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tópicos e dicas para escrita

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Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

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O (des)equilíbrio entre a palavra e a ideia

O uso da palavra como matéria-prima essencial do texto nunca deveria ser menosprezado, mesmo pelo escrevinhador sem pretensões literárias. Esse menosprezo apenas revelará suas próprias limitações. O que não é o mesmo que dizer que o fetichismo da palavra seja garantia de qualidade.

“Ler bem” é ajustar a proximidade da presença sentida num texto a todos os níveis do encontro: espiritual, intelectual, fonético e até “carnal” (o texto actua sobre o nervo e sobre o músculo, como a música). (1)

“Permission to write a poem, sir?”

“Permissão para escrever um poema, capitão?

Recorrer a palavras ‘caras’ (difíceis, raras, em desuso) pode ser um bom artifício, como uma excelente proposta de reflexão e ponto de partida para um algures narrativo ou ensaístico. Mas todo o cuidado é pouco para evitar o pedantismo ou as dificuldades de comunicação para além do razoável.

Mas devo reconhecer que foi precisamente o desencontro, a ambiguidade, esta melancolia face ao efémero e ao precário, a origem da literatura na minha vida. (2)

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Na poesia a palavra tem um peso diferente daquele que pode adquirir num texto em prosa, apesar das distinções entre uma e outra estarem esbatidas nos últimos 150 anos: o texto poético valoriza (ou tende a valorizar) a materialidade da palavra pela sonoridade no texto, criando efeitos tanto maiores quando lidos ou expressos em voz alta. Igualmente, o texto duma peça de teatro procura retirar efeito dessa materialidade.

Juan: Devias estar em casa. / Yerma: Entretive-me. / Juan: Não compreendo em que te tenhas entretido. / Yerma: Ouvia cantar os pássaros. / Juan: Está bem. Assim darás com que falar às pessoas. / Yerma: Juan, que pensas? / Juan: Não o digo por ti, digo pelas pessoas. / Yerma: Punhalada que lhes dêem às pessoas! / Juan: Não amaldiçoes. Fica feio numa mulher. / Yerma: Oxalá fosse eu uma mulher. (3)

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Num caso ou no outro, pode consegui-lo com efeitos mais estéticos (digamos assim, para facilitar) do que dramáticos. Pode fazê-lo melhor ou pior, e certamente não agradará a todos (o que, em si, não só não deve constituir um problema, como é uma fatalidade). A vacuidade das ideias, a indolência do enredo, a banalidade do texto, os efeitos espampanantes e ocos, são perigos frequentes nestes mares da polémica em que tanta escrita naufraga sem deixar glória, nem saudade.

(…) sempre defendi a importância do desejo e da paixão. Não por serem um ideal em si, mas porque formam o elemento dinâmico da vida. (4)

'If God tells you what to say in your sermon, why do you make so many corrections?'

‘Se Deus diz-te o que vais dizer no sermão, porque fazes tantas correções?’

A saturação de ideias também pode  prejudicar, ainda que de modo diferente, o delicado equilíbrio entre forma e conteúdo: por um lado, os propósitos da escrita revelam uma urgência desmesurada; por outro, traem a insegurança do escrevinhador enquanto tal.

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus/ Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne/ E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito! (5)

QUE QUER DIZER com os meu trabalho estar errado

QUE QUÉ DIZER com o meu trabalho estar errado?!? Copiei TUDO directo da Internet!!

Mas que não se diga que o desafio não possa ser enfrentado com êxito: em toda a história da literatura universal abundam exemplos de textos densos e fascinantes.

Por outro lado, considero que ele a contou e a disse com todas as circunstâncias ditas, e que não pôde fabricar em tão breve espaço tão grande máquina de disparates; e se esta aventura parece mentira, não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la por falsa ou verdadeira, a escrevo. Tu, leitor, por seres prudente, julga o que te parecer, que não devo nem posso mais (…). (6)

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“Estou a escrever o meu obituário, mas com uma surpresa: engano a morte no último minuto”

Todavia, o escrevinhador não tem que balançar entre a formulação de ideias e a manipulação da palavra. Expressar-se através da palavra é o que o distingue do escultor ou do músico, e por mais emocional ou inconsciente que sejam as urgências dessa expressividade, sugerem ideias …mesmo que involuntárias.

Na tua voz as palavras são nocturnas (7)

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Ilustración de Fernando Vicente

Ou não fosse por isso que tanto escrevinhador se descobre a si mesmo através da escrita e, por isso, ainda que sem leitores, prossegue escrevendo para o baú.

Se do futuro alguém quer se defender/ Esse sou eu!/ Ninguém mo disputa./ No mercado dos versos, meus amigos/ Sou daqueles que não ficam por vender (8)

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(1) in Paixão Intacta de George Steiner, trad.Margarida Periquito e Victor Antunes ed.Relógio d’Água

(2) in Resistir de Ernesto Sabato trad.Carlos Aboim de Brito, ed.Dom Quixote

(3) in Yerma de Federico García Lorca, ed.Catedra

(4) in O Optimismo de Francesco Alberoni, trad.Cristina Rodriguez e Álvaro Guerra ed.Bertrand

(5) in ‘Saudação a Walt Whitman’ Poesia de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(6) in El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(7) in ‘Partida’ Dia do Mar de Sophia, Obra Poética ed.Caminho

(8) Ibn Ar-Ruh in O meu coração é arábe-a poesia luso-árabe colectânea organizada e traduzida por Adalberto Alves, ed. Assírio&Alvim

Escrever como terapia…???

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

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Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

'Niña leyendo' (1850) de Franz Eybl.

Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

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Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

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A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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Escrever como não tendo um propósito

A narrativa não tem de estar sujeita a um enredo povoado de personagens ou carregado de situações, seguindo um ritmo rápido ou surpreendente (pelo menos, no sentido de surpreender pelo dramatismo).

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram*

«Jeu d’enfants #1», 2010, dessin de Jérôme Zonder

«Jeu d’enfants #1», 2010, desenho de Jérôme Zonder

O olhar de quem narra pode deambular pelo mundo que nos descreve, detendo-se em detalhes como são as cores ou os rostos, espantando-se com o movimento alucinado de um insecto em voo ou de uma vida, meditando sobre o café da manhã de todos os dias (em frente ao jornal ou a uma janela virada à rua), exprimindo ideias e impressões do narrador e daqueles que narra.

O moço atava os embrulhos de todos os dias no frio crepuscular do escritório vasto. “Que grande trovão”, disse para ninguém, com um tom alto de “bons dias”

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‘Antes de se auto-diagnosticar com depressão ou baixa auto-estima, certifique-se se, na realidade, não está rodeado de imbecis.’

Como todas as opções, esta corre o risco de desagradar e, pior que tudo, ser mesmo muito chata. Se for bem sucedida, torna-se um desafio ao leitor e pode ser extremamente gratificante.

O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo—tudo isso se tornou parte da minha vida

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Que tem ela de original, estimulante ou outro qualquer atributo positivo? De original, bem entendido, não tem nada. Mas coloca um parênteses no modo habitual de contar uma estória, eventualmente fazendo estória da ausência de um enredo (o qual deveria progredir página após página até o leitor afirmar com segurança que ‘este é um livro sobre…’).

Querer ir morrer a Pequim e não poder é das coisas que pesam sobre mim como a ideia dum cataclismo vindouro

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Sob a aparência da banalidade quotidiana e sem rumo definido, na realidade o enredo constrói-se sobre uma série de instantâneos que sugerem uma deriva, um mosaico ou puzzle, intrigando o leitor pela sua assumida negligência ou falta de propósito. Se o leitor tiver já alguma experiência, provavelmente percebe que é a ele mesmo que compete montar ‘as peças’ para que o mecanismo do enredo se revele e, como todo o mecanismo, revele o seu propósito.

Sinto já com a banalidade do conhecimento. Isto agora não é já a Realidade: é simplesmente a Vida

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-Olha,Emma, os nossos telefones estão a enviar textos um para o outro. Estou convencido que planeiam a nossa morte…

Porém, este processo narrativo exige algumas ‘competências’ para resultar satisfatoriamente. Destacaria o nível de qualidade da escrita (e não me refiro só ao vocabulário mínimo e correcção gramatical para se escrever um texto literário), imprescindível para prender a atenção do leitor, principalmente ao início, quando ‘não se passa nada’ e ele ainda não percebe aonde se veio meter. Sendo a escrita suficientemente elegante, convém que não seja fútil e, pelo contrário, revele inteligência e sensibilidade, duas qualidades que dão sentido ao narrado e poderão fazer o leitor ganhar o dia… melhor ainda: a perder a noite!

