escrever como?

tópicos e dicas para escrita

Tag: verdade

contar estórias

Sem ofensa: um escrevinhador tem de saber contar estórias, mentirinhas, apropriar-se de narrativas alheias e dar-lhes ‘uma volta’. Inventar, claro. Sobretudo reinventar.

O nosso Cervantes—continua falando Mairena aos seus alunos—não matou, porque já estavam mortos, os livros de cavalaria, senão que os ressuscitou (…). Do mais humilde propósito literário, a paródia, surge—que ironia!—a obra mais original de todas as literaturas. (1)

10968442_833682400026203_1120774136108635287_n

Mesmo a literatura académica, séria, científica, tem saborosos exemplos de anedotas reais e relatos de fraudes fabulosas, ou comentários irónicos, capazes de forçar o sorriso ao mais sisudo leitor. Ou episódios simplesmente lastimáveis…

No dia 13 de dezembro (…) saí do carro pelo lado errado e atravessei a Quinta Avenida sem me lembrar de que na América conduzem do lado contrário ao do meu país e sem obedecer ao semáforo vermelho, coisa então desconhecida na Grã-Bretanha. Fui violentamente atropelado e durante dois meses fiquei praticamente inválido. (2)

DOCTOR-Jesus-Pre-existing-Condition

DOUTOR JESUS: -Desculpe, mas não posso curá-lo. Você tem um condição pré-existente.

Em verso ou em prosa, o escrevinhador distingue-se por essa extraordinária capacidade de dar a sentir experiências alheias ou imaginárias, sentimentos muito pessoais, emoções fingidas que deveras sente. Através da escrita, obviamente.

Doces galleguiños aires,/(…)/ alegres compañeiriños,/ rum-rum de toda-las festas,/ levái-me nas vosas alas/ como unha folliña seca (3)

MCHNY

O único escrúpulo será o de não se levar demasiado a sério, a ponto de confundir a verdade do texto com a opaca realidade.

Parece-nos impossível que para os nossos filhos seja já passado irrevogável e desconhecido aquilo que para nós é ainda presente árduo. (4)

vw

Excepto se tiver pretensões de contar histórias sobre pessoas reais no seu tempo e na sua circunstância, assumindo a intenção de se restringir a documentos, testemunhos e coisas assim: o leitor tem todo o direito de se sentir burlado ao perceber que o escrevinhador é incompetente para tal pretensão ou, pior ainda, um desenvergonhado manipulador. Essa coisa de confirmar se os alegados factos, documentos, testemunhos, são fidedignos, é uma obrigação de que só está isenta a informação nas redes sociais.

—As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se  —disse Polo—  Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco. (5)

Placebo_Effect_Max_Strength_package

‘PLACEBO-dose máxima’ tão eficaz quanto os melhores tratamentos homeopáticos 16 cápsulas

É como uma espécie de contrato entre o escrevinhador e o leitor, pese embora a flexibilidade com que um e outro possam interpretar as cláusulas não-escritas, nem negociadas.

(…), acreditem nossos leitores todos, que nem uma vírgula se lança neste parágrafo que não seja unicamente ditada pelo interesse público, nosso único móvel. A ninguém, absolutamente a ninguém queremos ofender, (…). (6)

12715495_1059265474140480_1738431302946624780_n

Dito isto, quantos clássicos da ficção literária universal não se apresentam como escrituras verídicas, senão sagradas?

—Gilgamesh, vou revelar-te uma coisa oculta, vou confiar-te um segredo dos deuses. Foi em Shuruppak, (…) cidade já antiga que aos deuses agradava morar, onde os grandes deuses tomaram a decisão de provocar o Dilúvio. (7)

1455273480_850309_1455293392_noticia_normal

cartoon de El Roto

Quando bem escrito, vale tudo realmente.

(…), ela levantou-se em silêncio e arranjou botas de sete-léguas, pegou numa varinha mágica e num bolo com um feijão que dava resposta para tudo. Depois ela fugiu com o príncipe. (8)

11873375_10204479360134241_8714979672804233878_n

(1) in Juan de Mairena de Antonio Machado, ed.Alianza Editorial

(2) in Memórias da Segunda Guerra Mundial de Wiston Churchill, trad.Manuel Cabral ed.Texto Editores

(3) in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, Ediciones Cátedra

(4) in Danúbio de Claude Magris, trad.Miguel Serras Pereira ed.Quetzal

(5) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, trad.João Colaço Barreiros ed.Teorema

(6) in Doutrinação Liberal (textos escolhidos de 1826 a 1827) de Almeida Garrett, ed.Publicações Alfa

(7) in Poema de Gilgamesh tábua XI, tradução para castelhano de Federico Lara Peinado, ed.Tecnos

(8) Os contos populares e de fadas originais dos Irmãos Grimm, traduzidos para o inglês por Jack Zipes ed.Princeton University Press

Anúncios

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

A-Freira

A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

1392802473_extras_noticia_foton_1_1

O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

1394132506_744595_1394136789_album_normal

Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

897219

Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

1452579_546396735431220_1401219500_n

Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

charlie-apres

Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

charlie

Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

O Passado presente

Situar o enredo numa época passada é um dos aliciantes da escrita, encantando leitores. Ou, muito pelo contrário, o maior fiasco para quem escreve e pura perda de tempo para quem lê.

1397754639_038240_1397756040_noticia_normal

Qualquer narrativa tem um contexto, e se este  remete explicitamente o leitor para uma época histórica (ou mesmo pré-histórica) existem dificuldades que o escrevinhador não deverá negligenciar. A maior de todas, na minha opinião, é a da linguagem falada pelas personagens. Não se trata só do vocabulário e da sintaxe características da época e de que, muitas vezes, só podemos imaginar, mas do modo como se articulam ideias, raciocínios ou se expressam emoções.

14127424

O problema central é o do chamado ‘anacronismo’, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um facto) a uma época que não corresponde. Esse é um erro que acontece na melhor literatura, mas tende a ser comum entre os que se dedicam a produzir narrativas segundo formatos estereotipados.

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA? Serpente: 'Maldito sejas,Homem-Aranha!'

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA?
Serpente: ‘Maldito sejas,Homem-Aranha!’

Os chamados ‘romances históricos’ podem ser boas surpresas, mas frequentemente pecam por desleixo na caracterização (de lugares e de pessoas), no conhecimento do ambiente social, cultural, político, ou pelo excesso de descrições e informações; e tudo acompanhado de diálogos ‘empastelados’ para dar o ‘tom’ da época.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Que o enredo vá ao arrepio da ‘verdade histórica’ é uma liberdade típica do escrevinhador, já que se trata de ficção assumida. A questão é a de dar verosimilhança, criar personagens ‘de carne e osso’ (mesmo que sejam fantásticas) e manter o ritmo, o fôlego narrativo, tudo aspectos comuns a qualquer escrita com pretensões literárias.

