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Escrever sobre o indizível

Por definição, o indizível é o que não se pode dizer. Se não pode porque não deve ou se não pode porque não pode mesmo, são ‘impossibilidades’ bem diferentes.

Às vezes, as recordações se parecem a alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem porque razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam amontoando-se no fundo desse gavetão que evitamos abrir, como se ali fossemos encontrar alguma coisa que não se deseja, ou até que se teme vagamente. (1)

Norman Rockwell, Truth About Santa, 1956

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No primeiro caso, pode decorrer da censura moral ou da proibição legal que impedem a expressão de ideias. O que é indizível aqui e agora deixa de o ser noutro lado ou noutro tempo, senão for mesmo agora e aqui de modo mais ou menos anónimo, publicado clandestinamente, ao arrepio das leis e dos costumes. Literariamente falando, não se trata do indizível mas do não-permitido, e a história da literatura é recheada de episódios a este respeito.

(…) Animam-no, como poeta e artista, os heróis e os criminosos, desde que o mesmo sol os doire belos. (2)

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Contudo, ainda neste caso, existem graus de dificuldade: escrever sobre alguém que tem um comportamento condenável a todos os títulos, e fazê-lo de modo a sugerir uma leitura positiva, que cause a involuntária compreensão, senão mesmo a concordância do leitor, é mais simples do que o próprio texto assumir os valores condenados e apresentá-los como válidos, sem a clássica inversão de valores ( o que é bom passa a mau e vice-versa).

(…) É impossível que recebamos dela [Natureza] um sentimento que a ofenda e nesta certeza podemos entregar-nos às nossas paixões, seja de que índole e violência forem (…). (3)

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Do ponto de vista estritamente literário, creio que o que vale é a forma, mais do que os conteúdos, e pode resultar. Aliás, essa é a função profiláctica das leis proibitivas e dos actos de censura prévia: evitar a sedução das leituras perigosas.

Convém mostrar as repulsões do crime lá embaixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem;ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente? (4)

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Já o indizível, propriamente dito, é toda uma outra coisa: a sua expressão por palavras distorce, desvaloriza, falseia, ilude, por maior que seja a boa vontade de quem se exprime em não faltar à verdade (à sua verdade, pelo menos). E isso porquê? Uma imagem vale por mil palavras, a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, e outros ditos tentam responder à diferença entre o impacto não-verbal de certas experiências (vivenciadas ou pensadas) e a expressão delas.

Finalmente, existe outra expressão frequente que é igualmente impenetrável por cérebros não-indígenas. Por exemplo, a frase “Vá lá a gente saber porquê!”. Um estrangeiro interpreta-a como significando “Vamos todos àquele sítio para podermos averiguar as causas do sucedido”, quando, na verdade, significa incompreensivelmente que não vale a pena ir a seja onde for, porque não há maneira de saber seja o que for. Eles lá sabem porquê… (5)

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cartoon de Pawel Kuczynski

A matemática e a música serão melhores veículos para transmissão do indizível do que a linguagem verbal, dizem os entendidos e tendo a concordar (ainda que abissalmente ignorante a respeito das linguagens matemáticas e musicais).

Quando fui a primeira vez à terra natal de Amadeo, dezoito anos depois da sua morte, a luz na paisagem e as cores nas proporções eram as mesmíssimas nos seus quadros de pintura. (…) Toda a sua arte reflecte o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as suas próprias cores, as do seu rincão natal. (6)

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cartoon de El Roto

Mas é difícil lidar com o indizível no dia-a-dia sem cair na tentação de o exprimir, já que de outro modo torna-se uma experiência profundamente pessoal e única, sendo os escrevinhadores seres sociais e comunicadores por natureza, como a generalidade dos mamíferos.

Neste assunto, obscuro em extremo, farei o possível por ser claro. Ignoro se o conseguirei e— sem mais preâmbulos— vou começar. (7)

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Daí haver escrevinhadores de todos os tempos a tentar contornar a impossibilidade e dizerem algo sobre o indizível, seja pela negativa, seja por comparação, seja recorrendo à metonímia: todo um arsenal retórico que permite exprimir o que não se sabe ou o que se julga saber mas não se entende.

