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Tag: sedução

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

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Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

FERNANDO VICENTE

cartoon de Fernando Vicente

O uso da palavra

Para o escrevinhador, a importância da palavra deve ser bem medida, e não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo de troca. É verdade que a palavra tem a história da sua formação e genealogia, assim como a do seu uso e evolução no tempo e no espaço, que é aquilo que, à falta de melhor, chamo de valor intrínseco. Mas o escrevinhador não tem de ser erudito, nem tem de supor a erudição dos leitores. O que tem, creio eu, é de conhecer o valor dado aqui e agora à palavra e que é o que chamo o seu valor de troca.

(…) a troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente torna úteis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula: que pode valer um diamante para os homens que têm fome ou necessidade de se vestir? Basta, porém, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja agradar e um comércio suscetível de trazê-la às suas mãos, para que a pedra  se torne “riqueza indireta para seu proprietário que dela não precisa (…) daí a importância do luxo, daí o fato de haver diferença do ponto de vista das riquezas, entre necessidade, comodidade e prazer. Por outro lado, a troca faz nascer um novo tipo de valor, que é “apreciativo”: organiza entre as utilidades uma relação recíproca, que duplica a relação com a simples necessidade. (1)

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Este valor de troca é o dado no momento. Recordo, quando tinha cinco, seis anos, meu Avô ralhar-me por chamar ‘chato’ a alguém ou alguma coisa, o que me deixou bastante perplexo porque sua filha, minha Mãe, não só tolerava o uso desta palavra como a usava sem reservas. Muito mais tarde, nos primeiros anos da adolescência, percebi que as razões da aversão do meu Avô—inequivocamente na base do sentido depreciativo dado à palavra—já não eram percebidas quando usadas entre pessoas das gerações seguintes. Ou, se eram, só mesmo por adolescentes, ainda fascinados com a polissemia e subentendidos que as palavras banais podem ter. Na verdade, todos sabemos que um chato incomoda, mas dificilmente encontramos alguém que nos irrite tanto que dê coceira.

O ‘diz-me com quem andas que eu te direi quem és’ não quer dizer nada. Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas. (2)

-OH NÃO... ELES NÃO...

-Oh não… Eles não…

O ‘sentido comum’ dado aqui e agora é aquele que, com quase toda a probabilidade, o leitor dará à palavra. Não levar isso em linha de conta gera problemas de comunicação, prejudicando a leitura e provocando críticas como a de texto confuso, difícil ou pedante. Ou tudo isso à vez. O que não impede que o escrevinhador possa explorar o tal valor intrínseco (bem pelo contrário, como adiante tentarei explicar), não por pretensões eruditas (pelo menos, no caso da escrita poética ou de ficção), mas por outras: a de levar a interpretação do texto para diferentes níveis de entendimento, seja pela polissemia, seja pela ambiguidade, ou, até mesmo, pela sonoridade. Importante é que seja disso ciente, para não falhar o efeito pretendido.

(…) o romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um reportório de situações ‘tópicas’ conhecidas, amadas pelo próprio público (…).  (…) a catarse, por razões comerciais, deve ser optimista. (3)

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O uso de ‘palavras caras’ tanto pode servir para mascarar o vazio do discurso (senão mesmo a sua falsidade), como ser sintoma da dificuldade do escrevinhador em lidar com o tema. A comunicação na era de massificação, em que o número de receptores (leitores, ouvintes, espectadores) contam-se pelos milhões (e muitos milhões), tem demonstrado como o uso deliberado da linguagem ‘técnica’, ‘erudita’, ou outras variantes de um jargão acessível a ‘especialistas’, pode iludir e manipular, assim como o seu uso irreflectido ou mal calculado pode se virar contra o comunicador.

Uma descrição que parece neutra mostra o que tem de tendencioso quando se lhe pode opor uma descrição diferente (…). (4)

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-O que é mais obsceno: a violência ou os mamilos?
‘LIBERDADE PARA OS MAMILOS’ (desenho de María Acha-Kutsher)

Na vida académica e na área das ciências tem havido alguma literatura dedicada a desmontar discursos, expondo a sua vacuidade por detrás de formulações verdadeiramente incompreensíveis. Que não são outra coisa senão variantes do famoso conto do ‘rei vai nu’.

O fazedor de dinheiro não é a personalidade mais palatável, mas é muito preferível ao pretenso intelectual. (5)

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“Sim, o planeta foi destruído. Mas durante um maravilhoso período de tempo criamos uma quantidade de valor para os accionistas.”

Daí que, numa época em que ‘o livro’ se está tornando um objecto incómodo, em que a comunicação escrita sofre amputações e próteses aberrantes, em que o próprio discurso oral é ameaçado pela vacuidade dos formatos convencionados para debate e exposição de ideias, seja importante que o escrevinhador consiga fascinar o leitor ajudando-o a descobrir o valor intrínseco da palavra. Na verdade, ao fazê-lo, limita-se a prolongar uma longa tradição anterior à própria escrita, mas fá-lo num tempo em que essa tradição está ameaçada pela própria parafernália técnica que era suposto contribuir para uma dinâmica cultural incomparavelmente mais rica do que a de todas as épocas anteriores.

A habilidade do artista em sair da frente do choque violento da nova tecnologia de qualquer época e evitar tamanha violência com absoluta consciência, vem de há muito tempo. (6)

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Para os não-Iniciados, a palavra escrita ou oral pode ter um valor misterioso pelo grafismo e sonoridade, dando realce à simbologia ou à magia. Mas para os Iniciados como nós, meros leitores e escrevinhadores, sabemos bem como esse valor é uma moeda sujeita a flutuações e o mistério reside, exclusivamente, nos favores da bela Musa. Nesse aspecto, creio que nada de significativo tem mudado nos últimos quatro mil anos.

(…) sob a sua forma mais alta, a invenção literária ensina-nos a enriquecer, a complexificar, de um ponto de vista heurístico, os confins da habitação comum que não nos damos ao trabalho de reconhecer. Abre janelas através das quais nos convida a ver um terreno novo, novas fontes de luz. Narra histórias através das quais ouvimos a voz da nossa identidade privada e comum. (7)

Ilustração de Fernando Vicente

Ilustração de Fernando Vicente

Há palavras que caíram em completo desuso, tal como o discurso que as suporta, e há outras que evoluíram, alterando significados conforme a geografia e a comunidade de falantes. A usura do Tempo e as transações culturais têm esse efeito natural e inevitável. A diferença da época actual em relação às anteriores (há 40 como há 400 anos), é que o processo tem sido muitíssimo mais rápido, associado à fragmentação da comunidade de falantes no interior das próprias gerações e no mesmo espaço social. Isto tudo, e muito mais (que não cabe a este humilde escrevinhador desenvolver aqui), dificulta obviamente a comunicação, mais ainda se for comunicação escrita com pretensões literárias.

A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. (…) É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada (…) a diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correcto. (8)

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

Por isso, insisto: é importante o escrevinhador preocupar-se em ‘chegar’ a todos esses potenciais leitores desconhecidos de modo a fazer-se entender e, principalmente, a seduzi-los com palavras (e, neste ponto do post, o leitor já poderá perceber que ‘palavra’, aqui, também se entende por ‘tecido de palavras’ ou ‘texto’), levando-os a procurar mais além da superfície, imediatez, uso comum… para lá do valor de troca, portanto. E quando o leitor começa a saber distinguir as pérolas da simples fancaria, é porque já reconhece o valor intrínseco das coisas. Como as palavras.

As palavras com que tens convivido/ durante tanto tempo, continuam/ servindo-te para algo? Poderás valer-te delas/ quando os antídotos/ contra a tua própria decepção/ já se esgotaram? (9)

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(1)in As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, trad.Salma T.Muchail ed.Martins Fontes

(2) in Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes, ed.Nórdica

(3) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed. Tascabili Bompiani

(4) in O Império Retórico de Chaïm Perelman, trad.Fernando Trindade e Rui A.Grácio, ed.ASA

(5) in Closing of the American Mind de Allan Bloom, ed. Simon and Schuster Paperbacks

(6) in Understanding Media de Marshall McLuhan, ed.A Mentor Book

(7) in Gramáticas da Criação de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(8) in A Galáxia de Gutemberg de Marshall McLuhan, trad.Leónidas G.Carvalho e Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional

(9) in Bordes del Silencio La noche no tiene paredes de J.M. Caballero Bonald, Obras Completas ed.Austral

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

O lugar do meio

Uma dificuldade curiosa, mais frequente do que se julga, e que, provavelmente, só surpreende quem nunca tentou escrever uma estória de ‘longa duração’, é a do escrevinhador que consegue arrancar com a narrativa sabendo muito bem como a quer concluir, mas sente enormes dificuldades em preencher ‘o meio’.