Ora, isto tanto é pertinente para um enredo situado no outro lado do mundo, mil anos atrás, como à porta de casa do escrevinhador, há cem ou dez anos, ou ainda na semana passada. Mas, convenhamos: o que nos é distante e estranho deveria obrigar-nos a um maior estudo e cuidado na composição.

1514553_573248446077713_381957623_n

Uma recomendação de um velho que já viu muito…

Não se pode falar dos escrevinhadores como sendo todos madeira do mesmo lenho, mas com isto não pretendo dizer o óbvio (que há os bons, os assim-assim e todos nós que sobramos), nem o evidente (que uns tendem para umas coisas e outros para outras, como são os prosadores e os poetas).

images (7)

Na realidade, e sem que isso pretenda ser juízo de valor, o que entendo é que há os que escrevinham por prazer, outros por paixão, uns por tédio e alguns por obsessão, talvez ainda por algum tipo de vaidade ou de dor, e assim por diante. Provavelmente, até haverá os que escrevinham por todas estas razões.

Na história da literatura de todos os países com tradição literária hão-de sobrar exemplos disto tudo. Mas o que me interessa sublinhar é que distintas motivações resultam, naturalmente, em diferentes processos de criação.

paint_9304mahesh paintings-5(Acrylic)

Pessoalmente, gosto da atitude daqueles escrevinhadores já com nome feito e obra reputada que insistem em colocar o prazer de contar estórias (ou criar enredos) e a paixão pela escrita como arte de composição no topo das suas motivações.

O que não quer dizer que não haja tanto neurasténico, rancoroso ou morcão (como se diz na minha terra) na história universal da literatura a escrevinhar obras geniais.

Porém, o desejo do aperfeiçoamento, a vontade de experimentar algo diferente, creio que nasce dos que têm prazer e paixão. E nota-se, senão na qualidade dos escritos, no modo como exploram leituras e compõem suas coisas.

SNAIL de paul rumsey

Neste Verão (ou Inverno, se estiver abaixo do equador), em que o humilde escriba deste ainda mais humilde blog passará a ter uma quebra de produtividade semanal, fica esta recomendação: leiam bem, escrevam como podem e, acima de tudo, vivam uma vida!

O temor da possessão

O tópico deste post tem aplicação prática para qualquer género de escrita, já que incide sobre a reprodução fiel do ponto de vista alheio, principalmente quando diametralmente (senão visceralmente) oposto ao do escrevinhador.

6a00d8341bfb1653ef01a73da5860a970d-500wi

aqui referi um exercício que praticava com minha filha, quando tinha ela cinco, seis anos, para a ajudar a memorizar e recitar alguma cantilena ou poema como trabalho a apresentar na escola: uma vez interpretava-o conforme lhe parecia correcto, depois como se estivesse muito, mas muito feliz, a seguir como se tivesse muito, mas muito triste, e ainda a seguir como se tivesse muito, mas muito, zangada. Em alguma coisa melhorava a sua tarefa e interpretação.

Na narrativa de ficção, uma das dificuldades maiores está em criar personagens verosímeis e distintas umas das outras. Muito frequentemente, o escrevinhador tenta levar o leitor a desenvolver um sentimento ‘primário’ em relação às personagens, o que as empobrece e arrisca-se a torná-las desinteressantes, contaminando o enredo que até pode ser estimulante.

1511418_10201027810215754_2326908598290320974_n

Num trabalho mais ‘sério’, referindo-se a pessoas, factos, formas de pensar ou de crer, o escrevinhador corre o risco de tomar partido, de revelar preconceito, de escamotear factos, de distorcer pensamentos.

A menos que tenha mesmo a intenção de manipular a informação, o escrevinhador deve ter cautelas contra suas próprias limitações. Como diria Charles Scott, antigo editor do jornal ‘Manchester Guardian’ (‘The Guardian’ hoje em dia): os comentários são livres, mas os factos são sagrados; é bom ser sincero, mas ser justo é melhor. Os manuais de jornalismo estão cheios de ensinamentos neste capítulo.

"Por vezes, demasiado duma coisa boa pode tornar-se numa coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode tornar-se numa coisa má.”

Obviamente, numa obra de ficção pode-se fazer passar o pirata sanguinário por um rebelde com causa e com boa moral, o herói da terra por um covarde ou traidor que as circunstâncias ou as intrigas conseguiram enganar toda a gente (quase) todo o tempo, e assim por diante.

Mas respeitar a ‘verdade’ da personagem sem distorcê-la, sem amesquinhá-la, sem ser complacente, nem juiz ou cúmplice, é algo totalmente diferente. Sobre isto também já foi aqui desenvolvido.

Se o escrevinhador aceita o desafio, tem mesmo de ‘incorporar-se’ na personagem, raciocinar como ela, exprimir suas ideias e ao seu modo. Evitando a caricatura, o traço grosso, enfim, não tem por que temer ser confundido com as personagens das suas ficções.

6a00d8341bfb1653ef01a73dc4e9f6970d-800wi

Sendo odiosa, nem por isso a personagem tem de ser um ‘monstro’, nem tem de ser desumanizada. Aliás, nada é mais perturbante do que a revelação do ser humano por ‘detrás’ da criatura aberrante.

É o contexto do enredo que permite ao escrevinhador jogar com todas estas variações, reforçando a complexidade da realidade, desmistificando-a e obrigando o leitor a, também ele, ‘incorporar-se’ na personagem sem temor de ficar ‘possuído’.

Temor muito comum em todas as categorias de censores, que por isso mesmo exorcizam as passagens ambíguas, senão livros inteiros, para maior tranquilidade social e facilidade cognitiva para distinguir o bem do mal.

10173522_776501155701097_3226298801676988175_n

ilustração de Paula Rego para As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi ed.Cavalo de Ferro

Ensaios, monografias, memórias, estudos…

Os trabalhos académicos têm suas regras, sua metodologia, quem os escreve é suposto dominar minimamente as exigências formais, até porque recebeu formação nesse sentido e já leu muitos trabalhos do género antes.

Mas o escrevinhador amador, aquele que elege um tema sem ter preparação académica para o auxiliar, como deve fazer?14135233

Pode mesmo pôr-se em questão se o deve fazer, já que lhe falta a dita cuja preparação, mas trata-se de mero preconceito: existe uma longa lista de estudiosos autodidactas, sem preparação académica formal, que se destacaram pelo trabalho de investigação, experimentação, estudo ou divulgação.

Ora, se para a escrita da poesia ou de um romance é muito recomendável ter alguma bagagem literária, para o escrevinhador que desenvolva algum tipo de ensaio, investigação ou simples divulgação, é de simples bom senso que ‘leia tudo’ o que houver para ler antes de publicar alguma coisa.