Nesse caso, ouve-me em silêncio. Como este recanto parece ter algo de divino, se, no decorrer do meu discurso, me tornar possesso das Ninfas, não estranhes, (…). (…) Pode acontecer que a inspiração divina se esgote, mas isso fica ao arbítrio dos deuses. (8)

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Naturalmente, a poesia sempre teve inclinação para enfrentar o desafio através dos seus recursos extra-verbais (inspiração, paixão, loucura) que lhe permite ter um pé (senão ambos os pés) noutros mundos e a cabeça nas nuvens.

(…) O que aqui/ não está escrito é já a única/ prova de que disponho/ para reconhecer-me, interromper/ meu processo de erosão entre recordações/ urgentes. // Por aquela palavra/ a mais que disse então, trataria/ de dar minha vida agora (9)

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Pessoalmente, destaco toda a literatura que se situa na categoria do ‘absurdo’ (que não é a mesma coisa que a ‘fantasia’, atenção!): através de jogos de palavras, pela criação de palavras próprias, distorcendo regras gramaticais elementares, expandindo ou contraindo de forma absurda (claro está!) maneirismos narrativos ou dialogais, consegue “dizer” mais sobre o indizível do que a milenar literatura séria sobre o Inefável.

O E parecia um pente, o S uma serpente, o O um ovo, o X uma cruz de lado, o H uma escada para anões, (…). Não via diferença entre desenhar e escrever.

(…) Porque as letras e os desenhos eram irmãos de pai e mãe: o pai era o lápis afiado e a mãe a imaginação. (…) Estas palavras que nasciam sem ela mesmo querer, como flores silvestres que não precisam de ser regadas, eram as que mais gostava, as que lhe davam mais alegria, pois só ela as entendia. (…) e as chamava de “farfanías”. Quase sempre a faziam rir. (10)

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Mas a que mais me impressiona é a literatura sobre o Horror (não confundir com zumbis e quejandos), como a dos campos de concentração e de extermínio, a das perseguições e genocídio. Autores que passaram pelo Horror, testemunhas e vítimas ao mesmo tempo, e que conseguem pôr por escrito a experiência vivida, a própria e a de outros, mantendo um pudor e sangue-frio extraordinário na descrição, na valoração, no juízo.

(…) E tinham sido conduzidos para os balneários, onde, disseram-me, também havia tubos e chuveiros: só que, deles, não tinham feito sair água, mas gás. Não soube tudo isto de uma só vez, mas a pouco e pouco (…). Entretanto, ouço, são, até ao fim, muito amáveis para eles, tratam-nos carinhosamente, às crianças é permitido cantar e jogar à bola, e o local onde são gaseados é muito bonito e bem cuidado, (…). (11)

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E nessa contenção mantém-se toda a força, repelente ou atractiva, do indizível.

E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

—”Meu amor!” (12)

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(1) in Paraíso inabitado de Ana Maria Matute, ed.Destino

(2) ‘António Botto e o ideal estético creador’ in Apreciações Literárias—Bosquejos e Esquemas Críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(3) ‘Justificação do Prazer’ in Escritos Filosóficos e Políticos (extraído de Justine ou os infortúnios da Virtude) de Donatien Alphonse F. de Sade, trad.Serafim Ferreira ed.colecção 70

(4) ‘Prefácio’ in O Esqueleto de Camilo Castelo Branco, ed.Livraria de Campos Junior

(5) ‘É-o-que-é’ inA Causa das Coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assírio e Alvim

(6) ‘Amadeo de Souza-Cardoso’ in Obras Completas vol.6 Textos de Intervenção De José Almada Negreiros, ed.Estampa

(7) in Loucura… de Mário de Sá-Carneiro, ed.Rolim

(8) in Fedro de Platão, ed.Guimarães & Cª

(9) in ‘Sobre o impossível ofício de escrever’ in Somos el tiempo que nos queda-Descrédito del Héroe de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral

(10)in Caperucita en Manhattan de Carmen Martín Gaite, ed.Siruela

(11) in Sem Destino de Imre Kertész, trad.Ernesto Rodrigues ed.Presença

(12) in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira

 

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contar estórias

Sem ofensa: um escrevinhador tem de saber contar estórias, mentirinhas, apropriar-se de narrativas alheias e dar-lhes ‘uma volta’. Inventar, claro. Sobretudo reinventar.

