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O (des)equilíbrio entre a palavra e a ideia

O uso da palavra como matéria-prima essencial do texto nunca deveria ser menosprezado, mesmo pelo escrevinhador sem pretensões literárias. Esse menosprezo apenas revelará suas próprias limitações. O que não é o mesmo que dizer que o fetichismo da palavra seja garantia de qualidade.

“Ler bem” é ajustar a proximidade da presença sentida num texto a todos os níveis do encontro: espiritual, intelectual, fonético e até “carnal” (o texto actua sobre o nervo e sobre o músculo, como a música). (1)

“Permission to write a poem, sir?”

“Permissão para escrever um poema, capitão?

Recorrer a palavras ‘caras’ (difíceis, raras, em desuso) pode ser um bom artifício, como uma excelente proposta de reflexão e ponto de partida para um algures narrativo ou ensaístico. Mas todo o cuidado é pouco para evitar o pedantismo ou as dificuldades de comunicação para além do razoável.

Mas devo reconhecer que foi precisamente o desencontro, a ambiguidade, esta melancolia face ao efémero e ao precário, a origem da literatura na minha vida. (2)

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Na poesia a palavra tem um peso diferente daquele que pode adquirir num texto em prosa, apesar das distinções entre uma e outra estarem esbatidas nos últimos 150 anos: o texto poético valoriza (ou tende a valorizar) a materialidade da palavra pela sonoridade no texto, criando efeitos tanto maiores quando lidos ou expressos em voz alta. Igualmente, o texto duma peça de teatro procura retirar efeito dessa materialidade.

Juan: Devias estar em casa. / Yerma: Entretive-me. / Juan: Não compreendo em que te tenhas entretido. / Yerma: Ouvia cantar os pássaros. / Juan: Está bem. Assim darás com que falar às pessoas. / Yerma: Juan, que pensas? / Juan: Não o digo por ti, digo pelas pessoas. / Yerma: Punhalada que lhes dêem às pessoas! / Juan: Não amaldiçoes. Fica feio numa mulher. / Yerma: Oxalá fosse eu uma mulher. (3)

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Num caso ou no outro, pode consegui-lo com efeitos mais estéticos (digamos assim, para facilitar) do que dramáticos. Pode fazê-lo melhor ou pior, e certamente não agradará a todos (o que, em si, não só não deve constituir um problema, como é uma fatalidade). A vacuidade das ideias, a indolência do enredo, a banalidade do texto, os efeitos espampanantes e ocos, são perigos frequentes nestes mares da polémica em que tanta escrita naufraga sem deixar glória, nem saudade.

(…) sempre defendi a importância do desejo e da paixão. Não por serem um ideal em si, mas porque formam o elemento dinâmico da vida. (4)

'If God tells you what to say in your sermon, why do you make so many corrections?'

‘Se Deus diz-te o que vais dizer no sermão, porque fazes tantas correções?’

A saturação de ideias também pode  prejudicar, ainda que de modo diferente, o delicado equilíbrio entre forma e conteúdo: por um lado, os propósitos da escrita revelam uma urgência desmesurada; por outro, traem a insegurança do escrevinhador enquanto tal.

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus/ Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne/ E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito! (5)

QUE QUER DIZER com os meu trabalho estar errado

QUE QUÉ DIZER com o meu trabalho estar errado?!? Copiei TUDO directo da Internet!!

Mas que não se diga que o desafio não possa ser enfrentado com êxito: em toda a história da literatura universal abundam exemplos de textos densos e fascinantes.

Por outro lado, considero que ele a contou e a disse com todas as circunstâncias ditas, e que não pôde fabricar em tão breve espaço tão grande máquina de disparates; e se esta aventura parece mentira, não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la por falsa ou verdadeira, a escrevo. Tu, leitor, por seres prudente, julga o que te parecer, que não devo nem posso mais (…). (6)

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“Estou a escrever o meu obituário, mas com uma surpresa: engano a morte no último minuto”

Todavia, o escrevinhador não tem que balançar entre a formulação de ideias e a manipulação da palavra. Expressar-se através da palavra é o que o distingue do escultor ou do músico, e por mais emocional ou inconsciente que sejam as urgências dessa expressividade, sugerem ideias …mesmo que involuntárias.

Na tua voz as palavras são nocturnas (7)

Ilustración de Fernando Vicente1

Ilustración de Fernando Vicente

Ou não fosse por isso que tanto escrevinhador se descobre a si mesmo através da escrita e, por isso, ainda que sem leitores, prossegue escrevendo para o baú.

