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Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

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Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

meditação sobre a criação e o desalento

Um dos temas mais interessantes nas artes é o da influência (não confundir com plágio), e já me têm pedido para falar sobre isso. Porém, são temas que escapam aos estreitos limites deste blog sobre criação literária no sentido mais imediato.

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Alguma coisa já disse a esse respeito para ilustrar a ‘falta de originalidade’ dos grandes autores que retomam velhos temas brilhantemente desenvolvidos em épocas ou lugares diferentes. Mas a influência acontece do modo mais imprevisto: uma rápida leitura on-line num jornal, num blog ou no facebook, podem provocar uma reacção em cadeia.

Daí que, quando me falam em dificuldades para encontrar, estruturar ou desenvolver um tema que dê origem a qualquer coisa de vagamente literário, só posso recomendar obsessivamente que ler é fundamental. Com a vantagem acessória da leitura poder ser enriquecida pela própria experiência de vida, pela observação atenta ou sensível, pela personalidade singular de cada um. E nem fica especialmente dispendioso.

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O que faz a diferença é o modo como o escrevinhador aborda aquilo que leu, viveu, observou (ouviu) ou sentiu, e não tanto a experiência em si. E é esse modo (que pode variar de escrevinhador para escrevinhador, como Caeiro, Campos, Reis, Soares e Pessoa tão bem exprimiram) que torna a coisa literária fascinante.

E também algo árdua e cruel, como qualquer um de nós pode avaliar numa rápida consulta da literatura de hipermercado ou assistindo a penosas tertúlias de leitura de poesia.

Não se trata só do estilo, algo que com o tempo e a produção escrita pode evoluir, amadurecer e cristalizar. Fundamenta-se nas tais leituras, vidas, observações e sentimentos (ou sensações) do escrevinhador, mas vai para lá disso tudo e pode resultar, se não em algo distinto, pelo menos num cocktail original e sugestivo.

Nas primeiras décadas do sec.XXI, a facilidade para publicar imediatamente é inversamente proporcional à capacidade de atingir um público interessante, dada a pulverização dos canais de comunicação. Por isso muitos desanimam em prosseguir. Alguns tentam escrevinhar do modo que julgam ser mais atraente para determinado público, variando entre o piadético e o sarcástico, passando pelo piegas e pelo popularucho.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação... 2.Podemos estar em qualquer lugar da Terra... 3.E continuar a ouvir conversas imbecis.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação…
2. podemos estar em qualquer lugar da Terra…
3. e continuar a ouvir conversas imbecis.

Ciente da infinidade de escrevinhadores do passado, hoje célebres mas completamente ignorados em vida, que posso dizer a esse respeito? Que há uma infinidade maior de escrevinhadores do passado, célebres em vida e hoje completamente ignorados? Que a escrita deva ser uma paixão, um prazer, que se justifica por isso mesmo? Que o desanimo ou o facilitismo podem ser sinais vitais do suposto escrevinhador para se dedicar a assuntos mais criativos e reconhecidos socialmente, como a contabilidade ou a interpretação das leis?

Regressando à questão da influência e da criatividade, vem-me à memória algo que Herberto Hélder escreveu a propósito de traduzir poemas duma língua que desconhece, com a vantagem de, ao fazê-lo, não só escreve um poema em português, como escreve um poema que é seu!

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O remate final e o que se lhe segue

O final de um poema ou de uma estória pode ser problemático para o escrevinhador, realmente: a dificuldade em ‘chegar’ ao fim, em estruturar a composição de modo a lhe dar conclusão. É que, muitas vezes, uma boa ideia surge como fragmento de algo maior e difícil de entrever, muito mais ainda de desenvolver e de expressar. E de lhe dar o remate adequado.

El instante que pasa ocupa todo el tiempo.

No hay final ni principio:

sólo el todo y nada equidistando

(‘Didáctica’ de J.M. Caballero Bonald in Diario de Argónida, Obra Poética Completa ed.Austral)

Túmulo do escritor desconhecido

Túmulo do escritor desconhecido

 

Mas pode acontecer o exacto oposto: a narrativa, ou o poema, tem um final aberto que permite progredir facilmente. Na ausência de um prazo para entrega do original para publicação, o escrevinhador prossegue indefinidamente, sem sentir perca de qualidade ou perturbação no equilíbrio original do enredo.

"Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má.”

As sequelas de que se falava no post anterior têm, quantas vezes, origem nessa impossibilidade de dar um ‘fim’. Não que este não pudesse ser dado páginas atrás, mas precisamente por haver uma pulsão das personagens ou do próprio contexto em prosseguir.

Assim como a leitura se torna compulsiva, obcecando o leitor a continuar com sacrifício do tempo para dormir, e depois lhe dá aquela tristeza por chegar ao final, também o escrevinhador pode entusiasmar-se a ponto de não conseguir parar. E se o fizer, sofre o mesmo vazio que o leitor sente ao interromper a leitura que lhe dava tanto prazer.

“Bem sei, bem sei que te seria difícil  terminar o teu ensaio-narrativa (posso chamar-lhe assim, um ensaio-narrativa?) se te não trouxesse eu uns últimos esclarecimentos. Pois ouve, que vou continuar…”

(in Os paradoxos do bem de José Régio, incluído na colectânea O vestido cor de fogo e outras histórias, ed.Verbo)

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Donde vem este entusiasmo criativo, ‘localizado’ numa obra em particular e incapaz de se alargar a outros projectos? Creio que se trata duma feliz combinação entre a louca da casa, que se liberta dos estreitos limites do quotidiano, com a bela musa, seduzida pela ideia e pelo discurso (escrito, claro), às quais se juntam as personagens dotadas de voz própria, de capacidade de escolha, decisão e acção.

Isso e mais o contexto em que as personagens vivem e actuam, contexto flutuando conforme as variáveis que o determinam. Tudo isso e mais, ainda, o tempo (ou os tempos) que determinam o ritmo e a sequência dos acontecimentos.

Garantia porém a quem folheia—o tema é de passagem, de passionar, passar paixão e o tom é compaixão, é compartido com paixão.