Contemplei-a do fundo do abismo, anónimo e desperto. Ela tinha tons verdes de azul preto e era lustrosa de um nojo que não era feio

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desenho de ENRIQUE FLORES

Claro que estas ‘competências’ são as mesmas que recomendo para a elaboração de qualquer texto, literário ou não, mas aqui tornam-se mais importantes pois actuam sem rede, ou seja, sem um enredo que compense carências ou descuidos perfeitamente evitáveis. A inteligência e sensibilidade, neste caso, têm de suprir a ausência de tensão do enredo, provocando pelo humor, inquietando pelo ritmo, intrigando pela diferença.

Não costumo estar nas ruas àquela hora e por isso estava numa cidade diferente

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O resultado pode ser um texto inclassificável, uma estória talvez sem nexo, um estranho objecto literário. Daí o risco, daí as dificuldades.

Eram seis horas. Fechava-se o escritório. O patrão Vasques disse, do guarda-vento entreaberto, “Podem sair”, e disse-o como uma bênção comercial. Levantei-me logo, fechei o livro e guardei-o

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imagem de Chema Madoz

*Esta e todas as citações em itálico são retiradas do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, ed.Assírio e Alvim

Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

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cartoon de Fernando Vicente

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Uma recomendação de um velho que já viu muito…

Não se pode falar dos escrevinhadores como sendo todos madeira do mesmo lenho, mas com isto não pretendo dizer o óbvio (que há os bons, os assim-assim e todos nós que sobramos), nem o evidente (que uns tendem para umas coisas e outros para outras, como são os prosadores e os poetas).

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Na realidade, e sem que isso pretenda ser juízo de valor, o que entendo é que há os que escrevinham por prazer, outros por paixão, uns por tédio e alguns por obsessão, talvez ainda por algum tipo de vaidade ou de dor, e assim por diante. Provavelmente, até haverá os que escrevinham por todas estas razões.

Na história da literatura de todos os países com tradição literária hão-de sobrar exemplos disto tudo. Mas o que me interessa sublinhar é que distintas motivações resultam, naturalmente, em diferentes processos de criação.

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Pessoalmente, gosto da atitude daqueles escrevinhadores já com nome feito e obra reputada que insistem em colocar o prazer de contar estórias (ou criar enredos) e a paixão pela escrita como arte de composição no topo das suas motivações.

O que não quer dizer que não haja tanto neurasténico, rancoroso ou morcão (como se diz na minha terra) na história universal da literatura a escrevinhar obras geniais.

Porém, o desejo do aperfeiçoamento, a vontade de experimentar algo diferente, creio que nasce dos que têm prazer e paixão. E nota-se, senão na qualidade dos escritos, no modo como exploram leituras e compõem suas coisas.

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Neste Verão (ou Inverno, se estiver abaixo do equador), em que o humilde escriba deste ainda mais humilde blog passará a ter uma quebra de produtividade semanal, fica esta recomendação: leiam bem, escrevam como podem e, acima de tudo, vivam uma vida!

Um curto parênteses para repetir o de sempre

Para aqueles que pedem dicas para a promoção dos livros editados, relembro que não é essa a vocação deste humilde blog. O seu propósito é reflectir sobre a criação literária numa perspectiva algo teórica, algo prática.

imagem de Pawel Kuczynski

imagem de Pawel Kuczynski

Numa época em que a auto-edição (ou edição de autor) é cada vez mais acessível, o escrevinhador tem total liberdade criativa, correndo o risco de não ser lido e que é o risco de todos os tempos, no passado, no presente e no futuro.

É por isso que entendo vivermos numa época de ouro da escrita (tudo se pode publicar) e o seu contrário (raro é o livro publicado que se aproveita).

Quando digo ‘raro’, não pretendo dizer que hoje se escreve pior do que antes, mas que o aumento maciço de edições desequilibra a proporção entre os livros interessantes e os outros.

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Assim, mais do que se preocupar com a promoção, creio que o escrevinhador deve ser autêntico e interessante…qualidades que, de modo algum, se confundem.

Pode ser interessante sem ser autêntico?

Evidentemente que sim, mas acaba sempre por se notar algo de postiço e/ou vazio na escrita.

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‘Dr.Peter-psiquiatra’  PACIENTE:”Ninguém presta atenção ao que eu digo. Sou tão chato, as pessoas desinteressam-se” PSIQUIATRA: “Desculpe, estava a dizer alguma coisa?”

Autêntico sem ser interessante é o mais comum, pois se a qualidade de alguém ser o que é já se torna muito duvidosa na vida em geral, não há nenhuma razão para que a escrita seja excepção.

Daí regressar incessantemente à interrogação escrever como?

"Oh, sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se eu trabalhasse desse modo acabava despedido."

“Oh, eu sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se trabalhasse desse modo acabava despedido.”

 

 

Ensaios, monografias, memórias, estudos…

Os trabalhos académicos têm suas regras, sua metodologia, quem os escreve é suposto dominar minimamente as exigências formais, até porque recebeu formação nesse sentido e já leu muitos trabalhos do género antes.

Mas o escrevinhador amador, aquele que elege um tema sem ter preparação académica para o auxiliar, como deve fazer?14135233

Pode mesmo pôr-se em questão se o deve fazer, já que lhe falta a dita cuja preparação, mas trata-se de mero preconceito: existe uma longa lista de estudiosos autodidactas, sem preparação académica formal, que se destacaram pelo trabalho de investigação, experimentação, estudo ou divulgação.

Ora, se para a escrita da poesia ou de um romance é muito recomendável ter alguma bagagem literária, para o escrevinhador que desenvolva algum tipo de ensaio, investigação ou simples divulgação, é de simples bom senso que ‘leia tudo’ o que houver para ler antes de publicar alguma coisa.

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Já no post anterior me referi ao ‘à vontade constrangedor’ como se escreve sobre assuntos sem noção de erros, lapsos, confusões, lacunas que até o leitor leigo, mas razoavelmente informado, pode facilmente perceber.

Por vezes, o plágio é evidente, noutras vezes as fontes duvidosas são as mesmas das de outros livros.

Mais frequentemente, o tema é tratado de forma superficial, sem acrescentar nada à literatura que já existe: não há uma ideia, um facto, um enquadramento, nada, absolutamente nada, de novo. Excepto um nível mais elevado de tédio e monotonia (mas aqui estou a pensar naqueles trabalhos académicos que se fazem para cumprir metas).

-Então, a que é que você se dedica? -Sou um troll. Estrago a internet a toda a gente.                 -Este vinho não presta.

-Então, a que é que você se dedica?  -Sou um troll. Estrago a internet a toda gente.                    -Este vinho não presta.

Não penso que sejam géneros mais difíceis do que o poético ou a ficção, longe disso. Mas não permitem a mesma liberdade criativa e os artifícios de estilo, exigindo muito mais do que a simples verosimilhança, tendo de ser claro e transparente na argumentação, capacidade para sustentar ideias e afirmações com algo mais do que raciocínios ou estórias, respeitar a lógica básica e colocar-se a si próprio a questão da fundamentação do que é dito. Por uma questão de credibilidade, claro.

Bem, fácil é que não é, realmente…

Nem poesia, nem ficção.

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

Escrever como quem corre

Ao narrar acontecimentos ficcionais, o escrevinhador goza de todas as liberdades, inclusive a de violar a Lógica.

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A HEROÍNA QUE-NÃO-É-ÓRFàDO LIVRO DE CRIANÇAS.                                                                                                 Mago:’Sally tem de se juntar à nossa aventura. Só ela pode derrotar a rainha-bruxa de Mordax.                                                                                                                   Mãe de Sally:’Não antes dela comer os brócolos.’

O trabalho literário não está isento de juízos de valor, e apesar de não ter qualquer sentido a expressão gostos não se discutem, que é popular e aceite acriticamente, ninguém vai ao ponto de afirmar que livros não se discutem…bem, à excepção dos livros sagrados, claro.