Se do futuro alguém quer se defender/ Esse sou eu!/ Ninguém mo disputa./ No mercado dos versos, meus amigos/ Sou daqueles que não ficam por vender (8)

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(1) in Paixão Intacta de George Steiner, trad.Margarida Periquito e Victor Antunes ed.Relógio d’Água

(2) in Resistir de Ernesto Sabato trad.Carlos Aboim de Brito, ed.Dom Quixote

(3) in Yerma de Federico García Lorca, ed.Catedra

(4) in O Optimismo de Francesco Alberoni, trad.Cristina Rodriguez e Álvaro Guerra ed.Bertrand

(5) in ‘Saudação a Walt Whitman’ Poesia de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(6) in El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(7) in ‘Partida’ Dia do Mar de Sophia, Obra Poética ed.Caminho

(8) Ibn Ar-Ruh in O meu coração é arábe-a poesia luso-árabe colectânea organizada e traduzida por Adalberto Alves, ed. Assírio&Alvim

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Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

‘o canto que corta a garganta’

Assente, desde as origens, na musicalidade (sonoridade, ritmo, pausa…mas que entendo eu de música?!), a poesia evoluiu na procura da palavra a ponto de valorizar o silêncio e a materialidade.

A luz mais que pura/Sobre a terra seca

2 Um homem sobe o monte desenhando/A tarde transparente das aranhas

3 A luz mais que pura/Quebra a sua lança

(Algarve de Sophia)

 

Man of the Sea  de magritte

Man of the Sea de magritte

Em consequência, rompeu com métricas, regras  e rimas. Em versos sentidos.

Inmóvil

abandonado a tu pesadez de hombre inmóvil
me miras con antiquísimos resentimientos.

Óyeme bien
soy inocente de tu pasado
no soy tu puta madre
ni tu enferma madre
ni tu loca madre
aunque sea puta loca.
No merezco recibir agresiones ajenas
retrasadas y caducas.
No proyectes sobre mí los espectros de tu niñez
tengo forma, color y dimensiones propias.

Tampoco vengas a mí
llorando como un niño
cuando no lo eres.
este regazo que te acoge también te desea.

No sobreactúes
a mí también me expulsaron del paraíso
antes de tiempo
y sin notificación previa
¿a quién no?

(…)

(in Espejo Negro de Miriam Reyes)

 

'Portrait of Ms Ruby May, Standing' por Leena McCall

‘Portrait of Ms Ruby May, Standing’ por Leena McCall

Explodiu com o sentido, inclusive.

Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.

(Ars Magna de Leopoldo Maria Panero)

 

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‘leopold bloom’ de Richard Hamilton

Como resultado, reencontrou a imaterialidade da percepção aliada a um corpo físico, pois a palavra ganhou corpo e autonomia.

 

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo: uma vogal,

uma consoante, quase nada.

Mas faz-me falta. Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro, da estiagem

do verão. Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

(A Sílaba de Eugénio de Andrade)

 

'The Poor Poet' de Carl Spitz

‘The Poor Poet’ de Carl Spitz

Dita ou lida, uma poesia assim torna-se possessão.

 

Acolhei-me se sois também de sonho/que venho de estranheza e sonhos vários/—um mundo cismas encimando os ombros/e sob os pés países insonhados.

 

Que dá ritmo a meu vir, move meus passos/pelas ruas destino vivo-e-morro?/Que me desvive e perde entre fachadas,/casas indiferentes feito rostos

de isentos rasgos e de ausentes almas?/Que me impele, de passo, à casa, à sombra/tão-só afim às outras no ar fechado?

 

Ouço-a (ou me ouço?) respirar. Que há sons/de um coração arquejo e descompasso/transpirando metais, cordas e sopros. 

(Andante de Stella Leonardos)

compartment car de edward hopper

compartment car de edward hopper

 

E permite novas leituras dos velhos textos poéticos.

 

(…) Musa ensina-me o canto

Que me corta a garganta

(in Musa de Sophia)

pintura de Paula Rego

pintura de Paula Rego

A propósito de métricas e rimas

Tempos houve em que a expressão poética era avaliada tecnicamente pelo respeito às formas e convenções da época, do meio, da crítica. Na poesia, como em todas as formas de expressão artística, aliás.

Obviamente, a inovação rompia com as regras e acabava por ‘impor’ as suas, não por decisão superior, mas por mera adesão. Veja-se o ‘caso’do poeta Bonagiunta Orbicciani ao cruzar-se com Dante na passagem deste pelo Purgatório (Canto XXIV): não só o distingue como aquele que ‘soube pôr cá fora as novas rimas’, como reconhece ter o ‘doce estilo novo‘ de Dante se libertado do ‘ que o estilo precedente obrigava.

Não menos óbvio, a dominância de um estilo, a mediocridade da maioria dos seus seguidores, a tendência ao mandarinato de uns tantos deles, tudo contribui para converter a novidade em algum tipo de formalismo a ser ultrapassado, mais tarde, por outro ciclo criador.

“-Rápido: une o sujeito ao predicado.” “-Eu…! ” E como resultado da sintaxe experimental da Susana…

Porém, as convenções não são o problema, mas o seu uso ostensivo e sem graça, sem arte, como se aplicação das duas dúzias de regras seja garantia de qualidade. Toda a História da Literatura está cheia de polémicas a este respeito.

Por vezes, estilos datados são recuperados por poetas que lhes dão novo alento, tanto no conteúdo como na forma. Vejam-se os sonetos.