O nosso Cervantes—continua falando Mairena aos seus alunos—não matou, porque já estavam mortos, os livros de cavalaria, senão que os ressuscitou (…). Do mais humilde propósito literário, a paródia, surge—que ironia!—a obra mais original de todas as literaturas. (1)

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Mesmo a literatura académica, séria, científica, tem saborosos exemplos de anedotas reais e relatos de fraudes fabulosas, ou comentários irónicos, capazes de forçar o sorriso ao mais sisudo leitor. Ou episódios simplesmente lastimáveis…

No dia 13 de dezembro (…) saí do carro pelo lado errado e atravessei a Quinta Avenida sem me lembrar de que na América conduzem do lado contrário ao do meu país e sem obedecer ao semáforo vermelho, coisa então desconhecida na Grã-Bretanha. Fui violentamente atropelado e durante dois meses fiquei praticamente inválido. (2)

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DOUTOR JESUS: -Desculpe, mas não posso curá-lo. Você tem um condição pré-existente.

Em verso ou em prosa, o escrevinhador distingue-se por essa extraordinária capacidade de dar a sentir experiências alheias ou imaginárias, sentimentos muito pessoais, emoções fingidas que deveras sente. Através da escrita, obviamente.

Doces galleguiños aires,/(…)/ alegres compañeiriños,/ rum-rum de toda-las festas,/ levái-me nas vosas alas/ como unha folliña seca (3)

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O único escrúpulo será o de não se levar demasiado a sério, a ponto de confundir a verdade do texto com a opaca realidade.

Parece-nos impossível que para os nossos filhos seja já passado irrevogável e desconhecido aquilo que para nós é ainda presente árduo. (4)

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Excepto se tiver pretensões de contar histórias sobre pessoas reais no seu tempo e na sua circunstância, assumindo a intenção de se restringir a documentos, testemunhos e coisas assim: o leitor tem todo o direito de se sentir burlado ao perceber que o escrevinhador é incompetente para tal pretensão ou, pior ainda, um desenvergonhado manipulador. Essa coisa de confirmar se os alegados factos, documentos, testemunhos, são fidedignos, é uma obrigação de que só está isenta a informação nas redes sociais.

—As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se  —disse Polo—  Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco. (5)

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‘PLACEBO-dose máxima’ tão eficaz quanto os melhores tratamentos homeopáticos 16 cápsulas

É como uma espécie de contrato entre o escrevinhador e o leitor, pese embora a flexibilidade com que um e outro possam interpretar as cláusulas não-escritas, nem negociadas.

(…), acreditem nossos leitores todos, que nem uma vírgula se lança neste parágrafo que não seja unicamente ditada pelo interesse público, nosso único móvel. A ninguém, absolutamente a ninguém queremos ofender, (…). (6)

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Dito isto, quantos clássicos da ficção literária universal não se apresentam como escrituras verídicas, senão sagradas?

—Gilgamesh, vou revelar-te uma coisa oculta, vou confiar-te um segredo dos deuses. Foi em Shuruppak, (…) cidade já antiga que aos deuses agradava morar, onde os grandes deuses tomaram a decisão de provocar o Dilúvio. (7)

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Quando bem escrito, vale tudo realmente.

(…), ela levantou-se em silêncio e arranjou botas de sete-léguas, pegou numa varinha mágica e num bolo com um feijão que dava resposta para tudo. Depois ela fugiu com o príncipe. (8)

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(1) in Juan de Mairena de Antonio Machado, ed.Alianza Editorial

(2) in Memórias da Segunda Guerra Mundial de Wiston Churchill, trad.Manuel Cabral ed.Texto Editores

(3) in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, Ediciones Cátedra

(4) in Danúbio de Claude Magris, trad.Miguel Serras Pereira ed.Quetzal

(5) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, trad.João Colaço Barreiros ed.Teorema

(6) in Doutrinação Liberal (textos escolhidos de 1826 a 1827) de Almeida Garrett, ed.Publicações Alfa

(7) in Poema de Gilgamesh tábua XI, tradução para castelhano de Federico Lara Peinado, ed.Tecnos

(8) Os contos populares e de fadas originais dos Irmãos Grimm, traduzidos para o inglês por Jack Zipes ed.Princeton University Press

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Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

FERNANDO VICENTE

cartoon de Fernando Vicente

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

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Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

O Passado presente

Situar o enredo numa época passada é um dos aliciantes da escrita, encantando leitores. Ou, muito pelo contrário, o maior fiasco para quem escreve e pura perda de tempo para quem lê.