(‘Terceira Carta I’ in Novas cartas portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, ed. Moraes)

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A que se pode acrescentar ainda uma dimensão trágica, que não tem aqui o sentido de ‘desgraça’ geralmente usado, mas de conflito seguido dum qualquer tipo de desfecho que está para além dos desejos e da vontade das personagens (fatalidade, mistério). O qual, a partir do sec.XX, se pode caracterizar por um não-desfecho, uma indefinição (incerteza, imponderabilidade), ou seja, um final incaracterístico, não-intuitivo, e nem por isso inverosímil.

Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. (…) Assim eu te escrevo para te demorares um pouco.

(in cartas a Sandra de Virgílio Ferreira, ed.Bertrand)

Ou, simplesmente, nada disto: o texto prossegue alegremente repetindo o esquema inicial adicionando episódios que exploram as características das personagens e das suas circunstâncias de modo previsível. Se o escrevinhador está contente, o editor feliz e os leitores maravilhados, é uma receita de sucesso.

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‘o canto que corta a garganta’

Assente, desde as origens, na musicalidade (sonoridade, ritmo, pausa…mas que entendo eu de música?!), a poesia evoluiu na procura da palavra a ponto de valorizar o silêncio e a materialidade.

A luz mais que pura/Sobre a terra seca

2 Um homem sobe o monte desenhando/A tarde transparente das aranhas

3 A luz mais que pura/Quebra a sua lança

(Algarve de Sophia)

 

Man of the Sea  de magritte

Man of the Sea de magritte

Em consequência, rompeu com métricas, regras  e rimas. Em versos sentidos.

Inmóvil

abandonado a tu pesadez de hombre inmóvil
me miras con antiquísimos resentimientos.

Óyeme bien
soy inocente de tu pasado
no soy tu puta madre
ni tu enferma madre
ni tu loca madre
aunque sea puta loca.
No merezco recibir agresiones ajenas
retrasadas y caducas.
No proyectes sobre mí los espectros de tu niñez
tengo forma, color y dimensiones propias.

Tampoco vengas a mí
llorando como un niño
cuando no lo eres.
este regazo que te acoge también te desea.

No sobreactúes
a mí también me expulsaron del paraíso
antes de tiempo
y sin notificación previa
¿a quién no?

(…)

(in Espejo Negro de Miriam Reyes)

 

'Portrait of Ms Ruby May, Standing' por Leena McCall

‘Portrait of Ms Ruby May, Standing’ por Leena McCall

Explodiu com o sentido, inclusive.

Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.

(Ars Magna de Leopoldo Maria Panero)

 

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‘leopold bloom’ de Richard Hamilton

Como resultado, reencontrou a imaterialidade da percepção aliada a um corpo físico, pois a palavra ganhou corpo e autonomia.

 

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo: uma vogal,

uma consoante, quase nada.

Mas faz-me falta. Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro, da estiagem

do verão. Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

(A Sílaba de Eugénio de Andrade)

 

'The Poor Poet' de Carl Spitz

‘The Poor Poet’ de Carl Spitz

Dita ou lida, uma poesia assim torna-se possessão.

 

Acolhei-me se sois também de sonho/que venho de estranheza e sonhos vários/—um mundo cismas encimando os ombros/e sob os pés países insonhados.

 

Que dá ritmo a meu vir, move meus passos/pelas ruas destino vivo-e-morro?/Que me desvive e perde entre fachadas,/casas indiferentes feito rostos

de isentos rasgos e de ausentes almas?/Que me impele, de passo, à casa, à sombra/tão-só afim às outras no ar fechado?

 

Ouço-a (ou me ouço?) respirar. Que há sons/de um coração arquejo e descompasso/transpirando metais, cordas e sopros. 

(Andante de Stella Leonardos)

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compartment car de edward hopper

 

E permite novas leituras dos velhos textos poéticos.

 

(…) Musa ensina-me o canto

Que me corta a garganta

(in Musa de Sophia)

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pintura de Paula Rego

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

Um curto parênteses para repetir o de sempre

Para aqueles que pedem dicas para a promoção dos livros editados, relembro que não é essa a vocação deste humilde blog. O seu propósito é reflectir sobre a criação literária numa perspectiva algo teórica, algo prática.

imagem de Pawel Kuczynski

imagem de Pawel Kuczynski

Numa época em que a auto-edição (ou edição de autor) é cada vez mais acessível, o escrevinhador tem total liberdade criativa, correndo o risco de não ser lido e que é o risco de todos os tempos, no passado, no presente e no futuro.

É por isso que entendo vivermos numa época de ouro da escrita (tudo se pode publicar) e o seu contrário (raro é o livro publicado que se aproveita).

Quando digo ‘raro’, não pretendo dizer que hoje se escreve pior do que antes, mas que o aumento maciço de edições desequilibra a proporção entre os livros interessantes e os outros.

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Assim, mais do que se preocupar com a promoção, creio que o escrevinhador deve ser autêntico e interessante…qualidades que, de modo algum, se confundem.

Pode ser interessante sem ser autêntico?

Evidentemente que sim, mas acaba sempre por se notar algo de postiço e/ou vazio na escrita.

Dr.

‘Dr.Peter-psiquiatra’  PACIENTE:”Ninguém presta atenção ao que eu digo. Sou tão chato, as pessoas desinteressam-se” PSIQUIATRA: “Desculpe, estava a dizer alguma coisa?”

Autêntico sem ser interessante é o mais comum, pois se a qualidade de alguém ser o que é já se torna muito duvidosa na vida em geral, não há nenhuma razão para que a escrita seja excepção.

Daí regressar incessantemente à interrogação escrever como?

"Oh, sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se eu trabalhasse desse modo acabava despedido."

“Oh, eu sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se trabalhasse desse modo acabava despedido.”

 

 

As fases da construção

Se houvesse uma regra de construção da narrativa, seria a de ter principio-meio-e-fim. Mas não necessariamente por esta ordem.

Podem ser citados bons livros que seguem esta ordem e bons livros que não a seguem, assim como existem muitos maus livros e livros assim-assim que tanto fazem duma maneira, como da outra.