Ora, o ‘pecado’ de alguns livros é o de criar expectativas (intriga, tensão), despachando-as rapidamente e de modo insatisfatório, penalizando os méritos que a obra eventualmente tenha. A pressa com que o escrevinhador resolve enigmas, dilemas, ambiguidades, e outras ‘zonas obscuras’ do enredo, pode lhe ser fatal.

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Há alguns anos saiu um livro com sucesso comercial e de autor bem conhecido, tendo como enredo a elucidação de um enigma histórico. Li com muito interesse, já que me pareceu uma boa resenha das diferentes teorias para resolver o tal enigma, todas com seus defensores eruditos e documentados.

Mas a intriga que liga o protagonista principal a essa investigação, a caracterização deste, as restantes personagens, a qualidade da escrita, são banais. E a parte que me interessou foi quase sempre despachada por diálogos extensos, didácticos, entre o investigador e especialistas. Ou seja, um tema interessante tratado de modo estereotipado, ‘fácil’.

Contudo, as expectativas que tinha foram satisfeitas, que eram a de perceber os ‘contornos’ do tal enigma, mas confesso que o destino das personagens e o desfecho da intriga não me empolgaram em nenhum momento.

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Publicações Livros Irrelevantes                                                 “Os teus livros vendem-se muito bem nas farmácias…logo a seguir aos comprimidos para dormir.”

Pior será quando o escrevinhador carece do apoio editorial para corrigir as falhas mais evidentes do enredo e do seu desenvolvimento, carecendo ainda de tempo, de resistência e de perspectiva crítica. Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória.

Se o escrevinhador opta pelo estereótipo porque entende que se enquadra numa boa estratégia de comunicação, como no tal livro que li, a coisa até funciona muito bem. Talvez deixe de funcionar ao longo dos anos, ao deixar de beneficiar da tal estratégia de comunicação (que envolve técnicas extra-literárias, essencialmente), e passe à categoria dos monos.

Mas se o escrevinhador não cumpre os ‘mínimos’, ou seja, se deixa o leitor suspenso no vazio, sem pistas, nem respostas ou mistérios profundos, arrisca-se a estragar um enredo promissor sem ter qualquer benefício.

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‘Olha, lamentamos muito. Se soubéssemos que ias te tornar numa escritora, seriamos melhores pais!’ cartaz: Encontro com o autor de ‘A minha vida miserável’

‘Para quê tanta pressa em dar por concluído um livro?’, perguntará legitimamente o leitor frustrado.

A resposta é, geralmente, muito simples: fadiga. O escrevinhador propôs-se correr a maratona e saiu da prova antes da meta.

 

A frase como objecto artesanal

Numa época de ‘edições de autor’ disfarçadas sob a etiqueta duma editora mercenária, o escrevinhador não tem apoio editorial que o poupe das vergonhas da publicação de erros de palmatória, gralhas e qualquer deficiência demasiado óbvia que é o que pressupõe o regular trabalho de edição.

Muito escrevinhador sente-se confiante para escrever frase a frase deixando fluir naturalmente as palavras, corrigindo a gramática ou o estilo de modo quase intuitivo, sem maior esforço do que o de quem trauteia um tema musical.

Suponho que este é o método ideal, pois liberta o escrevinhador das preocupações técnicas, dedicando-se ao desenvolvimento dos conteúdos. Na condição de, num segundo tempo, lidar com as questões formais de modo rigoroso e crítico.

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A maioria, porém, é tentada a escrever apesar das muitas inseguranças, demasiadas fragilidades, óbvias lacunas. E sem ter disso noção, aparentemente.

Também nestes casos parece-me recomendável que as preocupações formais assumam destaque depois da produção de texto, e por todas as razões.

À cautela, o escrevinhador menos confiante deve estimular em si a capacidade de escrever de modo articulado, ou seja, usando palavras de que conheça o sentido e sem pretensão de ostentação, evitando frases longas onde o sentido se perca ou, pelo menos, perca clareza.

E ao ler e reler o escrito, que o escrevinhador apure ‘o ouvido’ para as expressões familiares, especialmente aquelas que neste blog chamo ‘estereótipos’, ‘bengalas’, ‘lugar-comum’: expressões que podem ser usadas num diálogo, mas a serem evitadas a todo o custo fora de contextos muito específicos.

-Aestereotipada?chas que sou

-Achas que sou um estereótipo?

O perigo, já o disse, é o da banalização. Sem cair no exagero oposto de usar fórmulas anacrónicas que tornem o texto uma caricatura pedante, ilegível, incompreensível.

Por vários motivos, a adjectivação pode tornar-se um tique, um excesso, uma praga. Escrever que ‘depois daquela maravilhosa noite, acordou com um sol magnífico, sentindo-se enérgico e confiante, e sabia que aquele seria um dia fantástico e pleno de acções decisivas para o projecto grandioso etc, etc‘ é mais revelador de um estado de espírito do que uma abordagem literária propriamente dita.

Ou seja, no tal segundo tempo, o escrevinhador pode cortar à adjectivação, reformulando a frase e, de acordo com os seus propósitos, desenvolver um olhar irónico, uma perspectiva ácida, um tom divertido: qualquer coisa que distancie a narração e o narrador das emoções que a personagem, ingenuamente ou não, experimenta ao despertar.

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“Eu era uma rapariga simples do campo com dezasseis anos quando fugi da quinta do meu tio…….”

Claro, pode fazer o contrário, reforçando a ‘vertigem’ da narração ser conduzida pelos delírios da personagem, assumir uma escrita confessional ‘à flor da pele’, ‘em carne viva’. E pode ser que resulte bem. Mas correrá ainda melhor se for parcimonioso na adjectivação.

Sem musa e sem paixão escrevem-se livros?

Há quem escreva para poder cumprir o fado de ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore. Se ter um filho é um acto de consequências previsíveis e imprevisíveis e plantar uma árvore é sempre um benefício, escrever um livro tanto pode causar muito mal como algum bem.

-Uma vez descobri uma partícula assim de pequena. -Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!

-Uma vez descobri uma partícula assim pequenina.
-Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!                                                                                             BASÓFIAS NO LAR DOS FÍSICOS E ESCRITORES IDOSOS

O problema é escrever sem paixão (o que também se poderá dizer de ter um filho, evidentemente). Mas a paixão não é uma condição, somente um benefício.

Lima Barreto, no início do sec.XX, comentava assim os círculos literários cariocas que frequentava:

(…) uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopeia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal (in Diário Íntimo de Lima Barreto)

Romantismo

Se o candidato a escrevinhador sente a comichão de um tema e a vontade em o desenvolver, não precisa de autorização superior para deitar mãos à obra. E se conseguir desenvolvê-lo com alguma extensão, profundidade e elevação, a ideia passa a ter as necessárias três dimensões para se tornar um objecto apreciável.

Poesia ou ficção sem paixão não deve ser fácil, mas com algum entusiasmo ou motivação fazem-se coisas.

Mais acessível para aqueles que não se sentem arrebatados pela musa, são os estudos e monografias, memórias e relatos, trabalhos escritos que exigem, principalmente, conhecimento do tema e técnica expositiva.

TiraARTE

Aí o escrevinhador cruza as fronteiras nebulosas da literatura e entra em domínios mais rigorosos, sujeitos a outro tipo de escrutínio: rigor, fundamentação, lógica, entre outros requisitos.

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Ah, vocabulário adequado e gramática limpinha também ajudam.

A escrita artificial

Mais visíveis na poesia do que na prosa, os artifícios literários surgem ‘naturalmente’ por razões que se prendem à bagagem cultural do escrevinhador.

(…) Os/ duendes/ que protegem a escrita adoram, pois, pormenores,/ porém na batalha dos doze contra doze/ o que há a dizer é só isto:/ venceram os defensores das mulheres de longa biografia/e de recursos eróticos infindáveis. Venceram uns e/  umas; perderam os outros. (in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho)

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Pode-se contrapor o ‘artifício’ ao ‘natural’ no sentido de ser algo feito pelo Homem em vez de produzido ou gerado naturalmente. Assim, não faz sentido polemizar se o texto caracteriza-se por ser livre de artifícios literários ou, pelo contrário, não usar uma linguagem espontânea e natural.

Oral e escrita, a tradição literária contamina todo a comunicação e não é difícil encontrar artifícios literários eruditos nas expressões mais populares.

