escrever como?

tópicos e dicas para escrita

Tag: palavra

Sobre o famigerado Acordo Ortográfico

Se a gramática não oferece a flexibilidade que permita que a alterem por decreto, já a ortografia pode sofrer mudanças profundas ao longo dum só século.

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. (1)

segundo-a-nova-regra-ortografica-plateia-nao-tem-mais-acento-agora-todos-ficam-em-pe-1870

Nas últimas décadas, o escrevinhador de língua portuguesa é confrontado com as regras do ‘novo’ Acordo Ortográfico e pode se questionar (legitimamente, entendo eu de que) se o deve seguir. Provavelmente, ao ser publicada, a sua obra será editada de acordo com o Acordo.

Inverdade é o mesmo que mentira, mas mentira de luva de pelica. Vede bem a diferença. Mentira só, nua e crua, dada na bochecha, dói. Inverdade, embora dita com energia, não obriga a ir aos queixos da pessoa que a profere. (…) Não achei a certidão de batismo da inverdade; pode ser até que nem se batizasse. Não nasceu do povo, isso creio. Entretanto, esta moça, pode ainda casar, conceber e aumentar a família do léxicon. Ouso até afirmar que há nela alguns sinais de pessoa que está de esperanças. E o filho é macho; e há de chamar-se inverdadeiro. Não se achará melhor eufemismo de mentiroso; é ainda mais doce que sua mãe, posto que seja feio de cara; mas quem vê cara, não vê corações. (2)

15134231

Sendo um leigo na matéria, tenho o discernimento suficiente do usuário (palavra feia de cara que faz parte da terminologia dominante) para poder acompanhar o debate entre especialistas e formar a minha opinião.

Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência a vossa!/ Éreis um sopro na aragem…/— sois um homem que se enforca! (3)

15268470

A evolução da ortografia (e da gramática) faz parte da ecologia das línguas, mas a partir de certa altura passou a ser regulada pelos critérios académicos que podem (ou não) ter implicações legais e estabelecer a norma a seguir no ensino e nos textos oficiais. Que esses critérios sejam discutíveis não é para admirar, pois mexem em algo tão sensível ao escrevinhador.

A dois séculos de deseducação ministrada por pseudo-humanistas, que de latim só sabiam o latim (tornando-o assim deveras uma língua morta) seguiu-se um século de deseducação ministrada por um anti-humanismo, que nem português, quanto mais latim, sabiam. (4)

15288324

A deriva duma língua por territórios separados milhares de quilómetros, mesmo que praticada pelo mesmo povo e com a mesma cultura, é simplesmente inevitável. Se a língua for falada e escrita por diferentes povos, diferentes culturas, o processo tende a ser mais rápido. Nada de novo para um usuário duma língua neolatina.

Eu tenho notado nas rodas que hei freqüentado, exceto a do Alcides, uma nefasta influência dos portugueses. Não é o Eça, que inegavelmente quem fala português não o pode ignorar, são figuras subalternas: Fialho e menores.

Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre eles um que conscienciosamente procure escrever como o seu meio o pede e o requer, (…). (5)

15094226

lost in translation…

Para retardar esse processo, acordos ortográficos entre os países falantes duma língua trazem benefícios evidentes para a comunicação e cultura comuns, assim como para a economia. Isso não impede que cada país desenvolva as suas peculiaridades que podem ser completamente incompreensíveis senão houver explicação/tradução: podem ser regionalismos (no interior do mesmo universo linguístico) como contaminações, heranças, importações de outros universos.

Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. (6)

16179243

Tudo isto é a delícia do viajante apaixonado pelo exotismo das sonoridades, do escrevinhador familiarizado com essas peculiaridades e tentado a explorá-las para melhor caracterização de ambientes e de personagens, do leitor ávido da sedução dos símbolos e dos significantes.

Estilizei, como não, pela necessidade de fugir à melopeia e à pouca extensão do dizer popular: mas o lexicon é o deles; as minhas vozes ouvi-lhas. Sou mais cronista que carpinteiro de romance. (7)

14192465

E quantos escrevinhadores, com maior ou menor sucesso, não se entretêm a recriar ou, mesmo, a criar novas palavras, expressões ou línguas?

01_03

Poema de Augusto de Campos

Quem se dê ao trabalho de acompanhar os posts deste blogue, provavelmente já percebeu que a posição aqui expressa é a da fluidez do sentido e a da plasticidade da palavra, num desafio à inteligência e ao gosto do leitor. Fluidez e plasticidade são tanto mais eficazes e sedutoras quanto o escrevinhador e o seu leitor partilhem referências, ou seja, têm um património linguístico e literário comum.

Deixa que fale dos/ pássaros/ a voarem do meu peito (8)

cr45jzzusaadtgq

Dito de outra forma: a língua tem uma história, segue padrões estabelecidos segundo critérios consagrados, evolui e diverge no tempo e no espaço (mas também nas diferentes comunidades de falantes), outras vezes enriquece-se com vocábulos completamente estranhos. Alguém disse até que é um vírus.

Vida toda linguagem/ feto sugando em língua compassiva/ o sangue que criança espalhará—oh metáfora activa!/ leite jorrado em fonte adolescente,/ sémen de homens maduros, verbo, verbo. (9)

Pela minha parte, sem pretensões elitistas ou preconceitos culturais (quero crer…), entendo que todo este processo é mais rico e produtivo se houver consciência dessa história e desses padrões, mesmo que seja ao nível básico de estranhar uma consoante muda e ter curiosidade em saber a razão da sua persistência: fóssil vivo do latim original ou indicador da acentuação duma vogal? Mesmo sem perceber a dúvida, abre-se ao escrevinhador (e ao leitor) todo um mundo novo.