Ou seja, a qualidade da escrita e do enredo não passa por aqui. O que passa é a ‘facilidade’ com que o escrevinhador organiza os materiais (tema, personagens, intriga) ao longo do desenvolvimento. Principalmente nas estórias longas.

-Onde vais buscar estas ideias?

-Onde vais buscar estas ideias?

Fico com a impressão de que o escrevinhador, frequentemente, paga o preço da (des)organização escrevendo uma estória em que se perde o fio à meada (o foco da atenção) acompanhada duma perca de qualidade (assumindo que esta existe) no tratamento dos detalhes (caracterização das personagens ou a coerência dos acontecimentos, por exemplo).

Nos gloriosos tempos em que os escrevinhadores produziam para satisfazer o ritmo da publicação em formato de folhetim, nos jornais, para pagar as despesas básicas de tabaco e álcool, é natural que muitos não tivessem tempo para grandes reflexões metodológicas e escreviam com paixão, furor.

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Mas mesmo os mais produtivos tinham o seu método mínimo, como Ponson du Terrail, que tinha bonequinhos  encima duma mesa para não confundir as personagens mortas ao longo da escrita das aventuras de Rocambole, com as que permaneciam vivas. Diz a lenda que, por vezes, ao limpar a casa, a empregada acrescentava ou retirava bonecos à mesa. Inadvertidamente, claro.

E que seria por essa razão que, ao longo das aventuras daquele herói, personagens desaparecem subitamente, e assim permanecem ao longo de vários capítulos sem explicação nenhuma, e outras reaparecem inopinadamente, apesar de terem sido mortas de modo público e notório.

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Rocambolesco, dir-se-ia noutros tempos.

A janela aberta

Construído o enredo, ao escrevinhador colocam-se questões básicas: necessita de fazer trabalho de investigação, estudos, entrevistas com pessoas reais, deslocar-se a lugares, experimentar por si mesmo outras vivências?

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Ao contrário do académico, do jornalista ou de outros escrevinhadores que assumem a ligação com a realidade como base dos seus trabalhos, o escrevinhador de ficções não precisa de sair da cama para começar e acabar o que quer que seja.

Mas todo o trabalho prévio, nem que seja o da simples leitura, pode consolidar a verosimilhança do enredo (factos, personagens, modos de falar e de estar, etc), como pode reforçar a inspiração e o alento do processo criativo.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita literária.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita criativa.

Além disso, trata-se duma abertura para o mundo: o escrevinhador viaja, conhece novas terras, nova gente, ouve histórias e regista expressões, toma nota de ideias e sugestões, podendo fazer tudo isto e ir escrevendo, ao mesmo tempo, o que tem estruturado no enredo.

Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época, é possível realizar este trabalho sem sair de casa.

Saindo ou não, pode ser motivo de grande prazer e modo de atenuar vícios duma escrita autocentrada, duma experiência de vida necessariamente limitada pelo preconceito, dos erros assimilados e inconscientes…enfim, as consequências de atribuirmos demasiada relevância ao nosso umbigo ou às nossas dores.

E, como resultado final, pode ser a diferença que o leitor encontra numa estória e nas personagens que ‘respiram’ autenticidade e outra estória e suas personagens em que tudo lhe parece postiço, sem densidade ou paixão.

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Se depois o leitor vier a saber que o escrevinhador nunca esteve naqueles lugares (e que, talvez por isso mesmo, não corresponde o escrito com a realidade), ou que se inspirou em pessoas que nunca conheceu (e episódios de suas vidas) para construir as personagens, para em seguida distorcer uns e outros, talvez o leitor fique triste e desiludido por tudo aquilo que o fascinou não existir, nem ter existido nunca…mas o fascínio pela estória perdurará, e não é essa a nossa grande vaidade e ambição, ó escrevinhadores?

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Escrever como quem amordaça a emoção?!

O último post suscitou algumas dúvidas por parte de leitores, que sintetizo deste modo:

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—para quê tanta ênfase contra a emoção-espontaneidade, se é esta que alimenta a veia poética?

—qual é a recomendação que faço, afinal, a propósito da utilização da métrica e das rimas?

—se quando digo que o “pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica” são indispensáveis, não estou a propor uma qualquer ‘escola’ ou corrente poética, já que a mente crítica pode ser entendida de um modo que contradiz o sentimento ingénuo, o impulso, a própria paixão?

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-Quando é que lá chegamos?     viagem em família para a Iluminação

Reconheço-me sempre devedor de quem se presta a ler e reflectir sobre os textos aqui publicados, mais ainda quando alguém se incomoda em dar-lhes réplica. A primeira questão creio que foi respondida ao longo de vários posts publicados em diferentes alturas, a terceira até um certo ponto também, mas a segunda não de todo.

Durante a próxima semana tentarei esclarecer o melhor possível o que penso em relação às três questões.

Porém, tenho de reconhecer ser sempre complicado este tipo de considerações sem referência às leituras de uns ou de outros e aos escritos deles mesmos.

La lectora, de Federico Faruffini.

A leitora, de Federico Faruffini.

 

Aos leitores que levantaram estas questões, perguntei o que andam a ler, o que andam a escrever, e isso por duas grandes razões: a primeira, porque é mais fácil esclarecer uma dica, um tópico, fazendo referência a poemas, neste caso, e autores (daí, muitas vezes citar trechos de autores conhecidos); a segunda, analisando a produção escrita do próprio, posso exemplificar melhor o que pretendo dizer.

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Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

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Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

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Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

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Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

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la muse, de jean esparbes

Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Inspiração, transpiração…

Por muito importante que seja a inspiração, há sempre um problema pratico e arreliante a resolver: método.

Porque, por falta de método, perdem-se ideias e sugestões inspiradoras. Tradicionalmente, o escrevinhador previdente está munido dum bloco de notas para rabiscar imediatamente o que lhe foi sugerido numa conversa ouvida casualmente ou ao passar por certo lugar sob incerta luz.

"Não te importas que escreva no meu diário?"

“Não te importas que escreva no meu diário?”