6a00d8341bfb1653ef01a73d8d35ff970d-500wi

Já no post anterior me referi ao ‘à vontade constrangedor’ como se escreve sobre assuntos sem noção de erros, lapsos, confusões, lacunas que até o leitor leigo, mas razoavelmente informado, pode facilmente perceber.

Por vezes, o plágio é evidente, noutras vezes as fontes duvidosas são as mesmas das de outros livros.

Mais frequentemente, o tema é tratado de forma superficial, sem acrescentar nada à literatura que já existe: não há uma ideia, um facto, um enquadramento, nada, absolutamente nada, de novo. Excepto um nível mais elevado de tédio e monotonia (mas aqui estou a pensar naqueles trabalhos académicos que se fazem para cumprir metas).

-Então, a que é que você se dedica? -Sou um troll. Estrago a internet a toda a gente.                 -Este vinho não presta.

-Então, a que é que você se dedica?  -Sou um troll. Estrago a internet a toda gente.                    -Este vinho não presta.

Não penso que sejam géneros mais difíceis do que o poético ou a ficção, longe disso. Mas não permitem a mesma liberdade criativa e os artifícios de estilo, exigindo muito mais do que a simples verosimilhança, tendo de ser claro e transparente na argumentação, capacidade para sustentar ideias e afirmações com algo mais do que raciocínios ou estórias, respeitar a lógica básica e colocar-se a si próprio a questão da fundamentação do que é dito. Por uma questão de credibilidade, claro.

Bem, fácil é que não é, realmente…

Escrever-como-a-vida-é

O maior dos artifícios da escrita está na pretensão de construir diálogos tal-qual-as-pessoas-falam, reproduzindo regionalismos, calão, maneirismos, expressões e frases feitas, toda a panóplia de  tiques ou patologias linguísticas, características duma não-tão-óbvia idealização de tipos ou grupos numa época, num mundo, numa sociedade.

-Que importa? -Tanto dá. -Bah A FLORESTA DESENCANTADA

-Que importa?
-Tanto dá.
-Bah
A FLORESTA DESENCANTADA

A meu ver, trata-se dum artifício necessário por questões de verosimilhança. E também de tempero, já agora. Porém, como Aquilino alertava a propósito da escrita d’ O MalhadinhasReproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. (ver aqui)

Mais ainda do que o advento da fotografia, a narrativa cinematográfica (principalmente nas suas adaptações para televisão) oferece a ilusão da reprodução da vida-como-ela-é, reforçando a tentação do escrevinhador em ‘imitar a vida’. Imitação, diga-se, que tem longa tradição literária.

mona

A chamada ‘literatura de cordel’ explorou esse filão extensa e abusadamente, tornando-se um género interessante mais pelo que nos diz dum ponto de vista sociológico do que literário.

Mas, sem dúvida, contaminou com sucesso o modo como os usuários da net se deixam sensibilizar, tal como antes aconteceu com os leitores de tablóides, os ouvintes da rádio, os espectadores de televisão ou de cinema,  e o modo como confundem os conteúdos com a representação/expressão desses mesmos conteúdos.

14007209

Para o que aqui interessa, trata-se de cair nos estereótipos, no kitsch, que podem ser muito gratificantes em termos de vendas e de popularidade, mas não resistem a uma leitura minimamente crítica.

(suspiro) Eu-Eu não posso crer! Por favor, Pai...preciso de ver o Jason...ouvir a sua versão!

(suspiro) Eu-Eu não posso crer!
Por favor, Pai…preciso de ver o Jason…ouvir a sua versão!

O escritor mediúnico

Estranha condição de médium esta, que Cecília Meireles assume quando diz que ’Tudo me chama: a porta, a escada, os muros,/ as lajes sobre mortos ainda vivos,/ dos seus próprios assuntos inseguros’ *, sentindo-se impelida a dar voz às vozes que reclamam atenção.

Já não são deuses, nem a loucura com que inspiram simples mortais: as vozes chegam de gente real, porém desaparecida.

Pintura de Bernardo Cid

Pintura de Bernardo Cid

Muitas coisas se desprendem e perdem – ou parecem desprendidas e perdidas – ilimitado tempo; mas outras vêm, como heranças intactas, de geração em geração, caminhando conosco, vivas para sempre, vivas e actuantes, e não lhes podemos escapar, e sentimos que não lhes podemos resistir.’**

E à assombração das vozes junta-se o dever de lhes dar forma e fazer-lhes justiça:’(…) porque se impunha, acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, se confessavam, que exigiam quase, o registro da sua história.’**

Pintura de Raul Mendes da Silva

Pintura de Raul Mendes da Silva

Todavia, o registo vai mais além dos autos de julgamento, das inquirições e doutros documentos históricos. Assim, Cecília dá forma literária às vozes, assumindo a condição mediúnica, sim, mas com critério e AUTORidade.

* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

Com um grãozinho de loucura

Pois, a loucura…essa porta aberta para o lado de lá do espelho! Não se diz de todo o artista que tem algo de louco?

1331251

Os antigos gregos distinguiam a doença, propriamente dita, da loucura por inspiração divina ‘que atira connosco para fora das regras rotineiras‘(in Fedro de Platão), e consoante o deus, a louca inspiração tinha sua especialização.

Ora, os dons divinos sempre têm um lado sombrio: Demódoco era ‘(…) o exímio aedo [poeta, cantor e tocador de lira], a  quem a Musa muito amava. Dera-lhe tanto o bem como o mal. Privara-o da vista dos olhos; mas um doce canto lhe concedera’ (in Odisseia de Homero, tradução de Frederico Lourenço, ed.Livros Cotovia  2003)386327_309440535742834_1090181842_n.

Como se o excesso de talento tivesse de ser compensado por um défice de saúde, bom-senso ou outra qualquer qualidade. Pode, também, ter uma vida atribulada (para dizer o mínimo) como a do mítico bardo Taliesin, que suportava mal os seus colegas da corte  e lhes dizia, cantando:

‘E eu sei, de ciência mui certa,/Que vós não sabeis como entender/Este meu cantar./E sei também, de clara ciência,/Que vós não sabeis fazer a deslinda/Entre a verdade e a falsidade./Vós todos, bardos sem tamanho,/Corvos do poder!Batei vossas asas, fugi voando./Onde está o bardo que me cale?’ (da ‘Repreensão dos Bardos’ in Mabinogion, trad.José Domingos Morais ed.Assirio e Alvim 2000)

t1_BranRuz

O que Taliesin censurava, afinal, era a falta de inspiração (divina, claro está) e, portanto, de autenticidade: para servirem quem lhes pagasse, os bardos sabiam técnicas (‘loas sem moral’, ‘ditos sem razão’), mas não passavam de ‘arautos da falsidade’.

