelos bem sucedidos, o resultado até pode ser satisfatório, demonstrando conhecimento, trabalho, critério.

Que este método também não é fácil, demonstra-o a legião de ‘marteladores’ justamente ignorados.

Lá de dentro, do fundo da livraria, (…) despegou-se abruptamente esta voz de fúria aflautada:

—É uma besta! Uma grandessíssima besta! Uma besta quadrada!

Bem. Aposto tudo (…) em como estão a falar de um mestre crítico qualquer. (3)

...o Fim

-…o Fim. Bem, hora de dormir. O que estás a escrever?                                 -Uma recensão negativa do livro!

Porém, quando reforçado com recursos não-literários pode obter reconhecimento e sucesso, até um público.

(…) o seu livro não é cano de escorrências muito nauseabundas, nem é canal de notícias úteis, tirante a dos hotéis infamados de percevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo porque custa sete tostões e —vá de calão—como troça e bexiga, é caro. (4)

-És tão ilógica. Nunca conseguiu ganhar uma discussão contra ti! -

-És tão ilógica. Nunca consigo ganhar uma discussão contra ti!
-Não experimentes, nem me confundas com factos.

Invariavelmente, o seu destino é o de se tornar um ‘mono’. Mas, até lá, sempre vai rendendo alguma coisa. De qualquer modo e maneira, já dizia o moralista: sic transit gloria mundi…

Ia (…) tão contente do seu destino de enfeitar selectas, que me apeteceu gritar-lhe, cá de longe, do fundo da inveja irónica do sono escondido:

—Mais depressa, pá! Avia-te! Corre! Enfia pelo futuro adentro! Pois não vês que estão lá todos à tua espera para te dividirem em orações?

Mas contive-me. (Se for como tu e como os teus versos, há-de ser fresco, o futuro!)  (5)

"

“Vamos acrescentar mais umas banalidades. Este é um discurso reconfortante e as frases feitas são um alimento de conforto verbal.”

 

 

(1)in Duas respostas a um inquérito de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(2) diálogo entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, já falecido, in O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago ed.Caminho

(3)in Grupos, grupinhos e grupelhos de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(4)recensão do livro Portugal à Vol d’Oiseau daPrincesa Ratazzi in A Senhora Ratazzi de Camilo Castelo Branco, incluído na Boémia do Espírito ed.Lello e Irmão

(5)in Meditações sobre a estratégia da glória de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes.

 

O abismo sem fundo da criatividade

Escrever sem preocupações de agradar, procurando explorar um universo pessoal de referências, sentidos, preocupações e desejos, é um objectivo comum a muito escrevinhador.

-Está bem,filho, vai lá baixo.

-Está bem,filho, acho que é tempo para ires lá baixo. Mas faças o que fizeres, não os deixes começar uma nova religião.É a última coisa que precisam!

Pessoalmente, sou avesso a declarações de principio pois o que li ao longo da vida leva-me à conclusão de que vale tudo, mas nada é garantido. Ou seja, sou alérgico a ‘manifestos’ e gosto de me centrar na matéria-prima literária: texto, ideia, desenvolvimento, sensibilidade, estética.

Autobiografia de celebridade corrigida

Autobiografia de celebridade corrigida: título do livro grande”Tudo o que eu quero dizer sobre MIM” (antes) – título do livro pequeno”Tudo o que você quer saber sobre MIM” (depois)

Por isso,tanto me dá que o escrevinhador declare perseguir a fama, o sucesso e a simpatia dos leitores, como abjure qualquer cedência às modas.

Na verdade, a grande maioria nem pensa no assunto a menos que lho perguntem.

Uau! Tive cá um sonho esta noite! -Sim? Sobre o quê? -Não faço ideia. -Tens mesmo jeito para contar uma estória.

-Uau! Tive cá um sonho esta noite!
-Sim? Sobre o quê?
-Não faço ideia.
-Tens mesmo jeito para contar uma estória.

E, inevitavelmente, o material escrito produzido irá sempre, sempre, exprimir de algum modo (e não preciso de recordar Freud) o tal universo que cada um traz consigo, mais os seus demónios interiores e fantasmas exteriores.

Ou seja, este é um tópico pouco relevante.

Ou talvez não. Depende.

"

“Toda a vida ele tem estado convencido de ser um exemplo a ser seguido em alguma coisa…só não consegue imaginar em quê, exactamente.”

Tentando explicar melhor, direi que muitos escrevinhadores parecem estar mergulhados num profundo estado de ingenuidade, à semelhança dos autores daquelas redacções escolares da minha infância, fosse sobre a Primavera, fosse sobre ‘A minha Mãe’.

Há, também, os que exploram suas facetas existenciais, maníacas ou não, e os que procuram apelar para a emoção do leitor, de forma mais ou menos elaborada.