"Maldito sejas, pássaro madrugador!"

“Maldito sejas, pássaro madrugador!”

O que os torna artificiais, no sentido comum de postiço ou falso, são o uso fora de contexto e o abuso, que tanto podem se dever ao pedantismo como à ignorância do escrevinhador. Frequentemente, são usados de modo estereotipado e até inconsciente, prejudicando o texto.

Usados com critério são uma das marcas do texto literário, o qual se distingue da linguagem comum, da publicidade e dum sms por não ter utilidade evidente, nem ser sujeito a análise contabilista.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

Os artifícios literários serão, provavelmente, tanto mais interessantes quando surgem espontaneamente e como expressão adequada do estilo, do propósito e do tema. O que, geralmente, está na proporção directa da tal ‘bagagem’ que cada escrevinhador carrega consigo.

(…) Como se atinge a respiração? Decorativa pessoa,/ adormecida luminosidade de mãos, pássaros que a flor /abre por dentro./ Manchas de algures no céu da boca. (Fragmentos in Nos Braços da Exígua Luz de Nuno Júdice  Obras Completas 1972-1985 ed.Quetzal)

"Sou uma abominação da lei de Deus!"

Sou uma abominação da lei de Deus!

Claro, quando o escrevinhador se sente confiante para desenvolver o estilo que dará corpo a um propósito, os artifícios tornam-se parte essencial do tema.

(…) Prouvera que ele morra, que eu quero ser rei e dormir com vossa majestade, já estou farto de ser infante, Farta estou de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha. Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem, e com esta sábia e céptica sentença se concluiu a conversação em palácio, primeira das muitas com que D.Francisco fatigará a rainha, (…) (in Memorial do Convento de José Saramago, ed.Caminho)

Oferta dum fim-de-semana de sonho

Sugestão para um fim-de-semana de chuva, vento e frio: o escrevinhador reunir seus textos, mesmo os mais díspares ou fragmentários, e perceber se formam uma unidade, algum tipo de conjunto ou de conjuntos.

"A nossa investigação mostra como a hereditariedade e o ambiente são igualmente significativas, mas nenhuma é mais importante do que a regulamentação legal."
“A nossa investigação prova como a hereditariedade e o ambiente são ambos significativos, mas nenhum é mais importante do que a regulamentação legal.”

Dito de outra maneira: guardar uma certa distância em relação ao que escreveu, olhar os textos numa qualquer perspectiva, estabelecer relações, descobrir rupturas.

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Sim, é um modo de auto-avaliação. Uma abordagem crítica. Tanto mais útil se o material reunido tem anos, ou é algo extenso: tempo e trabalho, portanto. Produtividade, criatividade, vocação, chamem-lhe o que quiserem.

Fundamental mesmo é perceber a intenção original e o resultado, entender a adequação entre os recursos (vocabulário, processos estilísticos), o contexto (propósito, tema) e a execução (abordagem, ordenação, desenvolvimento, conclusão).

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Sem cair na tentação de jogar com tudo ao fogo aceso na lareira (tecla ‘Delete’).

Para quê correr?

 Aperfeiçoar o estilo não é tarefa fácil, nem é preciso ser um génio para saber isso.

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O que igualmente se sabe, e diz-se menos, é que se trata dum esforço doloroso como aqueles exercícios físicos que exigem técnica e repetição para resultarem bem, satisfazendo quem o pratica. Ora, em ambos os casos a grande maioria fica-se pelos mínimos para sossegar a consciência e acreditar que, apesar de tudo, chegará à boa forma.

Níquel na Pré-História

Imagino que é por isso que se vê cada vez mais gente a participar em maratonas, meias-maratonas e outras fracções de maratona: afinal, o que conta é participar e tal e tal. Claro que se pode perguntar para quê o esforço duma prova de atletismo em meio urbano, se com esforço e alguma criatividade pode caminhar por montes e vales num fim-de-semana. Talvez por ser algo cínico, sem maldade, nem intenção, entendo que a resposta anda para os lados da mediatização, dos fenómenos de massas, das modas e tendências que preenchem os espaços de debate e da criação.

Na escrita observa-se algo semelhante: muito escrevinhador sente-se satisfeito por participar em tertúlias, colectâneas e concursos, aceita o elogio fácil e tenta não se melindrar com as críticas maldosas. O que até pode ser muito reconfortante, claro, mas não resulta em aperfeiçoamento.

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A VIDA em oito passos simples
1-2-3-4-5-6-7- 8: repetir passos de 1 a 7 até que a morte o leve.

E, tão ou mais importante: cadê o grãozinho de loucura? Onde a sedução

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O autor à procura da sua vocação

A imensa proliferação de escrevinhadores (com ou sem obra publicada) é um fenómeno social recente favorecido pelas tecnologias que permitem a auto-edição ou a edição incomparavelmente mais barata do que em qualquer outra época, e que tem como responsáveis directos a educação generalizada da sociedade através do modelo do ensino obrigatório e o acesso ao ensino superior por um número crescente de pessoas em diferentes fases da vida. Provavelmente, muitos escrevinhadores são tentados a iniciar um projecto porque estão na reforma, têm tempo, têm motivação.

O teu país precisa de TI

O teu país precisa de TI

E todos, claro está, são incitados por esse aguilhão que é impreciso, vago, variável, e que pode ser chamado de ‘criatividade’ para efeitos comerciais, estéticos ou de mera bengala para facilitar a comunicação. Porém, na categoria dos escrevinhadores principiantes é notória uma clivagem etária bastante acentuada: aqueles que tentam publicar ainda antes dos trinta, trinta e cinco anos, e os outros já depois dos sessenta, sessenta e cinco anos.

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Os mais novos podem ser encarados como todos os jovens escrevinhadores o foram nos últimos, vá, duzentos anos: irreverentes para com a ‘tradição’ e os ‘mestres’, desesperados pela originalidade, procurando os temas, o tom e o estilo para agradar rápida e lucrativamente.

'This is the shortest autobiography I've ever read!'

Esta é a autobiografia mais curta que li!

Ou seja, explorando os limites, fazendo pela vida, conformando-se com o que lhes parece mais fácil ou mais garantido. A diferença, para com os seus antecessores destes duzentos anos de literatura popular? Imensas diferenças: todas aquelas que identificamos com o estilhaçar da informação/formação/debate em milhentos canais de comunicação, a mercantilização global da cultura, os hábitos variáveis de consumo, essas coisas todas que tendemos a associar a modas e tendências. Que, noutro ritmo, com outro impacto, de algum modo sempre estiveram presentes nas atribulações culturais.

"Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

“Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

Mas o mais velhos? Esses sim, são a ‘novidade’ do século se atendermos à quantidade e variedade. O que escrevem? Para quem escrevem? Porque escrevem?

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“A minha professora diz que as meninas podem crescer e ser o que quiserem! Porque escolheste ser uma velhinha?”

Não o fazem pelo dinheiro, nem pela fama, e são alvo de mercado preferencial de toda uma ‘indústria’ de cursos faça-você-mesmo, de formação aprenda-num-instante, de tertúlias venha-conviver-em-poesia, de edições pague-já-que-nossa-editora-publica-amanhã e tantas coisas mais.

"Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada," murmurou Felix

“Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada?” murmurou Felix. “Era somente a minha primeira tentativa. Tenho ainda mais oito para escrever!”

Tudo isto é cultura, antropologicamente falando. Mas daí a resultar em boa literatura…

‘Ano novo, vida nova’

O título deste post é o característico estereótipo, daí manter as distância graças ao uso das aspas. Começar de novo, fazer tábua rasa do passado: outras expressões estereotipadas e populares que podem não ser de grande valia, excepto como manifestação de um desejo, dum sentimento inconformista (mesmo que inconsequente), da insatisfação perante a vida, etc. Não são de grande valia?! Isso já depende…

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A vantagem do escrevinhador é que tudo isto é matéria-prima para ‘qualquer coisa’, e relembro estas linhas:

Há alguns anos, não interessa quando, achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. (…) principalmente quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua, percebo então que chegou a altura de voltar para o mar (…)’

(in Moby Dick de Herman Melville, ed.Relógio d'Água, trad.Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves)
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Bons tempos em que o mundo era grande e os mapas tinham enormes extensões brancas por assinalar. Porém, ao escrevinhador do ano de 2014 não faltarão recursos para ‘voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas‘, seja na versão radical de sair pelo mundo fora (que pode ser o trivial mundo para lá da porta de casa), seja pelos espaços infinitos da sua biblioteca, da memória e da imaginação (ok, e da internet também!).