Ouvi dizer que este homem possui mais línguas mortas que uma salsicharia. Quanto às vivas, já transpôs os penetrais da Europa à cata de alfabetos; e, quando tiver explorado a glótica dos hemisférios ambos, tenciona estudar as elegâncias da língua pátria e mais a retórica do padre Cardoso. (10)

14938360_1529364310423872_3008014928064768720_n

Porém, entendo o critério contabilístico que passa por cima das dúvidas e recomenda a formatação simples de modo a fazer de nós—falantes, leitores e escrevinhadores— meros usuários e consumidores.

(…) até que o pranto/ De todas as palavras me liberte (11)

dilbert-marketing

(1) in Água Viva de Clarice Lispector, ed.Rocco

(2) Machado de Assis, artigo publicado n’A Semana em 14 de Março de 1893

(3)  ‘Romance LIII ou das Palavras Aéreas’ in O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

(4) ‘Poemas’ in Apreciações Literárias-bosquejos e esquemas críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(5) in Diário Íntimo de Lima Barreto

(6) João Guimarães Rosa, entrevista a Arnaldo Saraiva em 1966

(7) ‘Dedicatória a Carlos Malheiro Dias’ in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, ed.Livraria Bertrand

(8)  ‘Entrançamento’ de Maria Teresa Horta in Só de Amor , ed.Dom Quixote

(9) ‘Vida toda linguagem’ de Mário Faustino in Antologia da Poesia Brasileira, ed.Verbo

(10)  ‘Sebenta, bolas e bulas’ de Camilo Castelo Branco in Boémia do Espírito, ed.Lello & Irmão

(11) ‘Que poema…’ in Coral de Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética vol.I ed.Caminho

Anúncios

A palavra, o texto e a escrita

Não tenho como evitá-lo, logo insisto: ler é fundamental.

(…) publicavam-se inúmeros romances de conversa de anatomia social, cavavam-se galerias sob a arte de bem redigir, para apresentar a plebe com seus calões e os seus vícios de linguagem. (…), fazia-se um autor dum pequeno aventureiro que começava a despertar para as experiências (…). (1)

1075

 

Quando o bom leitor (e já adiantei o que entendo por isto aqui e ali, com as devidas ressalvas) se torna escrevinhador, os resultados podem ser catastróficos. Mas mais facilmente acontece o mesmo ao mau leitor ou não-leitor, como se pode rapidamente confirmar nos escaparates das livrarias das grandes superfícies ou dos postos de correios.

O nosso primeiro movimento, para ajuizar do valor de um livro, ou de um homem, ou de uma música, é perguntar-nos: “Sabe caminhar? Melhor ainda: sabe dançar?” (2)

nietzche

Só posso crer num deus que saiba dançar!

As vantagens da boa leitura para a escrita podiam limitar-se à percepção do valor daquilo que é escrito pelo próprio e já bastava. Felizmente, há mais do que isso.

—Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?

—Não consentiremos de maneira nenhuma.

—Logo, deveremos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. (3)

pensamento-de-pobre-1239556715-thumbnail

Porém, a sensibilidade ao valor da palavra e à sua tecelagem, seja em forma oral, seja por escrito, é algo que não se limita à leitura e exige, até, bom ouvido e alguma reacção epidérmica. Ou seja, tem qualquer coisa de musical e a poesia é a sua formulação mais óbvia, tradicional. Independentemente do que é dito, o modo como é dito é o que nos interessa aqui. Formalismo? Sim, claro e, todavia, não. Rotundamente não.

Depois fiz muitas cantigas, de dança e de rua/ para judias e mouras e para namoradeiras,/ para tocar em instrumentos melodias conhecidas:/ o cantar que não sabes, escuta-o às cantadeiras./ Cantares fiz alguns, daqueles que dizem os cegos/ e para estudantes que andam nas noitadas, (…) (4)

poesia concreta

A construção do texto não é arbitrária, como dolorosamente constatei nos compêndios de gramática dos meus anos de escola, e é por demais evidente quando se lê coisas escritas por escrevinhadores que pecam por não ler e, pior ainda, por não ter ouvido. Pois muito analfabeto foi responsável pela elaboração de textos literários excepcionais, principalmente em sociedades onde a produção escrita era inexistente ou quase.

“A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. (…) e uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português.” (5)

slide_9

Quando se passa da oralidade à escrita, tudo é evidente: os erros tornam-se flagrantes, a dissonância indisfarçável.

O nosso professor de francês nasceu no Minho e, até em francês, trocava os vvvvvvv por bbbbbbb. (6)

'I can't read this, you must write more clearly.' - 'If I did that, you'd see all my spelling mistakes.'

‘Não consigo ler isto, tem de escrever de modo mais claro.’ – ‘Se o fizesse, ia notar todos os meus erros de ortografia!’

Daí que a escrita exija tempo e prática regular, não dispensando a leitura dos textos bons (principalmente) e de todos os outros (para perceber as diferenças). Com o tempo, o escrevinhador (-leitor) percebe intuitivamente que existem vários modos de dizer te amo ou que a adjectivação pode ser como a cor de certas gravatas amarelas. A prática, essa, poderá levá-lo a aprender com os erros e a resistir à tentação de ir ao encontro do que julga ser o gosto dominante, sem cair no facilitismo da ‘originalidade’.

