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A palavra, o texto e a escrita

Não tenho como evitá-lo, logo insisto: ler é fundamental.

(…) publicavam-se inúmeros romances de conversa de anatomia social, cavavam-se galerias sob a arte de bem redigir, para apresentar a plebe com seus calões e os seus vícios de linguagem. (…), fazia-se um autor dum pequeno aventureiro que começava a despertar para as experiências (…). (1)

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Quando o bom leitor (e já adiantei o que entendo por isto aqui e ali, com as devidas ressalvas) se torna escrevinhador, os resultados podem ser catastróficos. Mas mais facilmente acontece o mesmo ao mau leitor ou não-leitor, como se pode rapidamente confirmar nos escaparates das livrarias das grandes superfícies ou dos postos de correios.

O nosso primeiro movimento, para ajuizar do valor de um livro, ou de um homem, ou de uma música, é perguntar-nos: “Sabe caminhar? Melhor ainda: sabe dançar?” (2)

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Só posso crer num deus que saiba dançar!

As vantagens da boa leitura para a escrita podiam limitar-se à percepção do valor daquilo que é escrito pelo próprio e já bastava. Felizmente, há mais do que isso.

—Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?

—Não consentiremos de maneira nenhuma.

—Logo, deveremos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. (3)

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Porém, a sensibilidade ao valor da palavra e à sua tecelagem, seja em forma oral, seja por escrito, é algo que não se limita à leitura e exige, até, bom ouvido e alguma reacção epidérmica. Ou seja, tem qualquer coisa de musical e a poesia é a sua formulação mais óbvia, tradicional. Independentemente do que é dito, o modo como é dito é o que nos interessa aqui. Formalismo? Sim, claro e, todavia, não. Rotundamente não.

Depois fiz muitas cantigas, de dança e de rua/ para judias e mouras e para namoradeiras,/ para tocar em instrumentos melodias conhecidas:/ o cantar que não sabes, escuta-o às cantadeiras./ Cantares fiz alguns, daqueles que dizem os cegos/ e para estudantes que andam nas noitadas, (…) (4)

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A construção do texto não é arbitrária, como dolorosamente constatei nos compêndios de gramática dos meus anos de escola, e é por demais evidente quando se lê coisas escritas por escrevinhadores que pecam por não ler e, pior ainda, por não ter ouvido. Pois muito analfabeto foi responsável pela elaboração de textos literários excepcionais, principalmente em sociedades onde a produção escrita era inexistente ou quase.

“A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. (…) e uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português.” (5)

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Quando se passa da oralidade à escrita, tudo é evidente: os erros tornam-se flagrantes, a dissonância indisfarçável.

O nosso professor de francês nasceu no Minho e, até em francês, trocava os vvvvvvv por bbbbbbb. (6)

'I can't read this, you must write more clearly.' - 'If I did that, you'd see all my spelling mistakes.'

‘Não consigo ler isto, tem de escrever de modo mais claro.’ – ‘Se o fizesse, ia notar todos os meus erros de ortografia!’

Daí que a escrita exija tempo e prática regular, não dispensando a leitura dos textos bons (principalmente) e de todos os outros (para perceber as diferenças). Com o tempo, o escrevinhador (-leitor) percebe intuitivamente que existem vários modos de dizer te amo ou que a adjectivação pode ser como a cor de certas gravatas amarelas. A prática, essa, poderá levá-lo a aprender com os erros e a resistir à tentação de ir ao encontro do que julga ser o gosto dominante, sem cair no facilitismo da ‘originalidade’.

Amor, Amor, um hábito talhei para mim/ do vosso pano, vestindo-me o espírito;/ no vestir, muito largo o senti,/ e bastante apertado, quando sobre mim se ajustou. (7)

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Com a idade e a experiência do mundo, o escrevinhador talvez venha a decifrar o esfíngico enigma: vale tudo e nada é garantido. Literariamente falando, é claro.