E, mesmo assim, pode lhe faltar o reflexo de anotar logo ou a argúcia em tomar nota das palavras-chave. Porque a inspiração tem algo de químico, activando hormonas que hão-de despertar memórias, associar ideias,  suscitar estórias ou encadear imagens, etc, etc, e o processo pode ser reactivado horas, dias, anos depois, pela ordem inversa, através das palavras.

Daí que, quando o escrevinhador se queixa de falta de assunto, de inspiração ou bloqueio, talvez o problema seja mais simples de entender assim.

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O meu psicólogo diz que vai levar anos para trabalhar os meus problemas de fúria, mas não tenho a certeza. Basta escrever uma estória de violência assassina e sinto-me bastante bem.

Quando ouço em resposta ah, isso dá muito trabalho! ou não se pode estar todo o tempo a tomar notas do que acontece fico com a impressão de que estou a gastar o meu latim com simples curiosos.

Gosto de falar na musa, de exaltar a paixão, de insistir no grãozinho de loucura e todas essas imagens ou ideias que transmitem a possessão no acto da escrita. Faço-o porque sei que, se até o mero leitor, também ele, quando se defronta com um certo poema ou estória, é capaz de sentir o sopro da inspiração, como não há-de senti-la o escrevinhador nas suas horas felizes obsessivas dando forma ao que lhe vai por dentro?

"O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela estão a usar luvas."

“O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela começaram a usar luvas.”

Porém, mesmo o mais sagrado dos mistérios exige ritos banais a seguir com algum escrúpulo e disciplina.

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“Helena,eu apreciaria muito se respeitasses o meu processo criativo.”

O ritmo dos acontecimentos

O enredo pode exigir que os acontecimentos se sucedam com rapidez, numa sequência não-necessariamente-linear, empolgando o leitor a virar página atrás de página. Ou que assim seja em certos momentos. Tudo em prol do desenvolvimento duma estória rica em surpresas e mudanças.

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“20 de Abril: Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira (…) como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? (…) Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo “clássico” do “conto filosófico”, inserindo nele (…) personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada.” *

Ou, pelo contrário, o enredo segue um ritmo certinho como um relógio. E porquê? Talvez porque o tempo da narrativa seja circular, talvez porque os acontecimentos evoluam lentamente, talvez porque as personagens valorizem menos a acção, privilegiando as relações entre si.

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“21 de Junho: Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após a outra, até substituírem, por completo: as que têm visão podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.” *

Possivelmente, o escrevinhador é condicionado pela interacção das personagens e pelo horizonte da narrativa, ele próprio sendo surpreendido por decisões que lhe escapam, impostas pela lógica implacável do enredo, pelo temperamento de uma ou de várias personagens. Quando assim é, escrever torna-se uma aventura, uma descoberta, uma possessão demoníaca…enfim, uma paixão.

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“15 de Agosto: Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio (…). Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, (…) enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.” *

* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago, ed.Caminho

Sem musa e sem paixão escrevem-se livros?

Há quem escreva para poder cumprir o fado de ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore. Se ter um filho é um acto de consequências previsíveis e imprevisíveis e plantar uma árvore é sempre um benefício, escrever um livro tanto pode causar muito mal como algum bem.

-Uma vez descobri uma partícula assim de pequena. -Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!

-Uma vez descobri uma partícula assim pequenina.
-Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!                                                                                             BASÓFIAS NO LAR DOS FÍSICOS E ESCRITORES IDOSOS

O problema é escrever sem paixão (o que também se poderá dizer de ter um filho, evidentemente). Mas a paixão não é uma condição, somente um benefício.

Lima Barreto, no início do sec.XX, comentava assim os círculos literários cariocas que frequentava:

(…) uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopeia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal (in Diário Íntimo de Lima Barreto)

Romantismo

Se o candidato a escrevinhador sente a comichão de um tema e a vontade em o desenvolver, não precisa de autorização superior para deitar mãos à obra. E se conseguir desenvolvê-lo com alguma extensão, profundidade e elevação, a ideia passa a ter as necessárias três dimensões para se tornar um objecto apreciável.

Poesia ou ficção sem paixão não deve ser fácil, mas com algum entusiasmo ou motivação fazem-se coisas.

Mais acessível para aqueles que não se sentem arrebatados pela musa, são os estudos e monografias, memórias e relatos, trabalhos escritos que exigem, principalmente, conhecimento do tema e técnica expositiva.

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Aí o escrevinhador cruza as fronteiras nebulosas da literatura e entra em domínios mais rigorosos, sujeitos a outro tipo de escrutínio: rigor, fundamentação, lógica, entre outros requisitos.

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Ah, vocabulário adequado e gramática limpinha também ajudam.

Para quê correr?

 Aperfeiçoar o estilo não é tarefa fácil, nem é preciso ser um génio para saber isso.

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O que igualmente se sabe, e diz-se menos, é que se trata dum esforço doloroso como aqueles exercícios físicos que exigem técnica e repetição para resultarem bem, satisfazendo quem o pratica. Ora, em ambos os casos a grande maioria fica-se pelos mínimos para sossegar a consciência e acreditar que, apesar de tudo, chegará à boa forma.

Níquel na Pré-História

Imagino que é por isso que se vê cada vez mais gente a participar em maratonas, meias-maratonas e outras fracções de maratona: afinal, o que conta é participar e tal e tal. Claro que se pode perguntar para quê o esforço duma prova de atletismo em meio urbano, se com esforço e alguma criatividade pode caminhar por montes e vales num fim-de-semana. Talvez por ser algo cínico, sem maldade, nem intenção, entendo que a resposta anda para os lados da mediatização, dos fenómenos de massas, das modas e tendências que preenchem os espaços de debate e da criação.

Na escrita observa-se algo semelhante: muito escrevinhador sente-se satisfeito por participar em tertúlias, colectâneas e concursos, aceita o elogio fácil e tenta não se melindrar com as críticas maldosas. O que até pode ser muito reconfortante, claro, mas não resulta em aperfeiçoamento.

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A VIDA em oito passos simples
1-2-3-4-5-6-7- 8: repetir passos de 1 a 7 até que a morte o leve.