Vale tudo, certo, mas valerá mais se o material escrito for revisto e corrigido pelo escrevinhador num segundo, terceiro tempo, algo mais distanciado do tempo criativo, e centrado na tal matéria-prima.

Assim não

-Assim não, James! Como meu aluno precisas de me fazer co-autor e citar pelo menos dois artigos meus em cada uma das tuas publicações!

Ou talvez não. Depende?! Mas depende de quê?

Por mares nunca antes navegados, Luís Vaz?! Tens mesmo a certeza?

Poderá, ainda, haver a ilusão de ser original depois de dezenas de séculos de Literatura? Homero escreveu sobre a atribulada odisseia* marítima de Ulisses no regresso a casa, Camões descreve a viagem marítima de Gama à Índia, Joyce escreveu Ulysses relatando um dia na vida de um tal Leopold Bloom e Gonçalo M. Tavares relata a viagem à Índia do mesmo Bloom do livro de Joyce.

'EDITORA DO 1º SÉCULO' título do livro A vida de Cristo -Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

‘EDITORA DO 1º SÉCULO’
título do livro:”A vida de Cristo”
-Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

Homero remete para uma anterior obra, Ilíada (que fala dos acontecimentos que explicam a longa ausência de Ulisses) e é, obviamente, devedor de toda uma tradição narrativa mitológica e náutica; Camões é um expoente da tradição épica iniciada pela Ilíada e é, especialmente, tributário assumido do modelo da Odisseia; no Ulysses, Joyce desenvolve a narrativa e seus personagens principais em paralelo com os acontecimentos e personagens da Odisseia; Tavares vai ‘buscar’ o personagem principal de Ulysses e transporta-o para uma viagem que tem, por sua vez, assumida inspiração nos Lusíadas.

Por vezes, no espaço de 20 anos apenas, de Lisboa a S.Petersburgo, passando por Yonville l’Abbaye, surgem personagens literários que partilham idênticos fados, como são Emma Bovary, Ana Karenina e, menos famosa mas igualmente exemplar, Luísa Mendonça de Brito Carvalho.

-Diz algo ORIGINAL.
-Amo-te!
-A originalidade está sobrevalorizada.

Na altura da morte de Emma, o farmacêutico  Homais faz um balanço final:

(…) ou ela morreu em estado de graça (como diz a Igreja), e então ela não tem necessidade nenhuma das nossas orações; ou bem que ela morreu impenitente (que é, creio, a expressão eclesiástica), e então…” (1)

A respeito de Ana, a condessa Vronskaya não tinha dúvidas:

“Diga o que disser, a verdade é que era uma mulher má. Pode compreender uma paixão assim? Que quis ela demonstrar com aquela morte? Perdeu-se a si mesma e estragou a vida de dois homens, qualquer deles de grande mérito: o marido e o meu infeliz filho.” (2)

De Luísa diria o imortal Conselheiro Acácio:

Detendo-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa tão cedo arrancada às carícias do seu talentoso cônjuge. Ali soçobrou, como baixel no escarcéu da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu lar! “(3)

A ela se referiu, também, o Visconde Reinaldo:

(…) mas a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toalete… que diabo! Era um trambolho!“(3)

Pela própria universalidade da condição humana dos escrevinhadores, podem-se listar tradições literárias, sem aparente relação entre si, a tratarem os mesmos temas. 

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!... -Pois fique a saber que penso exactamente igual!

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!…
-Pois fique a saber que penso exactamente igual!

Em nenhum dos casos citados acima há o menor risco de plágio, mas existem notórias evidências de criação e génio literário a partir da ‘contaminação’ de temas, estilos e enredos duma tradição livresca que, desde há muito, se expandiu para outras formas de expressão artística, tornando-se uma referência cultural que, cada vez mais, não passa pela leitura, nem pelo reconhecimento das fontes originais.

-O que disse César quando Brutus o apunhalou? -Ai!

-O que disse César quando Brutus o apunhalou?
-Ai!

É nesse sentido que falo nos ‘novos mundos’ que se abrem: abordando temas que julga serem íntimos, únicos, por terem sido vividos ou por qualquer outro motivo, o escrevinhador irá inevitavelmente encontrar ‘cidades antigas’ em territórios que julgava virgens da presença humana,  assim como descobrirá vestígios de anteriores ‘exploradores’.

O triste é se nem se dá conta de estar a trilhar um caminho bem conhecido. E, para cúmulo, nem tendo consciência do quanto é devedor daqueles que por ali passaram primeiro.

* originalmente, o nome de Ulisses em grego é Odysseus, pelo que ‘odisseia’ significa a ‘história de Odysseus’ e, mais tarde, passou a significar viagem de aventuras e acontecimentos extraordinários.