Deixa dizer-te os lindos versos raros/ Que foram feitos para te endoidecer! (8)

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(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in A Gaia Ciência §366 de Frederico Nietzsche, trad.Alfredo Margarido ed.Guimarães & Cª

(3) in A República de Platão, trad.Mª Helena da Rocha Pereira ed.Fundação Calouste Gulbenkian

(4) in Libro de Buen Amor do Arcipreste de Hita, org.José Luis Girón Alconchel, ed.Castalia

(5) in Conpozissõis Infãtis de Millôr Fernandes, ed.nordica

(6) in Calçada do Sol de José Gomes Ferreira, ed.Moraes

(7) ‘LXXVII’ in Poesies de Ausiàs March, ed.Barcino

(8) ‘Os versos que te fiz’ in O Livro de Soror Saudade-Poesia Completa de Florbela Espanca, ed.Bertrand

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O (des)equilíbrio entre a palavra e a ideia

O uso da palavra como matéria-prima essencial do texto nunca deveria ser menosprezado, mesmo pelo escrevinhador sem pretensões literárias. Esse menosprezo apenas revelará suas próprias limitações. O que não é o mesmo que dizer que o fetichismo da palavra seja garantia de qualidade.

“Ler bem” é ajustar a proximidade da presença sentida num texto a todos os níveis do encontro: espiritual, intelectual, fonético e até “carnal” (o texto actua sobre o nervo e sobre o músculo, como a música). (1)

“Permission to write a poem, sir?”

“Permissão para escrever um poema, capitão?

Recorrer a palavras ‘caras’ (difíceis, raras, em desuso) pode ser um bom artifício, como uma excelente proposta de reflexão e ponto de partida para um algures narrativo ou ensaístico. Mas todo o cuidado é pouco para evitar o pedantismo ou as dificuldades de comunicação para além do razoável.

Mas devo reconhecer que foi precisamente o desencontro, a ambiguidade, esta melancolia face ao efémero e ao precário, a origem da literatura na minha vida. (2)

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Na poesia a palavra tem um peso diferente daquele que pode adquirir num texto em prosa, apesar das distinções entre uma e outra estarem esbatidas nos últimos 150 anos: o texto poético valoriza (ou tende a valorizar) a materialidade da palavra pela sonoridade no texto, criando efeitos tanto maiores quando lidos ou expressos em voz alta. Igualmente, o texto duma peça de teatro procura retirar efeito dessa materialidade.

Juan: Devias estar em casa. / Yerma: Entretive-me. / Juan: Não compreendo em que te tenhas entretido. / Yerma: Ouvia cantar os pássaros. / Juan: Está bem. Assim darás com que falar às pessoas. / Yerma: Juan, que pensas? / Juan: Não o digo por ti, digo pelas pessoas. / Yerma: Punhalada que lhes dêem às pessoas! / Juan: Não amaldiçoes. Fica feio numa mulher. / Yerma: Oxalá fosse eu uma mulher. (3)

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Num caso ou no outro, pode consegui-lo com efeitos mais estéticos (digamos assim, para facilitar) do que dramáticos. Pode fazê-lo melhor ou pior, e certamente não agradará a todos (o que, em si, não só não deve constituir um problema, como é uma fatalidade). A vacuidade das ideias, a indolência do enredo, a banalidade do texto, os efeitos espampanantes e ocos, são perigos frequentes nestes mares da polémica em que tanta escrita naufraga sem deixar glória, nem saudade.

(…) sempre defendi a importância do desejo e da paixão. Não por serem um ideal em si, mas porque formam o elemento dinâmico da vida. (4)

'If God tells you what to say in your sermon, why do you make so many corrections?'

‘Se Deus diz-te o que vais dizer no sermão, porque fazes tantas correções?’

A saturação de ideias também pode  prejudicar, ainda que de modo diferente, o delicado equilíbrio entre forma e conteúdo: por um lado, os propósitos da escrita revelam uma urgência desmesurada; por outro, traem a insegurança do escrevinhador enquanto tal.

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus/ Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne/ E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito! (5)

QUE QUER DIZER com os meu trabalho estar errado

QUE QUÉ DIZER com o meu trabalho estar errado?!? Copiei TUDO directo da Internet!!