Mas o que caracteriza as Artes em geral, nos últimos duzentos anos, é a reivindicação da liberdade frente a toda a exigência formal (e temática, já agora).

-Acreditas no amor incondicional? -Depende.

-Acreditas no amor incondicional?
-Depende.

O que, na poesia, pode ser expresso pelos versos sem rima, sem métrica, por exemplo. E são melhores por essa razão? Claro que não, e nem se pode dizer que sejam melhores. A questão não é essa.

Vivemos, ao contrário de outras épocas, um período especialmente rico em ‘experimentalismos’, sem sujeição a convenções que abafem a subjectividade do escrevinhador. O que não quer dizer que seja mais fácil publicar (até é, mas por razões meramente técnicas), nem que se deva dispensar a crítica literária impiedosa (pelo contrário, está a fazer mais falta do que nunca!).

Pessoalmente, não valorizo muito a métrica (por total incapacidade de ser metódico e ordenado, na verdade), nem a rima, apesar de, se quiser perceber a razão pela qual certo poema soa tão bem, muitas vezes confirmo que é (ou também é) pelo uso discreto e eficaz de uma ou da outra.

"A prosa dele é tão musculada"

“A prosa dele é tão musculada.”

Quando o escrevinhador se sente confiante em usar ou dispensar algum tipo de regra, deve fazê-lo ciente de que o faz. E a razão por que o faz. No meu caso, parece-me ser pela sonoridade, ritmo, o que tem a ver com a acentuação (que pode implicar uma métrica) e, eventualmente, com a rima. Mas faço-o ‘de ouvido’, sem preocupações formais de corresponder a um modelo.

"Se não acreditares em ti, quem acreditará?"

“Se não acreditares em ti, quem acreditará?”

A verdade, verdadinha, é que sempre fui um péssimo aluno a matemática e sempre entendi a gramática como a matemática da língua. Como poderia eu dar-me bem com sistemas métricos ou outros? Ou seja, a ser problema é problema meu, daí não servir de exemplo.

 

 

Ainda (e sempre) a sedução…

O grande desafio que a escrita coloca à expressão das emoções é o da combinação dos limites da linguagem (facial, gestual, oral) com os limites (ainda mais apertados) da Língua, para depois serem ainda mais limitados pela própria escrita. (ler mais neste outro post)

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Nada que o comum dos mortais, desde pequenino, não tenha experimentado à sua própria custa e que se resume numa frase igualmente comum: ‘não sei como dizer isto, mas…’.

Pergunto-me se o músico ou o pintor sofrerão de idêntico problema: a paleta de cores ou as pautas também pecam por defeito na altura de exprimir emoções?

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Curiosamente, a dança (em sentido geral) não me parece sofrer qualquer limitação e ser o veículo por excelência da expressão das emoções.

E o teatro, claro, pela sua capacidade de integrar todas as outras artes.

Mas a escrita? A escrita impõe os limites acima referidos e só pelo engenho poético consegue iludi-los, que não é o mesmo que superá-los. (a este respeito, ler mais aqui)

Dito isto, é com facilidade que a emoção (ou o sentimento) tanto pode sofrer graves amputações na expressão literária, como, pelo contrário, abafá-la. (ler este post, para melhor entender)

A Ameaça, de René Margritte

A Ameaça, de René Margritte

Daí não ser por piada que insisto tanto na sedução da bela Musa: dela vem a inspiração, do escrevinhador sai a emoção-sentimento, e entre ambos resulta a composição.

 

Escrever como quem amordaça a emoção?!

O último post suscitou algumas dúvidas por parte de leitores, que sintetizo deste modo:

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—para quê tanta ênfase contra a emoção-espontaneidade, se é esta que alimenta a veia poética?

—qual é a recomendação que faço, afinal, a propósito da utilização da métrica e das rimas?

—se quando digo que o “pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica” são indispensáveis, não estou a propor uma qualquer ‘escola’ ou corrente poética, já que a mente crítica pode ser entendida de um modo que contradiz o sentimento ingénuo, o impulso, a própria paixão?

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-Quando é que lá chegamos?     viagem em família para a Iluminação

Reconheço-me sempre devedor de quem se presta a ler e reflectir sobre os textos aqui publicados, mais ainda quando alguém se incomoda em dar-lhes réplica. A primeira questão creio que foi respondida ao longo de vários posts publicados em diferentes alturas, a terceira até um certo ponto também, mas a segunda não de todo.

Durante a próxima semana tentarei esclarecer o melhor possível o que penso em relação às três questões.

Porém, tenho de reconhecer ser sempre complicado este tipo de considerações sem referência às leituras de uns ou de outros e aos escritos deles mesmos.

La lectora, de Federico Faruffini.

A leitora, de Federico Faruffini.

 

Aos leitores que levantaram estas questões, perguntei o que andam a ler, o que andam a escrever, e isso por duas grandes razões: a primeira, porque é mais fácil esclarecer uma dica, um tópico, fazendo referência a poemas, neste caso, e autores (daí, muitas vezes citar trechos de autores conhecidos); a segunda, analisando a produção escrita do próprio, posso exemplificar melhor o que pretendo dizer.