Amor, Amor, um hábito talhei para mim/ do vosso pano, vestindo-me o espírito;/ no vestir, muito largo o senti,/ e bastante apertado, quando sobre mim se ajustou. (7)

16b2ef98-291d-4527-bf7b-765dfeff8263-525x720

Com a idade e a experiência do mundo, o escrevinhador talvez venha a decifrar o esfíngico enigma: vale tudo e nada é garantido. Literariamente falando, é claro.

Deixa dizer-te os lindos versos raros/ Que foram feitos para te endoidecer! (8)

61

(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in A Gaia Ciência §366 de Frederico Nietzsche, trad.Alfredo Margarido ed.Guimarães & Cª

(3) in A República de Platão, trad.Mª Helena da Rocha Pereira ed.Fundação Calouste Gulbenkian

(4) in Libro de Buen Amor do Arcipreste de Hita, org.José Luis Girón Alconchel, ed.Castalia

(5) in Conpozissõis Infãtis de Millôr Fernandes, ed.nordica

(6) in Calçada do Sol de José Gomes Ferreira, ed.Moraes

(7) ‘LXXVII’ in Poesies de Ausiàs March, ed.Barcino

(8) ‘Os versos que te fiz’ in O Livro de Soror Saudade-Poesia Completa de Florbela Espanca, ed.Bertrand

O (des)equilíbrio entre a palavra e a ideia

O uso da palavra como matéria-prima essencial do texto nunca deveria ser menosprezado, mesmo pelo escrevinhador sem pretensões literárias. Esse menosprezo apenas revelará suas próprias limitações. O que não é o mesmo que dizer que o fetichismo da palavra seja garantia de qualidade.

“Ler bem” é ajustar a proximidade da presença sentida num texto a todos os níveis do encontro: espiritual, intelectual, fonético e até “carnal” (o texto actua sobre o nervo e sobre o músculo, como a música). (1)

“Permission to write a poem, sir?”

“Permissão para escrever um poema, capitão?

Recorrer a palavras ‘caras’ (difíceis, raras, em desuso) pode ser um bom artifício, como uma excelente proposta de reflexão e ponto de partida para um algures narrativo ou ensaístico. Mas todo o cuidado é pouco para evitar o pedantismo ou as dificuldades de comunicação para além do razoável.

Mas devo reconhecer que foi precisamente o desencontro, a ambiguidade, esta melancolia face ao efémero e ao precário, a origem da literatura na minha vida. (2)

shit-happens-mickey-mouse

Na poesia a palavra tem um peso diferente daquele que pode adquirir num texto em prosa, apesar das distinções entre uma e outra estarem esbatidas nos últimos 150 anos: o texto poético valoriza (ou tende a valorizar) a materialidade da palavra pela sonoridade no texto, criando efeitos tanto maiores quando lidos ou expressos em voz alta. Igualmente, o texto duma peça de teatro procura retirar efeito dessa materialidade.

Juan: Devias estar em casa. / Yerma: Entretive-me. / Juan: Não compreendo em que te tenhas entretido. / Yerma: Ouvia cantar os pássaros. / Juan: Está bem. Assim darás com que falar às pessoas. / Yerma: Juan, que pensas? / Juan: Não o digo por ti, digo pelas pessoas. / Yerma: Punhalada que lhes dêem às pessoas! / Juan: Não amaldiçoes. Fica feio numa mulher. / Yerma: Oxalá fosse eu uma mulher. (3)

segundo-a-nova-regra-ortografica-plateia-nao-tem-mais-acento-agora-todos-ficam-em-pe-1870

Num caso ou no outro, pode consegui-lo com efeitos mais estéticos (digamos assim, para facilitar) do que dramáticos. Pode fazê-lo melhor ou pior, e certamente não agradará a todos (o que, em si, não só não deve constituir um problema, como é uma fatalidade). A vacuidade das ideias, a indolência do enredo, a banalidade do texto, os efeitos espampanantes e ocos, são perigos frequentes nestes mares da polémica em que tanta escrita naufraga sem deixar glória, nem saudade.

(…) sempre defendi a importância do desejo e da paixão. Não por serem um ideal em si, mas porque formam o elemento dinâmico da vida. (4)

'If God tells you what to say in your sermon, why do you make so many corrections?'

‘Se Deus diz-te o que vais dizer no sermão, porque fazes tantas correções?’

A saturação de ideias também pode  prejudicar, ainda que de modo diferente, o delicado equilíbrio entre forma e conteúdo: por um lado, os propósitos da escrita revelam uma urgência desmesurada; por outro, traem a insegurança do escrevinhador enquanto tal.

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus/ Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne/ E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito! (5)

QUE QUER DIZER com os meu trabalho estar errado

QUE QUÉ DIZER com o meu trabalho estar errado?!? Copiei TUDO directo da Internet!!

Mas que não se diga que o desafio não possa ser enfrentado com êxito: em toda a história da literatura universal abundam exemplos de textos densos e fascinantes.

Por outro lado, considero que ele a contou e a disse com todas as circunstâncias ditas, e que não pôde fabricar em tão breve espaço tão grande máquina de disparates; e se esta aventura parece mentira, não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la por falsa ou verdadeira, a escrevo. Tu, leitor, por seres prudente, julga o que te parecer, que não devo nem posso mais (…). (6)

media-die-dead-journalist-writer-newspaper-rron6l

“Estou a escrever o meu obituário, mas com uma surpresa: engano a morte no último minuto”

Todavia, o escrevinhador não tem que balançar entre a formulação de ideias e a manipulação da palavra. Expressar-se através da palavra é o que o distingue do escultor ou do músico, e por mais emocional ou inconsciente que sejam as urgências dessa expressividade, sugerem ideias …mesmo que involuntárias.