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Ou seja, o escrevinhador tem delineado o tema, o enredo e o propósito, conhece as personagens e o seu contexto, sabe de antemão o remate final da estória…então, o que lhe falta?

Literalmente, falta-lhe algo para preencher o ‘espaço’ entre o início e o fim. Ou assim julga ele. Pode ser que o que já tenha seja a estória praticamente acabada, não fosse a sua ambição de a ampliar em mais algumas dezenas ou centenas de páginas.

Ou pode ser que tenha razão: o enredo não está suficientemente desenvolvido, a intriga perde substância se despachada de modo abreviado…mas não tinha dito que o escrevinhador já tinha estruturado o enredo?

Observa-se melhor este fenómeno quando lemos narrativas divididas em sequelas. Dentro do plano geral, a sequela apresenta a evolução num determinado sentido (que pode estar mais ou menos explícito ou ser absolutamente imprevisível), mas surgem novidades: personagens, ambientes, intrigas, factos. O peso que cada uma das ‘novidades’ tem no plano geral é variável: umas vezes são simples acidentes de percurso, outras vezes são importantes, senão decisivas, para o progresso da narrativa.

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As sequelas podem obedecer a um plano mais ou menos rigoroso, que as estrutura dum modo familiar ao leitor, e as ditas novidades tornam-se variações do tema que se arriscam a se tornar ‘mais do mesmo’, ou seja, a serem puro entretenimento já que nada acrescentam à intriga, limitando-se a somar episódios sobre episódios.

Ou as sequelas evoluem, conceptual e estilisticamente inclusive. Quando há evolução, provavelmente deve-se à já referida autonomia das personagens: alteradas as circunstâncias ao longo do tempo, tendo passado pelo que passou, cada personagem reage de modo imprevisto para o próprio escrevinhador.

Deste modo, as novidades que surgem em cada sequela são igualmente imprevisíveis no que implicam para o futuro dos acontecimentos. Até o plano da obra pode ser, senão irremediavelmente alterado, profundamente afectado.

Esta é a magia própria da criação literária e que tanto escrevinhador sente pulsar nas linhas acabadas de escrever: a estória é-lhe oferecida, as personagens determinam o seu destino, o tempo da narrativa é indeterminado, o escrevinhador é o primeiro a ser surpreendido pelo desfecho dos acontecimentos.

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Voltando ao problema inicial: quando o enredo está perfeitamente delineado, mas o escrevinhador sente que o tem de alongar com alguns conteúdos extra, talvez seja o modo da sua sensibilidade crítica o alertar para a brevidade, simplicidade, linearidade, do argumento.

Como se a bela musa lhe concedesse uma breve carícia na expectativa de ser seduzida pelo acto criativo do escrevinhador, a centelha de génio que irá libertar a narrativa do que quer que seja que a tolhe.

Sendo assim, a dificuldade tem mais do que uma resposta. Mas se o escrevinhador não a consegue encontrar, torna-se um problema de bloqueio.

E como já tivemos ocasião de ver, há uma dimensão extra-literária no bloqueio criativo que o escrevinhador deve resolver.

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Temas duma época: o Verão

Há uma agitação editorial que se associa ao Verão, ao tempo de férias e de praia, expressa por publicações ‘light’, supostamente divertidas e da autoria de ‘famosos’, pela edição de best-sellers de autores já conhecidos, e coisas assim para ajudar a passar o tempo sem o ocupar: a antítese da paixão de ler, realmente.

Enviar SMS's enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Enviar SMS’s enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Ao Verão associam-se temas como as viagens de lazer e descoberta, os regressos e reencontros que trazem memórias de outros Verões, artes de sedução, episódios festivos. Muito para além do registo lamecha ou do pseudo-transgressor, existem bons exemplos de estórias centradas nos encontros e desencontros da época.

Paralelamente, há escrevinhadores que desenvolvem temas mais introvertidos e controversos: a solidão voluntária ou sofrida, a pausa para reflexão, a fuga à rotina ou a imersão na rotina própria da temporada, o tédio existencial e a miragem duma vida-outra.

'Nighthawks', Edward Hopper

‘Nighthawks’, Edward Hopper

Porém, é bom recordar que o Verão não se resume a um período de lazer. No passado longínquo, como no recente, as guerras europeias têm tendência a começar nesta época: primeira e segunda grande guerra, guerras civis de Espanha e da Jugoslávia, para ficar só pelos sec.XX e XXI. E no tempo em que as actividades rurais ocupavam a maior parte da população, os latifúndios exigiam o trabalho sazonal de migrantes em grande número, sendo o tempo de Verão especialmente penoso, ainda que pudesse ser visto numa tonalidade dourada e nostálgica.

Ou seja, trata-se duma época dotada para a escrita que privilegie a ambiguidade, o contraste entre as expectativas e o vivido, onde as personagens podem ser abordadas numa perspectiva caricata e, simultâneamente, humana como é próprio dum certo tipo de ironia.

-Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.

“Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.”

O que traz, no fundo, uma boa dose de complexidade ao enredo, mesmo que se limite ao registo de uns pouco dias de Verão na vida de alguém.

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Um curto parênteses para repetir o de sempre

Para aqueles que pedem dicas para a promoção dos livros editados, relembro que não é essa a vocação deste humilde blog. O seu propósito é reflectir sobre a criação literária numa perspectiva algo teórica, algo prática.

imagem de Pawel Kuczynski

imagem de Pawel Kuczynski

Numa época em que a auto-edição (ou edição de autor) é cada vez mais acessível, o escrevinhador tem total liberdade criativa, correndo o risco de não ser lido e que é o risco de todos os tempos, no passado, no presente e no futuro.

É por isso que entendo vivermos numa época de ouro da escrita (tudo se pode publicar) e o seu contrário (raro é o livro publicado que se aproveita).

Quando digo ‘raro’, não pretendo dizer que hoje se escreve pior do que antes, mas que o aumento maciço de edições desequilibra a proporção entre os livros interessantes e os outros.

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Assim, mais do que se preocupar com a promoção, creio que o escrevinhador deve ser autêntico e interessante…qualidades que, de modo algum, se confundem.

Pode ser interessante sem ser autêntico?

Evidentemente que sim, mas acaba sempre por se notar algo de postiço e/ou vazio na escrita.

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‘Dr.Peter-psiquiatra’  PACIENTE:”Ninguém presta atenção ao que eu digo. Sou tão chato, as pessoas desinteressam-se” PSIQUIATRA: “Desculpe, estava a dizer alguma coisa?”

Autêntico sem ser interessante é o mais comum, pois se a qualidade de alguém ser o que é já se torna muito duvidosa na vida em geral, não há nenhuma razão para que a escrita seja excepção.

Daí regressar incessantemente à interrogação escrever como?

"Oh, sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se eu trabalhasse desse modo acabava despedido."

“Oh, eu sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se trabalhasse desse modo acabava despedido.”

 

 

Abertura e fluidez

Seja como forem a abertura, as primeiras páginas, o início do livro, o escrevinhador deve dar especial atenção à fluidez das ideias e das frases.

A proposta, de Judith Leyster (1631)

A proposta, de Judith Leyster (1631)

Com ‘fluidez’ pretendo dizer que a leitura se faça sem especial esforço, que o prazer de ler seja imediato, que o enredo e/ou o estilo da escrita cativem de algum modo.

Em tempos que já lá vão, era algo frequente começar por descrições detalhadas de ambientes e personagens, descrevendo verdadeiros quadros num apelo à composição visual. Porém, o risco de ser chato é enorme, como se pode verificar na maioria destes casos.

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Numa evolução que suponho devedora dos scripts para cinema, o mesmo detalhe descritivo se aplicou em ritmo dinâmico de acontecimentos mais ou menos interessantes ou intrigantes. Provavelmente, diminuiu-se o risco do tédio, mas este pode ter sido substituído pelo ‘arranque’ estereotipado que se vai repetindo em livros e autores diferentes.

Sem pretensão de ter receitas, abominando visceralmente as prédicas e sabendo que em literatura tudo vale (e nada é garantido), direi que o condimento mais discreto é o que faz a diferença: a qualidade literária da escrita.

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‘Estou escrevendo um livro…já terminei a numeração das páginas’.

Quando esta existe, o livro pode prometer falar sobre alhos e o escrevinhador estender-se longamente sobre bugalhos, que a coisa até pode ser que resulte bem. Mas lá está! os riscos estão sempre presentes.