Mas que não se diga que o desafio não possa ser enfrentado com êxito: em toda a história da literatura universal abundam exemplos de textos densos e fascinantes.

Por outro lado, considero que ele a contou e a disse com todas as circunstâncias ditas, e que não pôde fabricar em tão breve espaço tão grande máquina de disparates; e se esta aventura parece mentira, não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la por falsa ou verdadeira, a escrevo. Tu, leitor, por seres prudente, julga o que te parecer, que não devo nem posso mais (…). (6)

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“Estou a escrever o meu obituário, mas com uma surpresa: engano a morte no último minuto”

Todavia, o escrevinhador não tem que balançar entre a formulação de ideias e a manipulação da palavra. Expressar-se através da palavra é o que o distingue do escultor ou do músico, e por mais emocional ou inconsciente que sejam as urgências dessa expressividade, sugerem ideias …mesmo que involuntárias.

Na tua voz as palavras são nocturnas (7)

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Ilustración de Fernando Vicente

Ou não fosse por isso que tanto escrevinhador se descobre a si mesmo através da escrita e, por isso, ainda que sem leitores, prossegue escrevendo para o baú.

Se do futuro alguém quer se defender/ Esse sou eu!/ Ninguém mo disputa./ No mercado dos versos, meus amigos/ Sou daqueles que não ficam por vender (8)

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(1) in Paixão Intacta de George Steiner, trad.Margarida Periquito e Victor Antunes ed.Relógio d’Água

(2) in Resistir de Ernesto Sabato trad.Carlos Aboim de Brito, ed.Dom Quixote

(3) in Yerma de Federico García Lorca, ed.Catedra

(4) in O Optimismo de Francesco Alberoni, trad.Cristina Rodriguez e Álvaro Guerra ed.Bertrand

(5) in ‘Saudação a Walt Whitman’ Poesia de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(6) in El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(7) in ‘Partida’ Dia do Mar de Sophia, Obra Poética ed.Caminho

(8) Ibn Ar-Ruh in O meu coração é arábe-a poesia luso-árabe colectânea organizada e traduzida por Adalberto Alves, ed. Assírio&Alvim

Liberdade formal e estereótipo

Em comparação com outros géneros literários, a poesia ou qualquer tipo de ficção têm total liberdade formal. A diferença entre géneros, evidentemente, está no estatuto artístico de uns em oposição à objectividade, ao respeito à verdade, à isenção de preconceitos e sentimentalismos, que outros géneros, supostamente, são obrigados.

É muito o que permanece enigmático na capacidade da literatura, da palavra e da frase escrita ou falada, de criar, de nos comunicar, de tornar certos personagens inesquecíveis. (1)

As lesmas têm 32 cérebros -Mas tudo o que vos interessa é a aparência.

As sanguessugas têm 32 cérebros.
-Mas tudo o que vos interessa é a aparência.

O texto jornalístico pressupõe regras de construção e de verificação para merecer crédito, tal como o texto científico ou académico, e qualquer inexactidão, ambiguidade ou subjectividade compromete texto e autor.

Há uma necessidade urgente de comentários e críticas mais inteligentes. (…) a escrita de artigos e de livros de apreciação sérios que distingam o que é fidedigno do que não é, que sistematizem e encapsulem, sob a forma de teorias e de outros esquemas razoavelmente conseguidos, aquilo que parece ser realmente fidedigno. (2)

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Pelo contrário, e por mais regras que mandarins, comissários culturais, censores em geral, tenham tentado uniformizar a literatura poética e de ficção, a inesgotável criatividade artística encontra sempre os meios para se afirmar. Seus maiores obstáculos são a apatia social, o conformismo cultural, a ausência de crítica, a banalização: tudo aspectos que têm mais a ver com a sociedade em si mesma, do que com proibicionismos ou modas.