Na tua voz as palavras são nocturnas (7)

Ilustración de Fernando Vicente1

Ilustración de Fernando Vicente

Ou não fosse por isso que tanto escrevinhador se descobre a si mesmo através da escrita e, por isso, ainda que sem leitores, prossegue escrevendo para o baú.

Se do futuro alguém quer se defender/ Esse sou eu!/ Ninguém mo disputa./ No mercado dos versos, meus amigos/ Sou daqueles que não ficam por vender (8)

como-escrever-um-livro-inspirac3a7c3a3o1

(1) in Paixão Intacta de George Steiner, trad.Margarida Periquito e Victor Antunes ed.Relógio d’Água

(2) in Resistir de Ernesto Sabato trad.Carlos Aboim de Brito, ed.Dom Quixote

(3) in Yerma de Federico García Lorca, ed.Catedra

(4) in O Optimismo de Francesco Alberoni, trad.Cristina Rodriguez e Álvaro Guerra ed.Bertrand

(5) in ‘Saudação a Walt Whitman’ Poesia de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(6) in El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(7) in ‘Partida’ Dia do Mar de Sophia, Obra Poética ed.Caminho

(8) Ibn Ar-Ruh in O meu coração é arábe-a poesia luso-árabe colectânea organizada e traduzida por Adalberto Alves, ed. Assírio&Alvim

O uso da palavra

Para o escrevinhador, a importância da palavra deve ser bem medida, e não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo de troca. É verdade que a palavra tem a história da sua formação e genealogia, assim como a do seu uso e evolução no tempo e no espaço, que é aquilo que, à falta de melhor, chamo de valor intrínseco. Mas o escrevinhador não tem de ser erudito, nem tem de supor a erudição dos leitores. O que tem, creio eu, é de conhecer o valor dado aqui e agora à palavra e que é o que chamo o seu valor de troca.

(…) a troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente torna úteis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula: que pode valer um diamante para os homens que têm fome ou necessidade de se vestir? Basta, porém, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja agradar e um comércio suscetível de trazê-la às suas mãos, para que a pedra  se torne “riqueza indireta para seu proprietário que dela não precisa (…) daí a importância do luxo, daí o fato de haver diferença do ponto de vista das riquezas, entre necessidade, comodidade e prazer. Por outro lado, a troca faz nascer um novo tipo de valor, que é “apreciativo”: organiza entre as utilidades uma relação recíproca, que duplica a relação com a simples necessidade. (1)

1957531_10201765255078402_604668983_n

Este valor de troca é o dado no momento. Recordo, quando tinha cinco, seis anos, meu Avô ralhar-me por chamar ‘chato’ a alguém ou alguma coisa, o que me deixou bastante perplexo porque sua filha, minha Mãe, não só tolerava o uso desta palavra como a usava sem reservas. Muito mais tarde, nos primeiros anos da adolescência, percebi que as razões da aversão do meu Avô—inequivocamente na base do sentido depreciativo dado à palavra—já não eram percebidas quando usadas entre pessoas das gerações seguintes. Ou, se eram, só mesmo por adolescentes, ainda fascinados com a polissemia e subentendidos que as palavras banais podem ter. Na verdade, todos sabemos que um chato incomoda, mas dificilmente encontramos alguém que nos irrite tanto que dê coceira.

O ‘diz-me com quem andas que eu te direi quem és’ não quer dizer nada. Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas. (2)

-OH NÃO... ELES NÃO...

-Oh não… Eles não…

O ‘sentido comum’ dado aqui e agora é aquele que, com quase toda a probabilidade, o leitor dará à palavra. Não levar isso em linha de conta gera problemas de comunicação, prejudicando a leitura e provocando críticas como a de texto confuso, difícil ou pedante. Ou tudo isso à vez. O que não impede que o escrevinhador possa explorar o tal valor intrínseco (bem pelo contrário, como adiante tentarei explicar), não por pretensões eruditas (pelo menos, no caso da escrita poética ou de ficção), mas por outras: a de levar a interpretação do texto para diferentes níveis de entendimento, seja pela polissemia, seja pela ambiguidade, ou, até mesmo, pela sonoridade. Importante é que seja disso ciente, para não falhar o efeito pretendido.

(…) o romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um reportório de situações ‘tópicas’ conhecidas, amadas pelo próprio público (…).  (…) a catarse, por razões comerciais, deve ser optimista. (3)

raslan

O uso de ‘palavras caras’ tanto pode servir para mascarar o vazio do discurso (senão mesmo a sua falsidade), como ser sintoma da dificuldade do escrevinhador em lidar com o tema. A comunicação na era de massificação, em que o número de receptores (leitores, ouvintes, espectadores) contam-se pelos milhões (e muitos milhões), tem demonstrado como o uso deliberado da linguagem ‘técnica’, ‘erudita’, ou outras variantes de um jargão acessível a ‘especialistas’, pode iludir e manipular, assim como o seu uso irreflectido ou mal calculado pode se virar contra o comunicador.

Uma descrição que parece neutra mostra o que tem de tendencioso quando se lhe pode opor uma descrição diferente (…). (4)

desenho de María Acha-Kutsher

-O que é mais obsceno: a violência ou os mamilos?
‘LIBERDADE PARA OS MAMILOS’ (desenho de María Acha-Kutsher)

Na vida académica e na área das ciências tem havido alguma literatura dedicada a desmontar discursos, expondo a sua vacuidade por detrás de formulações verdadeiramente incompreensíveis. Que não são outra coisa senão variantes do famoso conto do ‘rei vai nu’.