(1) in Madame Bovary de Gustave Flaubert

(2) in Ana Karenina de Leão Tolstoi trad. João Netto

(3) in O Primo Basílio de Eça de Queirós

O autor à procura da sua vocação

A imensa proliferação de escrevinhadores (com ou sem obra publicada) é um fenómeno social recente favorecido pelas tecnologias que permitem a auto-edição ou a edição incomparavelmente mais barata do que em qualquer outra época, e que tem como responsáveis directos a educação generalizada da sociedade através do modelo do ensino obrigatório e o acesso ao ensino superior por um número crescente de pessoas em diferentes fases da vida. Provavelmente, muitos escrevinhadores são tentados a iniciar um projecto porque estão na reforma, têm tempo, têm motivação.

O teu país precisa de TI

O teu país precisa de TI

E todos, claro está, são incitados por esse aguilhão que é impreciso, vago, variável, e que pode ser chamado de ‘criatividade’ para efeitos comerciais, estéticos ou de mera bengala para facilitar a comunicação. Porém, na categoria dos escrevinhadores principiantes é notória uma clivagem etária bastante acentuada: aqueles que tentam publicar ainda antes dos trinta, trinta e cinco anos, e os outros já depois dos sessenta, sessenta e cinco anos.

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Os mais novos podem ser encarados como todos os jovens escrevinhadores o foram nos últimos, vá, duzentos anos: irreverentes para com a ‘tradição’ e os ‘mestres’, desesperados pela originalidade, procurando os temas, o tom e o estilo para agradar rápida e lucrativamente.

'This is the shortest autobiography I've ever read!'

Esta é a autobiografia mais curta que li!

Ou seja, explorando os limites, fazendo pela vida, conformando-se com o que lhes parece mais fácil ou mais garantido. A diferença, para com os seus antecessores destes duzentos anos de literatura popular? Imensas diferenças: todas aquelas que identificamos com o estilhaçar da informação/formação/debate em milhentos canais de comunicação, a mercantilização global da cultura, os hábitos variáveis de consumo, essas coisas todas que tendemos a associar a modas e tendências. Que, noutro ritmo, com outro impacto, de algum modo sempre estiveram presentes nas atribulações culturais.

"Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

“Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

Mas o mais velhos? Esses sim, são a ‘novidade’ do século se atendermos à quantidade e variedade. O que escrevem? Para quem escrevem? Porque escrevem?

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“A minha professora diz que as meninas podem crescer e ser o que quiserem! Porque escolheste ser uma velhinha?”

Não o fazem pelo dinheiro, nem pela fama, e são alvo de mercado preferencial de toda uma ‘indústria’ de cursos faça-você-mesmo, de formação aprenda-num-instante, de tertúlias venha-conviver-em-poesia, de edições pague-já-que-nossa-editora-publica-amanhã e tantas coisas mais.

"Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada," murmurou Felix

“Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada?” murmurou Felix. “Era somente a minha primeira tentativa. Tenho ainda mais oito para escrever!”

Tudo isto é cultura, antropologicamente falando. Mas daí a resultar em boa literatura…

A Palavra

Certo: nunca é demais repetir que ler é fundamental, mas hábitos de leitura não são por si indicadores de sensibilidade e/ou inteligência.

Porém, hábitos de leitura e boa leitura em quantidade ajudam decisivamente o escrevinhador a desenvolver um sentido quase material da palavra, essencial, a meu ver, para todo o fenómeno literário (embora aqui admita um preconceito sensual que exclui outras possibilidades).

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Encontro expressa a ideia que procuro num pequeno texto, que passo a citar:

Procure a palavra. A única que pode ter múltiplos significados no mesmo contexto, que chora e canta, atinge o símbolo, dá o momento e pode eternizá-lo, passando do estar ao ser. Aquela em que o significante pode não ser apenas o suporte, arbitrário, do significado, mas a ser obrigado a significar.’ *

Complicado? Sim, de entender e de explicar em abstracto. Porém intuitivo quando se passa para lá do espelho. E mesmo assim, essa ‘palavra’ não é um dado inequívoco, nem algo que se possa assinalar de modo evidente:

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“Não entendo nada do assunto, mas tenho todo gosto em lhe dar a minha opinião de especialista.”

Mas quem lhe conhece o halo, a sombra, o som claro, água para infinitas sedes? Quem lhe sabe a cor secreta, a forma exacta, o seu recorte de concha, em nenhum areal?’ *

Claro, no texto poético esta procura é essencial e uma das ‘marcas d’água’ da excelência literária.

Como encontrar a ‘palavra’, esse grão de areia na praia imensa?