Porque Taliesin, evidentemente, não despreza ‘rimas e versos/nem a arte de bem cantar‘, mas despreza e não respeita ‘quem abusa a divina graça,/em blasfémias se deleita‘. No Livro de Taliesin, ele próprio se apresenta como alguém que já foi ‘uma mensagem escrita’ e ‘um livro’ (para além de muitas outras coisas da natureza animada e inanimada).

De algum modo, a crítica de Taliesin ressoa nos versos de Caeiro quando este censura quem repete o que ouviu ao vento: ‘Nunca ouviste passar o vento./O vento só fala do vento./O que lhe ouviste foi mentira,/E a mentira está em ti.’

wind-cartoon1

Assim como parece que o panteísmo do bardo se reflecte no guardador de rebanhos: ‘Penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/E com o nariz e a boca/(…)/Por isso (…)/(…)/Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,/Sei a verdade e sou feliz.’

A ficção é tão real quanto a verdade

A vida do escrevinhador é dura, sem dúvida. E não é justa, a maioria das vezes: pode ter o plano da obra ao pormenor, tempo e condições, força de vontade para dedicar horas, dias e semanas consecutivas e, entretanto, nada do que escreve o satisfaz. Excesso de rigor para consigo mesmo? Pode ser.

13240271

Ou, simplesmente, falta-lhe paixão. O trabalho da escrita é isso mesmo: trabalho, e nota-se quando a aplicação é metódica, mecânica, certinha, limpinha. Ora, a paixão exige desequilíbrios e vertigens. Eventualmente. Porque, na literatura, como na paixão, nada é certo.

Daiquiri

E vale tudo, como no conto de Borges Emma Zunz. A personagem Emma Zunz elabora uma ficção para atingir certos fins na vida real: vingar o pai, apresentando-se como vítima daquele que ela mesma matou. O morto, e verdadeira vítima, ‘era, para todos, um homem sério;(…)Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto que o eximia de agir bem a troco de orações e devoções.’(in O Aleph de Jorge Luis Borges, ed.Estampa 1988, trad.Flávio José Cardoso)

Ora, a ficção que Emma concebeu para matá-lo em legítima defesa ‘era incrível, com efeito, mas impôs-se a todos,pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas algumas circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.’

Hostia

Escrever como quem conta um conto e acrescenta um ponto (omitindo dois ou três).

‘Leitura não recomendada para quem só lê a preto-e-branco’ *

* sugestão de aviso para afixar em certos livros

‘Entrar na mente’ do criminoso é um tópico da literatura policial, desafiando as regras da ‘normalidade’, do socialmente aceitável. Se o autor se distancia suficientemente, dando espaço à personagem para se revelar pelas suas próprias palavras (que é uma noção complexa e nada pacífica), é natural que choque o leitor habituado a uma separação clara entre o Bem e o Mal, entre o herói e o vilão, entre a boa menina e a má menina boa.

Prosseguindo com o exemplo do post anterior,  podemos ver como Vargas Llosa apresenta a sua versão da ‘tortuosa mente humana’, criando proximidade entre a personagem e o leitor. Neste caso, a personagem é um flagrante expoente da mente tortuosa.

ange11032008

Ao longo do capítulo VIII do livro, o ditador Trujillo lida com diferentes assuntos e distintos subordinados, saltitando entre assuntos ‘de Estado’, susceptibilidades, apetites ou doenças, permitindo ao leitor acompanha-lo sem filtros. E, nesse processo ‘mental’, o leitor assiste ao diálogo de Trujillo com figuras do topo da hierarquia do Estado e das Forças Armadas, ao mesmo tempo que lhe segue os pensamentos, conhece suas intenções e partilha suas críticas a respeito deste ou daquele indivíduo.

Mauricio Levy2

Inevitavelmente, o leitor acaba por também partilhar o juízo daquele a respeito de seus interlocutores e de outros, reconhecendo a deprimente constatação de que todos estes ‘homens fortes’ sempre se rodeiam de pessoas fracas, que desprezam e humilham com gosto.

jpg

A ilação é evidente para qualquer pessoa, mas compete ao leitor o salto lógico: o autor recusa-se a fazer esse trabalho. Por respeito à inteligência do leitor? Provavelmente. E por respeito à ‘verdade’ da personagem, suponho eu.

A fala de um homem mau

Escrever sobre um período histórico e desenvolver um enredo onde a ficção e a realidade se cruzam, confrontando pessoas concretas com outras imaginadas, factos e episódios reais e incontestáveis enredando-se com outros incertos ou claramente inventados, é sempre um desafio estimulante para o escrevinhador.

Por exemplo, um enredo em que vítimas, opositores e cúmplices têm voz através das personagens que intervêm ao longo da narrativa, exprimindo directamente seu juízo sobre certo ditador, figura histórica e bem documentada.

6a00d8341bfb1653ef019affb172e5970c-550wi

Este último facto pode ser útil ao autor, mas obriga-o a um rigoroso exercício de verosimilhança, que não é mais do que uma restrição à liberdade criativa, se é que há pretensão de respeitar a verdade histórica.

Porém, a ‘verdade histórica’ tem sempre áreas de sombra, sequências cronológicas obscuras, testemunhos contraditórios cuja elucidação não é fácil, o que dá origem a narrativas históricas mais ou menos contrastadas e polémicas, ou seja, interstícios de sombra e luz que a ficção pode recriar.

Na Festa do Chibo de Mário Vargas Llosa (ed.Dom Quixote), o autor sonda os meandros da personalidade dum homem a todos os títulos brutal e repugnante, dotado dum poder (quase) absoluto há várias décadas.

ae6914087d2f1292e45c153435956362

E fá-lo dando-lhe a ele, ao homem brutal e repugnante, voz activa. Não para se condenar e pedir perdão, nem para se defender e apresentar atenuantes. Também não para se justificar e dar uma versão gloriosa dos seus actos.

Muito menos para fazer dele uma marionete de ventríloquo, e assim o autor comprometê-lo de modo ostensivo, de acordo com a personagem odiosa que a história e a memória popular retiveram.

O que Vargas Llosa faz é um artifício literário típico: a personagem pensa ‘em discurso directo’, permitindo-nos acompanhar todo o fio dos seus pensamentos, na verdade, os fios dos pensamentos, que se enovelam ao longo do tempo, num processo que é familiar a qualquer ser pensante e reflexivo. Como o leitor é suposto ser.

1362249761_913170_1362249812_noticia_normal

A Terceira Grande Questão Existencial

Uma das ilusões da arte fotográfica, desde os seus primórdios, é a da reprodução exacta, real, daquilo que mostra.

Mesmo hoje, quando essa ilusão já foi explicada de mil milhões de maneiras, há quem só desconfie que esta ou aquela foto está, eventualmente, retocada pelo Photoshop. Porque, não estando, a verdade da fotografia será inquestionável.