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Pessoalmente, o tema das viagens é do mais apelativo que conheço, e por aqui e por ali já falei alguma coisa disso. Aproveitando o tema de Dezembro associado à ‘renovação’, em que se costuma fazer a lista das x coisas a realizar no próximo ano, que posso sugerir a um escrevinhador à procura dum tema, duma inspiração, duma mudança (no estilo, no tema)?

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A Arte da Conversação licção 6: ser interessante
-Hum.
-Hum.
Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

Já dizia o sábio que ‘nada há de novo debaixo do Sol‘*, o que pode ser profundo e merecer reflexão, mas logo a seguir acrescenta que ‘mais amargo do que a morte é encontrar uma mulher que é uma armadilha cujo coração é uma rede, e cujas mãos são cadeias‘*. Ora, o que me apetece dizer ao velho sábio e aos escrevinhadores em geral, é aquilo que disse um outro sábio: ‘Eu sou uma coisa e os meus escritos outra‘**.

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“É isso, Kenji.Tudo acontece por uma razão, mas ninguém tem a menor ideia qual seja!”

O que, traduzido ao meu modo, dá nisto: ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘.

*in Eclesiastes

** in Ecce Homo de Friedrich Niesztche

Renovar

Como me venho repetindo frequentemente (sim, sou mesmo chato…), um dos benefícios de uma cultura bibliográfica razoável está no apuro do sentido estético do escrevinhador, levando-o a confrontar a sua mesquinha produção com os gloriosos textos dos grandes autores.

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Não se trata dum exercício masoquista, nem é o meu modo de atirar para o desespero e para o silêncio a esmagadora maioria de nós, aspirantes à Fama e à Fortuna, mas o uso do bom senso que alia o prazer da boa leitura com a prática da auto-avaliação construtiva.

Isso não dispensa que sujeite os seus escritos à leitura de duas ou três boas almas, de preferência gente com algum critério literário, assim como sinceridade ingénua e brutal.

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“Infelizmente é a palavra deles contra a sua.”

Certamente, o escrevinhador ganhará mais do que algumas equimoses na auto-estima, mas na condição de não retaliar denegrindo as boas almas depois da apreciação feita. Principalmente, deve desconfiar se elas se limitarem a considerações muito gerais e a pancadinhas nas costas: a crítica deve expor seus argumentos.

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O tempo depois ajudará a ler o que escreveu, provavelmente com menos compreensão e simpatia, mas mais rigor. E a ponto de duvidar ter sido ele mesmo a escrever ‘aquilo’.

Tudo isso é progresso, evolução, amadurecimento.

Ou, retomando um dos temas da época: a promessa de renovação nestes meses em que a natureza parece adormecida.

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O escritor mediúnico

Estranha condição de médium esta, que Cecília Meireles assume quando diz que ’Tudo me chama: a porta, a escada, os muros,/ as lajes sobre mortos ainda vivos,/ dos seus próprios assuntos inseguros’ *, sentindo-se impelida a dar voz às vozes que reclamam atenção.

Já não são deuses, nem a loucura com que inspiram simples mortais: as vozes chegam de gente real, porém desaparecida.

Pintura de Bernardo Cid

Pintura de Bernardo Cid

Muitas coisas se desprendem e perdem – ou parecem desprendidas e perdidas – ilimitado tempo; mas outras vêm, como heranças intactas, de geração em geração, caminhando conosco, vivas para sempre, vivas e actuantes, e não lhes podemos escapar, e sentimos que não lhes podemos resistir.’**

E à assombração das vozes junta-se o dever de lhes dar forma e fazer-lhes justiça:’(…) porque se impunha, acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, se confessavam, que exigiam quase, o registro da sua história.’**

Pintura de Raul Mendes da Silva

Pintura de Raul Mendes da Silva

Todavia, o registo vai mais além dos autos de julgamento, das inquirições e doutros documentos históricos. Assim, Cecília dá forma literária às vozes, assumindo a condição mediúnica, sim, mas com critério e AUTORidade.

* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

Escrever desequilibrado como?!

Perguntam-me se o ‘desequilíbrio’ de que falo no post anterior é um atributo literário, uma técnica ou um modo de dizer. Para simplificar, complicando, respondo que sim: é tudo isso à vez.

Para equilibrar os nossos comentários vamos agora apresentar uma "fonte não informada"

Para equilibrar os nossos comentários vamos agora apresentar o ponto de vista duma “fonte não informada”

O que não é, fica ainda mais fácil de entender:

-não é um desequilíbrio no tema, excedendo/omitindo detalhes de modo a afectar o enredo; situação comum quando o escrevinhador não doseia os dados necessários ao leitor, tanto podendo aborrecê-lo com pormenores eruditos (e desnecessários do ponto de vista literário), como enganado-o por falta de informação (eventualmente, pontos de vista alternativos aos desenvolvidos no livro).

-não é desequilíbrio no efeito obtido, frustrando a legítima expectativa com um desenvolvimento aquém do prometido; situação comum quando tema, enredo, personagens, sofrem pela falta de preparação do escrevinhador e soluções confusas ou cedem ao estereótipo.

-não é desequilíbrio da composição, tornando inverosímil o tema, a personagem, o enredo; situação muito comum nos finais precipitados em que falha o fôlego à narrativa para resolver as questões abertas ao longo do seu desenvolvimento; ou, inversamente, quando o ‘arranque’ é lento e focado numa personagem/tema/propósito que não tem seguimento ou justificação no tratamento depois dado ao enredo.

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Diferentemente, o desequilíbrio de que falo é uma tensão. Que o enredo aumente ou diminua essa tensão não é relevante para a discussão, mas é essencial que o seu desenvolvimento e conclusão a resolvam em algum sentido. Ou não, evidentemente.

A arte de dizer algo escrevendo o seu contrário

Tal como Camilo, Eça é um escritor com extenso rol de personagens que lhe servem para retratar a sociedade do seu tempo, colocando em evidência ‘taras’ nacionais como a hipocrisia religiosa, a falta de instrução e de cultura, a ausência de ética dos cargos públicos, o obscurantismo militante de instituições e poderes, etc.

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Ao contrário de Camilo, Eça prefere a ironia refinada para desenvolver o próprio enredo, a ponto de não só não fazer afirmações explícitas de condenação ou reserva relativamente aos actos e pensamentos das personagens, como até os louvar ou justificar, se nos ficarmos por uma leitura estritamente literal.

A ironia é um exercício exigente para o escrevinhador, por implicar domínio dos sentidos e, obviamente, humor. Mas também o é para o leitor, como se pode perceber por muitas reacções no dia-a-dia a este propósito.

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-Está a chegar uma mensagem!
-ZDRZDRPA OOG GREP ZOW PFLARP
-…Chefe,penso que estão a contar anedotas de peidos!
-Finalmente! Uma inteligência que rivaliza com a nossa! 

Por vezes, Eça recorre à narração duma cena banal, em contexto extraordinário para o leitor: o contraste entre os comportamentos e ditos das personagens, eventualmente normais, e o seu estatuto social, profissional ou outro, basta para afirmar (sem o dizer) o propósito da obra (a denúncia de tal ou tal coisa), apelando ao bom senso e humor dos seus leitores.

Outras vezes, desenvolve cenas ou diálogos ridículos e divertidos, pondo uma personagem a dizer ou a fazer coisas, que ela própria desvaloriza ou crítica ao narrar a história.

Em ambas as situações, Eça evita tomar uma posição (ao contrário de Camilo, que reforça o sarcasmo com comentários directos), dando ao leitor a obrigação de ‘descodificar’. As personagens têm liberdade para se exprimir, para se justificar, mas são traídas pelo contexto ou por elas próprias assumirem suas intenções menos dignas.

O que não quer dizer que sejam mais autênticas do que as personagens camilianas. Camilo mais depressa deixa a sua personagem exprimir-se, apesar de, imediatamente depois ou ainda antes de esta falar, já estar a adjectivá-la, a censurá-la, ou a divagar a esse respeito; enquanto Eça cria uma encenação, usa um nível de conversação ou obtém efeitos de linguagem que colocam as personagens atrás duma lente que amplia ou foca de acordo com os propósitos do autor, poupando a este uma intervenção directa e moralizadora.