Lá onde se encontram tantos ladrões e belas mulheres

Lá onde se encontram tantos ladrões e belas mulheres.

Essa é a dificuldade, porque está entre aquelas que gastamos todos os dias, na vulgaridade da fala. E ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo. A procura terá de ser só sua. A poesia, como a verdade, é solidão infinita’.*

Procura que não tem horizonte, nem fim, excepto se nos rendermos à facilidade ou ao desânimo. Mas quando ‘a palavra’ surge diante do escrevinhador, tal como o graal, impõe-se pela sua presença:

ARA ENTRAR DIGA AS PALAVRAS MÁGICAS esqueceu-se das suas palavras mágicas? Diga o seu e-mail.

PARA ENTRAR DIGA AS PALAVRAS MÁGICAS
Esqueceu-se das suas palavras mágicas? Diga o seu e-mail.

Com o suor das lágrimas e da esperança, procure. Procure a que mata a sede do além e do inatingível, a que escorre ainda o sopro da criação. Procure a palavra.’ *

‘Mas valerá a pena tanto esforço?’, perguntam-se as pessoas de bom senso e sentido prático da vida.

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“Tens de aprender a falar, Jeffrey: faz parte do processo de crescimento.”

* Citações recolhidas da ‘Carta a um jovem poeta’ publicado in Um olhar naufragado (diário II) de Luisa Dacosta ed.Asa 2008

Órfãos da ‘originalidade’

Repetindo um anseio que ouço com alguma frequência, alguém me pede dicas para poder escrever sem cair nos famigerados estereótipos e produzir textos com genuína originalidade. Tudo desejos muito louváveis, pecando, no entanto, por serem algo estereotipados.

-Quero que estudes estes sites a ver se consegues tornar o meu site mais original.

-Quero que estudes estes sites a ver se consegues tornar o meu site mais original.

Por deficiência minha, dei a entender que o estereótipo é algo a evitar, esquecendo-me de acrescentar que é uma quase-inevitabilidade. Na realidade, os estereótipos têm grande utilidade ao poupar recursos e tempo para transmitir conteúdos, já que são facilmente compreensíveis por reproduzirem esquemas, tipos, valores, dos quais a generalidade das pessoas reconhecem. O seu oposto será uma escrita que tenha uma perspectiva distinta do estereótipo e, além do mais, subentenda de modo mais ou menos explícito, uma crítica ao modelo estereotipado.

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“Qual é?! Primeiro diz para mostrarmos originalidade, e depois marca erros no meu texto!”

O que leva à questão da ‘originalidade’, que significa ‘regresso às origens’, não necessariamente as do escrevinhador, mas as da escrita, do tema, do enredo. E que origens podem ser essas? Ora, este é que é o eterno problema: o de sermos herdeiros, utentes e artesãos, de técnicas e saberes que têm uma história, uma evolução com protagonistas, dilemas e conflitos, e de que somos praticamente ignorantes. Ou seja, que sabemos nós sobre as ‘origens’, escrevinhadores com a pretensão da originalidade?

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“Tenho de recordar-te de que tenho uma imensa legião de seguidores na internet?”

Como alguém disse (e escreveu), tudo já foi inventado ou tudo já foi dito em termos literários. Sem levar esta ideia à letra, creio que dificilmente o escrevinhador terá noção do que está a escrever sem a bagagem literária que o elucide minimamente do quanto é devedor de toda uma tradição literária que absorveu ao longo da vida, mesmo sem ter de pegar num único livro. 

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Fantástico ou simplesmente banal

O escrevinhador, principalmente quando jovem, deseja escrever uma história memorável que agarre o leitor da primeira à última página. Na verdade, quem não deseja o mesmo em qualquer altura da vida?

Os patos recuperaram a superioridade no reino animal.

Os patos recuperaram eminência no reino animal.

Pode ter, desde o início, o tema e o enredo perfeitamente definidos, mas ainda não se sentindo firme na escrita, insatisfeito com a diferença entre o que quer e aquilo que consegue produzir. É normal, e a frustração é mesmo muito salutar se o obriga a rever persistentemente os detalhes.

Também pode ter a tentação de imitar o tema e o estilo de outros autores, quando não o próprio enredo e seus personagens. Comercialmente até lhe pode correr bem ou, pelo menos, muito melhor do que se seguir uma via original.

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O mais certo é cair na armadilha dos estereótipos de que venho a falar nos últimos posts: sem voz própria, reciclando materiais excessivamente explorados, a obra oscila entre o tédio e o ridículo.

Mas não é propósito do escrevinhador deste blog moralizar, pois a realidade já provou o que acima se disse e o seu contrário: é possível ter êxito com um produto estereotipado. Os cínicos dirão que, em regra, nem é possível de outro modo.