Se há muito de intuitivo na escrita, não deixa de ser fundamental a revisão crítica da parte do próprio escrevinhador: o apuro da sintaxe ou a riqueza do vocabulário condicionam a expressão das ideias e da sensibilidade, alteram a relação de forças entre ambas, podem se tornar a assinatura do escrevinhador.

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AULAS DE ESCRITA                                                                                             Professora: ‘Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta. ‘

 

 

O escrevinhador à caça do leitor

Tem todo o sentido a preocupação do escrevinhador ‘agarrar’ o leitor nas primeiras linhas ou primeiras páginas.

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Pode ser uma arte, pode ser uma técnica, ou ambas. Para quem lê, não é indiferente concluir que todo um aparato técnico-literário foi montado para o frustrar no fim da leitura (pior ainda se for antes…). Ou numa segunda leitura, que é a prova de fogo de qualquer texto.

Ou, em alternativa, se foi ‘caçado’ pelas artes da inteligência, sedução e elegância  e é com emoção que termina a segunda leitura (e seguintes). Para então concluir que só um leitor com aquelas qualidades pode ser assim cativo pelo texto. Escrevinhadores que reforçam a auto-estima dos leitores são, geralmente, recompensados por uma justa fama (isso do proveito já é toda uma outra estória…).

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A estória pode arrancar em velocidade, trazendo situações, factos e personagens rapidamente para o desenvolvimento da intriga. Deste modo, o leitor desenvolve um interesse imediato pelas consequências do que se está a passar/a ler.

Ou ganhar velocidade pouco-a-pouco, depois da apresentação do contexto em que se irá desenvolver o enredo.

Também pode manter o mesmo ritmo, do início ao fim, como que hipnotizando o leitor numa certa toada. Esta é, das três, a estratégia mais arriscada, mais difícil e, eventualmente, mais sedutora. Suponho que exige um excepcional domínio da linguagem, da construção da frase, do tempo. Associo-a à música, talvez por ter mais facilmente características poéticas. O risco está em se perder nesse prazer estético e descurar a missão prioritária da narrativa: contar uma estória.

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FINALMENTE, A VERDADEIRA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:
Que se lixe isto, vamos pescar!

A janela aberta

Construído o enredo, ao escrevinhador colocam-se questões básicas: necessita de fazer trabalho de investigação, estudos, entrevistas com pessoas reais, deslocar-se a lugares, experimentar por si mesmo outras vivências?

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Ao contrário do académico, do jornalista ou de outros escrevinhadores que assumem a ligação com a realidade como base dos seus trabalhos, o escrevinhador de ficções não precisa de sair da cama para começar e acabar o que quer que seja.

Mas todo o trabalho prévio, nem que seja o da simples leitura, pode consolidar a verosimilhança do enredo (factos, personagens, modos de falar e de estar, etc), como pode reforçar a inspiração e o alento do processo criativo.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita literária.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita criativa.

Além disso, trata-se duma abertura para o mundo: o escrevinhador viaja, conhece novas terras, nova gente, ouve histórias e regista expressões, toma nota de ideias e sugestões, podendo fazer tudo isto e ir escrevendo, ao mesmo tempo, o que tem estruturado no enredo.

Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época, é possível realizar este trabalho sem sair de casa.

Saindo ou não, pode ser motivo de grande prazer e modo de atenuar vícios duma escrita autocentrada, duma experiência de vida necessariamente limitada pelo preconceito, dos erros assimilados e inconscientes…enfim, as consequências de atribuirmos demasiada relevância ao nosso umbigo ou às nossas dores.

E, como resultado final, pode ser a diferença que o leitor encontra numa estória e nas personagens que ‘respiram’ autenticidade e outra estória e suas personagens em que tudo lhe parece postiço, sem densidade ou paixão.

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Se depois o leitor vier a saber que o escrevinhador nunca esteve naqueles lugares (e que, talvez por isso mesmo, não corresponde o escrito com a realidade), ou que se inspirou em pessoas que nunca conheceu (e episódios de suas vidas) para construir as personagens, para em seguida distorcer uns e outros, talvez o leitor fique triste e desiludido por tudo aquilo que o fascinou não existir, nem ter existido nunca…mas o fascínio pela estória perdurará, e não é essa a nossa grande vaidade e ambição, ó escrevinhadores?

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Ainda (e sempre) a sedução…

O grande desafio que a escrita coloca à expressão das emoções é o da combinação dos limites da linguagem (facial, gestual, oral) com os limites (ainda mais apertados) da Língua, para depois serem ainda mais limitados pela própria escrita. (ler mais neste outro post)

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Nada que o comum dos mortais, desde pequenino, não tenha experimentado à sua própria custa e que se resume numa frase igualmente comum: ‘não sei como dizer isto, mas…’.

Pergunto-me se o músico ou o pintor sofrerão de idêntico problema: a paleta de cores ou as pautas também pecam por defeito na altura de exprimir emoções?

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Curiosamente, a dança (em sentido geral) não me parece sofrer qualquer limitação e ser o veículo por excelência da expressão das emoções.

E o teatro, claro, pela sua capacidade de integrar todas as outras artes.

Mas a escrita? A escrita impõe os limites acima referidos e só pelo engenho poético consegue iludi-los, que não é o mesmo que superá-los. (a este respeito, ler mais aqui)

Dito isto, é com facilidade que a emoção (ou o sentimento) tanto pode sofrer graves amputações na expressão literária, como, pelo contrário, abafá-la. (ler este post, para melhor entender)

A Ameaça, de René Margritte

A Ameaça, de René Margritte

Daí não ser por piada que insisto tanto na sedução da bela Musa: dela vem a inspiração, do escrevinhador sai a emoção-sentimento, e entre ambos resulta a composição.

 

Escrever como terapia

O sentido dado aqui a ‘terapia’ é muito amplo, e desde há muito que as artes em geral são entendidas, também, como um modo do sofredor (de amores, de melancolia, de obsessões, de desgostos, de doenças físicas ou mentais…) recuperar a saúde até um certo ponto. Ou, de algum modo, a comprazer-se com a dor.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

A escrita literária, principalmente, gerou muitas e boas obras graças a este processo. Mas é incomensurável o número das que são simplesmente insuportáveis.

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O problema não está na necessidade do escrevinhador em ‘trabalhar’ suas emoções e sentimentos, ordenando ideias, exprimindo sensações. Provavelmente, tudo isto é a matéria-prima e o combustível do processo artístico.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

O problema está, creio eu, em deixar o processo ser dominado por essas mesmas emoções, sentimentos, ideias e sensações: o escrevinhador como que se isenta de quaisquer faculdades críticas e estéticas.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se se pode escrever bem sem essas faculdades, só o vejo possível para quem tem interiorizado com elevada técnica e apuro o exercício da escrita.

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De outro modo, acontece o previsto: a produção de textos sem valor literário, ainda que ricos em material para análise psicanalítica…e, na esmagadora maioria das vezes, nem isso, vista a sua banalidade confrangedora.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Conforme já por aqui tenho dito, não se está a pôr em causa a importância da espontaneidade, das emoções-sentimentos-etc-e-tal, e de tudo o mais que exprima o mundo interior de cada qual. Mas a relativizá-los enquanto material para uma escrita com pretensões literárias, a ser partilhada com leitores desconhecidos.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se são importantes, para não dizer fundamentais, numa primeira fase do processo da escrita, têm de ser avaliados rigorosamente numa fase posterior a que chamei ‘pós-produção’ literária.

QUESTIONÁRIO POPULAR! Há mais alguma coisa na vida? SIM/NÃO -Raios.Eu devia saber esta...

QUESTIONÁRIO POPULAR!
Há mais alguma coisa na vida?
SIM/NÃO
-Raios.Eu devia saber esta…

 

* retirado de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro (apresentação crítica, fixação do texto, notas e linhas de leitura de Teresa Amado) Colecção Textos Literários—Editorial Comunicação 1984

 

 

 

 

Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

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Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

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Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

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Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

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la muse, de jean esparbes

Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Elogio à prolixidade

Há quem escreva com tanta atenção ao detalhe que perde o fio da narrativa, secundarizando-a; talvez porque o instante seja decisivo, talvez porque o enredo tenha mais a ver com o sentimento, a emoção, a percepção, do que com a ilusão do tempo progredindo de acontecimento para acontecimento.

Ao Pepe lhe agrada muito dizer frases lapidárias nos momentos de mau humor. Depois vai-se distraindo pouco a pouco e acaba por esquecer tudo.

