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Provocar a inspiração

A propósito dos temporais em terra e no mar, neste momento muito mediáticos e actuais, pedem-me orientação para uma qualquer obra a ser escrita.

Quando dediquei a Dezembro uma série de posts, destaquei três temas recorrentes: o Tempo, o Natal, o Inverno. Conforme expliquei na altura, e corrigi a seguir, o mês de Dezembro será o mais sugestivo dos meses. 

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Podia fazer o mesmo mês a mês ou, em alternativa, isolar um tema (‘o temporal’) e explorar as suas linhas de força. É um modo ‘criativo’, como outro qualquer, de sondar temas que o escrevinhador pressente que tenham potencial para a sua escrita. Mas se já está impressionado com os relatos do (mau) tempo que faz por aí, então deve aprofundar a razão dessa ‘impressão’.

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Pode ser o fascínio pela força da natureza em fúria. Pode ser o relembrar de outro temporal, outras catástrofes, de que, eventualmente, tenha sido testemunha ou de que ouviu contar por quem tenha assistido e/ou sofrido as consequências. 

Assim como podem ser associações, geralmente inconscientes, e que são o combustível para alimentar toda uma narrativa. Ou várias. Nesse caso, o temporal de chuva, vento e frio é pretexto para outras tormentas, mais íntimas, pessoais e menos óbvias.

Golconde de René Magritte

Como acontece, exemplarmente, em Wuthering Heights (traduzido tanto por O Morro dos Ventos Uivantes como O Monte dos Vendavais)  de Emily Brontë:

Wuthering Heights é o nome da residência do sr.Heathcliff. ‘Wuthering’ é um adjectivo com significado local, descritivo da perturbação atmosférica a que a sua situação é exposta em dias de tempestade.“*

De facto, o narrador e personagem do livro, o sr.Lockwood, irá constatar à chegada ao Monte dos Vendavais que o nome tem essa justificação, mas o título do livro alude muito mais à tempestade dos afectos e das vidas das pessoas que viveram naquela casa. Como o próprio leitor será levado a concluir.

“Meu amor por Linton é como a folhagem no bosque: o tempo há-de mudá-lo, sei bem, tal como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas por baixo: uma fonte de escasso prazer visível, mas necessário. Nelly, eu sou Heathcliff!”*

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A escolha do adjectivo ‘wuthering’, que associa o vento e o ruído do soprar do vento, sai reforçado na cena fantasmagórica que uma noite de temporal suscita, perturbando o sono do narrador:

(…) os meus dedos apertaram dedos duma pequena mão gelada! O horror intenso de um pesadelo apoderou-se de mim: tentei retirar o braço, mas a mão agarrava-o, e a voz mais melancólica gemeu, ‘Deixa-me entrar, deixa-me entrar!’ ‘Quem és tu?’, perguntei, esforçando-me, entretanto, por me libertar. ‘Catherine Linton,’ respondeu (…) ‘Voltei para casa: andei perdida no pântano!’  Enquanto falava, pude ver vagamente, um rosto de criança através da janela. O terror fez-me ser cruel; e, percebendo que era inútil tentar sacudir a criatura, puxei o seu punho para o vidro partido, e esfreguei-o para trás e para a frente até o sangue correr (…) mas continuava a gritar, ‘Deixa-me entrar!’ e persistia com o pulso fechado e tenaz, enlouquecendo-me de medo.“*

O escrevinhador faz bem em estar atento a todos os estímulos à sua veia criativa, explorando sentidos e desenvolvendo relações, tomando notas, deixando sua fantasia correr livremente. O resto virá depois, se tiver de vir.

* in The Wuthering Heights de Emily Brontë

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A escrita artificial

Mais visíveis na poesia do que na prosa, os artifícios literários surgem ‘naturalmente’ por razões que se prendem à bagagem cultural do escrevinhador.