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Para lá dos ‘estados de espírito’

Muitas vezes, o trabalho poético do escrevinhador  assenta na crença de que a verdade dos estados de espírito será suficiente para garantir ‘a alma’ do poema, enquanto que a aplicação duma qualquer métrica e sistemas de rimas bastará para a estrutura…e depois há um vocábulo, uma imagem, um efeito que podem ser acrescentados em revisões seguintes. Poderá também dispensar métrica e rima, sempre confiante na inspiração que o domina.

Se a emoção dominar a composição, reforça o risco do excesso, tanto na linguagem, como nas ideias, sem com isso dizer que se torna profundo ou complexo. Os sintomas mais evidentes são a perda de musicalidade, ritmo, clareza, empastelando frases longas (e a divisão da frase nos diferentes versos não a encurta, evidentemente).

-Tudo bem,David.

-Oh,David. Toda a gente sabe que és estúpido. Não precisas de tentar ganhar o campeonato mundial.

Ou seja, há mais preocupação em dizer do que em compor. Mas não será um risco aceitável, o de versejar livremente ao sabor da emoção e do sentimento? Aliás, não será até a característica principal da poesia? A de ser espontânea e vinda do fundo do Ser (ou ‘ do ser’, conforme os gostos)?

Pois, pois…não houvesse tanta negligência por parte dos escrevinhadores-poetas, compondo sem critério, nem auto-crítica.

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Sendo possível o compromisso entre estrutura, emoção (ou sentimento) e critérios (sejam lá quais), o escrevinhador estará a aperfeiçoar a técnica dos futuros poemas. Assim, mais facilmente captará os momentos de inspiração num texto que seja, por sua vez, inspirador.

Passei a vida a amar e a esquecer…/Um sol a apagar-se e outro a acender/nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também…nem eu sei quando… (1)

Pode ser que algumas obras-primas da poesia tenham sido escritas logo à primeira redacção, sem mais do que um ou outro acerto posterior. É possível e é de génio (mas dá muito trabalho). A acontecer, deve ser raro.

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A inspiração, emoção, sentimento, a louca da casa, são fundamentais, mas não dispensam o pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica. Quando combinados, a vida banal do escrevinhador ganha dimensão universal e a poesia, bem…a poesia torna-se força da natureza.

Eventualmente paso días enteros sangrando/(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra/exagerado e implacable como una mujer enamorada./(…)/

No alimentaré a nadie con mi cuerpo/para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo./

Por eso sangro y tengo cólicos/y me aprieto este vientre vacío/y trago pastillas hasta dormirme y olvidar/que me desangro en mi negación  (2)

Madonna (1895), de Edvar Munch

Madonna (1895), de Edvar Munch

 

(1) in Inconstância, do  Livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca

(2) in Eventualmente paso días enteros sangrando, do livro Espejo negro de Miriam Reyes, DVD ediciones

Reconstruir os alicerces do texto

Para iniciar a revisão crítica do texto, depois de concluída a fase criativa, é fundamental que o escrevinhador se distancie emocionalmente do processo.

O ideal será passar alguns dias sem lidar com ‘aquele’ texto, já que, ao retomá-lo, irá estar muito mais atento ou sensível aos erros, incongruências, deselegâncias, banalidades e muitos outros defeitos.

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O problema varia consoante o escrevinhador, o momento ou a obra, mas tem sempre a ver com o natural envolvimento emocional focado na intensidade do enredo (ou do processo criativo), insensibilizando a atenção para detalhes técnicos. Às vezes, essa emoção sobrevaloriza aspectos secundários, dando-lhes espaço e destaque injustificado.

Por isso, num momento posterior em que o vinculo emocional é menos forte, graças ao distanciamento criado pela quebra da rotina, pela atenção dada a outros projectos ou aspectos da vida pessoal, o escrevinhador pode proceder à revisão crítica com acuidade.

Ao nível mais básico, possivelmente encontrará erros ortográficos e gramaticais: prejudicam a comunicação com o leitor, podem ser mais ou menos vergonhosos, mais ou  menos comprometedores no que toca ao estilo, à beleza, à fluidez do texto.

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Erros frequentes em escrevinhadores de todos os tipos de formação, actividade profissional e etc e tal (podem até ser ilustríssimos desconhecidos que escrevem em blogs que dão dicas sobre escrita!), devido à tal intensidade emocional em que formulações mentais e formas de oralidade se ‘atropelam’ no texto, onde as regras de comunicação são outras.

Certamente, a fragilidade duma aprendizagem formal da Língua, a falta de hábitos de leitura activa (distinta da passiva porque não se esgota na ‘mensagem’) e de escrita, contribuem muito para esta categoria de erros.