Daiquiri

Com as mesmas artes de ilusionista, figuras públicas de todos os tempos sempre tiveram a ambição de deixar para a posteridade a sua versão de si mesmos e do que fizeram, com a ingenuidade suplementar de querer convencer que essa verdade é ‘a verdade’, até porque são eles (e quem melhor do que o próprio?) a contar como tudo aconteceu.

1266888028_extras_albumes_0_1024

Autobiografias e ‘biografia autorizadas’ pertencem a esse inestimável património literário onde a ficção e a realidade histórica se enovelam para desespero dos historiadores e delícia dos demagogos.

Qualquer escrevinhador com um mínimo de bom senso deveria saber isso, senão por experiência de vida, pelo menos por ter passado a adolescência a ler muitos romances históricos.

E deve, por isso, colocar-se a ‘Terceira Grande Questão Existencial’: Serei capaz de escrever sobre uma realidade que não vivi, sobre pessoas que existiram realmente, e desenvolver um enredo ficcionado e verosímil, sem a pretensão de fazer história, mas a de escrever uma boa estória?’

2012-09-26_IMG_2012-09-26_14-32-04_mahoma2

Entre os muitos escolhos no caminho do escrevinhador que se dedique a responder a esta questão, está aquele que vimos a tratar nos últimos posts: o da autonomia da personagem, o da sua liberdade para se afirmar-defender-reclamar inocência.

Ou seja, ao escrevinhador coloca-se o desafio de ‘retratar com verosimilhança a tortuosa mente humana’

Que é uma forma de responder à tremenda questão: ‘como pode o escrevinhador ‘ser justo’ para com uma personagem que, ele próprio, vê como sendo abjecta ou, pelo menos, condenável?’ 

1354473089_984075_1354473164_noticia_normal

-Quando tinha princípios não tinha os meios, e agora que por fim tenho os meios, careço de princípios.

A arte de dizer algo escrevendo o seu contrário

Tal como Camilo, Eça é um escritor com extenso rol de personagens que lhe servem para retratar a sociedade do seu tempo, colocando em evidência ‘taras’ nacionais como a hipocrisia religiosa, a falta de instrução e de cultura, a ausência de ética dos cargos públicos, o obscurantismo militante de instituições e poderes, etc.

1367421013_152362_1367421145_noticia_normal

Ao contrário de Camilo, Eça prefere a ironia refinada para desenvolver o próprio enredo, a ponto de não só não fazer afirmações explícitas de condenação ou reserva relativamente aos actos e pensamentos das personagens, como até os louvar ou justificar, se nos ficarmos por uma leitura estritamente literal.

A ironia é um exercício exigente para o escrevinhador, por implicar domínio dos sentidos e, obviamente, humor. Mas também o é para o leitor, como se pode perceber por muitas reacções no dia-a-dia a este propósito.

chickencontact

-Está a chegar uma mensagem!
-ZDRZDRPA OOG GREP ZOW PFLARP
-…Chefe,penso que estão a contar anedotas de peidos!
-Finalmente! Uma inteligência que rivaliza com a nossa! 

Por vezes, Eça recorre à narração duma cena banal, em contexto extraordinário para o leitor: o contraste entre os comportamentos e ditos das personagens, eventualmente normais, e o seu estatuto social, profissional ou outro, basta para afirmar (sem o dizer) o propósito da obra (a denúncia de tal ou tal coisa), apelando ao bom senso e humor dos seus leitores.

Outras vezes, desenvolve cenas ou diálogos ridículos e divertidos, pondo uma personagem a dizer ou a fazer coisas, que ela própria desvaloriza ou crítica ao narrar a história.

Em ambas as situações, Eça evita tomar uma posição (ao contrário de Camilo, que reforça o sarcasmo com comentários directos), dando ao leitor a obrigação de ‘descodificar’. As personagens têm liberdade para se exprimir, para se justificar, mas são traídas pelo contexto ou por elas próprias assumirem suas intenções menos dignas.

O que não quer dizer que sejam mais autênticas do que as personagens camilianas. Camilo mais depressa deixa a sua personagem exprimir-se, apesar de, imediatamente depois ou ainda antes de esta falar, já estar a adjectivá-la, a censurá-la, ou a divagar a esse respeito; enquanto Eça cria uma encenação, usa um nível de conversação ou obtém efeitos de linguagem que colocam as personagens atrás duma lente que amplia ou foca de acordo com os propósitos do autor, poupando a este uma intervenção directa e moralizadora.

181

Em ambos os casos, são dois expoentes máximos da Literatura, justamente famosos pelas técnicas de narrativa e caracterização.

Camilo dizia a respeito do que escrevia: ‘Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea. Não partimos de uma renovação da Moral; emergimos de um lodaçal de inveterados vícios.’ (in Boémia do Espírito)

Eça, à sua maneira, diz ao que vem criticando a literatura contemporânea:

Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem acção. Júlia pálida, casada com António gordo, atira as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel, António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre este drama de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1851. O autor, ordinariamente, tem o hábito de Sant’Iago. O editor tem a perda. O leitor tem o tédio. – Santa distribuição do trabalho!

De resto, quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da fazenda. (in prólogo d’ As Farpas)

1381731_176652759190615_13430557_n

‘Pode alguém ser quem não é?’*

*título duma canção de Sérgio Godinho

Um dos desafios da ficção literária está em retratar com verosimilhança a tortuosa mente humana.

310053_2771545695348_1459196338_31930634_426918578_n

Muita obra literária lida com este tema de modo simples (por dicotomias certo-errado, bem-mal), ignorando contexto, história, e toda a gama de cinzentos entre o branco e o preto.

Este é um tópico fascinante para desenvolver ideias sobre a ‘autenticidade’ da personagem: figura idealizada (do angelical ao demoníaco), caricatura, arquétipo, real…o escrevinhador nem sempre tem noção de como condiciona a personagem às ideias preconcebidas. Ideias com que filtra o mundo em que vive e só através delas o ‘trabalha’ na escrita.

Se formos cínicos, e convém sê-lo também, podemos interrogar-nos se pode alguém escrever de outro modo.

12330254

O autor deste blog é suficientemente cínico para isso, mas não é fatalista que chegue para se conformar à ideia de que estamos condenados à obscura caverna de que Platão falava.

Em toda a História da Literatura vemos exemplos notáveis de personagens que rompem com as categorias ‘normais’, ainda que o autor manifestamente tenha um quadro de valores e referências claramente oposto ao que a personagem exprime. O admirável é que o autor o faça permitindo à personagem estabelecer com o leitor um diálogo directo ou ‘tempo de antena’ para se explicar, eventualmente se justificar, sem se condenar.

cobras 2_thumb[3]

E não me refiro a inversões do sentido duma personagem, como a que, no sec.XIX, certos autores românticos desenvolveram e em que a clássica figura do Mal passa a ser apresentada como um libertador, o espírito livre, crítico e solidário para com a espécie humana. Neste caso, e neste tipo de inversões, mantém-se o condicionamento da idealização sobre a personagem.