A maioria das pessoas não se sente parte de nenhuma conversa importante. Dizem-lhes o que pensar e como pensá-lo. Fazem-nas sentir-se incapazes assim que que se abordam questões de pormenor; e quanto a objectivos gerais, encorajam-nas a acreditar que foram há muito determinados. (3)

PRAÇA TIEN AN MEN: neste local, em 1989, não se passou nada

PRAÇA TIEN AN MEN:
neste local, em 1989, não se passou nada

Embora não bastem para garantir qualidade, os níveis de linguagem, a complexidade psicológica das personagens, as possibilidades de interpretação, entre outros aspectos, dão um cunho próprio ao texto e o distinguem da produção estereotipada. Mas também são o que dificultam a captação imediata da atenção, a compreensão fácil, a leitura entusiasta, mesmo daqueles que valorizam os textos densos, ricos e/ou insólitos. Isso tanto se pode dever a serem deficientemente elaborados como por suscitarem reacções conflituosas. E aqui surgem os campos da polémica e da crítica, espaços difíceis de aceder e, sem os quais, a literatura definha.

Quem deu a estes poetas o direito de assim julgarem as pessoas? Quais os critérios que para eles determinam o valor autêntico? (…) O que há entre eles de comum é (…) algo de negativo: a sua desconformidade com os valores universalmente reconhecidos não procede de um interesse predominantemente moral ou ético. (4)

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O que nos leva, mais uma vez e sempre, à eterna questão: para quem escreve o escrevinhador?

Para si mesmo? Para o leitor ideal? Para Todo-o-Mundo e Ninguém…? A pergunta pode ser pertinente ou ociosa, e só faz sentido quando aplicada ao escrevinhador em concreto; mesmo assim, seu interesse para o leitor é discutível. Existe sempre o risco clássico do artista ‘não compreendido’ no seu tempo, e existe, maciçamente, a evidência típica do escrevinhador autocomplacente, tolhido pelas suas inseguranças estruturais (escrita pobrezinha, enredo estereotipado, estilo plastificado, etc) mas em fuga para a frente.

Por isso, a questão é especialmente relevante para o próprio escrevinhador.

Aprendi a converter aquela derrota em literatura, mais uma vez, a intensificar os meus sonhos, preparando aquela frase que diria a alguém alguma vez, escrevia um poema, nunca tinha pressa, e assim passava o tempo (…). (5)

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O texto que se subordina ao sentimento ou à ideia pode transmitir emoções fortes e impressionar pela sugestão, mas este é um processo excessivamente traiçoeiro: o tempo condena-o a revelar suas debilidades, como aquela cançoneta de verão que nos entretém até à náusea. Na esmagadora maioria das vezes, o melhor que se pode dizer é que se trata duma escrita levezinha, como aquela que, geralmente, se lê na praia, à beira da piscina, nas horas de espera no aeroporto.

Ou seja, reduz-se ao lugar-comum. Ainda se fosse esta uma receita fiável para acedermos aos quinze minutos de fama…

E depois?/ A prevista acrobacia/ do mais quotidiano, o que apenas/ importa como sintoma: homens/ parados nas praças, homens carrancudos/ e com vinte e cinco eventuais/ anos sobrevivendo sem o saber. (6)

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(1) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(2) in O Quark e o Jaguar de Murray Gell-Mann, trad.José Luís Malaquias ed.Gradiva

(3) in Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos de Tony Judt, trad. Marcelo Felix edições 70

(4) in A descoberta do Espírito de Bruno Snell, trad.Artur Mourão edições 70

(5) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(6) ‘Color Local’ in Pliegos de Cordel de J.M. Caballero Bonald, Obra Poética Completa ed. Seix Barral

O uso da palavra

Para o escrevinhador, a importância da palavra deve ser bem medida, e não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo de troca. É verdade que a palavra tem a história da sua formação e genealogia, assim como a do seu uso e evolução no tempo e no espaço, que é aquilo que, à falta de melhor, chamo de valor intrínseco. Mas o escrevinhador não tem de ser erudito, nem tem de supor a erudição dos leitores. O que tem, creio eu, é de conhecer o valor dado aqui e agora à palavra e que é o que chamo o seu valor de troca.