E, tão ou mais importante: cadê o grãozinho de loucura? Onde a sedução

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Vozes do Outro-Mundo

Por vezes, o escrevinhador é assombrado por fantasmagorias apelando a uma memória colectiva, tanto reclamando o ajuste de contas com o Passado, como a celebração dum Futuro de outra época, ainda que negado e destruído, e que, de algum modo, preparou o Presente.

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Pintura de Cândido Portinari

O apelo do passado remoto de outras vidas pode incentivar à pesquisa de documentos e relatos, resultando num estudo onde janelas de luz se abrem para novos factos e outras interpretações.

Ou assim o escrevinhador pressente, sofrendo o abalo duma revelação:

O passado não abre a sua porta/ e não pode entender a nossa pena./ Mas, nos campos sem fim que o sonho corta, / vejo uma forma no ar subir serena:/ vaga forma, do tempo desprendida./ É a mão do Alferes, que de longe acena. /Eloqüência da simples despedida:/ “Adeus! que trabalhar vou para todos!…” (Esse adeus estremece a minha vida.) *

Assim como também tem vezes em que o escrevinhador vai atrás duma história e é possuído por outra, que se impõe pela urgência e passa a fazer parte dele mesmo:

Quando, há cerca de 15 anos, cheguei pela primeira vez a Ouro Preto, o Gênio que a protege descerrou, como num teatro, o véu das recordações que, mais do que a sua bruma, envolve estas montanhas e estas casas, e todo o presente emudeceu, como platéia humilde (…)

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Pintura de A.Almeida

Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores (…). Na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (…). Então, dos grandes edifícios, um apelo irresistível me atraía (…)

Deixei Ouro Preto e seguiram comigo todos esses fantasmas. Seguiram outros (…).’ **

A escrita deixa de ser mero ofício ou prazer artístico, torna-se paixão. Escrever como quem dá voz a vozes de outro tempo, outro mundo.

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* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

Com um grãozinho de loucura

Pois, a loucura…essa porta aberta para o lado de lá do espelho! Não se diz de todo o artista que tem algo de louco?

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Os antigos gregos distinguiam a doença, propriamente dita, da loucura por inspiração divina ‘que atira connosco para fora das regras rotineiras‘(in Fedro de Platão), e consoante o deus, a louca inspiração tinha sua especialização.

Ora, os dons divinos sempre têm um lado sombrio: Demódoco era ‘(…) o exímio aedo [poeta, cantor e tocador de lira], a  quem a Musa muito amava. Dera-lhe tanto o bem como o mal. Privara-o da vista dos olhos; mas um doce canto lhe concedera’ (in Odisseia de Homero, tradução de Frederico Lourenço, ed.Livros Cotovia  2003)386327_309440535742834_1090181842_n.

Como se o excesso de talento tivesse de ser compensado por um défice de saúde, bom-senso ou outra qualquer qualidade. Pode, também, ter uma vida atribulada (para dizer o mínimo) como a do mítico bardo Taliesin, que suportava mal os seus colegas da corte  e lhes dizia, cantando:

‘E eu sei, de ciência mui certa,/Que vós não sabeis como entender/Este meu cantar./E sei também, de clara ciência,/Que vós não sabeis fazer a deslinda/Entre a verdade e a falsidade./Vós todos, bardos sem tamanho,/Corvos do poder!Batei vossas asas, fugi voando./Onde está o bardo que me cale?’ (da ‘Repreensão dos Bardos’ in Mabinogion, trad.José Domingos Morais ed.Assirio e Alvim 2000)

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O que Taliesin censurava, afinal, era a falta de inspiração (divina, claro está) e, portanto, de autenticidade: para servirem quem lhes pagasse, os bardos sabiam técnicas (‘loas sem moral’, ‘ditos sem razão’), mas não passavam de ‘arautos da falsidade’.

Porque Taliesin, evidentemente, não despreza ‘rimas e versos/nem a arte de bem cantar‘, mas despreza e não respeita ‘quem abusa a divina graça,/em blasfémias se deleita‘. No Livro de Taliesin, ele próprio se apresenta como alguém que já foi ‘uma mensagem escrita’ e ‘um livro’ (para além de muitas outras coisas da natureza animada e inanimada).

De algum modo, a crítica de Taliesin ressoa nos versos de Caeiro quando este censura quem repete o que ouviu ao vento: ‘Nunca ouviste passar o vento./O vento só fala do vento./O que lhe ouviste foi mentira,/E a mentira está em ti.’

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Assim como parece que o panteísmo do bardo se reflecte no guardador de rebanhos: ‘Penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/E com o nariz e a boca/(…)/Por isso (…)/(…)/Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,/Sei a verdade e sou feliz.’

A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

A ficção é tão real quanto a verdade

A vida do escrevinhador é dura, sem dúvida. E não é justa, a maioria das vezes: pode ter o plano da obra ao pormenor, tempo e condições, força de vontade para dedicar horas, dias e semanas consecutivas e, entretanto, nada do que escreve o satisfaz. Excesso de rigor para consigo mesmo? Pode ser.

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Ou, simplesmente, falta-lhe paixão. O trabalho da escrita é isso mesmo: trabalho, e nota-se quando a aplicação é metódica, mecânica, certinha, limpinha. Ora, a paixão exige desequilíbrios e vertigens. Eventualmente. Porque, na literatura, como na paixão, nada é certo.

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E vale tudo, como no conto de Borges Emma Zunz. A personagem Emma Zunz elabora uma ficção para atingir certos fins na vida real: vingar o pai, apresentando-se como vítima daquele que ela mesma matou. O morto, e verdadeira vítima, ‘era, para todos, um homem sério;(…)Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto que o eximia de agir bem a troco de orações e devoções.’(in O Aleph de Jorge Luis Borges, ed.Estampa 1988, trad.Flávio José Cardoso)

Ora, a ficção que Emma concebeu para matá-lo em legítima defesa ‘era incrível, com efeito, mas impôs-se a todos,pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas algumas circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.’

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Escrever como quem conta um conto e acrescenta um ponto (omitindo dois ou três).