O fazedor de dinheiro não é a personalidade mais palatável, mas é muito preferível ao pretenso intelectual. (5)

10931231_10204802307113076_5392409431196301792_n

“Sim, o planeta foi destruído. Mas durante um maravilhoso período de tempo criamos uma quantidade de valor para os accionistas.”

Daí que, numa época em que ‘o livro’ se está tornando um objecto incómodo, em que a comunicação escrita sofre amputações e próteses aberrantes, em que o próprio discurso oral é ameaçado pela vacuidade dos formatos convencionados para debate e exposição de ideias, seja importante que o escrevinhador consiga fascinar o leitor ajudando-o a descobrir o valor intrínseco da palavra. Na verdade, ao fazê-lo, limita-se a prolongar uma longa tradição anterior à própria escrita, mas fá-lo num tempo em que essa tradição está ameaçada pela própria parafernália técnica que era suposto contribuir para uma dinâmica cultural incomparavelmente mais rica do que a de todas as épocas anteriores.

A habilidade do artista em sair da frente do choque violento da nova tecnologia de qualquer época e evitar tamanha violência com absoluta consciência, vem de há muito tempo. (6)

IDÍGORAS Y PACHI

Para os não-Iniciados, a palavra escrita ou oral pode ter um valor misterioso pelo grafismo e sonoridade, dando realce à simbologia ou à magia. Mas para os Iniciados como nós, meros leitores e escrevinhadores, sabemos bem como esse valor é uma moeda sujeita a flutuações e o mistério reside, exclusivamente, nos favores da bela Musa. Nesse aspecto, creio que nada de significativo tem mudado nos últimos quatro mil anos.

(…) sob a sua forma mais alta, a invenção literária ensina-nos a enriquecer, a complexificar, de um ponto de vista heurístico, os confins da habitação comum que não nos damos ao trabalho de reconhecer. Abre janelas através das quais nos convida a ver um terreno novo, novas fontes de luz. Narra histórias através das quais ouvimos a voz da nossa identidade privada e comum. (7)

Ilustração de Fernando Vicente

Ilustração de Fernando Vicente

Há palavras que caíram em completo desuso, tal como o discurso que as suporta, e há outras que evoluíram, alterando significados conforme a geografia e a comunidade de falantes. A usura do Tempo e as transações culturais têm esse efeito natural e inevitável. A diferença da época actual em relação às anteriores (há 40 como há 400 anos), é que o processo tem sido muitíssimo mais rápido, associado à fragmentação da comunidade de falantes no interior das próprias gerações e no mesmo espaço social. Isto tudo, e muito mais (que não cabe a este humilde escrevinhador desenvolver aqui), dificulta obviamente a comunicação, mais ainda se for comunicação escrita com pretensões literárias.

A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. (…) É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada (…) a diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correcto. (8)

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

Por isso, insisto: é importante o escrevinhador preocupar-se em ‘chegar’ a todos esses potenciais leitores desconhecidos de modo a fazer-se entender e, principalmente, a seduzi-los com palavras (e, neste ponto do post, o leitor já poderá perceber que ‘palavra’, aqui, também se entende por ‘tecido de palavras’ ou ‘texto’), levando-os a procurar mais além da superfície, imediatez, uso comum… para lá do valor de troca, portanto. E quando o leitor começa a saber distinguir as pérolas da simples fancaria, é porque já reconhece o valor intrínseco das coisas. Como as palavras.

As palavras com que tens convivido/ durante tanto tempo, continuam/ servindo-te para algo? Poderás valer-te delas/ quando os antídotos/ contra a tua própria decepção/ já se esgotaram? (9)

142498

(1)in As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, trad.Salma T.Muchail ed.Martins Fontes

(2) in Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes, ed.Nórdica

(3) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed. Tascabili Bompiani

(4) in O Império Retórico de Chaïm Perelman, trad.Fernando Trindade e Rui A.Grácio, ed.ASA

(5) in Closing of the American Mind de Allan Bloom, ed. Simon and Schuster Paperbacks

(6) in Understanding Media de Marshall McLuhan, ed.A Mentor Book

(7) in Gramáticas da Criação de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(8) in A Galáxia de Gutemberg de Marshall McLuhan, trad.Leónidas G.Carvalho e Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional

(9) in Bordes del Silencio La noche no tiene paredes de J.M. Caballero Bonald, Obras Completas ed.Austral

Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

Poetry debate

Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

segundo-a-nova-regra-ortografica-plateia-nao-tem-mais-acento-agora-todos-ficam-em-pe-1870

Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

antiDantas

O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

slide_378038_4457172_free

A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

‘o canto que corta a garganta’

Assente, desde as origens, na musicalidade (sonoridade, ritmo, pausa…mas que entendo eu de música?!), a poesia evoluiu na procura da palavra a ponto de valorizar o silêncio e a materialidade.

A luz mais que pura/Sobre a terra seca

2 Um homem sobe o monte desenhando/A tarde transparente das aranhas

3 A luz mais que pura/Quebra a sua lança

(Algarve de Sophia)

 

Man of the Sea  de magritte

Man of the Sea de magritte

Em consequência, rompeu com métricas, regras  e rimas. Em versos sentidos.

Inmóvil

abandonado a tu pesadez de hombre inmóvil
me miras con antiquísimos resentimientos.