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Para além dos chamados ‘erros de palmatória’ (não faço a menor ideia qual seja a origem desta expressão…), existem outros não menos importantes, por vezes bem escondidos em longas frases confusas. Dos mais arreliantes são aquelas situações em que o leitor fica na dúvida qual seja o sujeito de determinada frase, criando ambiguidades tanto maiores quando, em qualquer das hipóteses, a frase tem sentido.

A terapêutica duma escrita de frases sucintas, logicamente encadeadas, pode ser bom remédio para a maioria das situações, obrigando o escrevinhador a desenvolver o alerta interno sempre que é tentado a esticar, esticar, colocando virgulas a eito como em certas estradas colocam placas de transito nos últimos metros antes do cruzamento.

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Porém, este remédio não é tão eficaz  para o caso da poesia, onde os artifícios estilísticos são muito mais ricos e variados, o que é sinónimo de terreno traiçoeiro e movediço.

 

 

 

Armas e palavras são iguais, matam igual *

*título retirado de Le Chien, de Leo Ferré

Existem escrevinhadores que fazem um uso parcimonioso da palavra, parecendo suspende-las entre a imediatamente anterior e a seguinte, compondo as frases nesta frágil estrutura em que qualquer mudança ameaça o sentido.

(…) Palavras silabadas/ Vêm uma a uma/ Na voz da guitarra  

A música do ser/ Interior ao silêncio/ Cria seu próprio tempo/ Que me dá morada

Palavras silabadas/ Unidas uma a uma/ Às paredes da casa (…) 

(in Bach Segóvia Guitarra de Sophia)

Há contenção, como que um pudor em não malbaratar palavras, todas preciosas, todas necessárias. E, por isso mesmo, supérfluas quando nada acrescentam.

-Quando nos reunimos somos mesmo ordinários!

-Quando nos reunimos todos somos mesmo ordinários!

O ouvido do escrevinhador percebe o ritmo da frase sílaba a sílaba, o tempo do silêncio entre frases, e a musicalidade ganha forma, construindo o poema.

(…) Que diremos ainda? Serão palavras, /isto que aflora aos lábios? 

Palavras?, este rumor tão leve /que ouvimos o dia desprender-se? 
Palavras, ou luz ainda? 

Palavras, não. Quem as sabia? /Foi apenas lembrança doutra luz. 
Nem luz seria, apenas outro olhar.

(in Que diremos ainda? de Eugénio de Andrade)

Pode haver uma relação física mais evidente ao envolver outros sentidos, como o táctil, apelando ao movimento e ao toque. Como se a palavra escrita passe pelos lábios antes da mão a desenhar no papel (há escrevinhadores que, também por isso, não abdicam dos rascunhos toscos a lápis ou caneta antes de passá-los para o computador).

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Sei que não são dicas fáceis quando o escrevinhador já tem dificuldade em ‘produzir’ texto para expressar suas ideias ou emoções. Mas o processo tem várias fases e depende do próprio escrevinhador, como é óbvio.

Este trabalho, que já comparei ao de lapidar pedras preciosas, também pode ser análogo ao de um relojoeiro (dos antigos, evidentemente).

Para chegar aqui há que ter matéria bruta para trabalhar (ou peças soltas para montar). Só depois vem o processo criativo mais elaborado.

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‘O Relojoeiro’ de Zu

Poesia, essa coisa esquisita

A escrita da poesia só aconteceu muito depois da produção de obras poéticas, as quais por serem destinadas à recitação, utilizavam recursos que auxiliavam a memorização, a declamação e a compreensão: métrica, rima, repetição.

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A utilização de recursos ‘não-literários’, como a música ou a dramatização, a acompanhar a declamação, garantia maior sucesso entre o público, certamente. Reciprocamente, a música e o teatro apropriaram-se da poesia para desenvolverem géneros musicais e dramáticos.

Os homens muito incultos abanam a cabeça diante de frases estranhas,/ e falam em erros evidentes no ajuntamento das/ palavras;  já os minimamente cultos acariciam a barriga/ como se digerissem uma perna de porco,/ satisfeitos com a declamação de um poema básico, onde/ todos dizem gostar muito da mãe. (in Uma Viagem à Índia canto V de Gonçalo M. Tavares ed.Caminho)

A escrita e, muito mais tarde, o livro impresso, expandiram a divulgação poética, ao mesmo tempo que a transformaram.

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A poesia deixou de estar dependente de declamadores e os recursos estilísticos tornaram-se mais complexos, já que a poesia lida pode ser relida inúmeras vezes. A noção de ‘autor’ impôs-se, reforçando a componente subjectiva, pessoal, libertando-se do espartilho das convenções.

Deponho/ suponho e descrevo/ a pulso  / subindo pela fímbria/ do despido  /  Porque nada é verdade/ se eu invento/ o avesso daquilo que é vestido  (Invento in Só de Amor de Maria Teresa Horta ed.  D.Quixote)

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Inclusivamente, a poesia deixou de ter no verso um elemento essencial, entrando assumidamente no universo da prosa, ao qual, aparentemente, não pertencia.