(…) Os/ duendes/ que protegem a escrita adoram, pois, pormenores,/ porém na batalha dos doze contra doze/ o que há a dizer é só isto:/ venceram os defensores das mulheres de longa biografia/e de recursos eróticos infindáveis. Venceram uns e/  umas; perderam os outros. (in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho)

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Pode-se contrapor o ‘artifício’ ao ‘natural’ no sentido de ser algo feito pelo Homem em vez de produzido ou gerado naturalmente. Assim, não faz sentido polemizar se o texto caracteriza-se por ser livre de artifícios literários ou, pelo contrário, não usar uma linguagem espontânea e natural.

Oral e escrita, a tradição literária contamina todo a comunicação e não é difícil encontrar artifícios literários eruditos nas expressões mais populares.

"Maldito sejas, pássaro madrugador!"

“Maldito sejas, pássaro madrugador!”

O que os torna artificiais, no sentido comum de postiço ou falso, são o uso fora de contexto e o abuso, que tanto podem se dever ao pedantismo como à ignorância do escrevinhador. Frequentemente, são usados de modo estereotipado e até inconsciente, prejudicando o texto.

Usados com critério são uma das marcas do texto literário, o qual se distingue da linguagem comum, da publicidade e dum sms por não ter utilidade evidente, nem ser sujeito a análise contabilista.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

Os artifícios literários serão, provavelmente, tanto mais interessantes quando surgem espontaneamente e como expressão adequada do estilo, do propósito e do tema. O que, geralmente, está na proporção directa da tal ‘bagagem’ que cada escrevinhador carrega consigo.

(…) Como se atinge a respiração? Decorativa pessoa,/ adormecida luminosidade de mãos, pássaros que a flor /abre por dentro./ Manchas de algures no céu da boca. (Fragmentos in Nos Braços da Exígua Luz de Nuno Júdice  Obras Completas 1972-1985 ed.Quetzal)

"Sou uma abominação da lei de Deus!"

Sou uma abominação da lei de Deus!

Claro, quando o escrevinhador se sente confiante para desenvolver o estilo que dará corpo a um propósito, os artifícios tornam-se parte essencial do tema.

(…) Prouvera que ele morra, que eu quero ser rei e dormir com vossa majestade, já estou farto de ser infante, Farta estou de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha. Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem, e com esta sábia e céptica sentença se concluiu a conversação em palácio, primeira das muitas com que D.Francisco fatigará a rainha, (…) (in Memorial do Convento de José Saramago, ed.Caminho)

Oferta dum fim-de-semana de sonho

Sugestão para um fim-de-semana de chuva, vento e frio: o escrevinhador reunir seus textos, mesmo os mais díspares ou fragmentários, e perceber se formam uma unidade, algum tipo de conjunto ou de conjuntos.

"A nossa investigação mostra como a hereditariedade e o ambiente são igualmente significativas, mas nenhuma é mais importante do que a regulamentação legal."
“A nossa investigação prova como a hereditariedade e o ambiente são ambos significativos, mas nenhum é mais importante do que a regulamentação legal.”

Dito de outra maneira: guardar uma certa distância em relação ao que escreveu, olhar os textos numa qualquer perspectiva, estabelecer relações, descobrir rupturas.

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Sim, é um modo de auto-avaliação. Uma abordagem crítica. Tanto mais útil se o material reunido tem anos, ou é algo extenso: tempo e trabalho, portanto. Produtividade, criatividade, vocação, chamem-lhe o que quiserem.

Fundamental mesmo é perceber a intenção original e o resultado, entender a adequação entre os recursos (vocabulário, processos estilísticos), o contexto (propósito, tema) e a execução (abordagem, ordenação, desenvolvimento, conclusão).

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Sem cair na tentação de jogar com tudo ao fogo aceso na lareira (tecla ‘Delete’).

O escrevinhador e o Tempo

Há quem escreva com a noção de já ter vivido ‘o seu’ tempo, não sendo ‘seu’ o tempo contemporâneo. Supõem, por isso, que o que escrevem destina-se à sua faixa etária e a gente ainda mais velha: os mais novos não se interessam, nem o escrevinhador percebe o que lhes interessa.

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 Ou vivem o drama duma ausência existencial.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?… Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada, A cor morreu — e até o ar é uma ruína… Vem de Outro tempo a luz que me ilumina 

[in Epigrafe de Mário Sá Carneiro]
Lista Telefónica -Sinto-me inútil.