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Qualquer narrativa tem um contexto, e se este  remete explicitamente o leitor para uma época histórica (ou mesmo pré-histórica) existem dificuldades que o escrevinhador não deverá negligenciar. A maior de todas, na minha opinião, é a da linguagem falada pelas personagens. Não se trata só do vocabulário e da sintaxe características da época e de que, muitas vezes, só podemos imaginar, mas do modo como se articulam ideias, raciocínios ou se expressam emoções.

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O problema central é o do chamado ‘anacronismo’, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um facto) a uma época que não corresponde. Esse é um erro que acontece na melhor literatura, mas tende a ser comum entre os que se dedicam a produzir narrativas segundo formatos estereotipados.

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA? Serpente: 'Maldito sejas,Homem-Aranha!'

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA?
Serpente: ‘Maldito sejas,Homem-Aranha!’

Os chamados ‘romances históricos’ podem ser boas surpresas, mas frequentemente pecam por desleixo na caracterização (de lugares e de pessoas), no conhecimento do ambiente social, cultural, político, ou pelo excesso de descrições e informações; e tudo acompanhado de diálogos ‘empastelados’ para dar o ‘tom’ da época.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Que o enredo vá ao arrepio da ‘verdade histórica’ é uma liberdade típica do escrevinhador, já que se trata de ficção assumida. A questão é a de dar verosimilhança, criar personagens ‘de carne e osso’ (mesmo que sejam fantásticas) e manter o ritmo, o fôlego narrativo, tudo aspectos comuns a qualquer escrita com pretensões literárias.

Ora, isto tanto é pertinente para um enredo situado no outro lado do mundo, mil anos atrás, como à porta de casa do escrevinhador, há cem ou dez anos, ou ainda na semana passada. Mas, convenhamos: o que nos é distante e estranho deveria obrigar-nos a um maior estudo e cuidado na composição.

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escrever para crianças

Sou de um tempo em que se distinguiam os livros por sexo e por idade dos potenciais leitores: para rapazes ou para raparigas, para crianças ou para jovens, para mulherzinhas, para adultos (ou para mulheres, e, nesse caso, dizia-se ‘literatura feminina’).

Não se tratava somente do incipiente marketing da época, mas da própria mentalidade duma literatura ‘adaptada’ às necessidades afectivas, às exigências culturais e à formação dos leitores.

Quem tiver tempo e curiosidade, pode se entreter a procurar catálogos de colecções de livros dos últimos 200 anos e, provavelmente, descobrirá algo de novo sobre a natureza humana e o modo como se tenta enquadrá-la numa qualquer formatação cultural prêt-a-porter. Nada que não se continue a fazer hoje em dia, ainda que com diferentes categorias e estratégias.

Daquelas categorias antigas, a mais persistente é a dita ‘literatura infantil’. Ainda que a sua definição seja sempre difícil, plena de equívocos e polémicas.

Menina Sentada, pintura de Sarah Afonso

Menina Sentada, pintura de Sarah Afonso

Já aqui referi os ‘contos de fadas’,  esse género literário surgido das brumas da literatura erudita antiga, do caldeirão inesgotável da literatura oral de todos os tempos, e sei lá donde mais, reciclado pelas bonnes femmes de todos os tempos e países.

Qualquer um dos dois livros das aventuras da Alice no País das Maravilhas causa desconforto se lido para um público, infantil ou não, hoje como na época da sua publicação…por serem obscenos, cruentos ou fantasmagóricos como eram os antigos ‘contos de fadas’ antes de depurados (conforme Marina Warner nos recorda)?

(…) pois este Ogre não deixava de ser muito bom marido, ainda que comesse criancinhas. (1)

Não, mas por serem perfeitamente absurdos e exibirem um domínio espectacular da linguagem escrita e oral. Para crianças?! Tanto quanto qualquer sketch dos Monthy Python.

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Porém, com alusões mais ou menos explícitas ao incesto, à violação ou ao abuso infantil, os ‘contos de fadas’ seduzem o seu público infantil também por isso mesmo (Bruno Bettelheim chama a atenção para isso). Ou  a manipulação dos outros pela linguagem, no caso das aventuras da Alice.