Óyeme bien
soy inocente de tu pasado
no soy tu puta madre
ni tu enferma madre
ni tu loca madre
aunque sea puta loca.
No merezco recibir agresiones ajenas
retrasadas y caducas.
No proyectes sobre mí los espectros de tu niñez
tengo forma, color y dimensiones propias.

Tampoco vengas a mí
llorando como un niño
cuando no lo eres.
este regazo que te acoge también te desea.

No sobreactúes
a mí también me expulsaron del paraíso
antes de tiempo
y sin notificación previa
¿a quién no?

(…)

(in Espejo Negro de Miriam Reyes)

 

'Portrait of Ms Ruby May, Standing' por Leena McCall

‘Portrait of Ms Ruby May, Standing’ por Leena McCall

Explodiu com o sentido, inclusive.

Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.

(Ars Magna de Leopoldo Maria Panero)

 

leopold-bloom-1983

‘leopold bloom’ de Richard Hamilton

Como resultado, reencontrou a imaterialidade da percepção aliada a um corpo físico, pois a palavra ganhou corpo e autonomia.

 

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo: uma vogal,

uma consoante, quase nada.

Mas faz-me falta. Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro, da estiagem

do verão. Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

(A Sílaba de Eugénio de Andrade)

 

'The Poor Poet' de Carl Spitz

‘The Poor Poet’ de Carl Spitz

Dita ou lida, uma poesia assim torna-se possessão.

 

Acolhei-me se sois também de sonho/que venho de estranheza e sonhos vários/—um mundo cismas encimando os ombros/e sob os pés países insonhados.

 

Que dá ritmo a meu vir, move meus passos/pelas ruas destino vivo-e-morro?/Que me desvive e perde entre fachadas,/casas indiferentes feito rostos

de isentos rasgos e de ausentes almas?/Que me impele, de passo, à casa, à sombra/tão-só afim às outras no ar fechado?

 

Ouço-a (ou me ouço?) respirar. Que há sons/de um coração arquejo e descompasso/transpirando metais, cordas e sopros. 

(Andante de Stella Leonardos)

compartment car de edward hopper

compartment car de edward hopper

 

E permite novas leituras dos velhos textos poéticos.

 

(…) Musa ensina-me o canto

Que me corta a garganta

(in Musa de Sophia)

pintura de Paula Rego

pintura de Paula Rego

Palavras ambíguas

Por vezes, neste blog que se pretende tranquilo e cordial, surgem mensagens de leitores especialmente sensibilizados pelo uso de certas palavras. No post anterior voltei a falar da ‘escrita que privilegie a ambiguidade’, dando a entender o potencial de complexidade que isso pode trazer para o enredo. Mas sobre a ‘ambiguidade’ já falei mais detalhadamente aqui.

14153234

Há palavras (e ideias por detrás das palavras) que incomodam ou intrigam o leitor. Sua aparição nos textos podem levá-lo a abandonar a leitura ou a afundar-se nela. E o escrevinhador também é surpreendido pela força que essas palavras têm, como se nelas houvesse um poder oculto que o inspira e/ou inspira o leitor.

Palavras mágicas, malditas, sedutoras, tóxicas…

6a00d8341bfb1653ef01a3fcaee6da970b-550wi

Na poesia, tanto o escrevinhador como o leitor estão particularmente atentos às diferentes dimensões da palavra, aos múltiplos sentidos e sonoridades, à particular evocação que cada um lhe encontra.

Também por isso, há palavras que parecem gastas, estafadas, ocas, de tanto repetidas. Porém, são os usos, o contexto, que as banalizam e esvaziam, não as palavras em si.

"Quem são estas crianças e porque é que me chamam de 'MÃE'?"

“Quem são estas crianças e porque é que me chamam de ‘MÃE’?”

O potencial da palavra afecta a frase e esta condiciona a expressão da ideia, da sensibilidade e dos afectos, mas esse potencial é variável de palavra para palavra e de pessoa para pessoa, conforme alerta Luísa Dacosta a quem cito a este propósito ali.

Um desafio permanente para a saúde e boa forma da língua (qualquer língua) é o da sua renovação ao reutilizar as palavras de sempre de modo diferente, sem lhes atraiçoar a origem, nem distorcer o sentido: o olhar de quem lê, o ouvido de quem ouve, o palato de quem fala, a mão que a escreve, a pele que se arrepia com o seu impacto, os aromas que o sentido sugere, percebem a novidade…que nem tem de ser, necessariamente, uma absoluta novidade. Talvez uma redescoberta.

13323940

Armas e palavras são iguais, matam igual *

*título retirado de Le Chien, de Leo Ferré

Existem escrevinhadores que fazem um uso parcimonioso da palavra, parecendo suspende-las entre a imediatamente anterior e a seguinte, compondo as frases nesta frágil estrutura em que qualquer mudança ameaça o sentido.

(…) Palavras silabadas/ Vêm uma a uma/ Na voz da guitarra  

A música do ser/ Interior ao silêncio/ Cria seu próprio tempo/ Que me dá morada

Palavras silabadas/ Unidas uma a uma/ Às paredes da casa (…) 

(in Bach Segóvia Guitarra de Sophia)

Há contenção, como que um pudor em não malbaratar palavras, todas preciosas, todas necessárias. E, por isso mesmo, supérfluas quando nada acrescentam.

-Quando nos reunimos somos mesmo ordinários!

-Quando nos reunimos todos somos mesmo ordinários!

O ouvido do escrevinhador percebe o ritmo da frase sílaba a sílaba, o tempo do silêncio entre frases, e a musicalidade ganha forma, construindo o poema.