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Em ambos os casos, são dois expoentes máximos da Literatura, justamente famosos pelas técnicas de narrativa e caracterização.

Camilo dizia a respeito do que escrevia: ‘Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea. Não partimos de uma renovação da Moral; emergimos de um lodaçal de inveterados vícios.’ (in Boémia do Espírito)

Eça, à sua maneira, diz ao que vem criticando a literatura contemporânea:

Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem acção. Júlia pálida, casada com António gordo, atira as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel, António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre este drama de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1851. O autor, ordinariamente, tem o hábito de Sant’Iago. O editor tem a perda. O leitor tem o tédio. – Santa distribuição do trabalho!

De resto, quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da fazenda. (in prólogo d’ As Farpas)

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A verdade relativa

Tal como se pode apreciar alguém pelo modo como trata os outros, inclusive os animais, o modo como o autor lida com as suas personagens diz tudo sobre o respeito que lhes tem e à inteligência do leitor.

Porém, o ponto de vista que proponho aqui não é pacífico: a autonomia da personagem em relação ao seu autor tem consequências e, eventualmente, pode não passar duma ilusão.

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Por outro lado, a qualidade literária duma obra não é, necessariamente, prejudicada ou salva pela autenticidade das suas personagens. Conforme repito ao longo destes posts, quase obsessivamente: vale tudo, em literatura. E nada é certo.

Mas como é estimulante ler e deparar-me com uma personagem familiar, ou seja, cujo estereótipo é bem conhecido e faz parte da minha mundividência, para ser, de seguida, surpreendido pelo modo como o autor lhe dá espaço para se afirmar e diferenciar, ainda que dentro do enquadramento geral do estereótipo.

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A este propósito referi, anteriormente, o tratamento dado na Ilíada aos dois heróis das duas partes em confronto na Guerra de Tróia:

-Aquiles, o arquétipo do Grande Guerreiro, um semi-deus capaz de prodígios em combate, amua e, por isso, deixa de cumprir suas obrigações para com os companheiros de armas, só voltando a assumi-las quando é atingido pessoalmente e é tomado pelo desejo de vingança, desrespeitando depois códigos de honra e de conduta elementares.

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-Heitor, um grande guerreiro que manifesta toda a sua humanidade ao exprimir o imenso amor pela mulher e pelos filhos, ao mesmo tempo que vive a responsabilidade de comandar um exército, de enfrentar o inimigo em campo de batalha e, assim, garantir a defesa da sua cidade.

Se o propósito de Homero é colocar o estereótipo do Grande Guerreiro em questão, levando-nos a reflectir sobre o valor destes dois modelos em confronto, não o faz dizendo explicitamente qual é o seu favorito, nem colocando o odioso encima de Aquiles. Este tem, aliás, oportunidade para se justificar recorrendo à argumentação que qualquer guerreiro da época poderia entender e partilhar.

E quando Aquiles exprime, em lágrimas e com raiva, suas próprias debilidades, torna-se autêntico, humano demasiado humano, sujeito a ser julgado nos seus actos e intenções, mas também a ser entendido e, eventualmente, a ver mitigado o juízo mais severo.

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O autor não se pronuncia, relata os ‘factos’, deixa às personagens a responsabilidade de se afirmar e justificar.

Ao leitor caberá o juízo. Jamais definitivo.

Escrever uma história banal como?!

Uma história banal: o relato da vida de um homem comum até ao momento da sua morte. Que pode resultar daqui senão uma série de acontecimentos anedóticos pontuados por justificações, remorsos, desculpas, mentiras? 

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Afastemos os propósitos morais, a tentação do autor em nos ensinar através do exemplo: é um género e dos mais glosados, dos mais insuportáveis pelo uso e abuso de estereótipos. E pressupõe uma moral, uma verdade, uma via recta. Reconheço que tem um público, duvido é do valor literário quando levado a sério.

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Se contamos a vida (e morte) de alguém, então porque não nos centrarmos na verdade que ele toma como sua? Ou nas verdades que cada ser humano que com ele se cruzou na vida têm a dizer a seu respeito? Quantos retratos do mesmo homem se podem fazer deste modo?

Procedendo assim, provavelmente deslocamos a ‘verdade’ para o ‘sentido’ (da vida), e afastamos qualquer propósito legislador e propagandístico. Os ‘factos’, já o devíamos saber, são uma construção.

Tendo o Tema (a vida e morte de alguém) e a Abordagem (uma narração omnisciente do ponto de vista do protagonista e o das pessoas que se cruzam com ele), o Propósito torna-se mais simples e transparente: entender/expor/problematizar a complexidade duma vida (ainda que banal) e reflectir sobre o ‘material’ que a escrita produza.

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A partir daqui, ao escrevinhador coloca-se o desafio do Processo: como irá desenvolver o tema de acordo com a abordagem definida tendo como propósito fazer do banal uma história…uma história, sei lá!… profunda, misteriosa, fascinante? Até mesmo, por paradoxal que seja, extraordinária?

‘Como contar uma história banal de modo interessante?’ pergunto à bela Musa. Mas a resposta brinca-lhe nos lábios…

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Rumo, contingência e metamorfose da narrativa

Acumular dados para suporte da narrativa, anotar esquemas de possíveis desenvolvimentos, caracterizar personagens com rigor biográfico e/ou detalhe clínico, auxiliado por fotos dos ambientes a descrever, tudo isso revela trabalho de investigação e esforço de conceptualização.

Com o desenvolvimento da obra, podem ser elementos úteis para ancorá-la aos propósitos iniciais, ou para perceber onde e quando começaram, personagens e enredos, a ganhar vida própria e a impor sua verdade, seu tempo, seu espaço.

Observador Australiano: "...interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água."

Observador Australiano: “…interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água….”

Tratando-se duma obra ‘cerebral’ (didáctica ou memorialista, p.ex.), o esforço em conter os limites do tema, mantendo-o no rumo inicial, faz sentido e é pertinente.

Porém, todo o projecto é sujeito às contingências do Tempo (o distanciamento e a maturidade do escrevinhador podem mudar as perspectiva iniciais, ou o mundo deu mais algumas voltas, entretanto) e às metamorfoses da Verdade (quanto se aprofunda qualquer assunto, mais se percebe o que se desconhece e o que se dava por garantido à partida, revela-se incerto).

"Esta onda de calor tem sido brutal...toda a parte alta da cidade está desinundada..."

“Esta onda de calor tem sido brutal…toda a parte alta da cidade está à tona da água…”

O envelhecimento precoce dos livros é um risco tanto maior quanto o seu autor é indiferente (ou desatento) às variações possíveis do tema, sinal inequívoco de miopia intelectual ou de falta de preparação.

Também pode ser um acto assumido: aproveitar a espuma dos dias que cedo se desvanece, com um propósito quase fotográfico. Ou sociológico. Ou meramente ‘comercial’.

470 a.C: Sócrates responde às difíceis questões sobre a vida
Sócrates: Assim, se o jogador que recebe a bola está atrás do último defesa quando a bola é jogada…

O escrevinhador no seu labirinto

Tal como no mito de Ariana existem versões muitos distintas, o escrevinhador pode passar por processos muito contrastados: umas vezes produz torrencialmente, sem qualquer dificuldade, para depois entender de que nada daquilo o satisfaz; como pode escrever de modo doloroso, hesitante, diminuto, porém produtivo e satisfatório, permitindo-lhe progredir; ou anda à roda duma ideia, incapaz de lhe dar o sentido, a dinâmica, mas certo de lhe ter apanhado o estilo, a expressão.

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MANTENHA A CALMA e
ESCREVA ALGO

Na versão mais conhecida do mito, Ariana perde o homem que ama e salvou a vida, porque este desiste dela frente à pretensão dum candidato com mais poder e prestígio. Assim, do escrito pode resultar coisa muito diferente do que estava previsto, resultando um outro desenvolvimento, uma dinâmica segura, uma voz própria.

-Uau! 932 páginas de documentação. Impressionante. Como conseguiste lidar com tanta documentação? -Bem, precisas de certas competências, alguma paciência, alguma paixão e... -E muito crtl-c crtl-v? -Correcto!