Será pelas mesmas razões que a actual literatura ‘juvenil’ usa as metáforas do vampirismo e dos lobisomens para cativar leitores? Ou zombies? Inequivocamente. São tudo matérias com profundas raízes na cultura e na psique individual.

‘—Estás a ver aquela mulher idosa?Aquilo nunca te acontecerá. Nunca envelhecerás, e nunca irás morrer.

—E isso também significa outra coisa, não é? Nunca me tornarei uma adulta.’ (2)

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Mas a qualidade dos escritos é outra coisa, como este blog tenta explicar de mais do que uma maneira (por exemplo, aqui e ali). Para entender isso, não há maior desafio do que a literatura para crianças escrita por escrevinhadores adultos. Noutro post tentarei desenvolver melhor esta ideia.

(1) in O Pequeno Polegar, de Charles Perrault.

(2) in Interview with the Vampire, de Anne Rice

to be continued

 

‘o canto que corta a garganta’

Assente, desde as origens, na musicalidade (sonoridade, ritmo, pausa…mas que entendo eu de música?!), a poesia evoluiu na procura da palavra a ponto de valorizar o silêncio e a materialidade.

A luz mais que pura/Sobre a terra seca

2 Um homem sobe o monte desenhando/A tarde transparente das aranhas

3 A luz mais que pura/Quebra a sua lança

(Algarve de Sophia)

 

Man of the Sea  de magritte

Man of the Sea de magritte

Em consequência, rompeu com métricas, regras  e rimas. Em versos sentidos.

Inmóvil

abandonado a tu pesadez de hombre inmóvil
me miras con antiquísimos resentimientos.

Óyeme bien
soy inocente de tu pasado
no soy tu puta madre
ni tu enferma madre
ni tu loca madre
aunque sea puta loca.
No merezco recibir agresiones ajenas
retrasadas y caducas.
No proyectes sobre mí los espectros de tu niñez
tengo forma, color y dimensiones propias.

Tampoco vengas a mí
llorando como un niño
cuando no lo eres.
este regazo que te acoge también te desea.

No sobreactúes
a mí también me expulsaron del paraíso
antes de tiempo
y sin notificación previa
¿a quién no?

(…)

(in Espejo Negro de Miriam Reyes)

 

'Portrait of Ms Ruby May, Standing' por Leena McCall

‘Portrait of Ms Ruby May, Standing’ por Leena McCall

Explodiu com o sentido, inclusive.

Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.

(Ars Magna de Leopoldo Maria Panero)

 

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‘leopold bloom’ de Richard Hamilton

Como resultado, reencontrou a imaterialidade da percepção aliada a um corpo físico, pois a palavra ganhou corpo e autonomia.

 

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo: uma vogal,

uma consoante, quase nada.

Mas faz-me falta. Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro, da estiagem

do verão. Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

(A Sílaba de Eugénio de Andrade)

 

'The Poor Poet' de Carl Spitz

‘The Poor Poet’ de Carl Spitz

Dita ou lida, uma poesia assim torna-se possessão.

 

Acolhei-me se sois também de sonho/que venho de estranheza e sonhos vários/—um mundo cismas encimando os ombros/e sob os pés países insonhados.

 

Que dá ritmo a meu vir, move meus passos/pelas ruas destino vivo-e-morro?/Que me desvive e perde entre fachadas,/casas indiferentes feito rostos

de isentos rasgos e de ausentes almas?/Que me impele, de passo, à casa, à sombra/tão-só afim às outras no ar fechado?

 

Ouço-a (ou me ouço?) respirar. Que há sons/de um coração arquejo e descompasso/transpirando metais, cordas e sopros. 

(Andante de Stella Leonardos)

compartment car de edward hopper

compartment car de edward hopper

 

E permite novas leituras dos velhos textos poéticos.

 

(…) Musa ensina-me o canto

Que me corta a garganta

(in Musa de Sophia)

pintura de Paula Rego

pintura de Paula Rego

Temas duma época: o Verão

Há uma agitação editorial que se associa ao Verão, ao tempo de férias e de praia, expressa por publicações ‘light’, supostamente divertidas e da autoria de ‘famosos’, pela edição de best-sellers de autores já conhecidos, e coisas assim para ajudar a passar o tempo sem o ocupar: a antítese da paixão de ler, realmente.