Duas crianças de quatro ou cinco anos jogam aborrecidamente, sem nenhum entusiasmo, aos comboios entre as mesas. (…)

Pepe observa-os e diz-lhes: —Ainda ides cair…

Pepe fala o castelhano, ainda que leve já quase meio século em Castela, traduzindo directamente do galego. (1)

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Também há quem desenvolva tantos relatos paralelos ao enredo que o submerge; talvez por força do efeito caleidoscópico das diversas dimensões de uma vida, de uma sociedade, de um tempo, recusando comprimi-las, ou anulá-las, numa perspectiva reducionista.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (capítulo CX) a um professor de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. Em si, a matéria é chocha, e não vale a pena de um capítulo, quanto mais dois; mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis. Expliquemos o explicado. (2)

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Quem, ainda, utilize muitos e variadíssimos vocábulos (insólitos até) com suas derivações e efeitos bombásticos, em longas e coloridas formulações frásicas a ponto dos aspectos formais da escrita ganharem preponderância sobre os conteúdos; talvez por assim exprimir as características da oralidade, ou para caracterizar cada personagem nas suas relações e desenvolvimentos.

Com o vezo e a experiência e porque ladrãozinho de agulheta sobe sempre a barjuleta, o João Bispo deitou o pé mais longe. A vizinhança começou a queixar-se de sumiços sobre sumiços, ovos que desapareciam do ninho ainda a pita poedeira a repenicar, queijos frescos da francela e até broa dos açafates. Foi cão, foi gato, foi doninha, e o João Bispo com o odre à ufa. (3)

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-Dêem as boas vindas ao Bert Phelps. Ele será o responsável pela segurança de toda a divisão de produtos de capoeira.

E tudo isso pode resultar bem, pois o propósito literário tanto pode ser o de contar mais uma estória, como o de contar de certa maneira.

Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. (4)

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O fluxo do texto ininterrupto, encadeando personagens, acontecimentos, reflexões, ambientes, torna-se hipnótico, sedutor, e tanto mais sensual  quando bem escrito e levando o leitor a saborear a sonoridade das frases, a experimentar o dobrar da língua ao enrolar a sílaba.

E dissessem o que bem lhes aprouvesse, ele era que não ia se incomodar, como não se incomodou com o olhar de Lindaura de Jacinto, quando entrou na quitanda do marido dela e pediu uma botija—uma botija, não, um botijão— de cachaça, suor de alambique mesmo, coisa de fazer o bafo do bebedor pegar fogo na hora de acender o charuto, coisa de macho mesmo. (5)

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Repetindo a conclusão do post anterior, apesar de me referir a coisa completamente diversa, não é à toa que se associam as noções de conciso, insípido (pobre), desapaixonado: as palavras não são gratuitas, nem a escrita é um mero registo.

(1) in La Colmena de Camilo José Cela

(2) in Dom Casmurro de Machado de Assis ed.Europa-América

(3) in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro ed.Bertrand

(4) in O Evangelho segundo Jesus Cristo de José Saramago ed.Caminho

(5) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro ed.Dom Quixote

E agora algo completamente diferente *

*título de um famoso sketch dos Monthy Python

Pondo de lado os diversos tipos de censura literária e os critérios editoriais, a actividade literária tem evoluído para a dessacralização das regras, a liberdade de opção estética, o direito a escrever como o escrevinhador entende. Inclusive o de versejar com parâmetros métricos ou formais consagrados, anacrónicos ou outros.

Pode-se dizer e, por conseguinte, escrever seja o que for sobre seja o que for. Raramente nos detemos para observar ou confirmar este lugar-comum. Mas habita-o uma enigmática desmesura.(1)

É nesse sentido que formulo a expressão vale tudo e nada é garantido. O ‘nada’, bem entendido, é a receptividade do texto, o seu sucesso entre críticos, editores ou leitores. Ou a esperança de que uma posteridade ofendida vingará a memória do escrevinhador ignorado no seu tempo.

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

Vingança póstuma, aliás, ameaçada pela produção (e publicação) massiva de textos com pretensão literária. E a poesia, na minha limitada percepção, é a fórmula literária mais popular actualmente, como era há 500 anos atrás.

Se nada o limita, se nada tem a perder, porque há-de o escrevinhador abafar sua criatividade?

-Para teu bem, é melhor que o que vais dizer seja realmente importante!

-Para teu bem, é bom que o que tenhas a dizer seja realmente importante!

Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é um modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. Mas de qualquer modo há alguma desfasagem.Começa assim: como o amor impede a morte, e não sei o que estou querendo dizer com isto.(2)

Existe uma componente experimental na escrita, a nível do estilo, do tema, do enredo, até da própria linguagem e grafismo, que, por natureza, tende a aperfeiçoar com a persistência e o tempo. Se isso não acontecer, desista, caro escrevinhador: o seu caminho não é por aí.

BELEZA-INTERIOR

(a respeito da poesia pode ainda dizer-se:—A lâmpada faz com que se veja a própria lâmpada. E também à volta.) 

(Evita as tentações da teoria: o poema é uma coisa veemente e frágil. E não é frontal, mas insidiosa.) (3)

E como calibrar critérios de ‘perfeição’ numa via experimental? Seduzindo leitores, parece-me óbvio. Mas pode alguém seduzir se não estiver, por sua vez, seduzido por aquilo que faz?

O pior é que pode, o excessivo rigor ou a simples insegurança não impedem que se escreva textos gloriosos que o próprio escrevinhador tentará destruir, quantas vezes com êxito. Recorde-se o caso clássico do poeta Virgílio: deixou indicações escritas para que a obra-prima Eneida fosse destruída (eventualmente por estar a morrer e ter deixado a obra sem o desenvolvimento previsto, nem as revisões necessárias).

LIVROS RAROS "Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade."

LIVROS RAROS
“Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade.”

…E enquanto mantiverdes ainda, seja no que for, vergonha de vós próprios, não sereis capazes de ser dos nossos.(4)

Ora, torna-se pedagógico para o próprio escrevinhador desenvolver experiências, fugir às rotinas técnicas, temáticas e outras.

Deste modo torna-se consciente dos seus limites e percebe melhor aonde pode ir, se tentar.

Acima de tudo, a meu ver, torna-se crítico de si mesmo, nomeadamente das fórmulas estereotipadas como estrutura as ideias, como formata a sua expressão, o próprio vocabulário.

O que atrai o escritor, o que agita o artista, não é directamente a obra, é a sua busca (…). Daí que o pintor a um quadro prefira os diversos estados desse quadro. E o escritor muitas vezes deseja não acabar  quase nada, deixando no estado de fragmentos cem narrativas cujo interesse consistiu em terem-no conduzido a certo ponto.(5)

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO "A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito."

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO
“A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito.”

(1) in Presenças Reais de George Steiner ed.Presença trad.Miguel Serras Pereira

(2) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Nova Fronteira

(3) in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio e Alvim

(4) in A Gaia Ciência de Frederico Nietzsche, ed.Guimarães & Cª, trad.Alfredo Margarido

(5) in O Livro Por Vir de Maurice Blanchot ed.Relógio d’Água trad.Maria Regina Louro

Para quê correr?

 Aperfeiçoar o estilo não é tarefa fácil, nem é preciso ser um génio para saber isso.

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O que igualmente se sabe, e diz-se menos, é que se trata dum esforço doloroso como aqueles exercícios físicos que exigem técnica e repetição para resultarem bem, satisfazendo quem o pratica. Ora, em ambos os casos a grande maioria fica-se pelos mínimos para sossegar a consciência e acreditar que, apesar de tudo, chegará à boa forma.

Níquel na Pré-História

Imagino que é por isso que se vê cada vez mais gente a participar em maratonas, meias-maratonas e outras fracções de maratona: afinal, o que conta é participar e tal e tal. Claro que se pode perguntar para quê o esforço duma prova de atletismo em meio urbano, se com esforço e alguma criatividade pode caminhar por montes e vales num fim-de-semana. Talvez por ser algo cínico, sem maldade, nem intenção, entendo que a resposta anda para os lados da mediatização, dos fenómenos de massas, das modas e tendências que preenchem os espaços de debate e da criação.

Na escrita observa-se algo semelhante: muito escrevinhador sente-se satisfeito por participar em tertúlias, colectâneas e concursos, aceita o elogio fácil e tenta não se melindrar com as críticas maldosas. O que até pode ser muito reconfortante, claro, mas não resulta em aperfeiçoamento.

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A VIDA em oito passos simples
1-2-3-4-5-6-7- 8: repetir passos de 1 a 7 até que a morte o leve.