Lista Telefónica
-Sinto-me inútil.

O curioso neste ponto de vista é a negação, implícita, da própria Literatura, essa forma de arte em palavras que pretende agir sobre o leitor (ou ouvinte).

Tristes mãos longas e lindas/ Que eram feitas pra se dar…

Ninguém mas quis apertar…/ Tristes mãos longas e lindas… 

E tenho pêna de mim, /Pobre menino ideal… 

Que me faltou afinal? /Um elo? Um rastro?… Ai de mim!… 

[in Dispersão de Mário de Sá-Carneiro]

Os temas, como o talento, podem envelhecer, cair em desuso, desaparecer, nada de mais natural…mas como pode o escrevinhador sentir-se com autoridade suficiente para decretar a morte eminente de um tema (ou do próprio talento), após a morte dele (escrevinhador) e dos seus (poucos) leitores?

-Para de ser tão negativo. -Um verdadeiro optimista teria dito "Sê positivo".

-Para de ser tão negativo.
-Um verdadeiro optimista teria dito “Sê positivo”.

Anúncios destes podem resultar em boas ficções literárias, dramatizando o necessário para alimentar a tensão que uma perda definitiva sempre desperta. Até podem resultar como estratégia de marketing.

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-Queres parecer muito esperto, Corto Maltese. É esse o teu defeito…mas sei uma coisa a teu respeito: no fundo és honesto e é isso que me convém.
-As mulheres deveriam ter sido a minha ruína já há muito tempo.

Ora, ao escrevinhador resignado a escrever para ‘os do seu tempo’ falta, quase sempre, fôlego literário. Se algo definha não é a literatura, nem o tema, mas a escrita dos textos (dele, escrevinhador), e esse definhamento é o problema número um de toda a Criação (com maiúscula e porque sim): a falta de inspiração.

Eu próprio me traguei na profundura, Me sequei todo, endureci de tédio.
[in Além-Tédio de Mário Sá Carneiro]

 

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O resto são tretas. Mas é com tretas (e letras) que se responde a tão singela questão: escrever como?

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Mário Sá Carneiro, desenho de Almada Negreiros

Um pouco mais de sol – e fôra brasa, Um pouco mais de azul – e fôra além. Para atingir, faltou-me um golpe de aza… Se ao menos eu permanecesse àquem…

[in Quási de Mário Sá-Carneiro]

Poderá haver poesia ou prosa com tensão baixa?

Na narrativa, a tensão é a expressão do desequilíbrio que dará dinâmica ao enredo, carácter à personagem, interesse ao tema.

A tensão está na diferença que se desenvolve do ponto de partida até ao ponto de chegada do enredo, as personagens estabelecem relações instáveis entre si ou consigo próprias, o tema pode ser focado de diferentes perspectivas, não necessariamente conflituosas, mas distintas. O leitor é ‘chamado’, assim, a participar nos dilemas, a reflectir sobre as alternativas, a entender os conflitos, provavelmente a expor seus preconceitos e debilidades.

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Uma das formas narrativas mais comuns do desequilíbrio é o ‘suspense’: as consequências poderão ser muito gravosas para esta ou aquela personagem, mas o enredo não dá certezas sobre a evolução ao longo das páginas ainda por ler, tanto sendo possível os desfechos previsíveis como outros, invariavelmente imprevisíveis para o leitor.

Ou o enredo até pode seguir uma pauta conhecida, porém as personagens expõem uma psicologia muito própria e complexa que determinará ou influenciará o desfecho dum modo que, muitas vezes, nem o próprio autor consegue antecipar antes de escrever.

Na poesia, sente-se o desequilíbrio das emoções duma Florbela Espanca perfeitamente enquadradas no rigor formal dos sonetos; ou perceber a tensão oculta na sensibilidade da poesia ‘tranquila’, quase zen, de Caeiro.

No discurso poético, o desequilíbrio pode estar na construção da frase, na expressão dum sentimento, na sugestão duma ideia. E aqui é mais facilmente perceptível a sensação de vertigem, o sopro da loucura, a proximidade do inefável: tudo fórmulas para exprimir o indizível.