Então, como pode o escrevinhador ‘ser justo’ para com uma personagem que, ele próprio, vê como sendo abjecta ou, pelo menos, condenável? 

Ai, magoei-me mesmo! Olha, está ficando inchado.

Ai, magoei-me mesmo!
Olha, está ficando inchado.

A verdade relativa

Tal como se pode apreciar alguém pelo modo como trata os outros, inclusive os animais, o modo como o autor lida com as suas personagens diz tudo sobre o respeito que lhes tem e à inteligência do leitor.

Porém, o ponto de vista que proponho aqui não é pacífico: a autonomia da personagem em relação ao seu autor tem consequências e, eventualmente, pode não passar duma ilusão.

Ali-Ferzat2

Por outro lado, a qualidade literária duma obra não é, necessariamente, prejudicada ou salva pela autenticidade das suas personagens. Conforme repito ao longo destes posts, quase obsessivamente: vale tudo, em literatura. E nada é certo.

Mas como é estimulante ler e deparar-me com uma personagem familiar, ou seja, cujo estereótipo é bem conhecido e faz parte da minha mundividência, para ser, de seguida, surpreendido pelo modo como o autor lhe dá espaço para se afirmar e diferenciar, ainda que dentro do enquadramento geral do estereótipo.

6a00d8341bfb1653ef01901e95ea88970b-550wi

A este propósito referi, anteriormente, o tratamento dado na Ilíada aos dois heróis das duas partes em confronto na Guerra de Tróia:

-Aquiles, o arquétipo do Grande Guerreiro, um semi-deus capaz de prodígios em combate, amua e, por isso, deixa de cumprir suas obrigações para com os companheiros de armas, só voltando a assumi-las quando é atingido pessoalmente e é tomado pelo desejo de vingança, desrespeitando depois códigos de honra e de conduta elementares.

6a00d8341bfb1653ef0167676a8c0e970b-500wi

-Heitor, um grande guerreiro que manifesta toda a sua humanidade ao exprimir o imenso amor pela mulher e pelos filhos, ao mesmo tempo que vive a responsabilidade de comandar um exército, de enfrentar o inimigo em campo de batalha e, assim, garantir a defesa da sua cidade.

Se o propósito de Homero é colocar o estereótipo do Grande Guerreiro em questão, levando-nos a reflectir sobre o valor destes dois modelos em confronto, não o faz dizendo explicitamente qual é o seu favorito, nem colocando o odioso encima de Aquiles. Este tem, aliás, oportunidade para se justificar recorrendo à argumentação que qualquer guerreiro da época poderia entender e partilhar.

E quando Aquiles exprime, em lágrimas e com raiva, suas próprias debilidades, torna-se autêntico, humano demasiado humano, sujeito a ser julgado nos seus actos e intenções, mas também a ser entendido e, eventualmente, a ver mitigado o juízo mais severo.

farzat1

O autor não se pronuncia, relata os ‘factos’, deixa às personagens a responsabilidade de se afirmar e justificar.

Ao leitor caberá o juízo. Jamais definitivo.

Escrever uma história banal como?!

Uma história banal: o relato da vida de um homem comum até ao momento da sua morte. Que pode resultar daqui senão uma série de acontecimentos anedóticos pontuados por justificações, remorsos, desculpas, mentiras? 

the-king-of-cats-1935_jpg!Blog

Afastemos os propósitos morais, a tentação do autor em nos ensinar através do exemplo: é um género e dos mais glosados, dos mais insuportáveis pelo uso e abuso de estereótipos. E pressupõe uma moral, uma verdade, uma via recta. Reconheço que tem um público, duvido é do valor literário quando levado a sério.

stalin_poster

Se contamos a vida (e morte) de alguém, então porque não nos centrarmos na verdade que ele toma como sua? Ou nas verdades que cada ser humano que com ele se cruzou na vida têm a dizer a seu respeito? Quantos retratos do mesmo homem se podem fazer deste modo?

Procedendo assim, provavelmente deslocamos a ‘verdade’ para o ‘sentido’ (da vida), e afastamos qualquer propósito legislador e propagandístico. Os ‘factos’, já o devíamos saber, são uma construção.

Tendo o Tema (a vida e morte de alguém) e a Abordagem (uma narração omnisciente do ponto de vista do protagonista e o das pessoas que se cruzam com ele), o Propósito torna-se mais simples e transparente: entender/expor/problematizar a complexidade duma vida (ainda que banal) e reflectir sobre o ‘material’ que a escrita produza.

1209398_666294833388463_1197540922_n

A partir daqui, ao escrevinhador coloca-se o desafio do Processo: como irá desenvolver o tema de acordo com a abordagem definida tendo como propósito fazer do banal uma história…uma história, sei lá!… profunda, misteriosa, fascinante? Até mesmo, por paradoxal que seja, extraordinária?

‘Como contar uma história banal de modo interessante?’ pergunto à bela Musa. Mas a resposta brinca-lhe nos lábios…

29826297_640

Rumo, contingência e metamorfose da narrativa

Acumular dados para suporte da narrativa, anotar esquemas de possíveis desenvolvimentos, caracterizar personagens com rigor biográfico e/ou detalhe clínico, auxiliado por fotos dos ambientes a descrever, tudo isso revela trabalho de investigação e esforço de conceptualização.

Com o desenvolvimento da obra, podem ser elementos úteis para ancorá-la aos propósitos iniciais, ou para perceber onde e quando começaram, personagens e enredos, a ganhar vida própria e a impor sua verdade, seu tempo, seu espaço.

Observador Australiano: "...interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água."

Observador Australiano: “…interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água….”

Tratando-se duma obra ‘cerebral’ (didáctica ou memorialista, p.ex.), o esforço em conter os limites do tema, mantendo-o no rumo inicial, faz sentido e é pertinente.

Porém, todo o projecto é sujeito às contingências do Tempo (o distanciamento e a maturidade do escrevinhador podem mudar as perspectiva iniciais, ou o mundo deu mais algumas voltas, entretanto) e às metamorfoses da Verdade (quanto se aprofunda qualquer assunto, mais se percebe o que se desconhece e o que se dava por garantido à partida, revela-se incerto).

"Esta onda de calor tem sido brutal...toda a parte alta da cidade está desinundada..."