O que se mantém, provavelmente, é a importância dada ao ritmo, à sonoridade, aos recursos expressivos, à forma. Repito: a importância dada, e não esta ou aquela norma mais ou menos assumida pelos escrevinhadores. Ou a mais popular.

Sou um reflexo no vidro. Olho-me/ fixamente, e o poema capta-me nesta atitude./ Pudesse eu conhecer-me como se conhece/ o poema… (…) No entanto estou aqui. Entre mim e o poema/ opaco a ambos, sem nada para dizer (Descrição de um Lugar in As Inumeráveis Águas de Nuno Júdice ‘Obra Poética’ ed.Quetzal)

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Talvez por tudo isto, seja tão fácil identificar um texto poético e tão difícil defini-lo.

Domínios e fronteiras

Um leitor reparou que a maior parte das dicas e tópicos deste blog não têm interesse para o escrevinhador de poesia. Não sei se concorde, mas em alguma medida pode ser que seja assim; afinal, algo de específico distingue os diferentes domínios da expressão literária e, espero bem, qualquer coisa disso tenha sido aqui tratada.

-Sei muitas coisas...e quero te propor um negócio. -Sou todo ouvidos, "bocadourada".

-Sei muitas coisas…e quero te propor um negócio.
-Sou todo ouvidos, “Bocadourada”!

Porém, é possível descobrir o sopro da poesia no mais árido dos códigos jurídicos (um discutível, mas inspirador, domínio literário bem codificado e de longa tradição escrita), assim como existem construções poéticas com propósitos didácticos, históricos, políticos,científicos, filosóficos. E também jurídicos.

Inclusive, quantos romances de aventuras, mistério, intriga e crime não foram escritos sobre uma estrutura métrica e rimada, não é mesmo?

O próximo poema chama-se "A minha recessão interior".

O próximo poema chama-se “Ninguém vê a tua recessão interior”.

Aliás, sendo boa parte da produção poética assente no discurso de um ‘eu’, seu protagonismo em diferentes poemas acaba por lhe dar estatuto de personagem (já nem falo dessa espantosa obra de ficção que é a construção das heteronímias pessoanas). E ao longo de vários poemas pode-se entrever uma ‘intriga’ comum, um propósito, temas consistentes.

O FANTÁSTICO POETA-BOT -Os robots nunca irão substituir poetas de verdade. -Deixa ver se entendi...tu és um poeta. e pensar realmente que eu quero roubar-te o emprego?

O FANTÁSTICO POETA-BOT
-Os robots nunca irão substituir poetas de verdade.
-Deixa ver se entendi…tu és um poeta. E pensas realmente que eu quero roubar-te o emprego?

Parece-me que as distinções são válidas para clareza da crítica e do estudo, sem com isso termos de as utilizar como fronteiras com exigências de vistos, pagamentos de taxas e fiscalização de bagagens. Ou deportações. Mas mesmo que se imponham regras e alfândegas, nas fronteiras do mapa-mundi literário os contrabandistas, fugitivos e imigrantes clandestinos são legião.

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Sem musa e sem paixão escrevem-se livros?

Há quem escreva para poder cumprir o fado de ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore. Se ter um filho é um acto de consequências previsíveis e imprevisíveis e plantar uma árvore é sempre um benefício, escrever um livro tanto pode causar muito mal como algum bem.

-Uma vez descobri uma partícula assim de pequena. -Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!

-Uma vez descobri uma partícula assim pequenina.
-Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!                                                                                             BASÓFIAS NO LAR DOS FÍSICOS E ESCRITORES IDOSOS

O problema é escrever sem paixão (o que também se poderá dizer de ter um filho, evidentemente). Mas a paixão não é uma condição, somente um benefício.

Lima Barreto, no início do sec.XX, comentava assim os círculos literários cariocas que frequentava:

(…) uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopeia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal (in Diário Íntimo de Lima Barreto)

Romantismo

Se o candidato a escrevinhador sente a comichão de um tema e a vontade em o desenvolver, não precisa de autorização superior para deitar mãos à obra. E se conseguir desenvolvê-lo com alguma extensão, profundidade e elevação, a ideia passa a ter as necessárias três dimensões para se tornar um objecto apreciável.

Poesia ou ficção sem paixão não deve ser fácil, mas com algum entusiasmo ou motivação fazem-se coisas.

Mais acessível para aqueles que não se sentem arrebatados pela musa, são os estudos e monografias, memórias e relatos, trabalhos escritos que exigem, principalmente, conhecimento do tema e técnica expositiva.

TiraARTE

Aí o escrevinhador cruza as fronteiras nebulosas da literatura e entra em domínios mais rigorosos, sujeitos a outro tipo de escrutínio: rigor, fundamentação, lógica, entre outros requisitos.

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Ah, vocabulário adequado e gramática limpinha também ajudam.

Escrever como tempero

A abordagem enciclopédica, transmitida através duma linguagem simultaneamente poética e rigorosa, pode levar o autor a desenvolver o tema de modo caleidoscópico. Ou como quem tempera alegremente o prato favorito.