Ora, muitas vezes o que ocorre ao escrevinhador contar é uma história banal, de gente comum, num mundo rotineiro e familiar. Obviamente, está condenado ao insucesso. Ou talvez não. Depende.

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O tema banal pode ser tratado de forma extraordinária, do mesmo modo que o tema fantástico pode ser tratado de forma banal. E a medida do sucesso comercial não é critério para o que nos interessa aqui.

A força do estereótipo

No tempo em que minha filha era pequenita, ela tinha de memorizar uns poemas ou cançonetas para recitar na escola diante de toda a turma. Além do nervoso miudinho de se expor ao ridículo, havia a dificuldade de memorizar todo o texto; quando achava que estava minimamente preparada vinha ensaiar para mim e, geralmente, fazia-o numa toada qualquer que a professora dera na apresentação do trabalho.

Esse é um dos vícios mais comuns de escrita, o de reproduzirmos esquemas que são habituais em determinadas situações e enredos. A esse vício chama-se estereótipo, numa alusão explícita à impressão em série da mesma imagem ou texto (também usamos o galicismo cliché com o mesmo sentido).

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Ora, nada é menos estimulante do que ouvirmos a enésima reprodução duma qualquer abordagem narrativa (seja a dum belo pôr-do-sol que traz melancolia e/ou paz ao espírito, seja a da rapariga má que estraga a vida ao casal tão feliz).

A massificação da produção artística, a sua industrialização, não só na literatura, como no cinema e na televisão principalmente, exploraram os estereótipos ad nauseam. As redes sociais na internet tornaram-nos um problema público de higiene mental.

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Porém, a literatura permite uma autonomia e resistência frente a esse condicionamento cultural que leva a colocar um (in)evitável adjetivo logo a seguir a determinados substantivos (tipo a “lua prateada” e o “sol dourado”). E permite-o porque nós, escrevinhadores, somos criaturas que podemos trabalhar por conta própria, na solidão, no anonimato, fazendo deste modo de vida uma paixão pela bela Musa.

À minha filha, após ela ensaiar a recitação ou cançoneta, sugeria-lhe para repetir, mas dessa vez como se estivesse muito, mas muito feliz. E, a seguir, como se estivesse triste, mas mesmo muito triste. E muito zangada, depois.

Chiclete com Banana

No dia seguinte aquilo acabava por lhe sair bem, dentro do modo convencional e politicamente correcto. E nós divertíamo-nos até às lágrimas nos ensaios; ao nosso modo, tentávamos desconstruir modelos consagrados.

Começar de novo

O escrevinhador pode iniciar sua estória de modo lógico e sequencial ‘Era uma vez,…’ colocando tijolo a tijolo os alicerces do precário edifício que tem em mente. Sem preocupações de maior, excepto a de alinhar os acontecimentos, apresentar as personagens relevantes e outras, deixar fluir a escrita, tentar a bela musa.

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Ao fim dum tempo, mais ou menos longo, ao reescrevinhar pela enésima vez, o escrevinhador começará a brincar.

Umas vezes surpreendendo: “Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.” (primeiras linhas de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez)

Outras vezes trocando as voltas ao bom senso do leitor: “Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas , que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável.” (primeiras linhas de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, ed. Publicações Dom Quixote)

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Aí, certamente, o escrevinhador já sentirá o pulso firme do escritor segurando o fio de prumo do enredo.

Valerá a pena escrever poesia no sec.XXI?

Se escrever prosa oferece dificuldades, poesia parece intuitivo e simples, trabalho de curta duração. E com um dicionário de rimas à mão, fica ainda mais fácil. Temas? Há tantos: uma flor, um amor, um pensamento profundo esticado em duas dúzias de linhas, um grito de revolta contra a injustiça, de tudo “se faz” poesia.

Mas quem a lê? Pior: quem a escreve?

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Música e polifonia na construção do texto

Mazurca para dois mortos, de Camilo José Cela, assenta sobre um texto “oral” dum narrador obscuro, “perdido” entre vozes que vêm a propósito de algo que o narrador acaba de dizer. (ver nota 1)

As “vozes” acrescentam peças ao mosaico (ou ao tema musical, provavelmente) que o leitor terá de montar para concluir o livro. Deste modo, o leitor demorará algum tempo a perceber se há enredo, e havendo, qual seja.

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A forte componente poética do texto associa-se à verbalização incontinente de tantas vozes distintas, todas marcadas fortemente pela língua galaico-portuguesa e pelo imaginário rural do noroeste peninsular, carregando consigo pequenos episódios da vida de pessoas que se vão revelando por fragmentos de suas vidas.