(…) Que diremos ainda? Serão palavras, /isto que aflora aos lábios? 

Palavras?, este rumor tão leve /que ouvimos o dia desprender-se? 
Palavras, ou luz ainda? 

Palavras, não. Quem as sabia? /Foi apenas lembrança doutra luz. 
Nem luz seria, apenas outro olhar.

(in Que diremos ainda? de Eugénio de Andrade)

Pode haver uma relação física mais evidente ao envolver outros sentidos, como o táctil, apelando ao movimento e ao toque. Como se a palavra escrita passe pelos lábios antes da mão a desenhar no papel (há escrevinhadores que, também por isso, não abdicam dos rascunhos toscos a lápis ou caneta antes de passá-los para o computador).

20111229-niquel - tira medium

Sei que não são dicas fáceis quando o escrevinhador já tem dificuldade em ‘produzir’ texto para expressar suas ideias ou emoções. Mas o processo tem várias fases e depende do próprio escrevinhador, como é óbvio.

Este trabalho, que já comparei ao de lapidar pedras preciosas, também pode ser análogo ao de um relojoeiro (dos antigos, evidentemente).

Para chegar aqui há que ter matéria bruta para trabalhar (ou peças soltas para montar). Só depois vem o processo criativo mais elaborado.

watchmaker_2141765

‘O Relojoeiro’ de Zu

O poder da palavra

Mais do que o comum dos mortais, o escrevinhador deve ter consciência do poder da palavra oral e escrita. Afinal, não é outra a matéria-prima do seu ofício, passatempo ou paixão. Porém, tanto existem os fetichistas da palavra como pululam os seus banalizadores.

desenho de thomas-broome

desenho de thomas-broome

Arte vem do latim ars, artis. É uma raiz na língua latina. É natural que venha também do grego. A etimologia desconhece-lhe a procedência. Temos, pois, que seguir por outros caminhos. Vamos, por exemplo as palavras compostas com a raiz latina Arte. E temos imediatamente artelho, articular, artificial, isto é, palavras que designam não só o movimento como também o próprio fornecimento do movimento.

Além disto, encontramos também a palavra inerte que quer dizer ‘sem movimento’ ou à letra: sem arte. E a seguir aparece-nos o mais extraordinário destes exemplares, a palavra artilharia. […] E neste caso o que significava então artilharia? Exactamente isso: o poder do engenho, a força do artifício.

(in Textos de Intervenção ‘arte e artistas’ (II parte) de José Almada Negreiros ed.Estampa)

NN_UmTigre_p9t1

Ora, a palavra nada tem de sagrado ou poderoso em si mesma, tal como qualquer de nós poderá experimentar ao ouvir egípcio antigo. E, contudo, conforme a entoação e a voz, o ouvinte poderá ser enfeitiçado pela sonoridade das palavras desconhecidas. Aqui pode se tratar da magia da música e do cântico, mas o mesmo se pode repetir só de ver textos escritos na forma cuneiforme ou em hieróglifos. Efeitos secundários do desenho, do grafismo, da caligrafia?

poema gráfico O Organismo de Décio Pignatari

poema gráfico O Organismo de Décio Pignatari

Regressando ao aqui e agora das nossas preocupações triviais: acrescente-se ao que foi dito acima o sentido das palavras, e o que temos?

O feitiço da sonoridade, a magia da música e do cântico, os efeitos secundários do desenho das letras/palavras, e o turbilhão das emoções para que o sentido nos arrasta ao mexer nas memórias íntimas, ao suscitar a polissemia, ao levar-nos para a geografia da ambiguidade.

"Um momento! Ontem tinha dito que X era igual a dois".

“Um momento! Ontem tinha dito que X era igual a dois!”

Nem palavra sagrada (ou hieróglifo), nem palavra gasta: o escrevinhador com pretensões literárias tem aqui um mundo sempre novo por explorar, ainda que descubra, a cada passo, vestígios de antigas cidades e marcas de exploradores que já por aqui passaram. Normal, pois quando se fala da ‘palavra’, é da linguagem que falamos, na verdade. Ou da ‘Língua’. Como ‘Língua Portuguesa’.

Quanto a mim, não sei línguas. Trata-se da minha vantagem. Permite-me verter poesia do Antigo Egipto, desconhecendo o idioma, para o português. Pego no ‘Cântico dos Cânticos’, em inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e sobretudo, um poema meu.

(in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio & Alvim)

Escrever, ler, reler, reescrever

O escrevinhador devia acompanhar a sua actividade com um permanente exercício de reflexão sobre os mistérios da leitura e dessa estranha, ignota, criatura que é o leitor. Afinal, toda a escrita deveria supor um leitor,não?! Poderá até o escrevinhador começar por se questionar a si mesmo: quantos livros irá reler ao longo da vida? Porquê esses e não qualquer dos outros?

"Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido"

“Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido!”

 

E que importância tem isto para o escrevinhador?

Mas com tanto livro por ler e tão pouco tempo para ler, não será caso para perguntar: o que leva alguém a repetir a leitura uma, duas, n vezes?

Corto Venecia

Para complicar, acrescento ainda que, por vezes, a segunda leitura não coincide com a primeira. Outras vezes,confirma-a. Tem vezes que nem chega a ser concluída por falta de interesse.

O que leva a outra questão, perturbante e quase fantasmagórica: pode o texto mudar, no interior dum livro fechado e alinhado numa fileira da estante onde outros livros foram arrumados?

tweed

Sei o que pensas sobre isto’, disse Tweedledum: ‘Mas não é assim, de modo algum.’