Escrevo estas linhas pensando num dos livros que mais me tocaram: Breviário Mediterrânico, de Pedrag Matvejevitch (ed.Quetzal).

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Um livro sobre geografia, portanto, em que o autor começa por dizer, logo na primeira linha: “Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar.” Pode-se ser, simultaneamente, mais claro e preciso? E mais adiante, acrescenta: “O Mediterrâneo não é apenas uma geografia.”

Claramente, não é um geógrafo a falar, nem mesmo um historiador como Fernand Braudel a situar o tempo de Filipe II no espaço mediterrânico (ou vice-versa): “ A veemência meridional introduz, tanto nos palavrões populares como nas blasfémias puníveis com o inferno, uma parte maior ou menor do corpo, e às vezes o corpo inteiro, exibindo-o ou fingindo oferecê-lo”. Como quem diz: as palavras têm cores, sabores e nutrientes.

Pedrag Matvejevitch é um professor de literatura francesa que escreve sobre o Mediterrâneo…que há mesmo a esperar saído dum autor assim sobre um assunto que lhe é tão estranho, não é mesmo? “Quanto mais conhecemos o Mediterrâneo, menos o vemos apenas com os nossos olhos: este mar não é de solidão.”

Matthew Cusick, Collages de mapas

Escrever como quem prepara uma sopa de pedra…

O fôlego da poesia

“Seria possível escrever Os Lusíadas numa fórmula small is beautiful?” perguntam-me com alguma maldade.

A resposta é óbvia: Os Lusíadas é tão pequeno quanto foi possível ao autor “encaixar” nos dez cantos a História de Portugal (desde Viriato), a narrativa da viagem de Gama à Índia, “dissertar” de modo erudito e elegante sobre a Cultura e a Ciência europeias, produzir uma reflexão crítica sobre a “opção” de desenvolvimento que eram os Descobrimentos, fazer recomendações ao próprio rei enquanto lhe cravava uma pensão por mérito literário…Não sei, outro qualquer precisaria de escrever muito mais e, certamente, não melhoraria em nada a obra.

A questão pertinente, a meu ver, será: é possível, ainda, ler um livro de poesia com uma narrativa e dimensão desta natureza (e não me refiro a epopeias, métricas complicadas e coisas mitológicas)? Gonçalo Tavares, recentemente, atreveu-se a escrever um livro assim (Uma Viagem à Índia, ed.Caminho).

Poetry-reading

“As colinas distantes”
As colinas distantes chamam por mim
Suas ondas rolando seduzem meu coração
Oh, como anseio pastar nos seus vales luxuriantes.
Oh, como desejo correr pelas suas encostas verdes.
Ai de mim que não posso!
Maldita cerca eléctrica!
Maldita cerca eléctrica!”
Obrigado.

Small is beautiful

Escrever poemas curtos levanta outro tipo de dificuldades, principalmente se o autor se impõe uma métrica rigorosa (tipo haiku) ou outras regras.

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-Penso que o teu poema não presta.
-É precisamente o que o poema pretende que tu penses.

O principal, numa economia de frases e palavras, é a transmissão duma ideia, dum sentir, duma imagem. Isso exige uma depuração rigorosa, uma noção de ritmo, a musicalidade inerente à forma, tudo tanto mais difícil quanto menor for o número de versos e sua métrica. Além de que, no caso dos poemas curtos, o sentido raramente ser evidente. (ver nota 1)

O que fascina nestas “construções” diminutas é a sua leveza associada ao impacto profundo daquilo que transmite, por vezes indefinível, outras vezes perturbante. O trabalho é comparável, imagino eu, ao do lapidar duma pedra preciosa.

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E, por vezes, transmitem tranquilidade, como se as palavras fossem o rumor do vento no bosque. Ou da noite a entrar pela janela. (ver nota 2)

Abuso da palavra?

Há poemas que fazem uso “desmesurado” das palavras, verborreicos ou não. E outros que as usam parcimoniosamente. Naturalmente, qualidade à parte, o efeito obtido é muito diferente.

No primeiro caso, provavelmente pretende-se uma leitura impetuosa, exaltante, agressiva, consoante o tema e o estado de espírito do autor. Ou “brincar” com jogos de palavras, sonoridades e imagens.

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Uma das dificuldades será o de manter o ritmo, ou de o alterar ao longo do poema sem prejudicar o efeito inicial, além do tremendo desafio de chegar ao final adequado.

Assim como há o risco de provocar cansaço na leitura, perca do fio-da-meada do sentido, causar verdadeiro tédio. Ou o perigo de se precipitar num final abrupto, precoce. Ou, ainda, à perca de “velocidade”, ao definhamento (os poetas também se cansam, perdem o fôlego, atiram-se para a berma da estrada…)

Muitas vezes, o tal desmesuramento resume-se a uma sucessão de referências meramente descritivas, recorrendo à adjectivação ou às comparações de modo incontinente. Aí, os poemas assemelham-se a listas de compras de mercearia.