E, tão ou mais importante: cadê o grãozinho de loucura? Onde a sedução

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Surpreender o Leitor

Para a construção do enredo, para a composição das personagens, para o modo como se articulam as componentes da narrativa, para todos os detalhes, enfim, da árdua tarefa a que o escrevinhador se proponha, esta é a minha mensagem de Ano Novo: surpreenda o Leitor (e ponho maiúscula para dar ênfase a tão original ideia).

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Claro que o recurso a soluções fáceis tanto podem redundar num best-seller de qualidade medíocre como num livro medíocre e desconhecido.

Afinal o mordomo é o assassino? A rapariga bela, rica e arrogante é descartada pelo Príncipe no fim do livro? Cristóvão Colombo descobre a América…ah, mas foi por engano (ou talvez não)?

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Até as fórmulas mais gastas, totalmente previsíveis, podem surpreender quando se lhes acrescenta algo mais. Como o sarcasmo, a ironia, o humor absurdo ou, simplesmente, reescrevendo velhos temas e explorando novos sentidos.

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Porém, nunca esquecendo que se trata de um ingrediente entre outros, ainda que seja ‘o tal’, aquele que faz a diferença.

Com um grãozinho de loucura

Pois, a loucura…essa porta aberta para o lado de lá do espelho! Não se diz de todo o artista que tem algo de louco?

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Os antigos gregos distinguiam a doença, propriamente dita, da loucura por inspiração divina ‘que atira connosco para fora das regras rotineiras‘(in Fedro de Platão), e consoante o deus, a louca inspiração tinha sua especialização.

Ora, os dons divinos sempre têm um lado sombrio: Demódoco era ‘(…) o exímio aedo [poeta, cantor e tocador de lira], a  quem a Musa muito amava. Dera-lhe tanto o bem como o mal. Privara-o da vista dos olhos; mas um doce canto lhe concedera’ (in Odisseia de Homero, tradução de Frederico Lourenço, ed.Livros Cotovia  2003)386327_309440535742834_1090181842_n.

Como se o excesso de talento tivesse de ser compensado por um défice de saúde, bom-senso ou outra qualquer qualidade. Pode, também, ter uma vida atribulada (para dizer o mínimo) como a do mítico bardo Taliesin, que suportava mal os seus colegas da corte  e lhes dizia, cantando:

‘E eu sei, de ciência mui certa,/Que vós não sabeis como entender/Este meu cantar./E sei também, de clara ciência,/Que vós não sabeis fazer a deslinda/Entre a verdade e a falsidade./Vós todos, bardos sem tamanho,/Corvos do poder!Batei vossas asas, fugi voando./Onde está o bardo que me cale?’ (da ‘Repreensão dos Bardos’ in Mabinogion, trad.José Domingos Morais ed.Assirio e Alvim 2000)

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O que Taliesin censurava, afinal, era a falta de inspiração (divina, claro está) e, portanto, de autenticidade: para servirem quem lhes pagasse, os bardos sabiam técnicas (‘loas sem moral’, ‘ditos sem razão’), mas não passavam de ‘arautos da falsidade’.

Porque Taliesin, evidentemente, não despreza ‘rimas e versos/nem a arte de bem cantar‘, mas despreza e não respeita ‘quem abusa a divina graça,/em blasfémias se deleita‘. No Livro de Taliesin, ele próprio se apresenta como alguém que já foi ‘uma mensagem escrita’ e ‘um livro’ (para além de muitas outras coisas da natureza animada e inanimada).

De algum modo, a crítica de Taliesin ressoa nos versos de Caeiro quando este censura quem repete o que ouviu ao vento: ‘Nunca ouviste passar o vento./O vento só fala do vento./O que lhe ouviste foi mentira,/E a mentira está em ti.’

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Assim como parece que o panteísmo do bardo se reflecte no guardador de rebanhos: ‘Penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/E com o nariz e a boca/(…)/Por isso (…)/(…)/Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,/Sei a verdade e sou feliz.’

Levando o desafio à letra

Com o tempo, muitos leitores privilegiam a releitura à leitura de novos títulos. Perda de tempo? Depende do que relerem. Se tiveram a oportunidade de ler boa literatura russa quando eram mais novos, provavelmente não o fizeram com o tempo (nem com as melhores traduções, se calhar) que os títulos e os autores exigem.

Além disso, a releitura pode acontecer espontaneamente em qualquer altura da vida, seja por paixão, seja por haver consciência dum mal-entendido a resolver entre o leitor e o texto. Aí podem acontecer surpresas boas, más e outras meramente decepcionantes. Mas quem mudou: o texto ou o olhar de quem lê?

-Pareces muito mais magro. -Obrigado, fiz a extração do apendice...

-Pareces muito mais magro!
-Obrigado! Fiz a extração do apêndice…

Reflicta sobre isto o escrevinhador: há livros que são amor à primeira vista, ou nem tanto assim, às vezes muito pelo contrário, que têm o condão de propiciar descobertas de novos sentidos, uma insuspeitada profundidade, um poder de contaminação cultural até então desconhecido, ao serem relidos. Mudou o texto ou mudou a percepção do leitor?

-Não acredites em nada disso. Ele é um optometrista, ele simplesmente pensa que "visionário" soa melhor.

“-Não acredites em nada disso. Ele é um optometrista, ele simplesmente pensa que ‘visionário’ soa melhor.”

Antigamente, o custo das ‘folhas’ dos livros (pergaminhos, na verdade) era de tal modo alto que se rasuravam os textos, eventualmente desactualizados ou pouco católicos, para escrever de novo. Actualmente é possível redescobrir fragmentos de textos rasurados sob o texto visível em certos manuscritos (na pintura acontece o mesmo), oferecendo-se novas interpretações, novo entendimento, senão dos textos, dos homens e da cultura.

De algum modo, a releitura permite a apreensão de conteúdos que escaparam ao leitor de vezes anteriores, ou até se lhe abre um entendimento distinto das intenções do próprio autor. Há autores e livros que nos fazem sentir especialmente inteligentes, perspicazes, sensíveis, tomados pela vertigem dum novo horizonte ou pela serenidade duma ‘verdade’ que sempre soubemos, mas não sabíamos expressar. Porém, onde se esconde tudo isso: sob o texto ou para lá dele?

"Não cheguei aqui tentando agradar."

“Não cheguei aqui tentando agradar.”

Eu defino um “clássico”, seja na literatura, na música, nas artes ou na filosofia, como uma forma significante que nos “lê”. Lê-nos mais do que nós o lemos (ouvimos, percepcionamos). Não há nada de paradoxal,muito menos de místico, nesta definição.

De cada vez que entramos nele, o clássico questiona-nos. Desafia os recursos da nossa consciência e do nosso intelecto, da mente e do corpo (grande parte da resposta estética primária, e até da intelectual, é física).’ *

Escrever como provocação? O texto actua sobre o leitor, vai ao seu encontro, obrigando-o a reagir, a mudar de perspectiva, a reavaliar. Ou a afastar-se, pousando o livro; neste caso e no decurso do tempo, ou graças ao auxílio esclarecedor de alguém, o desafio permanece e a sua impertinência aparente obriga o leitor a defrontar novamente o texto.

Leitor talvez mais maduro, talvez mais exigente consigo mesmo, talvez não suportando escrevinhadores incapazes de arranhar a superfície e ir além do óbvio:  O luar através dos altos ramos,/Dizem os poetas todos que ele é mais/Que o luar através dos altos ramos. / Mas para mim, que não sei o que penso,/O que o luar através dos altos ramos/É, além de ser/O luar através dos altos ramos,/É não ser mais/ que o luar através dos altos ramos. (poema XXXV in O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, ed.Assírio e Alvim 2001)

-Precisamos de mais opiniões divergentes. -Concordo a 100%. -

-Precisamos de mais opiniões divergentes.
-Concordamos a 100%.
-Certamente, senhor.

Assim dito, aos mais precipitados pode parecer a apologia dos textos difíceis, herméticos, de palavreado erudito e conceitos intragáveis. Muito pelo contrário, o autor deste blog peca, entre muitos outros defeitos, por insistir nas artes com que o escrevinhador deve seduzir o seu leitor. Excluindo, porém, qualquer facilidade por temor à preguiça do leitor em ultrapassar suas próprias limitações. Se é para seduzir mesmo, convém que seja por paixão e para o próprio prazer.