(…) a troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente torna úteis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula: que pode valer um diamante para os homens que têm fome ou necessidade de se vestir? Basta, porém, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja agradar e um comércio suscetível de trazê-la às suas mãos, para que a pedra  se torne “riqueza indireta para seu proprietário que dela não precisa (…) daí a importância do luxo, daí o fato de haver diferença do ponto de vista das riquezas, entre necessidade, comodidade e prazer. Por outro lado, a troca faz nascer um novo tipo de valor, que é “apreciativo”: organiza entre as utilidades uma relação recíproca, que duplica a relação com a simples necessidade. (1)

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Este valor de troca é o dado no momento. Recordo, quando tinha cinco, seis anos, meu Avô ralhar-me por chamar ‘chato’ a alguém ou alguma coisa, o que me deixou bastante perplexo porque sua filha, minha Mãe, não só tolerava o uso desta palavra como a usava sem reservas. Muito mais tarde, nos primeiros anos da adolescência, percebi que as razões da aversão do meu Avô—inequivocamente na base do sentido depreciativo dado à palavra—já não eram percebidas quando usadas entre pessoas das gerações seguintes. Ou, se eram, só mesmo por adolescentes, ainda fascinados com a polissemia e subentendidos que as palavras banais podem ter. Na verdade, todos sabemos que um chato incomoda, mas dificilmente encontramos alguém que nos irrite tanto que dê coceira.

O ‘diz-me com quem andas que eu te direi quem és’ não quer dizer nada. Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas. (2)

-OH NÃO... ELES NÃO...

-Oh não… Eles não…

O ‘sentido comum’ dado aqui e agora é aquele que, com quase toda a probabilidade, o leitor dará à palavra. Não levar isso em linha de conta gera problemas de comunicação, prejudicando a leitura e provocando críticas como a de texto confuso, difícil ou pedante. Ou tudo isso à vez. O que não impede que o escrevinhador possa explorar o tal valor intrínseco (bem pelo contrário, como adiante tentarei explicar), não por pretensões eruditas (pelo menos, no caso da escrita poética ou de ficção), mas por outras: a de levar a interpretação do texto para diferentes níveis de entendimento, seja pela polissemia, seja pela ambiguidade, ou, até mesmo, pela sonoridade. Importante é que seja disso ciente, para não falhar o efeito pretendido.

(…) o romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um reportório de situações ‘tópicas’ conhecidas, amadas pelo próprio público (…).  (…) a catarse, por razões comerciais, deve ser optimista. (3)

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O uso de ‘palavras caras’ tanto pode servir para mascarar o vazio do discurso (senão mesmo a sua falsidade), como ser sintoma da dificuldade do escrevinhador em lidar com o tema. A comunicação na era de massificação, em que o número de receptores (leitores, ouvintes, espectadores) contam-se pelos milhões (e muitos milhões), tem demonstrado como o uso deliberado da linguagem ‘técnica’, ‘erudita’, ou outras variantes de um jargão acessível a ‘especialistas’, pode iludir e manipular, assim como o seu uso irreflectido ou mal calculado pode se virar contra o comunicador.

Uma descrição que parece neutra mostra o que tem de tendencioso quando se lhe pode opor uma descrição diferente (…). (4)

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-O que é mais obsceno: a violência ou os mamilos?
‘LIBERDADE PARA OS MAMILOS’ (desenho de María Acha-Kutsher)

Na vida académica e na área das ciências tem havido alguma literatura dedicada a desmontar discursos, expondo a sua vacuidade por detrás de formulações verdadeiramente incompreensíveis. Que não são outra coisa senão variantes do famoso conto do ‘rei vai nu’.

O fazedor de dinheiro não é a personalidade mais palatável, mas é muito preferível ao pretenso intelectual. (5)

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“Sim, o planeta foi destruído. Mas durante um maravilhoso período de tempo criamos uma quantidade de valor para os accionistas.”