Situação muito corrente naqueles panegíricos à terra natal, aos tempos da infância feliz e outros temas onde a emoção predomina mais do que o sentido estético (seja ele qual for).

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Diabinho: Bebe outra cerveja, tu sabes que queres…
Anjinho: Grande ideia! Bebe! Bebe! Bebe!                                                 
                                                                                     ……………………………………………………………………Sinais de que tem um sério problema de bebida.

Palavras, “paroles” e parolices

Fazendo mais uma vez a ressalva de que não há receitas, e toda a experimentação é legítima desde que não se indigne com a opinião crítica, chamo a atenção para a escolha das palavras: se são banais e previsíveis, se são insólitas e incompreensíveis, se são raras e pedantes.

A mim fascinam-me palavras banais, insólitas no contexto, mas apropriadas para a intenção geral do poema e para a estrutura que o suporta.

Por vezes, palavras com sabor antigo, erudito ou popular, que nos obriguem a saboreá-las ao ler ou dizer.

"O espantoso

O espantoso POETA-BOT apresenta: Então queres ser um poeta?
“A vida não é uma festa,/É como pastilha elástica/Na tua testa”             “?”                           …………………………………………………………………Exercício #97: escreve uma canção sobre o desespero. Canta-ao teu gato.

E pudor na adjectivação, assim como ousadia no verbo.

Há palavras repetidas? Desde que seja intencional, cumprindo o efeito pretendido, tornam-se fortes. De outro modo…       (ver nota)

Poesia e estados de ânimo

A nostalgia do tempo perdido, será esse o tema da poesia? Da dor, da perca, da separação, do repúdio. (ver nota 1)

Há quem desenvolva elaborado misticismo à volta da Saudade. E diga que é um tema nacional.

Como se não houvesse poesia alegre, sensual e toda virada para o presente. (ver nota 2)946588_596544917036820_1077050884_n

 

Poesia oral e/ou escrita?

Originalmente, os poemas eram o modo “literário” por excelência em culturas analfabetas, daí a procura dum padrão, dum método: métricas e rimas, fórmulas repetitivas, imagens e outras referências que fossem partilhadas pela maioria, tudo o que ajudasse a memória do declamador/poeta e facilitasse o entendimento dos ouvintes.

_Vocês, poetas, pensam que são...tão...tão...incrivelmente... -...articulados?

_Vocês poetas pensam que são…tão…tão…incrivelmente…
-…articulados?

Com a escrita, simultaneamente se cristalizaram técnicas e libertou-se a criatividade individual. Mas isso demorou séculos e sofre recuos sempre que os hábitos de leitura se perdem. A feliz união da poesia com a música tem ajudado à divulgação de poemas e autores de todas as épocas, ultrapassando os anacronismos típicos e dificuldades de vocabulário.

Muitas vezes, poemas de grande beleza são de impacto duvidoso quando ditos a alta voz para um público, talvez porque não são concebidos originalmente para esse efeito, que tem suas exigências de dicção e forma.

E depois há o sentido, ou múltiplos sentidos, do poema: tanto maior será a compreensão de quem ouve quando suas expectativas não são confrontadas com dissonâncias e subtis ironias.

Mas deverá o autor esforçar-se por corresponder a essas expectativas? Épater le bourgeois (Chocar o burguês) já era a ambição de poetas franceses como Baudelaire (a frase creio que é dele mesmo) e não era isso o que o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, também pretendia? (ver nota)

Ou como diz outro poeta: o mar subiu ao degrau das manhãs idosas/inundou o corpo quebrado pela serena desilusão/assim me habituei a morrer sem ti/com uma esferográfica cravada no coração. (in Mais Nada se Move em Cima do Papel de Al Berto)

O toque da Musa

Há poemas com a brevidade e a força dum raio caído do céu, a linguagem de tal forma depurada, o raciocínio tão claro, que ferem o leitor. E este fica com a ilusão de partilhar um momento divino: o da musa que tocou o poeta.

Porém, se a inspiração é a matéria-prima da poesia, não esquecer a laboriosa arte do ouvido (ver nota 1), a sensibilidade do corpo ao movimento (ver nota 2), o difícil equilíbrio entre a ideia e a emoção (ver nota 3)

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Título do livro: “Você”
Escritor: -Não é sobre o que você tem…mas sobre quem você é.
Homem na assistência: -E “quem poderia ter sido” não conta?

Sem advogar métodos e normas, parece-me prudente não dar jamais por concluído o poema sem meditar nestes três aspectos.

Rima, métrica?! Falha minha certamente, que nunca fui dado às ciências exactas.

Valerá a pena escrever poesia no sec.XXI?

Se escrever prosa oferece dificuldades, poesia parece intuitivo e simples, trabalho de curta duração. E com um dicionário de rimas à mão, fica ainda mais fácil. Temas? Há tantos: uma flor, um amor, um pensamento profundo esticado em duas dúzias de linhas, um grito de revolta contra a injustiça, de tudo “se faz” poesia.

Mas quem a lê? Pior: quem a escreve?

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