-Uau! 932 páginas de documentação. Impressionante. Como conseguiste lidar com tanta documentação?
-Bem, precisas de certas competências, alguma paciência, alguma paixão e…
-E muito crtl-c crtl-v?
-Correcto!

A escrita é metamórfica, instável, vulnerável. Mas quando movida por um interesse genuíno, visceral, é persistente como qualquer doença reincidente.

Escrever como quem vagueia

Caminhos escritos com um horizonte longínquo cada vez mais perto, mas ao qual nunca chegamos. E a que sempre regressamos. O pretexto como se desenvolvem outros temas à volta do tema central, numa espécie de peregrinação ou viagem cujo destino final é conhecido, mas que o leitor nem pode imaginar qual seja sem chegar ao fim. Paradoxal? Claro que sim. 

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“Nenhum autor foi ferido ou maltratado na preparação desta história.”

Neste caso, o livro que me ocorre com mais nitidez é um outro título falsamente “geográfico”: Danúbio, de Cláudio Magris (ed.Quetzal). Bem, talvez eu esteja a exagerar um pouco, afinal o início do livro coincide com o início do rio Danúbio (a busca da nascente mítica e a verdadeira); e depois acompanhamos o autor ao longo do curso das águas (quase 2900 km) até à foz.

Mas cedo descobrimos que o rio é pretexto, senão metonímia,  duma aventura cultural: a cultura centro-europeia (Mitteleuropa).

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E até as longínquas águas do Tejo reforçam a corrente da bacia cultural do Danúbio: “Utilizar o termo ‘empregado’ como uma injúria não passa duma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. Este não se parece com Aquiles ou Diomedes, que se enfurecem nos seus carros de guerra, mas antes com Ulisses, que sabe não ser ninguém”. 

E mais adiante, continua: “Kafka e Pessoa viajam não até ao fim duma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a essa consciência, uma extrema resistência da verdade.” O curioso contraponto que estabelece à ‘viagem’ de Kafka e Pessoa são a banalidade do mal, a guerra total, a mentira odiosa, a hipocrisia.

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Mas não é do Danúbio que falamos? Não te impacientes, leitor(a): o homem é um professor de Línguas e Literaturas Germânicas e desce a corrente do rio para nos propor conhecer uma paisagem menos evidente. A dado passo diz que para o autor romeno  Mihail Sadoveanu, é “…como se o Danúbio levasse para o mar e espalhasse à sua volta, galgando as margens, destroços de séculos e de civilizações.

Remota fronteira do Império Romano, fronteira belicosa entre os Impérios Austro-Húngaro e o Turco, fortíssima corrente que une países, que nem assentam nas suas margens, numa história comum, este rio imenso arrasta o autor para as águas que lhe são familiares e preferidas, e com ele o leitor que se deixe fascinar por esta viagem pela cultura europeia.

Em sua defesa, a citação do austríaco Franz Tumler: “Escrever sobre o Danúbio não é fácil, porque o rio flui contínuo e indistinto, ignorando as proposições e a linguagem que articulam e cindem a unidade do vivido.”

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Há quem escreva como quem navega, bússola e mapas debaixo do olho, rumo ao incerto horizonte.

E quem escreva como o rio que vagueia sinuoso, depositando sedimentos aqui, arrastando tudo nas águas violentas ali, desaparecendo da superfície por momentos, e logo reaparecendo mais adiante. Por vezes, sua nascente perde-se no tempo, assim como desagua no mar através dum delta tão variável, quanto impreciso.

Ou como contava aquele empregado do patrão Vasques: “Devaneio entre Cascais e Lisboa. (…) Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação dessas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho do visível. (…) O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.” (Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

 

Regressando mais uma vez à primeira das Grandes Questões Existenciais…

Existem inúmeros exemplos de obras escritas por “não-especialistas” que tiveram (têm) merecido reconhecimento. E, mais uma vez, insisto: só o escrutínio crítico permite perceber se a obra tem qualidade. Esse escrutínio exige a apreciação, entre outros, de especialistas na área que o autor se propôs escrever.

Apesar de não me ter transmitido qualquer intenção de escrever sobre fósseis de dinossauros, um senhor que conheci há poucas semanas, da Lourinhã, falou-me com entusiasmo da colecção dos fósseis que recolhia quando trabalhava no seu campo agrícola.

Também me falou do espanto duma “doutora da Câmara” que lhe terá dito que ele acumulava mais exemplares num dia do que ela (e a sua equipa) durante um ano. Ainda que ele percebesse haver ali uma velada crítica, creio que nem compreendeu a ironia da “doutora”, nem as razões metodológicas que a obrigavam a ser tão menos produtiva. Por isso temo pelo dia em que este “paleontólogo” se entusiasme em escrever sobre os seus achados…

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

…E daí ao sentimento de injustiça de que “ninguém” se dê ao trabalho de falar, bem ou mal, do livro, vai um passo.

Mas com a quantidade de livros e textos publicados sobre qualquer assunto, como pode o desconhecido não-especialista atrair a atenção dos críticos e dos especialistas? Pois, não precisamos de recorrer a teorias de conspiração para responder: é mera questão retórica.

Por isso, percebo que quem escreva tenha muitas vezes o escrúpulo de se justificar quando não detém um título académico ou profissional. Se até António Aleixo justificou suas Quadras:

Peço às altas competências/Perdão, porque mal sei ler,/Para aquelas deficiências/Que os meus versos possam ter./(…)/Eu não tenho vistas largas,/Nem grande sabedoria,/Mas dão-me as horas amargas/Lições de filosofia. “

Nos acanhados mundos académicos e literários, o intruso fica exposto ao enxovalho ou ao desprezo militante. Que podem, ou não, ser merecidos.

Mas essa é a ecologia típica da selva editorial, e nem me vou estender aqui a falar da situação diametralmente inversa: a do sucesso da mediocridade e da incompetência graças à boa “crítica” dos media, à “boa” imagem mediática do autor e aos bons amigos que dão um “empurrãozinho” na promoção estratégica do autor/livro.

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Memorialismo, monografia, ensaio, estudo, enfim…

Acredito que não há “uma” maneira de se começar (já agora, de continuar e concluir) seja o que for. Inclusive, dos meus incipientes anos de estudo de matemática, recordo haver mais do que um modo de desenvolver determinado cálculo, mas é o mais elegante e simples que leva vantagem, quanto mais não seja pela “facilidade” do entendimento.

Há quem apresente o plano geral do livro, outros apresentam as conclusões e depois desenvolvem todo o processo para aí chegar.

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Mas porque não começar dum modo imprevisto pelo leitor que julgue conhecer o tema? Porque não começar com uma estória, banal ou insólita, que resulte numa introdução ao problema?

Quem tem um estatuto académico/profissional a defender pode se subordinar a certas regras de exigência formal, metodológica e/ou científicas. Ou manda as regras às malvas e “desce” ao nível do grande público, assumindo-se como um divulgador e, eventualmente, um provocador. Os riscos são conhecidos, a solidez dos conhecimentos e a qualidade da obra é que variam muito.

Já o erudito amador, noutros tempos um pároco de aldeia apaixonado pelos achados arqueológicos e documentos históricos da remota região onde exercia, dispensa essa preocupação. Sem perder noção dos limites do autodidatismo, nem negligenciar consulta da bibliografia especializada, e outras cautelas que evitam erros e omissões demasiado evidentes para um público interessado e bem formado. E recomendo o mais estrito cepticismo a tudo o que se leia na net.

Calvin: "Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?" Hobbes: "Para serem comida de tigre."

Calvin: “Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?”
Hobbes: “Para serem comida de tigre.”

Frequentemente, o autor nem é, nem pretende ser, um erudito. É, simplesmente, alguém que quer recordar outros tempos, outros hábitos e gente que já morreu. Tempos, hábitos e gente que ele viveu, conheceu e com quem conviveu. Ou de que ouviu falar da boca de seus pais e parentes mais velhos.

Se outro valor não tiver, o registo das memórias (mesmo que inexactas, contraditórias, falsas até) por parte de quem teve alguma relação com o tema é matéria e documento para estudos que venham a surgir depois.