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O poder do clássico sobre nós, as exigências e perguntas que nos faz, são simultaneamente as mais subtis e as mais urgentes.’ *

* citações de Errata: revisões de uma vida de George Steiner ed.Relógio d’Água , tradução de Margarida Vale de Gato, 2001

Começar de novo

O escrevinhador pode iniciar sua estória de modo lógico e sequencial ‘Era uma vez,…’ colocando tijolo a tijolo os alicerces do precário edifício que tem em mente. Sem preocupações de maior, excepto a de alinhar os acontecimentos, apresentar as personagens relevantes e outras, deixar fluir a escrita, tentar a bela musa.

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Ao fim dum tempo, mais ou menos longo, ao reescrevinhar pela enésima vez, o escrevinhador começará a brincar.

Umas vezes surpreendendo: “Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.” (primeiras linhas de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez)

Outras vezes trocando as voltas ao bom senso do leitor: “Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas , que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável.” (primeiras linhas de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, ed. Publicações Dom Quixote)

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Aí, certamente, o escrevinhador já sentirá o pulso firme do escritor segurando o fio de prumo do enredo.

Escrever como tempero

A abordagem enciclopédica, transmitida através duma linguagem simultaneamente poética e rigorosa, pode levar o autor a desenvolver o tema de modo caleidoscópico. Ou como quem tempera alegremente o prato favorito.

Escrevo estas linhas pensando num dos livros que mais me tocaram: Breviário Mediterrânico, de Pedrag Matvejevitch (ed.Quetzal).

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Um livro sobre geografia, portanto, em que o autor começa por dizer, logo na primeira linha: “Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar.” Pode-se ser, simultaneamente, mais claro e preciso? E mais adiante, acrescenta: “O Mediterrâneo não é apenas uma geografia.”

Claramente, não é um geógrafo a falar, nem mesmo um historiador como Fernand Braudel a situar o tempo de Filipe II no espaço mediterrânico (ou vice-versa): “ A veemência meridional introduz, tanto nos palavrões populares como nas blasfémias puníveis com o inferno, uma parte maior ou menor do corpo, e às vezes o corpo inteiro, exibindo-o ou fingindo oferecê-lo”. Como quem diz: as palavras têm cores, sabores e nutrientes.

Pedrag Matvejevitch é um professor de literatura francesa que escreve sobre o Mediterrâneo…que há mesmo a esperar saído dum autor assim sobre um assunto que lhe é tão estranho, não é mesmo? “Quanto mais conhecemos o Mediterrâneo, menos o vemos apenas com os nossos olhos: este mar não é de solidão.”

Matthew Cusick, Collages de mapas

Escrever como quem prepara uma sopa de pedra…

Contaminar pela escrita

Uma “habilidade” do bom texto é o de equilibrar a composição ao não exceder as proporções do acessório em relação ao essencial, o que significa que devo definir o tema central e tudo o mais gira à volta, valorizando-o. Isso tem implicações óbvias no número de palavras que dedico a cada um dos “acessórios”.

Se o objectivo é falar duma tal região, com seus monumentos, gentes, povoações e paisagens, segundo o itinerário que o autor se impôs, com acidentes de percurso e anedotas incluídos, faz todo o sentido que partilhemos o gosto, as preferências e o olhar de quem vagueia por estes caminhos.

O relato não é não tem de ser uma ficha técnica: há uma motivação particular, uma expectativa inicial, o desenrolar dum programa e, finalmente, a conclusão que pode ser a desejada, e que normalmente fica aquém disso. Por vezes sofre sérias desilusões e irritações.

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Partilhar tudo isso pode ser interessante e suficientemente motivador para o próprio leitor desejar empreender idêntica peregrinação.  Contaminar o leitor com a inquietação e o desejo, haverá maior medida de sucesso para o autor?

As “informações didácticas” são perfeitamente pertinentes, quando esclarecedoras e necessárias à explicação do plano da viagem, à descrição visual, ao entendimento de usos e costumes locais. Sem pretensões enciclopédicas, nem “cópia-e-cola” dum artigo da wikipédia. Nem medo de tratar com profundidade aquilo que não se desvela com uma incipiente abordagem.

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Pessoalmente, motivam-me todas as informações, mais ou menos eruditas, que abram horizontes, sugiram outras pistas de leitura, seduzindo-me a partilhar o universo das paixões do autor. E não se trata só do texto: um bom trabalho de fotografia pode ilustrar brilhantemente o que duas ou três linhas (ou todo um capítulo) pretende dizer ou sugerir.

A iWine app é uma aplicação para "connoisseurs" -Este é um excelente Merlot!

A iWine app é uma aplicação para “connoisseurs”
-Este é um excelente Merlot!

Daí que o género “livro de viagens” tanto seja um desafio ao leitor, como uma aventura para o autor.

“Só” mais uma nota a propósito da arte da sedução

Seduzir ou paixão são vocábulos usados com alguma frequência nestes posts e têm suscitado algumas interrogações (suspeito mesmo que alguma irritação…).

Como todo o vocábulo, estes dois carregam consigo uma história, uma tradição de uso, um sentido corrente.

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Aqui assume-se tudo isso e acrescenta-se-lhes um sentido peculiar, mas nada original: o prazer de escrever (e de escrever sobre esta e aquela “coisa”), apesar de não ser condição suficiente para a qualidade do texto, é fundamental para que este brilhe, e ao brilhar, atraia atenções, seduza.

Ora, se bem que “prazer” não rime com “paixão”, a verdade é que dificilmente se passam horas frente à folha de papel (folha de papel? figura de estilo anacrónica, realmente), meses à volta dum texto, anos procurando exprimir algo, sem haver paixão.

Claro, a motivação por detrás de todo esse esforço pode ser uma obsessão e escrever uma necessidade, uma terapia, um alívio. Aí, “prazer” e “paixão” poderão ser vocábulos inapropriados, de facto.

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Quando o próprio autor recomenda ao leitor “(…) tende cautela, não vos faça mal…Que é o livro mais triste que há em Portugal!” podemos recear pelo que vamos encontrar, mas se formos surpreendidos por retratos cheios de vida e movimento “Ao pescoço serpentes de cordões, e sobre os seios entre cruzes, como espadas, Além do seu, mais trinta corações! Vá! Georges, faz-te Manel! viola ao peito. Que hão-de gostar! Tira o chapéu, silêncio! Passa a procissão” a leitura deixa de ser previsível, cria-se uma tensão entre o texto e a expectativa do leitor.

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E se o autor acrescentar tópicos e inquietações invulgares, formuladas de modo original “Qu’é dos Pintores do meu país estranho, Onde estão eles que não me vêm pintar?” o livro revelará, sem desmerecer a cautela inicial, estados de espírito muito mais subtis, sugerindo outros sentidos, diferentes sensibilidades. Além dum sentido de humor admirável.

Portanto, como posso acreditar que o autor de não teve prazer ao escrevê-lo, estruturando-o com reflexão, detalhe e ousadia, ciente de assim surpreender e seduzir a leitora melancólica, levando-a a sorrir contra a vontade e, ocasionalmente, arrancando-lhe uma gargalhada?

AVISO: os livros podem provocar reacções inapropriadas. Seja prudente quando leia em público.

AVISO:
Livros podem provocar reacções inapropriadas.
Seja prudente quando leia em público.

Seduzir por palavras

A escrita duma obra literária, em prosa ou em verso, maior ou menor, não se compadece com meia-dúzia de frases apelativas: se forem o mais relevante da obra, esta arrisca-se a ser meramente panfletária, superficial.

Nada de mais simples e difícil do que desenvolver uma ideia, surpreendendo o leitor e contaminá-lo com o desejo de, ele próprio, criar suas ideias a esse respeito. Chamo a isso “sedução” e é a marca dos grandes autores.

-Sim, é ele. Este é o autor do livro que me agarrou e  não me deixou seguir em paz.

“-Sim, é ele. Este é o autor do livro que me agarrou e não me deixou seguir em paz!”

É, suponho eu, aquilo que torna a obra de Pessoa tão atraente para todos nós, seus leitores: atrai, surpreende e faz-nos pensar coisas nossas “daquele” modo. Graças à leitura de textos alheios, descobrimos em nós uma centelha de génio.

Não será essa a função central da arte? Arrastar o público à participação, seja como acto colectivo, possessão demoníaca, viagem interior, libertação? Abrir as “portas da percepção”, despertar algo adormecido?

Transformar, enfim?

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Escrevinhador ou escritor: eis uma questão.

Memórias, ficções ou poemas muitas vezes apresentam-se num português sofrível, alternando frases excessivamente curtas (e insuficientes para o entendimento e o desenvolvimento do tema) com outras longas de mais (divagando de modo despropositado, ou abusando das perífrases, da voz passiva, dos detalhes).