Num registo (aparentemente) circular, formam um texto da maior beleza e harmonia, riquíssimo, fiel ao registo histórico duma época, e simultaneamente intemporal. (ver nota 2)

Por tudo isto, o livro exige do leitor a entrega e a participação na composição, como se fosse mais um dos dançarinos desta mazurca. N’ O Malhadinhas, o narrador desenvolve uma história linear, ainda que volta-e-meia pontuada por reflexões ou à partes; no Grande Sertão: Veredas, o narrador anda perdido nas suas reflexões e memórias, mas o enredo progride até à inevitável conclusão.

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Na Mazurca para dois mortos, o processo é menos evidente dada a polifonia das vozes que se “intrometem” no discurso do narrador, o qual, além de discreto também é vago, dando a ilusão de acumular repetições, quando, na verdade, acrescenta mais um ponto ao conto. (ver nota 3)

Porém, o enredo torna-se claro, dando sentido ao título e a conclusão (previsível a partir de certo ponto) é completada por um “anexo” totalmente alheio aos recursos estilísticos do resto do livro. Anexo, aliás, que é um texto com a  rigorosa formatação técnica do seu género, e por isso surpreende.

Deste modo aparentemente simples e desordenado,  uma estrutura complexa e de grande risco para o autor se vai revelando e permite aceder ao mais íntimo das memórias do narrador, trazendo à vida as pessoas “daquele tempo”, abrindo-se-nos as portas para um mundo que também é o da Língua Portuguesa e o do Norte de Portugal. E inúmeros temas se abrem à curiosidade do leitor, outros tantos caminhos para novas leituras. 

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Ainda há quem consiga ler um livro genial?

As dificuldades da leitura do Grande Sertão: Veredas são o paradoxo da própria expressão artística: a originalidade da escrita “exige” entrega do leitor, sua dedicação (tempo e qualidade de leitura), para se “deixar levar” na corrente do discurso do narrador e do seu peculiar modo de se exprimir.

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(clicar encima para ampliar)

Em forma de monólogo (como n’ O Malhadinhas), o personagem central da história conta a sua vida, dirigindo-se a alguém a quem chama “doutor”, de outra condição social e estranho ao mundo do Sertão, muitos anos depois dos acontecimentos narrados.

Mas a narrativa de Riobaldo não é linear, frequentemente interrompida por reflexões a que se sucedem relatos episódicos da vida. O recurso dos neologismos, das onomatopeias, de palavras do português antigo, do imaginário sertanejo (fortemente devedor do imaginário europeu medieval), de frases construídas ao arrepio da boa lógica ou gramática, ultrapassam os limites da expressividade a que qualquer linguagem restringe as emoções, permitindo assim ao leitor penetrar no sentido profundo da narração.

Um dos aspectos mais interessantes do Grande Sertão: Veredas está, precisamente, em ser uma obra a todos os títulos original, tributária duma longa tradição literária, a começar pelos romances medievais, reflectindo a origem e a evolução da Língua Portuguesa no modo como constrói frases e vocábulos.

A história vai ganhando ritmo, desenvolvendo um eixo (a vida de jagunço e, desta, a vingança contra o inimigo Hermógenes) onde giram, com igual significado para o narrador e para a narração, temas recorrentes que atormentam Riobaldo: o amor por Otacília (que virá a ser sua mulher), o amor secreto por Diadorim (seu amigo cangaceiro), o Demo (que teima em  se convencer que não existe) e o pacto que celebraram ambos (mas que não sabe ao certo se aconteceu) em determinado lugar (que veio a saber depois que não existe).

Acima de tudo, porque tudo o mais ganha novo sentido com a revelação, o segredo imenso que Diadorim trazia consigo e que Riobaldo só vem a descobrir tarde de mais. Aqui, a narrativa assume uma dimensão trágica, ainda para mais associada ao tema faustiano da venda da alma ao Diabo.

Sua originalidade assenta, entre outros aspectos, no modo aparentemente caótico da narrativa (o narrador facilmente perde o fio à meada e frequentemente se afunda nas suas angústias) associado à peculiar linguagem e expressividade do narrador (poética, ritmada, hesitante, pontuada de interrogações), onde nem o próprio, por vezes, tem a certeza de dizer a verdade do que viu.

Infelizmente, toda esta riqueza torna a leitura problemática, de difícil acesso ao leitor, principalmente quando não está habituado a ter de “lidar” com estruturas fora do comum e ter de ser ele próprio a retirar o sentido duma frase que, à letra, nada ou pouco diz. Ou a ter de completar entreditos, perceber alusões.

Bem diversa da narrativa literária onde a ausência da ambiguidade, o contraste marcado (entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, etc), a utilização do vocabulário corrente, uma construção com principio, meio e fim, personagens tipificados desde o início, a opção por um tema que, por mais exótico que seja aparentemente, se reduz às mesmas problemáticas do dia-a-dia do leitor, tornam a leitura fácil e a “mensagem” compreensível.