A força do estereótipo

No tempo em que minha filha era pequenita, ela tinha de memorizar uns poemas ou cançonetas para recitar na escola diante de toda a turma. Além do nervoso miudinho de se expor ao ridículo, havia a dificuldade de memorizar todo o texto; quando achava que estava minimamente preparada vinha ensaiar para mim e, geralmente, fazia-o numa toada qualquer que a professora dera na apresentação do trabalho.

Esse é um dos vícios mais comuns de escrita, o de reproduzirmos esquemas que são habituais em determinadas situações e enredos. A esse vício chama-se estereótipo, numa alusão explícita à impressão em série da mesma imagem ou texto (também usamos o galicismo cliché com o mesmo sentido).

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Ora, nada é menos estimulante do que ouvirmos a enésima reprodução duma qualquer abordagem narrativa (seja a dum belo pôr-do-sol que traz melancolia e/ou paz ao espírito, seja a da rapariga má que estraga a vida ao casal tão feliz).

A massificação da produção artística, a sua industrialização, não só na literatura, como no cinema e na televisão principalmente, exploraram os estereótipos ad nauseam. As redes sociais na internet tornaram-nos um problema público de higiene mental.

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Porém, a literatura permite uma autonomia e resistência frente a esse condicionamento cultural que leva a colocar um (in)evitável adjetivo logo a seguir a determinados substantivos (tipo a “lua prateada” e o “sol dourado”). E permite-o porque nós, escrevinhadores, somos criaturas que podemos trabalhar por conta própria, na solidão, no anonimato, fazendo deste modo de vida uma paixão pela bela Musa.

À minha filha, após ela ensaiar a recitação ou cançoneta, sugeria-lhe para repetir, mas dessa vez como se estivesse muito, mas muito feliz. E, a seguir, como se estivesse triste, mas mesmo muito triste. E muito zangada, depois.

Chiclete com Banana

No dia seguinte aquilo acabava por lhe sair bem, dentro do modo convencional e politicamente correcto. E nós divertíamo-nos até às lágrimas nos ensaios; ao nosso modo, tentávamos desconstruir modelos consagrados.

Escrever como tempero

A abordagem enciclopédica, transmitida através duma linguagem simultaneamente poética e rigorosa, pode levar o autor a desenvolver o tema de modo caleidoscópico. Ou como quem tempera alegremente o prato favorito.

Escrevo estas linhas pensando num dos livros que mais me tocaram: Breviário Mediterrânico, de Pedrag Matvejevitch (ed.Quetzal).

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Um livro sobre geografia, portanto, em que o autor começa por dizer, logo na primeira linha: “Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar.” Pode-se ser, simultaneamente, mais claro e preciso? E mais adiante, acrescenta: “O Mediterrâneo não é apenas uma geografia.”

Claramente, não é um geógrafo a falar, nem mesmo um historiador como Fernand Braudel a situar o tempo de Filipe II no espaço mediterrânico (ou vice-versa): “ A veemência meridional introduz, tanto nos palavrões populares como nas blasfémias puníveis com o inferno, uma parte maior ou menor do corpo, e às vezes o corpo inteiro, exibindo-o ou fingindo oferecê-lo”. Como quem diz: as palavras têm cores, sabores e nutrientes.

Pedrag Matvejevitch é um professor de literatura francesa que escreve sobre o Mediterrâneo…que há mesmo a esperar saído dum autor assim sobre um assunto que lhe é tão estranho, não é mesmo? “Quanto mais conhecemos o Mediterrâneo, menos o vemos apenas com os nossos olhos: este mar não é de solidão.”

Matthew Cusick, Collages de mapas

Escrever como quem prepara uma sopa de pedra…

“Só” mais uma nota a propósito da arte da sedução

Seduzir ou paixão são vocábulos usados com alguma frequência nestes posts e têm suscitado algumas interrogações (suspeito mesmo que alguma irritação…).

Como todo o vocábulo, estes dois carregam consigo uma história, uma tradição de uso, um sentido corrente.

MUNDO MONSTRO      ADÃO10

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Aqui assume-se tudo isso e acrescenta-se-lhes um sentido peculiar, mas nada original: o prazer de escrever (e de escrever sobre esta e aquela “coisa”), apesar de não ser condição suficiente para a qualidade do texto, é fundamental para que este brilhe, e ao brilhar, atraia atenções, seduza.

Ora, se bem que “prazer” não rime com “paixão”, a verdade é que dificilmente se passam horas frente à folha de papel (folha de papel? figura de estilo anacrónica, realmente), meses à volta dum texto, anos procurando exprimir algo, sem haver paixão.

Claro, a motivação por detrás de todo esse esforço pode ser uma obsessão e escrever uma necessidade, uma terapia, um alívio. Aí, “prazer” e “paixão” poderão ser vocábulos inapropriados, de facto.

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Quando o próprio autor recomenda ao leitor “(…) tende cautela, não vos faça mal…Que é o livro mais triste que há em Portugal!” podemos recear pelo que vamos encontrar, mas se formos surpreendidos por retratos cheios de vida e movimento “Ao pescoço serpentes de cordões, e sobre os seios entre cruzes, como espadas, Além do seu, mais trinta corações! Vá! Georges, faz-te Manel! viola ao peito. Que hão-de gostar! Tira o chapéu, silêncio! Passa a procissão” a leitura deixa de ser previsível, cria-se uma tensão entre o texto e a expectativa do leitor.

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E se o autor acrescentar tópicos e inquietações invulgares, formuladas de modo original “Qu’é dos Pintores do meu país estranho, Onde estão eles que não me vêm pintar?” o livro revelará, sem desmerecer a cautela inicial, estados de espírito muito mais subtis, sugerindo outros sentidos, diferentes sensibilidades. Além dum sentido de humor admirável.

Portanto, como posso acreditar que o autor de não teve prazer ao escrevê-lo, estruturando-o com reflexão, detalhe e ousadia, ciente de assim surpreender e seduzir a leitora melancólica, levando-a a sorrir contra a vontade e, ocasionalmente, arrancando-lhe uma gargalhada?

AVISO: os livros podem provocar reacções inapropriadas. Seja prudente quando leia em público.