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

A bengala de que se fala no post anterior muitas vezes surge associada a textos de difícil entendimento por falta de clareza na exposição de ideias e factos, pela precária estrutura que as sustenta e na desproporção das partes entre si. Como se o autor tivesse mais prazer (ou urgência) em escrever suas coisas assim como lhe ocorrem do que em fazê-lo seduzindo (ou comunicando com) um hipotético leitor.

Em qualquer das situações, os textos precisam de maior qualidade formal (gramática, vocabulário) e de que o autor tenha noção das exigências próprias da expressão escrita (em contraponto ao fio dos seus pensamentos ou à expressão oral).

Se o fizer intencionalmente, deverá assegurar-se se o efeito pretendido é eficaz. Por exemplo: o texto desenrola um novelo de ideias, expressões e estórias conforme estas acorrem ao narrador (que pode ser um personagem).

Uma análise crítica verificará se o efeito é voluntário; sendo voluntário, se é eficaz. Se essa eficácia é consistente com os propósitos do texto, já é outra coisa que irá analisar depois.

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Marketing e Literatura

O desespero de quem escreve e quer editar (e se consegue a almejada edição, logo a quer promover e vender rapidamente), leva a questionar quais os “segredos”, as técnicas”, para atingir esses objectivos. Tudo desejos legítimos e naturais para os quais não há que ter vergonha ou sentir culpa.

Será o título? Um título apelativo, mobilizador, que fica no ouvido?

Ou é mesmo o tema? Vampiros contra lobisomens ainda está na moda?

Talvez o famoso arranque logo na primeira página que agarra a atenção do leitor distraído ou aborrecido.

É a capa quem atrai o leitor num primeiro tempo, dirão os perspicazes.

Depois, as redes sociais farão o milagre. Diz-se. Melhor mesmo só aparecendo na TV.

Tudo questões pertinentes para o editor, sem dúvida. Mas sem sentido quando o livro ainda está por escrever.

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Reconheço o valor de qualquer uma das questões anteriores, todas têm relevância para a promoção e o impacto da obra perante um público que desconhece o autor. Daí a importância estratégica duma editora competente, daí os conflitos entre a editora e o autor sobre estes e outros aspectos do livro a publicar. Daí a falta que faz a figura do “agente literário” no nosso pequeno mundo da Língua Portuguesa.

Mas este blog limita-se à área da criação, cultiva o culto da inspiração, ou seja, o da relação erótica e fiel com a bela Musa. E fá-lo por defeito. “Defeito”, sim, no sentido de imperfeição (não como anglicismo importado pela prática de “correr” programas informáticos e quejandos). A escrita é uma pulsão, uma “necessidade interior”. É possível que seja, até, uma patologia benigna. Acima de tudo, e desejavelmente, deve ser uma paixão.

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Conseguir equilibrar os excessos dessa paixão com o rigor da gramática, estruturando um texto legível e interessante, parece-me uma tarefa suficientemente complexa e absorvente. E, por defeito e limitação assumidas, apetece-me dizer como Guerra Junqueiro dizia de cada livro que concluía, que  era como deixar um filho na “roda”: a partir daí deixava-se de preocupar com o que viesse a acontecer-lhe.

A “roda” de que falava era uma placa giratória, na parede de certos conventos, onde quem passasse na rua podia deixar os recém-nascidos ao cuidado das freiras. Exagero dele, certamente.

Tautologias

Volta e meia surge a notícia de alguma grande editora ter recusado a publicação duma determinada obra por razões de falta de qualidade, muito reduzida perspectiva de vir a ganhar leitores, falta de oportunidade editorial, ou outra dessas razões que qualquer autor já recebeu por escrito após envio da cópia dum livro acabado de concluir.

Se é notícia, é porque o livro recusado é, nem mais, nem menos, uma qualquer obra-prima da literatura, sob disfarce de um outro título e autoria. E o que o autor da brincadeira pretende demonstrar é a falta de seriedade e profissionalismo das editoras.

-Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?

“Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?!”

Mas também revela a sensibilidade destas para o gosto dominante do público leitor. Aí, talvez as editoras não estejam tão enganadas assim: muitas das obras que o público aprende a venerar, e até aprecia genuinamente, só merecem essa atenção porque o autor já é um autor consagrado. E o fetichismo dos leitores pelos prémios literários e/ou pelos “best sellers” não deixa dúvidas a esse respeito.

Ou seja: os bons autores são os que têm fama de o ser e os títulos que se vendem melhor são os que têm mais procura.

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Felizmente, bons novos autores vão surgindo, mesmo que misturados num número imensamente maior de novos autores medíocres. A ecologia da literatura nunca foi um Jardim do Éden, e a proliferação de novos títulos/autores com a publicação em formato digital e para a net, não irá favorecer a qualidade da escrita ou apurar o gosto pela leitura.

Nem se espere do obscuro escriba deste blog a solução para o eterno problema da quadratura do círculo.

Retrato falado?

Uma vez explicaram-me que pretendiam escrever poesia do mesmo modo que gostariam de pintar (e desenhar), retratando algo através das palavras. Achei interessante a ideia, principalmente numa época em que a captação, reprodução e manipulação de imagens é tão acessível. E como pretendia “retratar” com as palavras? Os exemplos que me foram dados baseavam-se no uso de substantivos e adjectivos (do género: tal coisa/pessoa com tal qualidade) e comparações (do género: tal coisa/pessoa é como…).

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Não gostei e tentei explicar-me: mesmo que se usem recursos como a rima e a métrica, a estrutura torna-se monótona, o efeito pobre, o resultado aborrecido (como se montássemos um puzzle em que as peças são frases). Não utilizei a expressão “lista de mercearia”, mas é o que me ocorre quando as descrições ou referências se estendem ao longo de linhas e linhas de versos. Sugeri que cortasse na adjectivação e procurasse “pintar” usando verbos.

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1.Mamã! 2.Mais! 3.Não! 4.Meu!
-As primeiras palavras do bebé: 1.Substantivo 2.Adjectivo 3.Advérbio 4.Pronome Possessivo-

O trabalho poético progrediu e resultou em algo bastante diferente: surgiram as inevitáveis metáforas, elas suscitaram ideias (ou terá sido o contrário?) e os poemas foram ganhando dinamismo, tensão, exprimindo conflitos e anseios, na verdade, trabalhando o “material humano” que está na base do artefacto poético.

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“Que mão ou olho imortais poderiam captar a tua assustadora simetria?”

Melhorou bastante, na minha opinião, mesmo que haja muito ainda para aperfeiçoar (…e não há sempre?). Talvez o resultado final nem tenha nada a ver com o propósito de retratar. Mas, além de produzir imagens interessantes, creio que o poeta abriu um canal para projectar algo de muito pessoal e original. É por aí que a Musa se deixa, tanta vez, seduzir…

Poesia oral e/ou escrita?

Originalmente, os poemas eram o modo “literário” por excelência em culturas analfabetas, daí a procura dum padrão, dum método: métricas e rimas, fórmulas repetitivas, imagens e outras referências que fossem partilhadas pela maioria, tudo o que ajudasse a memória do declamador/poeta e facilitasse o entendimento dos ouvintes.

_Vocês, poetas, pensam que são...tão...tão...incrivelmente... -...articulados?

_Vocês poetas pensam que são…tão…tão…incrivelmente…
-…articulados?

Com a escrita, simultaneamente se cristalizaram técnicas e libertou-se a criatividade individual. Mas isso demorou séculos e sofre recuos sempre que os hábitos de leitura se perdem. A feliz união da poesia com a música tem ajudado à divulgação de poemas e autores de todas as épocas, ultrapassando os anacronismos típicos e dificuldades de vocabulário.

Muitas vezes, poemas de grande beleza são de impacto duvidoso quando ditos a alta voz para um público, talvez porque não são concebidos originalmente para esse efeito, que tem suas exigências de dicção e forma.

E depois há o sentido, ou múltiplos sentidos, do poema: tanto maior será a compreensão de quem ouve quando suas expectativas não são confrontadas com dissonâncias e subtis ironias.

Mas deverá o autor esforçar-se por corresponder a essas expectativas? Épater le bourgeois (Chocar o burguês) já era a ambição de poetas franceses como Baudelaire (a frase creio que é dele mesmo) e não era isso o que o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, também pretendia? (ver nota)

Ou como diz outro poeta: o mar subiu ao degrau das manhãs idosas/inundou o corpo quebrado pela serena desilusão/assim me habituei a morrer sem ti/com uma esferográfica cravada no coração. (in Mais Nada se Move em Cima do Papel de Al Berto)

Ainda há quem consiga ler um livro genial?