Daiquiri

Daí que a apreciação crítica que se faça nunca deva ser no sentido de abafar o impulso de escrever. Porém, sem nunca deixar de lhe apontar os limites, as incorrecções e as distorções que este tipo de literatura fatalmente incorre.

questões de método ( e de princípio)

Obras de não-ficção são, por exemplo, os relatos de viagem ou ensaios temáticos.

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Alguns amáveis leitores  deste blogue estão em vias de escrever (ou já estão em fase de elaboração)  livros que se enquadram numa destas categorias e levantam questões curiosas, das quais destaco as seguintes, reformulando-as um pouco:

-é legítimo “apimentar” o relato com alguma ficção, e sendo legítimo, deve-se assumi-la como tal ou mantê-la em segredo?

-faz sentido acompanhar o relato com informação didáctica (tipo História, Geografia, Etnologia, etc)?

-a fotografia será fundamental para o “êxito” dum livro sobre viagens?

-um ensaio deve começar com a apresentação do assunto a desenvolver?

-o autor deve revelar as razões porque se dedica a tal tema, não tendo actividade académica ou profissional que o justifique?

-o autor pode, ou deve,  incluir um lado pessoal, autobiográfico, sobre um assunto mais geral? Ou, pelo contrário, deve manter uma linha objectiva no desenvolvimento do assunto, sem personalizar?

Nos próximos posts darei a minha perspectiva sobre cada questão, mas desde já antecipo a minha máxima favorita: vale tudo e nada está garantido. Na literatura, bem entendido.

"Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas."

“Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas.”

A escrita de ficção e a escrita de não-ficção serão assim tão diferentes?

Às vezes sou agradavelmente surpreendido com a leitura dum livro que me impressiona de diversas maneiras: traz um assunto radicalmente novo para mim, dá informação suficiente para me informar e poder documentar posteriormente, prende a atenção com o ritmo da narrativa, balançando a natural expectativa do resultado final com as peripécias do protagonista, e concluindo de modo a não só não decepcionar, como a motivar-me a saber mais sobre o tema.

Mundo Monstro

Posso estar a referir-me a um livro de ficção como Nome da Rosa de Umberto Eco: o tema das grandes abadias medievais e o seu papel na preservação de livros antigos, através do custoso trabalho dos monges copistas, a que se associa um livro perdido de Aristóteles sobre o riso, do qual só podemos especular o conteúdo.

Outro tema, menos explícito mas fundamental, é o da força extraordinária das ideias e do conhecimento sobre as paixões dos homens eruditos (e aparentemente cerebrais, racionais). Ou vice-versa.

Mas também posso referir um outro livro, sem ser de ficção ou ter pretensões literárias, em que o autor relata como, no decurso das suas actividades profissionais na Etiópia do anos 80 do sec.XX, foi tomando conhecimento das tradições religiosas e míticas desse país, visitando monumentos históricos e localidades (The Sign and the Seal, de Graham Hancock, que em Portugal foi traduzido sob o título Em busca da Arca da Aliança)

Tempos depois, já na Europa,  Graham Hancock decide regressar à Etiópia (mas em circunstâncias dramaticamente diferentes) para aprofundar a investigação que, entretanto, todo aquele conhecimento lhe suscitara. E o livro prossegue numa excitante mistura de aventura, conhecimento e expectativa, abrindo ao leitor novos horizontes, abordando a história antiga e recente dum país algo remoto, senão mesmo desconhecido. Tudo isto através duma narrativa cuidada, dinâmica e estimulante.

No Nome da Rosa, o autor constrói um cenário, um enredo e seus personagens, tendo como base temas “pesados”, demasiado afastados das preocupações e sensibilidades comuns: filosofia antiga e medieval, história medieval, mentalidades, usos e costumes de monges medievais. Alguém acredita que o autor deste livro terá alguma vez tido a ousadia de sonhar que viria a ser um best-seller?

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No Em busca da Arca da Aliança, o autor “limita-se” a relatar o que se passou em determinada altura da sua vida, dando-nos o contexto pessoal e o do país, utilizando como técnica “obrigar” o leitor a acompanhá-lo na sua busca, partilhando dúvidas e perplexidades, sua ansiedade, seus pensamentos, fazendo o leitor escutar os diálogos que teve em certos momentos e levando-o a ver o que seus olhos viram, tudo numa sequência cronológica normal.

E como estamos a falar da Etiópia, de sua história, religiões, mitos e tradições, em que abundam mosteiros, livros e monges, também nos podemos questionar sobre a sanidade mental do seu autor (para não falar do editor), ao acreditar que um livro assim poderá ter algum interesse para além de meia-dúzia de leitores algo estranhos.

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Antes de se tornar um grande filósofo, Descartes trabalhou para o sector público.
Legenda no mapa: “Você está aqui, logo você existe.”

A bem dizer, e sem faltar à verdade…

Poesia e ficção à parte, a composição dum livro que relate factos, acontecimentos, memórias, pessoas de carne e osso, é muito menos exigente do ponto de vista literário, mas rigorosa no escrúpulo em dizer a verdade.

Para complicar, apetece-me perguntar de seguida: será a realidade mais verdadeira do que a ficção? E o discurso objectivo mais real do que o poético?

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Abrir parênteses. Atenção, leitor apressado ou acabado de chegar a este blog: quem escrevinha estas linhas é mais do jeito de lançar pedras ao telhado do vizinho do que de levantar alicerces em terreno firme.

Outra forma de dizer que tem como objectivo problematizar, mas não o de dizer como se faz isto ou aquilo. Fechar parênteses.

Uma analogia clássica é a da verdade da fotografia. Esta retrata a realidade tal qual é, sem artifícios, tal como a capta o olho humano. Será mesmo? E se assim é, o que dizer da fotografia animada (vulgo cinema)?

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Ou seja, e este é o meu ponto: quem pretende escrever sobre determinado assunto ou determinado acontecimento/pessoa, poupa-se às canseiras e desafios a que se submete o escritor duma narrativa ficcionada?

Sim, claro, evidentemente. Ou muito pelo contrário, na verdade.

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Escrevinhador ou escritor: eis uma questão.

Memórias, ficções ou poemas muitas vezes apresentam-se num português sofrível, alternando frases excessivamente curtas (e insuficientes para o entendimento e o desenvolvimento do tema) com outras longas de mais (divagando de modo despropositado, ou abusando das perífrases, da voz passiva, dos detalhes).

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

A bengala de que se fala no post anterior muitas vezes surge associada a textos de difícil entendimento por falta de clareza na exposição de ideias e factos, pela precária estrutura que as sustenta e na desproporção das partes entre si. Como se o autor tivesse mais prazer (ou urgência) em escrever suas coisas assim como lhe ocorrem do que em fazê-lo seduzindo (ou comunicando com) um hipotético leitor.

Em qualquer das situações, os textos precisam de maior qualidade formal (gramática, vocabulário) e de que o autor tenha noção das exigências próprias da expressão escrita (em contraponto ao fio dos seus pensamentos ou à expressão oral).

Se o fizer intencionalmente, deverá assegurar-se se o efeito pretendido é eficaz. Por exemplo: o texto desenrola um novelo de ideias, expressões e estórias conforme estas acorrem ao narrador (que pode ser um personagem).

Uma análise crítica verificará se o efeito é voluntário; sendo voluntário, se é eficaz. Se essa eficácia é consistente com os propósitos do texto, já é outra coisa que irá analisar depois.

Mundo Monstro

Propósito

Mas terá todo o livro de ter um propósito? E que se entende como tal?

Na verdade, podem ser vários os propósitos de um livro: dar corpo a uma ideia, satisfazendo o autor e dando-lhe algum proveito, se possível, porque indo ao encontro dos futuros leitores com algo que cative suas atenções e desperte interesse.

Pode haver outros propósitos: desafiar o leitor e obrigá-lo a sair do conforto das ideias adquiridas, dos esquemas habituais, tentando surpreendê-lo; promover um qualquer ideário, uma agenda, e ganhar a adesão dos leitores; auto-promoção pela originalidade (mais ou menos bizarra), pela provocação, pelo escândalo, pelo conformismo militante.

Chiclete com Banana

Foco

Ao pensar num livro a escrever, talvez o mais razoável seja centrar-se no tema, no enredo ou no propósito.

Que diferenças existem entre si? Nos próximos posts falarei o que penso a este respeito.

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