AVISO:
Livros podem provocar reacções inapropriadas.
Seja prudente quando leia em público.

Marketing e Literatura

O desespero de quem escreve e quer editar (e se consegue a almejada edição, logo a quer promover e vender rapidamente), leva a questionar quais os “segredos”, as técnicas”, para atingir esses objectivos. Tudo desejos legítimos e naturais para os quais não há que ter vergonha ou sentir culpa.

Será o título? Um título apelativo, mobilizador, que fica no ouvido?

Ou é mesmo o tema? Vampiros contra lobisomens ainda está na moda?

Talvez o famoso arranque logo na primeira página que agarra a atenção do leitor distraído ou aborrecido.

É a capa quem atrai o leitor num primeiro tempo, dirão os perspicazes.

Depois, as redes sociais farão o milagre. Diz-se. Melhor mesmo só aparecendo na TV.

Tudo questões pertinentes para o editor, sem dúvida. Mas sem sentido quando o livro ainda está por escrever.

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Reconheço o valor de qualquer uma das questões anteriores, todas têm relevância para a promoção e o impacto da obra perante um público que desconhece o autor. Daí a importância estratégica duma editora competente, daí os conflitos entre a editora e o autor sobre estes e outros aspectos do livro a publicar. Daí a falta que faz a figura do “agente literário” no nosso pequeno mundo da Língua Portuguesa.

Mas este blog limita-se à área da criação, cultiva o culto da inspiração, ou seja, o da relação erótica e fiel com a bela Musa. E fá-lo por defeito. “Defeito”, sim, no sentido de imperfeição (não como anglicismo importado pela prática de “correr” programas informáticos e quejandos). A escrita é uma pulsão, uma “necessidade interior”. É possível que seja, até, uma patologia benigna. Acima de tudo, e desejavelmente, deve ser uma paixão.

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Conseguir equilibrar os excessos dessa paixão com o rigor da gramática, estruturando um texto legível e interessante, parece-me uma tarefa suficientemente complexa e absorvente. E, por defeito e limitação assumidas, apetece-me dizer como Guerra Junqueiro dizia de cada livro que concluía, que  era como deixar um filho na “roda”: a partir daí deixava-se de preocupar com o que viesse a acontecer-lhe.

A “roda” de que falava era uma placa giratória, na parede de certos conventos, onde quem passasse na rua podia deixar os recém-nascidos ao cuidado das freiras. Exagero dele, certamente.

Poesia e estados de ânimo

A nostalgia do tempo perdido, será esse o tema da poesia? Da dor, da perca, da separação, do repúdio. (ver nota 1)

Há quem desenvolva elaborado misticismo à volta da Saudade. E diga que é um tema nacional.

Como se não houvesse poesia alegre, sensual e toda virada para o presente. (ver nota 2)946588_596544917036820_1077050884_n

 

O toque da Musa

Há poemas com a brevidade e a força dum raio caído do céu, a linguagem de tal forma depurada, o raciocínio tão claro, que ferem o leitor. E este fica com a ilusão de partilhar um momento divino: o da musa que tocou o poeta.

Porém, se a inspiração é a matéria-prima da poesia, não esquecer a laboriosa arte do ouvido (ver nota 1), a sensibilidade do corpo ao movimento (ver nota 2), o difícil equilíbrio entre a ideia e a emoção (ver nota 3)

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Título do livro: “Você”
Escritor: -Não é sobre o que você tem…mas sobre quem você é.
Homem na assistência: -E “quem poderia ter sido” não conta?

Sem advogar métodos e normas, parece-me prudente não dar jamais por concluído o poema sem meditar nestes três aspectos.

Rima, métrica?! Falha minha certamente, que nunca fui dado às ciências exactas.

Ainda há quem consiga ler um livro genial?

As dificuldades da leitura do Grande Sertão: Veredas são o paradoxo da própria expressão artística: a originalidade da escrita “exige” entrega do leitor, sua dedicação (tempo e qualidade de leitura), para se “deixar levar” na corrente do discurso do narrador e do seu peculiar modo de se exprimir.

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(clicar encima para ampliar)

Em forma de monólogo (como n’ O Malhadinhas), o personagem central da história conta a sua vida, dirigindo-se a alguém a quem chama “doutor”, de outra condição social e estranho ao mundo do Sertão, muitos anos depois dos acontecimentos narrados.

Mas a narrativa de Riobaldo não é linear, frequentemente interrompida por reflexões a que se sucedem relatos episódicos da vida. O recurso dos neologismos, das onomatopeias, de palavras do português antigo, do imaginário sertanejo (fortemente devedor do imaginário europeu medieval), de frases construídas ao arrepio da boa lógica ou gramática, ultrapassam os limites da expressividade a que qualquer linguagem restringe as emoções, permitindo assim ao leitor penetrar no sentido profundo da narração.

Um dos aspectos mais interessantes do Grande Sertão: Veredas está, precisamente, em ser uma obra a todos os títulos original, tributária duma longa tradição literária, a começar pelos romances medievais, reflectindo a origem e a evolução da Língua Portuguesa no modo como constrói frases e vocábulos.

A história vai ganhando ritmo, desenvolvendo um eixo (a vida de jagunço e, desta, a vingança contra o inimigo Hermógenes) onde giram, com igual significado para o narrador e para a narração, temas recorrentes que atormentam Riobaldo: o amor por Otacília (que virá a ser sua mulher), o amor secreto por Diadorim (seu amigo cangaceiro), o Demo (que teima em  se convencer que não existe) e o pacto que celebraram ambos (mas que não sabe ao certo se aconteceu) em determinado lugar (que veio a saber depois que não existe).

Acima de tudo, porque tudo o mais ganha novo sentido com a revelação, o segredo imenso que Diadorim trazia consigo e que Riobaldo só vem a descobrir tarde de mais. Aqui, a narrativa assume uma dimensão trágica, ainda para mais associada ao tema faustiano da venda da alma ao Diabo.