'Conservar su independencia', de Gilbert Garcin

Na prosa, torna-se perturbante o desequilíbrio manifesto nessas personagens aparentemente banais, eventualmente medíocres, para todos os efeitos ‘pessoas comuns’, que se expressam no Livro do Desassossego ou n’ O Processo. Desequilíbrio que nada tem de patológico, mas nem por isso é menos inquietante porque questiona a realidade e a passiva resignação.

Escrever desequilibrado como?!

Perguntam-me se o ‘desequilíbrio’ de que falo no post anterior é um atributo literário, uma técnica ou um modo de dizer. Para simplificar, complicando, respondo que sim: é tudo isso à vez.

Para equilibrar os nossos comentários vamos agora apresentar uma "fonte não informada"

Para equilibrar os nossos comentários vamos agora apresentar o ponto de vista duma “fonte não informada”

O que não é, fica ainda mais fácil de entender:

-não é um desequilíbrio no tema, excedendo/omitindo detalhes de modo a afectar o enredo; situação comum quando o escrevinhador não doseia os dados necessários ao leitor, tanto podendo aborrecê-lo com pormenores eruditos (e desnecessários do ponto de vista literário), como enganado-o por falta de informação (eventualmente, pontos de vista alternativos aos desenvolvidos no livro).

-não é desequilíbrio no efeito obtido, frustrando a legítima expectativa com um desenvolvimento aquém do prometido; situação comum quando tema, enredo, personagens, sofrem pela falta de preparação do escrevinhador e soluções confusas ou cedem ao estereótipo.

-não é desequilíbrio da composição, tornando inverosímil o tema, a personagem, o enredo; situação muito comum nos finais precipitados em que falha o fôlego à narrativa para resolver as questões abertas ao longo do seu desenvolvimento; ou, inversamente, quando o ‘arranque’ é lento e focado numa personagem/tema/propósito que não tem seguimento ou justificação no tratamento depois dado ao enredo.

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Diferentemente, o desequilíbrio de que falo é uma tensão. Que o enredo aumente ou diminua essa tensão não é relevante para a discussão, mas é essencial que o seu desenvolvimento e conclusão a resolvam em algum sentido. Ou não, evidentemente.

Da arte de escrever pouco

Começar uma história torna-se uma prova árdua porque exige fio condutor, fôlego, estrutura. E muitas vezes o que motiva o escrevinhador são algumas ideias soltas sem a base onde assentem e formem algum tipo de unidade narrativa.

"Há menos aqui do que a vista pode alcançar."

“Há menos aqui do que a vista pode alcançar.”

Daí a tentação em enveredar pela história curta na ilusão de ser mais fácil de ‘dominar’. Ilusão assente numa outra: o que é pequeno é, necessariamente, mais fácil de fazer do que aquilo que é maior. Mas será bom que o escrevinhador tenha em atenção que as estórias curtas sofrem do mesmo grau de exigência que as anedotas: há um elemento surpresa, uma ‘punchline’, e não conheço técnica mais difícil de apurar.

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Embora se possam organizar contos numa unidade narrativa, formando seu universo próprio, conto a conto levando o leitor a reencontrar os mesmos temas sob um estilo comum, equivalente à voz dum narrador familiar. Essa unidade exige que a compreensão dum conto só seja plenamente conseguida lendo-os a todos.

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Deste modo, o autor concede-se ‘espaço’ para além de cada conto onde poderá desenvolver o que para trás fica inacabado ou por dizer. Essa continuidade poderá, eventualmente, sugerir-lhe outra estrutura. Na verdade, o fôlego do escrevinhador é que será outro, por essa altura.

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Escrever uma história banal como?!

Uma história banal: o relato da vida de um homem comum até ao momento da sua morte. Que pode resultar daqui senão uma série de acontecimentos anedóticos pontuados por justificações, remorsos, desculpas, mentiras? 

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Afastemos os propósitos morais, a tentação do autor em nos ensinar através do exemplo: é um género e dos mais glosados, dos mais insuportáveis pelo uso e abuso de estereótipos. E pressupõe uma moral, uma verdade, uma via recta. Reconheço que tem um público, duvido é do valor literário quando levado a sério.