As dificuldades da leitura do Grande Sertão: Veredas são o paradoxo da própria expressão artística: a originalidade da escrita “exige” entrega do leitor, sua dedicação (tempo e qualidade de leitura), para se “deixar levar” na corrente do discurso do narrador e do seu peculiar modo de se exprimir.

Hagar

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Em forma de monólogo (como n’ O Malhadinhas), o personagem central da história conta a sua vida, dirigindo-se a alguém a quem chama “doutor”, de outra condição social e estranho ao mundo do Sertão, muitos anos depois dos acontecimentos narrados.

Mas a narrativa de Riobaldo não é linear, frequentemente interrompida por reflexões a que se sucedem relatos episódicos da vida. O recurso dos neologismos, das onomatopeias, de palavras do português antigo, do imaginário sertanejo (fortemente devedor do imaginário europeu medieval), de frases construídas ao arrepio da boa lógica ou gramática, ultrapassam os limites da expressividade a que qualquer linguagem restringe as emoções, permitindo assim ao leitor penetrar no sentido profundo da narração.

Um dos aspectos mais interessantes do Grande Sertão: Veredas está, precisamente, em ser uma obra a todos os títulos original, tributária duma longa tradição literária, a começar pelos romances medievais, reflectindo a origem e a evolução da Língua Portuguesa no modo como constrói frases e vocábulos.

A história vai ganhando ritmo, desenvolvendo um eixo (a vida de jagunço e, desta, a vingança contra o inimigo Hermógenes) onde giram, com igual significado para o narrador e para a narração, temas recorrentes que atormentam Riobaldo: o amor por Otacília (que virá a ser sua mulher), o amor secreto por Diadorim (seu amigo cangaceiro), o Demo (que teima em  se convencer que não existe) e o pacto que celebraram ambos (mas que não sabe ao certo se aconteceu) em determinado lugar (que veio a saber depois que não existe).

Acima de tudo, porque tudo o mais ganha novo sentido com a revelação, o segredo imenso que Diadorim trazia consigo e que Riobaldo só vem a descobrir tarde de mais. Aqui, a narrativa assume uma dimensão trágica, ainda para mais associada ao tema faustiano da venda da alma ao Diabo.

Sua originalidade assenta, entre outros aspectos, no modo aparentemente caótico da narrativa (o narrador facilmente perde o fio à meada e frequentemente se afunda nas suas angústias) associado à peculiar linguagem e expressividade do narrador (poética, ritmada, hesitante, pontuada de interrogações), onde nem o próprio, por vezes, tem a certeza de dizer a verdade do que viu.

Infelizmente, toda esta riqueza torna a leitura problemática, de difícil acesso ao leitor, principalmente quando não está habituado a ter de “lidar” com estruturas fora do comum e ter de ser ele próprio a retirar o sentido duma frase que, à letra, nada ou pouco diz. Ou a ter de completar entreditos, perceber alusões.

Bem diversa da narrativa literária onde a ausência da ambiguidade, o contraste marcado (entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, etc), a utilização do vocabulário corrente, uma construção com principio, meio e fim, personagens tipificados desde o início, a opção por um tema que, por mais exótico que seja aparentemente, se reduz às mesmas problemáticas do dia-a-dia do leitor, tornam a leitura fácil e a “mensagem” compreensível.

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Registar a oralidade no texto escrito

Apesar do escrúpulo do autor em apresentar O Malhadinhas como um “longo monólogo [que] é menos um registo do som que um registo psicológico” (nota preliminar da edição de 1958), desde as primeiras linhas até ao fim do livro o leitor é arrastado pelo coloquialismo da narração, rico em expressões proverbiais e idiomáticas que sustentam a continuação do trecho citado acima: “Reproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. O que se cometeu foi filtrá-la, mais na substância do que na forma, com o cuidado, por conseguinte, de poupar ao oiro verbal as suas pepitas preciosas.”

Ao escritor não basta o ouvido familiarizado com a linguagem oral, regionalismos, calão, etc, como muitas vezes apreciamos em espontâneos contadores de histórias e anedotas. O filtro da linguagem, “mais na substância do que na forma”, permite explorar as dimensões humanas e literárias dos personagens e dos enredos que, de outro modo, teriam de ser sacrificadas em prol dum “naturalismo” que se pretende fiel à realidade retratada, nem por isso mais verídico.

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Assumindo esta opção, Aquilino coloca um aldeão sem grande instrução (ver nota 1), velhote e esperto, a entreter um grupo de homens de outra condição (ver nota 2) com a história de sua vida, oportunidade para o autor explorar tópicos de um país rural e beirão (ver nota 3), onde a coragem física (ver nota 4), a violência de macho (ver nota 5), o penhor da palavra (ver nota 6), se misturam com artes de navalha (ver nota 7) e jogo do pau (ver nota 8), manhas de feirante (ver nota 9), língua afiada (nota 10) e uma devoção popular que ultrapassa os limites da religião instituída (ver nota 11).

Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço”

Não é preciso que tenham rodado “dois carros de anos” sobre o cadáver do escritor (ou projecto de escritor) contemporâneo para poder ter tido a grata experiência de ouvir algum velhote rural ou urbano, falar com um estilo semelhante e a mesma riqueza vocabular, associados ao raciocínio inteligente ou à meditação filosófica.

Porém, para o leitor do sec.XXI  o resultado é algo estranho num primeiro tempo: a realidade descrita e a linguagem usada, juntamente com a técnica narrativa, parece dum tempo tão longínquo quanto o do protagonista do Lazarilho de Tormes (ver nota 12), cuja 1ª edição é do sec.XVI. Mas se o Portugal rural na 2ª década do sec.XX estava mais próximo dessa realidade do que da actual, Aquilino Ribeiro é uma autor intemporal que se revela na escrita, propiciando o diálogo com o leitor.

E uma das características da boa literatura é o apelo a reler, premiando o leitor com novos sentidos, novas descobertas. E o que já se sabia, ainda sabe melhor.

Choro pela minha vida de almocreve, e dessem-me hoje o machinho, tornassem-me as minhas pernas e a boa disposição, com dias grandes ou noites sem fim, não se furtava o filho de meu pai a recomeçar o fadário por Franças e Araganças. Mas ao tempo o meu pensar era outro (…). E a vida lá vai…ligeira como uma galga doida, esparvada. Já noutro diaço julguei que era chegada a minha hora. (in O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, 1922)

Paixão não rima com rotina, certeza ou segurança

O que foi dito atrás sobre as paixões não é de grande utilidade para quem escreva ou pretenda fazê-lo. Não porque seja irrelevante, mas por ser daquelas matérias de estudo e reflexão que só ganham sentido se a vida for vivida plenamente. Disso fala extensamente a literatura universal, e acrescenta que se não dermos o passo para fora da casca da rotina, para o exterior da concha de certezas que nos defendem da dúvida, paixão torna-se uma palavra oca.

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Alquimia e Apocalipse

Muito raramente, mas sem excepção de assunto, encontro um desses livros, dum desses autores, que me ajuda a passar para lá do espelho e dizer: “Ah! Afinal, isto tem interesse!” Qual o segredo? Que alquimia contém aquela prosa para transformar o assunto mais árido num oásis…mais: num verdadeiro apocalipse?

Paixão. E nem se trata de paixão desenfreada, louca, palpitante. Mas do domínio do assunto associado à capacidade de o comunicar de forma inteligente e prática. Que, no fundo, é a arte de viver os detalhes sem perder o conjunto (ou vice-versa). E transmitir a vertente pessoal. Na verdade, há pessoas que têm o dom de revelar o divino, oculto nos 75 artigos dum regulamento camarário ou no modo como se monta um aparelhómetro movido a electricidade. Chamo a isso “paixão” e não conheço epifania maior.

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A escrita como sedução

O escritor deve supor o seu leitor, aquilo que têm em comum? Deve preocupar-se com tudo o que consome o tempo dedicado à leitura,distraindo o leitor para outras actividades?

Deverá, pelo contrário, escrever o que realmente lhe dá na gana (ver nota 1), sem pudor (ver nota 2), sem consideração para as modas (ver nota 3)?

O sossego tão avesso aos hábitos dominantes, em casa ou fora de casa, em férias ou nos tempos livres, é um luxo que o bom, o exigente leitor, cada vez mais preza. Também por isso, dá por mal empregue o tempo perdido à volta de um livro medíocre.

Escrever deve supor um acto de sedução (escrevo para que me leiam), com o vagar necessário, mas sem abusar da paciência.

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