Sua originalidade assenta, entre outros aspectos, no modo aparentemente caótico da narrativa (o narrador facilmente perde o fio à meada e frequentemente se afunda nas suas angústias) associado à peculiar linguagem e expressividade do narrador (poética, ritmada, hesitante, pontuada de interrogações), onde nem o próprio, por vezes, tem a certeza de dizer a verdade do que viu.

Infelizmente, toda esta riqueza torna a leitura problemática, de difícil acesso ao leitor, principalmente quando não está habituado a ter de “lidar” com estruturas fora do comum e ter de ser ele próprio a retirar o sentido duma frase que, à letra, nada ou pouco diz. Ou a ter de completar entreditos, perceber alusões.

Bem diversa da narrativa literária onde a ausência da ambiguidade, o contraste marcado (entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, etc), a utilização do vocabulário corrente, uma construção com principio, meio e fim, personagens tipificados desde o início, a opção por um tema que, por mais exótico que seja aparentemente, se reduz às mesmas problemáticas do dia-a-dia do leitor, tornam a leitura fácil e a “mensagem” compreensível.

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A expressividade das emoções

A expressão escrita das emoções enfrenta o desafio da desproporção: se a linguagem for medida e controlada em excesso, perde eficácia e naturalidade; se, pelo contrário, for excessiva, hiperbólica, arrisca-se ao ridículo ou a ser tomada como um fingimento.

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-Tudo o que você faz é perguntar-me como me sinto.
-E como se sente quando pergunto isso?

A linguagem sofre de grandes limitações para exprimir satisfatoriamente as emoções, daí o recurso às metáforas para poder libertar-se dos limites da lógica e do objectivo.

(…)
E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas…
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas…
(Florbela Espanca Frémito do Meu Corpo a Procurar-te)

Recurso, bem entendido, que pode levar à repetição de fórmulas conhecidas, tornando-se banal, monótono, cliché.

Surpreendendo pela imagem e associação de ideias, torna-se possível a transmissão das emoções mais profundas ou violentas, apelando ao leitor a sua participação activa para preencher as lacunas do discurso lógico e estabelecer empatia com o autor.

a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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Bagagem literária

Ninguém surge do nada: quando tomamos a opção de nos dedicar à escrita, de modo mais ou menos sério, já estamos condicionados pela nossa história de vida.

Se alguém tem a felicidade de ser criado entre bibliotecas familiares (pais, tios, avós), as leituras surgem espontaneamente. De outro modo hão-de surgir mais tarde, talvez mais direccionadas para certos temas.

O importante é a tomada de consciência do processo (a formação duma “bagagem” literária), o apurar da sensibilidade, a curiosidade e, já o disse, a paixão.

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Vícios privados, públicas virtudes

Saber gramática, ter vocabulário, cultivar referências literárias e outras,  é essencial e faz a diferença. A escola, primária ou universitária, não são irrelevantes, longe disso!

Mas a gramática, o vocabulário, as referências, tudo isso se pode aprender e exercitar de modo quase intuitivo, se o escritor for um leitor atento e omnívoro.

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Paixão não rima com rotina, certeza ou segurança

O que foi dito atrás sobre as paixões não é de grande utilidade para quem escreva ou pretenda fazê-lo. Não porque seja irrelevante, mas por ser daquelas matérias de estudo e reflexão que só ganham sentido se a vida for vivida plenamente. Disso fala extensamente a literatura universal, e acrescenta que se não dermos o passo para fora da casca da rotina, para o exterior da concha de certezas que nos defendem da dúvida, paixão torna-se uma palavra oca.

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Ler é fundamental

A paixão que falo também pode ser tão serena como um koan, alimentando-se dum grãozinho de loucura que desequilibra toda a expectativa, sem trair o propósito do autor.

Por ela, podem se passar anos a trabalhar o texto, polindo da frase a adjectivação e aguçando-a com verbos intransitivos.

Sim, apesar de haver inúmeros exemplos de poetas e narradores analfabetos, para escrever faz diferença conhecer a língua escrita, uma outra forma de dizer que “ler é fundamental”.

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Paixão

Um problema das paixões é serem confundidas pelo próprio com paixonetas, gostos, afectos. E pela necessidade irresistível de falar (neste caso, escrever). O resultado é, quase sempre, medíocre.
A paixão pode levar à loucura, ou certas paixões levarem a marca duma certa loucura, o que noutros tempos chamava-se melancolia (para ambos os sexos), histeria (para o sexo feminino), húbris (para o sexo masculino), ou surgindo na forma duma qualquer monomania, parafilias e vícios obscuros.

Todas elas terão produzido bons textos, efectivamente.

Mas dificilmente o autor cavalga o animal bravio das paixões desmedidas.

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Alquimia e Apocalipse

Muito raramente, mas sem excepção de assunto, encontro um desses livros, dum desses autores, que me ajuda a passar para lá do espelho e dizer: “Ah! Afinal, isto tem interesse!” Qual o segredo? Que alquimia contém aquela prosa para transformar o assunto mais árido num oásis…mais: num verdadeiro apocalipse?

Paixão. E nem se trata de paixão desenfreada, louca, palpitante. Mas do domínio do assunto associado à capacidade de o comunicar de forma inteligente e prática. Que, no fundo, é a arte de viver os detalhes sem perder o conjunto (ou vice-versa). E transmitir a vertente pessoal. Na verdade, há pessoas que têm o dom de revelar o divino, oculto nos 75 artigos dum regulamento camarário ou no modo como se monta um aparelhómetro movido a electricidade. Chamo a isso “paixão” e não conheço epifania maior.

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Escritores e Leitores

Se fosse cozinheiro e tivesse de escolher “o” ingrediente para temperar a comida, escolheria a “paixão”. Não exagero quando digo que gosto ler de tudo, pois já me caíram nas mãos pequenos manuais, livros insignificantes, brochuras, onde se fala das coisas mais inverosímeis, da criação de roedores de estimação à aplicação de determinado imposto, suas taxas, isenções e inevitáveis coimas.

Na esmagadora maioria dos casos, se me intriga a existência de quem os escreva, fico abismado com o interesse de quem os procura, paga para leva-los para casa e dedica horas na sua leitura, por vezes de modo obsessivo.

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