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Se contamos a vida (e morte) de alguém, então porque não nos centrarmos na verdade que ele toma como sua? Ou nas verdades que cada ser humano que com ele se cruzou na vida têm a dizer a seu respeito? Quantos retratos do mesmo homem se podem fazer deste modo?

Procedendo assim, provavelmente deslocamos a ‘verdade’ para o ‘sentido’ (da vida), e afastamos qualquer propósito legislador e propagandístico. Os ‘factos’, já o devíamos saber, são uma construção.

Tendo o Tema (a vida e morte de alguém) e a Abordagem (uma narração omnisciente do ponto de vista do protagonista e o das pessoas que se cruzam com ele), o Propósito torna-se mais simples e transparente: entender/expor/problematizar a complexidade duma vida (ainda que banal) e reflectir sobre o ‘material’ que a escrita produza.

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A partir daqui, ao escrevinhador coloca-se o desafio do Processo: como irá desenvolver o tema de acordo com a abordagem definida tendo como propósito fazer do banal uma história…uma história, sei lá!… profunda, misteriosa, fascinante? Até mesmo, por paradoxal que seja, extraordinária?

‘Como contar uma história banal de modo interessante?’ pergunto à bela Musa. Mas a resposta brinca-lhe nos lábios…

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Contaminar pela escrita

Uma “habilidade” do bom texto é o de equilibrar a composição ao não exceder as proporções do acessório em relação ao essencial, o que significa que devo definir o tema central e tudo o mais gira à volta, valorizando-o. Isso tem implicações óbvias no número de palavras que dedico a cada um dos “acessórios”.

Se o objectivo é falar duma tal região, com seus monumentos, gentes, povoações e paisagens, segundo o itinerário que o autor se impôs, com acidentes de percurso e anedotas incluídos, faz todo o sentido que partilhemos o gosto, as preferências e o olhar de quem vagueia por estes caminhos.

O relato não é não tem de ser uma ficha técnica: há uma motivação particular, uma expectativa inicial, o desenrolar dum programa e, finalmente, a conclusão que pode ser a desejada, e que normalmente fica aquém disso. Por vezes sofre sérias desilusões e irritações.

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Partilhar tudo isso pode ser interessante e suficientemente motivador para o próprio leitor desejar empreender idêntica peregrinação.  Contaminar o leitor com a inquietação e o desejo, haverá maior medida de sucesso para o autor?

As “informações didácticas” são perfeitamente pertinentes, quando esclarecedoras e necessárias à explicação do plano da viagem, à descrição visual, ao entendimento de usos e costumes locais. Sem pretensões enciclopédicas, nem “cópia-e-cola” dum artigo da wikipédia. Nem medo de tratar com profundidade aquilo que não se desvela com uma incipiente abordagem.

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Pessoalmente, motivam-me todas as informações, mais ou menos eruditas, que abram horizontes, sugiram outras pistas de leitura, seduzindo-me a partilhar o universo das paixões do autor. E não se trata só do texto: um bom trabalho de fotografia pode ilustrar brilhantemente o que duas ou três linhas (ou todo um capítulo) pretende dizer ou sugerir.

A iWine app é uma aplicação para "connoisseurs" -Este é um excelente Merlot!

A iWine app é uma aplicação para “connoisseurs”
-Este é um excelente Merlot!

Daí que o género “livro de viagens” tanto seja um desafio ao leitor, como uma aventura para o autor.

a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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Enredo

O enredo não pressupõe um tema, pois é uma narrativa que se desenvolve ao capricho do autor. Sua exigência é a coerência (o morto de dez páginas atrás não pode deve reaparecer vivo como se nada tivesse passado), apesar de se poder “brincar” com as expectativas do leitor e com as regras da lógica (com risco de cair no disparate).

Porém, existe uma coerência interna que pode ser absurda e contra-intuitiva, como é exemplo a “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, as obras de Ionesco ou de Beckett.