Daí que, numa época em que ‘o livro’ se está tornando um objecto incómodo, em que a comunicação escrita sofre amputações e próteses aberrantes, em que o próprio discurso oral é ameaçado pela vacuidade dos formatos convencionados para debate e exposição de ideias, seja importante que o escrevinhador consiga fascinar o leitor ajudando-o a descobrir o valor intrínseco da palavra. Na verdade, ao fazê-lo, limita-se a prolongar uma longa tradição anterior à própria escrita, mas fá-lo num tempo em que essa tradição está ameaçada pela própria parafernália técnica que era suposto contribuir para uma dinâmica cultural incomparavelmente mais rica do que a de todas as épocas anteriores.

A habilidade do artista em sair da frente do choque violento da nova tecnologia de qualquer época e evitar tamanha violência com absoluta consciência, vem de há muito tempo. (6)

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Para os não-Iniciados, a palavra escrita ou oral pode ter um valor misterioso pelo grafismo e sonoridade, dando realce à simbologia ou à magia. Mas para os Iniciados como nós, meros leitores e escrevinhadores, sabemos bem como esse valor é uma moeda sujeita a flutuações e o mistério reside, exclusivamente, nos favores da bela Musa. Nesse aspecto, creio que nada de significativo tem mudado nos últimos quatro mil anos.

(…) sob a sua forma mais alta, a invenção literária ensina-nos a enriquecer, a complexificar, de um ponto de vista heurístico, os confins da habitação comum que não nos damos ao trabalho de reconhecer. Abre janelas através das quais nos convida a ver um terreno novo, novas fontes de luz. Narra histórias através das quais ouvimos a voz da nossa identidade privada e comum. (7)

Ilustração de Fernando Vicente

Ilustração de Fernando Vicente

Há palavras que caíram em completo desuso, tal como o discurso que as suporta, e há outras que evoluíram, alterando significados conforme a geografia e a comunidade de falantes. A usura do Tempo e as transações culturais têm esse efeito natural e inevitável. A diferença da época actual em relação às anteriores (há 40 como há 400 anos), é que o processo tem sido muitíssimo mais rápido, associado à fragmentação da comunidade de falantes no interior das próprias gerações e no mesmo espaço social. Isto tudo, e muito mais (que não cabe a este humilde escrevinhador desenvolver aqui), dificulta obviamente a comunicação, mais ainda se for comunicação escrita com pretensões literárias.

A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. (…) É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada (…) a diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correcto. (8)

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

Por isso, insisto: é importante o escrevinhador preocupar-se em ‘chegar’ a todos esses potenciais leitores desconhecidos de modo a fazer-se entender e, principalmente, a seduzi-los com palavras (e, neste ponto do post, o leitor já poderá perceber que ‘palavra’, aqui, também se entende por ‘tecido de palavras’ ou ‘texto’), levando-os a procurar mais além da superfície, imediatez, uso comum… para lá do valor de troca, portanto. E quando o leitor começa a saber distinguir as pérolas da simples fancaria, é porque já reconhece o valor intrínseco das coisas. Como as palavras.

As palavras com que tens convivido/ durante tanto tempo, continuam/ servindo-te para algo? Poderás valer-te delas/ quando os antídotos/ contra a tua própria decepção/ já se esgotaram? (9)

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(1)in As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, trad.Salma T.Muchail ed.Martins Fontes

(2) in Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes, ed.Nórdica

(3) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed. Tascabili Bompiani

(4) in O Império Retórico de Chaïm Perelman, trad.Fernando Trindade e Rui A.Grácio, ed.ASA

(5) in Closing of the American Mind de Allan Bloom, ed. Simon and Schuster Paperbacks

(6) in Understanding Media de Marshall McLuhan, ed.A Mentor Book

(7) in Gramáticas da Criação de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(8) in A Galáxia de Gutemberg de Marshall McLuhan, trad.Leónidas G.Carvalho e Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional

(9) in Bordes del Silencio La noche no tiene paredes de J.M. Caballero Bonald, Obras Completas ed.Austral

Reconstruir os alicerces do texto

Para iniciar a revisão crítica do texto, depois de concluída a fase criativa, é fundamental que o escrevinhador se distancie emocionalmente do processo.