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Recriando a oralidade e a linguagem

Mas foi em 1956, e do outro lado do Atlântico, que alguém deu vida e voz a uma variante do almocreve beirão Malhadinhas.

Igualmente do interior (ver nota 1) e com pouca instrução (ver nota 2), muito cismático das coisas da religião (ver nota 3), destemido e aventureiro (ver nota 4), apaixonado por sua mulher e apreciador de todas as mulheres bonitas (ver nota 5) : o sertanejo e jagunço Riobaldo, Tatarana, o Urutu-Branco!

Grande Sertão: Veredas , de João Guimarães Rosa, ultrapassa largamente o projecto de Aquilino de filtrar “a linguagem dum rústico”: a linguagem do rústico Riobaldo terá como base o modo de se expressar do Sertão (vocabulário, ditos e expressões), a que o autor acresce palavras do português arcaico (muitas delas ainda usadas no Sertão), e que permitem a formação de neologismos (ou recriação de palavras).

Logo nas primeiras linhas: “-Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo o dia isso faço, gosto, desde mal em minha mocidade.” E será assim até ao fim dum livro de várias centenas de páginas.

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A expressividade das emoções

A expressão escrita das emoções enfrenta o desafio da desproporção: se a linguagem for medida e controlada em excesso, perde eficácia e naturalidade; se, pelo contrário, for excessiva, hiperbólica, arrisca-se ao ridículo ou a ser tomada como um fingimento.

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-Tudo o que você faz é perguntar-me como me sinto.
-E como se sente quando pergunto isso?

A linguagem sofre de grandes limitações para exprimir satisfatoriamente as emoções, daí o recurso às metáforas para poder libertar-se dos limites da lógica e do objectivo.

(…)
E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas…
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas…
(Florbela Espanca Frémito do Meu Corpo a Procurar-te)

Recurso, bem entendido, que pode levar à repetição de fórmulas conhecidas, tornando-se banal, monótono, cliché.

Surpreendendo pela imagem e associação de ideias, torna-se possível a transmissão das emoções mais profundas ou violentas, apelando ao leitor a sua participação activa para preencher as lacunas do discurso lógico e estabelecer empatia com o autor.

“vamo-nos sentir realizados e satisfeitos, finalmente?”

Escrevem-se bons livros tendo o tema da viagem como pretexto: real ou imaginária, atravessando regiões imensas ou sem se sair de casa, procurando a objectividade ou assumindo a mais descarada subjectividade.

E ainda podendo assumir o tema para o contrariar e fazer a apologia do oposto a viajar.

Ou descobrindo que a verdadeira viagem é através de um continente no interior de si próprio.

Em todo o caso, creio que as obras de referência, aquelas que nos marcam, são as que nos levam à conclusão que tirou o norte-americano Walt Whitman ao olhar para o céu estrelado, imaginando o que acontecerá quando a Humanidade chegar a todos esses astros distantes: “(…) vamo-nos sentir realizados e satisfeitos, finalmente? /E o meu espírito disse Não, iremos atingir esse nível para passar e continuar adiante.” (in Song of myself 1855)

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O Processo

Os personagens acabarão por surgir impondo a sua presença e exigindo atenção, assim o processo narrativo se desenvolva. Este processo pode ser conduzido por um narrador-personagem ou por um narrador omnisciente e impessoal, mas também pode dispensá-los e desenvolver-se num “efeito caleidoscópio”, dando expressão a diferentes “vozes”, que são outras tantas perspectivas parciais cujo somatório é o “trabalho” do leitor. Esta é uma área vocacionada para a criação e a sensibilidade, que na esmagadora maioria das vezes é tratada de modo banal e previsível.

Para quem não está familiarizado com o processo de escrita extensa dum livro, o mais óbvio é seguir o impulso de se dedicar ao tema/enredo num jogo criativo que poderá misturar ficção com realidade, sem se comprometer com matérias que possam distrair do propósito do livro.

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Enredo

O enredo não pressupõe um tema, pois é uma narrativa que se desenvolve ao capricho do autor. Sua exigência é a coerência (o morto de dez páginas atrás não pode deve reaparecer vivo como se nada tivesse passado), apesar de se poder “brincar” com as expectativas do leitor e com as regras da lógica (com risco de cair no disparate).

Porém, existe uma coerência interna que pode ser absurda e contra-intuitiva, como é exemplo a “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, as obras de Ionesco ou de Beckett.