“Esta onda de calor tem sido brutal…toda a parte alta da cidade está à tona da água…”

O envelhecimento precoce dos livros é um risco tanto maior quanto o seu autor é indiferente (ou desatento) às variações possíveis do tema, sinal inequívoco de miopia intelectual ou de falta de preparação.

Também pode ser um acto assumido: aproveitar a espuma dos dias que cedo se desvanece, com um propósito quase fotográfico. Ou sociológico. Ou meramente ‘comercial’.

470 a.C: Sócrates responde às difíceis questões sobre a vida
Sócrates: Assim, se o jogador que recebe a bola está atrás do último defesa quando a bola é jogada…

Escrever como quem explica

O que torna algumas obras de não-ficção memoráveis e exemplares no seu género, não tem de ser o conhecimento especializado, mesmo quando escrito por um académico da área.

Pode ser, por exemplo, a capacidade de comunicar assuntos de imensa complexidade ou erudição de modo acessível ao grande público, sem faltar ao rigor da informação e dos dados.

Clima urso: E que tal te parece? comentário: Ele ainda não notou nada.

Clima
urso: E que tal te parece?
comentário: Ele ainda não deu conta do que se passa.

Para ilustrar com um exemplo, cito o livro Mais rápido que a luz de João Magueijo (ed.Gradiva), doutorado em Física Teórica: “A cosmologia foi durante muito tempo um assunto religioso. É espantoso que se tenha tornado um ramo da física. Que razões temos para esperar que um sistema tão complexo como o universo possa ser tratado cientificamente? A resposta irá talvez surpreendê-lo: pelo menos no que diz respeito às forças que o governam, o universo não é assim tão complexo. (…) É mais difícil descrever a dinâmica de uma ponte suspensa do que a do universo.

João Magueijo expõe problemáticas vagamente familiares ao leitor com alguma formação em ficção científica (“a matéria diz ao espaço a forma que há-de ter, o espaço diz à matéria como se há-de mover“), e põe-no a par das ideias aceites desde Einstein, das investigações e das especulações (na qual inclui a sua teoria sobre a velocidade da luz variável [a velocidade, não a luz]).

homem: É um mamute. legenda: microscópio primitivo.

homem: É um mamute.
legenda: Microscópio primitivo

A abertura do livro, por si, já é um polémico e excelente “insight” para o restrito universo da investigação científica e do mundo académico. Para ainda concluir, no final do livro: “No universo ninguém se diverte mais do que nós”.

“Nós”, os cientistas, bem entendido.

Viajar é preciso

Já é uma tradição antiga desconfiar da veracidade do conteúdo dos livros de viagem, senão na totalidade, pelo menos de certas passagens aparentemente fabulosas. O que é tanto mais extraordinário nas épocas em que o mito, a religião e a lenda se cruzavam indiferenciadamente no conhecimento histórico e geográfico da época.

1914-Satirical_map_of_Europe

O trabalho de autores escrupulosos e a necessidade prática de usar esses relatos para futuras viagens terá aguçado o espírito crítico destas leituras. Porém, se já faz algum tempo que se torna inverosímil relatar que em determinadas zonas da Terra existem dragões ou homens sem cabeça, outros problemas se colocam na apreciação da literatura de viagem.

Nomeadamente preconceitos sexistas, etnocêntricos, racistas, entre outros, distorcem de maneira mais ou menos evidente factos e observações, graças à peculiar lente pela qual o observador narra suas viagens. O termo “orientalismo” foi crismado por Edward Said para criticar o olhar europeu (ou Ocidental) sobre outras culturas e povos.

Daí ser legítimo perguntar que necessidade terá o autor dum livro de viagens de acrescentar alguma ficção, mesmo que de modo evidente e assumido. Tornar a leitura mais interessante? Certamente, mas porque não tornar interessante, ou mais interessante, o relato propriamente dito?

5113_3

É como se fosse preciso viajar até aos antípodas e visitar aldeias de canibais para se poder escrever sobre alguma coisa que motive a leitura. De facto, o mundo está cada vez mais pequeno, somos cada vez mais os que viajamos entre continentes, todos temos histórias sobre os mesmos sítios exóticos. E fotos e vídeos para ilustrar.

Aí está um desafio para quem escreve sobre suas viagens: abordar o já conhecido por um ângulo diferente, com a sensibilidade própria, sem com isso ceder ao preconceito. O facto de se fazerem certos percursos de comboio, de bicicleta ou à boleia já marca uma diferença em relação ao automóvel ou ao avião; a interação com os outros é sempre diferente de pessoa para pessoa, conforme todos nos podemos aperceber na nossa vida quotidiana. O sentido de observação, o humor, a cultura, fazem a diferença entre relatos sobre a mesma realidade.

580094_319057971503505_777867003_n

Admito que certos roteiros possam desviar o autor para um registo mais confessional, introspectivo, levando-o a fantasiar (seja sobre uma pedra enorme na encosta dum monte, seja sobre o brilho dum sorriso que se cruze com ele no caminho), e que a escolha de certos temas de viagem (o Caminho de Santiago, a vida desta ou daquela personalidade das artes ou da história, os bares de praia da costa algarvia) seja um incentivo a divagações e porque não? a ficções.

Se, a páginas tantas duma viagem de comboio, o autor acorda entre duas estações e, à sua frente, estão sentados uma bela rapariga ou um senhor distinto e impecavelmente vestido que, em ambos os casos, lhe prometem uma série de benesses em troca duma gota de sangue para firmar um contrato, porque hei-de duvidar, por um instante que seja, da verdade desse relato? Haverá alguém a quem não tenha acontecido algo semelhante?

questões de método ( e de princípio)

Obras de não-ficção são, por exemplo, os relatos de viagem ou ensaios temáticos.

65237_351857358262429_266932790_n cópia

Alguns amáveis leitores  deste blogue estão em vias de escrever (ou já estão em fase de elaboração)  livros que se enquadram numa destas categorias e levantam questões curiosas, das quais destaco as seguintes, reformulando-as um pouco:

-é legítimo “apimentar” o relato com alguma ficção, e sendo legítimo, deve-se assumi-la como tal ou mantê-la em segredo?

-faz sentido acompanhar o relato com informação didáctica (tipo História, Geografia, Etnologia, etc)?

-a fotografia será fundamental para o “êxito” dum livro sobre viagens?

-um ensaio deve começar com a apresentação do assunto a desenvolver?

-o autor deve revelar as razões porque se dedica a tal tema, não tendo actividade académica ou profissional que o justifique?

-o autor pode, ou deve,  incluir um lado pessoal, autobiográfico, sobre um assunto mais geral? Ou, pelo contrário, deve manter uma linha objectiva no desenvolvimento do assunto, sem personalizar?

Nos próximos posts darei a minha perspectiva sobre cada questão, mas desde já antecipo a minha máxima favorita: vale tudo e nada está garantido. Na literatura, bem entendido.

"Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas."

“Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas.”

“Se não é verdadeiro…está bem contado”

Relatos de viagem, crónicas e memórias de tempos vividos (ou ouvidos da boca dos seus protagonistas), autobiografia/biografia, tudo isto são narrativas supostamente de não-ficção, mas podem ser estruturadas como uma narrativa ficcionada: tema, enredo, personagens, ritmo, tempo, desfecho, propósito, tudo elementos que podem estar presentes para auxiliar quem escreve a alinhar os factos e a quem lê acompanhar com interesse.

O que faz a diferença, o que credibiliza essa narrativa na sua pretensão de se ater à “verdade”, está na revelação de fontes, documentos, testemunhos, através de fotos, cartas, registos oficiais, pessoas, locais. Que é a marca d’água da transparência, da honestidade, permitindo que tudo o que está ali escrito seja confirmado por qualquer leitor interessado. E daqui abrem-se as vias para a saudável, desejável polémica. O famoso contraditório, como agora se usa dizer em jargão jurídico-jornalístico.

images (22)

Frequentemente, o escrúpulo do autor em apresentar documentação e em manter um relato objectivo, torna a leitura desinteressante para o leitor comum, ainda que útil para os investigadores.

Muitas outras vezes, nem há escrúpulo, nem qualquer pretensão de objectividade, construindo-se uma narrativa que, também por isso, é enfadonha. E por muitas verdades que sejam ditas, o leitor pode se reservar o direito de duvidar de tudo o que lê: primeiro, porque não tem como confrontar afirmações e alegados factos; depois, porque pode legitimamente desconfiar do tom, da perspectiva assumida, do preconceito que o autor manifesta, sem jamais reconhecer.

1366815973_581460_1366816061_portada_normal

Finalmente, há livros (ou textos) que não importa se o que relatam é verdadeiro, aplicando-se-lhes o clássico juízo: ” se non é vero…é ben trovato”. Valha-nos isso!

A bem dizer, e sem faltar à verdade…

Poesia e ficção à parte, a composição dum livro que relate factos, acontecimentos, memórias, pessoas de carne e osso, é muito menos exigente do ponto de vista literário, mas rigorosa no escrúpulo em dizer a verdade.

Para complicar, apetece-me perguntar de seguida: será a realidade mais verdadeira do que a ficção? E o discurso objectivo mais real do que o poético?

images (3)

Abrir parênteses. Atenção, leitor apressado ou acabado de chegar a este blog: quem escrevinha estas linhas é mais do jeito de lançar pedras ao telhado do vizinho do que de levantar alicerces em terreno firme.

Outra forma de dizer que tem como objectivo problematizar, mas não o de dizer como se faz isto ou aquilo. Fechar parênteses.

Uma analogia clássica é a da verdade da fotografia. Esta retrata a realidade tal qual é, sem artifícios, tal como a capta o olho humano. Será mesmo? E se assim é, o que dizer da fotografia animada (vulgo cinema)?

implícitos no texto verbal 1_thumb[3]

Ou seja, e este é o meu ponto: quem pretende escrever sobre determinado assunto ou determinado acontecimento/pessoa, poupa-se às canseiras e desafios a que se submete o escritor duma narrativa ficcionada?

Sim, claro, evidentemente. Ou muito pelo contrário, na verdade.

Jesus cartoon Dahmer

Críticas, critérios e cretinos

O problema da crítica começa logo no sentido atribuído a “crítica”. No uso corrente, a crítica é sempre negativa, depreciativa, destrutiva, senão mesmo ofensiva; porém, a raiz etimológica da palavra e o seu uso erudito (na filosofia, na ciência, nas artes) tem um sentido instrumental, mais do que valorativo: trata-se duma apreciação, duma avaliação, dum julgamento.

Uma crítica positiva que valorize um poema ou um livro, p.ex., está tão obrigada a justificar sua apreciação, seu juízo, quanto uma crítica negativa. Aliás, a crítica nem tem de se posicionar como positiva/negativa. Sua função vai muito além do “balanço geral”, e é especialmente útil para o debate e progresso do conhecimento, como para o exercício do gosto e da criatividade.

-Gostas de poesia americana? -Naah, muitos verbos. -Canadiana? -Demasiado uso da voz passiva. -E que tal a polaca? -Demasiadas consoantes. -Escocesa? -Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

-Gostas de poesia americana?
-Naah, muitos verbos.
-Canadiana?
-Demasiado uso da voz passiva.
-E que tal a polaca?
-Demasiadas consoantes.
-Escocesa?
-Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

Vista assim, rareiam espaços e oportunidades para o exercício da crítica. E não admira: nada mais difícil do que assumir um critério, justificando razões, aceitando críticas à crítica e rebatendo-as de modo coerente e fundamentado, ou evoluir na própria argumentação a ponto de, inclusivamente, admitir erros ou reformular radicalmente o juízo inicial. Na verdade, a crítica é um diálogo e uma construção em progresso permanente.

As caricaturas de crítica que vulgarmente se ouvem e se lêem não passam de manifestações de gosto ou de carácter, coisas totalmente alheias à crítica como aqui se entende.

Quando o Leitor deste blog se queixar da falta de hábitos de leitura, do pouco interesse pelos livros e/ou boa literatura (e quem diz literatura, diz de qualquer arte), pense nisto: sem críticos, não há apreciadores.

E a crítica pode ser cruel, fria e desapiedada? Não, cruel nunca: a crueldade é uma patologia mental, e a crítica é uma actividade racional saudável e estimulante à convivência, mesmo quando não seja simpática aos nossos ouvidos. Porque o seu propósito não é reconfortar o ego dos autores, nem divertir leitores, mas obrigá-los a confrontar-se com suas próprias limitações. E seguirem todos mais além do horizonte da crítica.

poetry-or-how-much-is-your-life-worth

POESIA! ou: quanto vale a tua vida?
-Pá, os teus poemas mudaram a minha vida!
-Oh, obrigado! Queres comprar o livro? São 10 euros.
-Oh, umm…não obrigado.
-…
(tal como me foi contado por john t. unger)

Mentiras de Um de Abril

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Muitas vezes desvaloriza-se um relato porque é “ficção”. A ficção como sendo inferior à realidade. A realidade entendida como o factual, o verdadeiro. Enquanto a ficção é do domínio da fantasia, da imaginação. Uma mentira, portanto.

1348078958_767494_1348079079_noticia_normal

Por vezes, o autor bloqueia quando sente que não tem conhecimento suficiente para abordar certos temas. Ou, pelo contrário, porque tem e porque irá expor o que muitos amigos ou familiares não lhe perdoarão ter exposto. Se pretende escrever um texto com pretensões históricas (como o testemunho de quem viveu e participou nos factos narrados), esses são problemas sérios. Leia o resto deste artigo »