O ideal será passar alguns dias sem lidar com ‘aquele’ texto, já que, ao retomá-lo, irá estar muito mais atento ou sensível aos erros, incongruências, deselegâncias, banalidades e muitos outros defeitos.

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O problema varia consoante o escrevinhador, o momento ou a obra, mas tem sempre a ver com o natural envolvimento emocional focado na intensidade do enredo (ou do processo criativo), insensibilizando a atenção para detalhes técnicos. Às vezes, essa emoção sobrevaloriza aspectos secundários, dando-lhes espaço e destaque injustificado.

Por isso, num momento posterior em que o vinculo emocional é menos forte, graças ao distanciamento criado pela quebra da rotina, pela atenção dada a outros projectos ou aspectos da vida pessoal, o escrevinhador pode proceder à revisão crítica com acuidade.

Ao nível mais básico, possivelmente encontrará erros ortográficos e gramaticais: prejudicam a comunicação com o leitor, podem ser mais ou menos vergonhosos, mais ou  menos comprometedores no que toca ao estilo, à beleza, à fluidez do texto.

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Erros frequentes em escrevinhadores de todos os tipos de formação, actividade profissional e etc e tal (podem até ser ilustríssimos desconhecidos que escrevem em blogs que dão dicas sobre escrita!), devido à tal intensidade emocional em que formulações mentais e formas de oralidade se ‘atropelam’ no texto, onde as regras de comunicação são outras.

Certamente, a fragilidade duma aprendizagem formal da Língua, a falta de hábitos de leitura activa (distinta da passiva porque não se esgota na ‘mensagem’) e de escrita, contribuem muito para esta categoria de erros.

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Para além dos chamados ‘erros de palmatória’ (não faço a menor ideia qual seja a origem desta expressão…), existem outros não menos importantes, por vezes bem escondidos em longas frases confusas. Dos mais arreliantes são aquelas situações em que o leitor fica na dúvida qual seja o sujeito de determinada frase, criando ambiguidades tanto maiores quando, em qualquer das hipóteses, a frase tem sentido.

A terapêutica duma escrita de frases sucintas, logicamente encadeadas, pode ser bom remédio para a maioria das situações, obrigando o escrevinhador a desenvolver o alerta interno sempre que é tentado a esticar, esticar, colocando virgulas a eito como em certas estradas colocam placas de transito nos últimos metros antes do cruzamento.

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Porém, este remédio não é tão eficaz  para o caso da poesia, onde os artifícios estilísticos são muito mais ricos e variados, o que é sinónimo de terreno traiçoeiro e movediço.

 

 

 

A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

Escrever, ler, reler, reescrever

O escrevinhador devia acompanhar a sua actividade com um permanente exercício de reflexão sobre os mistérios da leitura e dessa estranha, ignota, criatura que é o leitor. Afinal, toda a escrita deveria supor um leitor,não?! Poderá até o escrevinhador começar por se questionar a si mesmo: quantos livros irá reler ao longo da vida? Porquê esses e não qualquer dos outros?

"Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido"

“Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido!”

 

E que importância tem isto para o escrevinhador?

Mas com tanto livro por ler e tão pouco tempo para ler, não será caso para perguntar: o que leva alguém a repetir a leitura uma, duas, n vezes?

Corto Venecia

Para complicar, acrescento ainda que, por vezes, a segunda leitura não coincide com a primeira. Outras vezes,confirma-a. Tem vezes que nem chega a ser concluída por falta de interesse.

O que leva a outra questão, perturbante e quase fantasmagórica: pode o texto mudar, no interior dum livro fechado e alinhado numa fileira da estante onde outros livros foram arrumados?

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Sei o que pensas sobre isto’, disse Tweedledum: ‘Mas não é assim, de modo algum.’

‘Pelo contrário’, prosseguiu Tweedkedee, ‘se fosse assim, podia ser assim; e sendo assim, seria assim: mas como não é assim, não é assim. É lógico.’ (Through the looking-glass de Lewis Carrol)

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