O enredo não obedece a nenhuma estrutura prévia (temporal, espacial, rítmica ou outra), dependendo da criatividade do autor e da sua capacidade para o desenvolver de modo eficaz. A eficácia, claro está, é captar o interesse e corresponder a algum tipo de coerência interna. 6a00d8341bfb1653ef016764c1425d970b-550wi

Tema

Se nos centramos no tema, temos de o conhecer para estruturar o enredo e definir os personagens. O que leva, de imediato, à necessidade de estudo e/ou investigação ou assumir que se está pronto para passar ao enredo.

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Foco

Ao pensar num livro a escrever, talvez o mais razoável seja centrar-se no tema, no enredo ou no propósito.

Que diferenças existem entre si? Nos próximos posts falarei o que penso a este respeito.

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Bagagem literária

Ninguém surge do nada: quando tomamos a opção de nos dedicar à escrita, de modo mais ou menos sério, já estamos condicionados pela nossa história de vida.

Se alguém tem a felicidade de ser criado entre bibliotecas familiares (pais, tios, avós), as leituras surgem espontaneamente. De outro modo hão-de surgir mais tarde, talvez mais direccionadas para certos temas.

O importante é a tomada de consciência do processo (a formação duma “bagagem” literária), o apurar da sensibilidade, a curiosidade e, já o disse, a paixão.

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Ler significa alguma coisa?

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.

Se passar a vida a ler o mesmo livro, e não estou perdido no oceano, isolado numa ilha deserta, que diz esse “hábito” de leitura a meu respeito? Que sou um cretino? Provavelmente. E que leio aquele livro por achar que contém tudo o que preciso para levar uma vida correcta e, ao mesmo tempo, me garanta algo melhor para depois da vida acabar.

Se dedicar a minha vida adulta a ler livros por razões profissionais, lamentando não ter tempo para os outros, continuo a ser um cretino? Com toda a certeza.

Se os livros que li forem aqueles da infância-adolescência (e poucos, se calhar), parte deles os que fui forçado a ler ao longo do percurso escolar, faz isso de mim um cretino? Rigorosamente, sim.

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Alquimia e Apocalipse

Muito raramente, mas sem excepção de assunto, encontro um desses livros, dum desses autores, que me ajuda a passar para lá do espelho e dizer: “Ah! Afinal, isto tem interesse!” Qual o segredo? Que alquimia contém aquela prosa para transformar o assunto mais árido num oásis…mais: num verdadeiro apocalipse?

Paixão. E nem se trata de paixão desenfreada, louca, palpitante. Mas do domínio do assunto associado à capacidade de o comunicar de forma inteligente e prática. Que, no fundo, é a arte de viver os detalhes sem perder o conjunto (ou vice-versa). E transmitir a vertente pessoal. Na verdade, há pessoas que têm o dom de revelar o divino, oculto nos 75 artigos dum regulamento camarário ou no modo como se monta um aparelhómetro movido a electricidade. Chamo a isso “paixão” e não conheço epifania maior.

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A Obra cria o Autor

A “originalidade” como génio e singularidade da criação artística é um conceito que se desenvolve gradualmente, provavelmente na pintura em primeiro lugar, graças à formação de escolas de arte, de clientes (mecenas, principalmente) e de grandes encomendas. O valor da obra torna-se profano, o seu usufruto um gozo, sinal de requinte e distinção. A obra passa a ser mais valiosa quando tem um autor, se esse autor já tiver nome e, esse nome, uma história.

O Romantismo depois fez o resto, esgotando o modelo na caricatura do autor na sua “torre de marfim”, “a arte pela arte”.

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O tema tem algo a ver comigo?

O tema, creio que todos concordamos, é uma preocupação central. Se escrevo sobre fusíveis, parto do princípio que tenho algo a dizer por experiência própria, por ter partilhado a experiência de gente que tem algo a dizer sobre fusíveis ou, basicamente, porque é uma velha paixão (talvez, até, uma obsessão), li e estudei o assunto durante muitos anos, meses ou dias.

Quero partilhar receitas de cozinha? Não faria mal nenhum tentar perceber como outros, antes de mim, organizaram livros de culinária…será que escrevem só receitas de bacalhau sob um título e as receitas de carne de porco aparecem num outro livro? Ou há quem misture culinária com alimento espiritual, tipo new age?

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