O enredo não obedece a nenhuma estrutura prévia (temporal, espacial, rítmica ou outra), dependendo da criatividade do autor e da sua capacidade para o desenvolver de modo eficaz. A eficácia, claro está, é captar o interesse e corresponder a algum tipo de coerência interna. 6a00d8341bfb1653ef016764c1425d970b-550wi

A Páscoa como tema literário

Aproveitando a época pascal, comum ao judaísmo e ao cristianismo: a festa da páscoa judaica (Pessach, também “Festa da Libertação”), celebra a libertação do povo judeu da escravidão no Egipto, com referência à “passagem” do Anjo que levou a morte a todos os primogénitos egípcios, animais incluídos; na páscoa cristã celebram-se dois temas centrais: a morte (Paixão) e ressurreição de Jesus.

Curiosamente, o nome dado à festividade nas línguas germânicas, dentro da tradição cristã (“easter” e “oestern”,por exemplo) remetem para os cultos pagãos da celebração da Primavera, da fertilidade, do renascimento.

Em todas as narrativas, a passagem da morte para a vida (ou libertação), é comum. Mas como são distintos os personagens, os contextos, as circunstâncias.

No islamismo da corrente xiita, também existe uma narrativa sobre a morte (Ashura) e a reaparição do Mahdi oculto que retoma o tema da morte e ressurreição de modo muito distinto das narrativas referidas atrás.

Eis um bom tema de reflexão para leitura e escrita.

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Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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Sensibilidade e bom senso

Então, sem originalidade, nem autoridade sobre o assunto, pode-se escrever sobre qualquer coisa. Pode mesmo? Poder, pode.

Não vamos reflectir sobre as condicionantes à escrita que atiram com autores-editores-livreiros-leitores às masmorras, a levar com uma bomba ou, pior de tudo, ao sequestro de toda a edição para ser reduzida a cinzas na praça pública. Ser original e provocador pode dar bons resultados, apesar dos riscos.

Ser original, provocador e ter qualidade ainda é melhor, só que muitíssimo mais difícil e não menos arriscado. Mas a originalidade e a provocação nem são necessárias para escrever um bom livro, nem têm de andar juntas.

Ter autoridade e impor a sua perspectiva sobre as restantes deve consolar enormes egos, super-egos, e, absolutamente, todos os pequenos egos mesquinhos e inseguros. Também é o bilhete sem regresso para o museu das glórias eternas passadas.

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A Autoridade do Autor

A “originalidade” pode ser entendida como a própria naturalidade do autor, sua perspectiva, sensibilidade, experiência de vida, percursos, aprendizagem, etc e tal, a modo das famosas “competências” dum certo discurso pedagógico. O que não é garantia de nada de bom, e até chega a ser praga.

Mas se for genuína, vinda dum impulso de comunicação temperado por algum critério estético, mesmo que pouco elaborado, a coisa pode funcionar. Leia o resto deste artigo »

O “Livro Branco”

A busca da originalidade de cada um, como medida do génio, torna-se obsessão, mercado. E fetiche para o grande público. Até ao culminar da edição do “Livro Branco”: livro de capa mole, com dezenas de folhas em branco, vendido até nas boas livrarias. Supostamente, para que o seu comprador escreva nele, manualmente, o que bem entenda e depois possa arrumá-lo na estante, com a mesma dignidade dos outros livros vizinhos. Ou que o original autor possa passeá-lo pela rua, nos cafés e esplanadas, orgulhosamente.

Originalidades dum tempo anterior ao ms-word.

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A Obra cria o Autor

A “originalidade” como génio e singularidade da criação artística é um conceito que se desenvolve gradualmente, provavelmente na pintura em primeiro lugar, graças à formação de escolas de arte, de clientes (mecenas, principalmente) e de grandes encomendas. O valor da obra torna-se profano, o seu usufruto um gozo, sinal de requinte e distinção. A obra passa a ser mais valiosa quando tem um autor, se esse autor já tiver nome e, esse nome, uma história.

O Romantismo depois fez o resto, esgotando o modelo na caricatura do autor na sua “torre de marfim”, “a arte pela arte”.

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É assim tão importante ser original?

A originalidade, tal como tantos conceitos, tem uma história relativamente recente. Durante milhares de anos e até, mais ou menos, ontem, o grande objectivo da aprendizagem era reproduzir modelos consagrados.

Platão, por exemplo, escrevia como se fosse o mestre Sócrates quem dissera o que ele, Platão, argumentava. Leia o resto deste artigo »

Grandes Questões Existenciais

Depois do último post, seguem duas das grandes questões existenciais (GQE) que perseguem o autor:

  • Devo escrever sobre temas sobre os quais tenha algum tipo de autoridade (credibilidade) perante os outros?
  • Devo preocupar-me em ser original?

Vou tentar explicar melhor a segunda, antes de problematizar a primeira GQE. Mas fica para o próximo post.

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