‘Pelo contrário’, prosseguiu Tweedkedee, ‘se fosse assim, podia ser assim; e sendo assim, seria assim: mas como não é assim, não é assim. É lógico.’ (Through the looking-glass de Lewis Carrol)

29826297_640

Da palavra aos actos e o fascínio pelo silêncio

A escrita não precisa senão dum vocabulário mínimo e duma módica obediência às regras gramaticais para se fazer entender. Escrevem-se livros para ir ao encontro dos gostos de certa leitura, lêem-se livros que aparentem ir ao encontro desses gostos.

E para não haver dúvidas, quem tem recursos lança campanhas que ajudam os gostos a conformarem-se à oferta, ao mesmo tempo que promove ofertas que correspondam aos gostos dominantes. De certo modo, é o que conheço de mais próximo da quadratura do círculo. Como ilustração rápida do que pretendo dizer, deixo aqui a ligação para um dos recentes posts do blog Malomil que explica isto muito melhor.

13319333

Sem ser meu propósito tratar aqui das seiscentas dúzias de fórmulas para escrever um best-seller, detenho-me com vagar e deleite naquela prosa e poesia que têm uma relação física com a palavra, sem descurar as múltiplas possibilidades do sentido.

bartak

Que é outro modo de dizer: o signo sensual e significante, pleno de significados. Assim, como pregava Vieira:

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras.

Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demónios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador.

O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras?

— Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras!’

(in Sermão da Sexagésima parte IV do Padre António Vieira)

De poucas palavras nasceram muitas obras‘, ou como diz Luisa Dacosta, citada no anterior post: ‘Essa é a dificuldade, porque [a palavra] está entre aquelas [palavras] que gastamos todos os dias, na vulgaridade da fala’. Escrever como quem economiza vocábulos e frases? Sim, pode ser, embora goste mais da ideia de ‘burilar o estilo’, sem cair em maneirismos e outros pedantismos.

'Au, au, au

“Au, au, au – mas estou só a parafrasear.”

E como expoente máximo dessa ideia, Eugénio de Andrade: 

Quando a ternura/parece já do seu ofício fatigada,/e o sono, a mais incerta barca, /inda demora,/quando azuis irrompem/os teus olhos/e procuram/nos meus navegação segura,/é que eu te falo das palavras/desamparadas e desertas,/pelo silêncio fascinadas.

(O Silêncio in Obscuro Domínio)

Like-This

Não. Usa-a para falar. Assim.

Escrever como silêncio e como acto. Ainda querem que explique melhor a ‘relação física com a palavra’?!

A Palavra

Certo: nunca é demais repetir que ler é fundamental, mas hábitos de leitura não são por si indicadores de sensibilidade e/ou inteligência.

Porém, hábitos de leitura e boa leitura em quantidade ajudam decisivamente o escrevinhador a desenvolver um sentido quase material da palavra, essencial, a meu ver, para todo o fenómeno literário (embora aqui admita um preconceito sensual que exclui outras possibilidades).

Shakira escreve livro para crianças Henrique Monteiro

Encontro expressa a ideia que procuro num pequeno texto, que passo a citar:

Procure a palavra. A única que pode ter múltiplos significados no mesmo contexto, que chora e canta, atinge o símbolo, dá o momento e pode eternizá-lo, passando do estar ao ser. Aquela em que o significante pode não ser apenas o suporte, arbitrário, do significado, mas a ser obrigado a significar.’ *

Complicado? Sim, de entender e de explicar em abstracto. Porém intuitivo quando se passa para lá do espelho. E mesmo assim, essa ‘palavra’ não é um dado inequívoco, nem algo que se possa assinalar de modo evidente:

transferir

“Não entendo nada do assunto, mas tenho todo gosto em lhe dar a minha opinião de especialista.”

Mas quem lhe conhece o halo, a sombra, o som claro, água para infinitas sedes? Quem lhe sabe a cor secreta, a forma exacta, o seu recorte de concha, em nenhum areal?’ *

Claro, no texto poético esta procura é essencial e uma das ‘marcas d’água’ da excelência literária.

Como encontrar a ‘palavra’, esse grão de areia na praia imensa?

Lá onde se encontram tantos ladrões e belas mulheres

Lá onde se encontram tantos ladrões e belas mulheres.

Essa é a dificuldade, porque está entre aquelas que gastamos todos os dias, na vulgaridade da fala. E ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo. A procura terá de ser só sua. A poesia, como a verdade, é solidão infinita’.*

Procura que não tem horizonte, nem fim, excepto se nos rendermos à facilidade ou ao desânimo. Mas quando ‘a palavra’ surge diante do escrevinhador, tal como o graal, impõe-se pela sua presença:

ARA ENTRAR DIGA AS PALAVRAS MÁGICAS esqueceu-se das suas palavras mágicas? Diga o seu e-mail.

PARA ENTRAR DIGA AS PALAVRAS MÁGICAS
Esqueceu-se das suas palavras mágicas? Diga o seu e-mail.

Com o suor das lágrimas e da esperança, procure. Procure a que mata a sede do além e do inatingível, a que escorre ainda o sopro da criação. Procure a palavra.’ *

‘Mas valerá a pena tanto esforço?’, perguntam-se as pessoas de bom senso e sentido prático da vida.

12264833_low

“Tens de aprender a falar, Jeffrey: faz parte do processo de crescimento.”

* Citações recolhidas da ‘Carta a um jovem poeta’ publicado in Um olhar naufragado (diário II) de Luisa Dacosta ed.Asa 2008