Enviar SMS's enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Enviar SMS’s enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Ao Verão associam-se temas como as viagens de lazer e descoberta, os regressos e reencontros que trazem memórias de outros Verões, artes de sedução, episódios festivos. Muito para além do registo lamecha ou do pseudo-transgressor, existem bons exemplos de estórias centradas nos encontros e desencontros da época.

Paralelamente, há escrevinhadores que desenvolvem temas mais introvertidos e controversos: a solidão voluntária ou sofrida, a pausa para reflexão, a fuga à rotina ou a imersão na rotina própria da temporada, o tédio existencial e a miragem duma vida-outra.

'Nighthawks', Edward Hopper

‘Nighthawks’, Edward Hopper

Porém, é bom recordar que o Verão não se resume a um período de lazer. No passado longínquo, como no recente, as guerras europeias têm tendência a começar nesta época: primeira e segunda grande guerra, guerras civis de Espanha e da Jugoslávia, para ficar só pelos sec.XX e XXI. E no tempo em que as actividades rurais ocupavam a maior parte da população, os latifúndios exigiam o trabalho sazonal de migrantes em grande número, sendo o tempo de Verão especialmente penoso, ainda que pudesse ser visto numa tonalidade dourada e nostálgica.

Ou seja, trata-se duma época dotada para a escrita que privilegie a ambiguidade, o contraste entre as expectativas e o vivido, onde as personagens podem ser abordadas numa perspectiva caricata e, simultâneamente, humana como é próprio dum certo tipo de ironia.

-Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.

“Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.”

O que traz, no fundo, uma boa dose de complexidade ao enredo, mesmo que se limite ao registo de uns pouco dias de Verão na vida de alguém.

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Ensaios, monografias, memórias, estudos…

Os trabalhos académicos têm suas regras, sua metodologia, quem os escreve é suposto dominar minimamente as exigências formais, até porque recebeu formação nesse sentido e já leu muitos trabalhos do género antes.

Mas o escrevinhador amador, aquele que elege um tema sem ter preparação académica para o auxiliar, como deve fazer?14135233

Pode mesmo pôr-se em questão se o deve fazer, já que lhe falta a dita cuja preparação, mas trata-se de mero preconceito: existe uma longa lista de estudiosos autodidactas, sem preparação académica formal, que se destacaram pelo trabalho de investigação, experimentação, estudo ou divulgação.

Ora, se para a escrita da poesia ou de um romance é muito recomendável ter alguma bagagem literária, para o escrevinhador que desenvolva algum tipo de ensaio, investigação ou simples divulgação, é de simples bom senso que ‘leia tudo’ o que houver para ler antes de publicar alguma coisa.

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Já no post anterior me referi ao ‘à vontade constrangedor’ como se escreve sobre assuntos sem noção de erros, lapsos, confusões, lacunas que até o leitor leigo, mas razoavelmente informado, pode facilmente perceber.

Por vezes, o plágio é evidente, noutras vezes as fontes duvidosas são as mesmas das de outros livros.

Mais frequentemente, o tema é tratado de forma superficial, sem acrescentar nada à literatura que já existe: não há uma ideia, um facto, um enquadramento, nada, absolutamente nada, de novo. Excepto um nível mais elevado de tédio e monotonia (mas aqui estou a pensar naqueles trabalhos académicos que se fazem para cumprir metas).

-Então, a que é que você se dedica? -Sou um troll. Estrago a internet a toda a gente.                 -Este vinho não presta.

-Então, a que é que você se dedica?  -Sou um troll. Estrago a internet a toda gente.                    -Este vinho não presta.

Não penso que sejam géneros mais difíceis do que o poético ou a ficção, longe disso. Mas não permitem a mesma liberdade criativa e os artifícios de estilo, exigindo muito mais do que a simples verosimilhança, tendo de ser claro e transparente na argumentação, capacidade para sustentar ideias e afirmações com algo mais do que raciocínios ou estórias, respeitar a lógica básica e colocar-se a si próprio a questão da fundamentação do que é dito. Por uma questão de credibilidade, claro.

Bem, fácil é que não é, realmente…

Nem poesia, nem ficção.

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

Para lá dos ‘estados de espírito’

Muitas vezes, o trabalho poético do escrevinhador  assenta na crença de que a verdade dos estados de espírito será suficiente para garantir ‘a alma’ do poema, enquanto que a aplicação duma qualquer métrica e sistemas de rimas bastará para a estrutura…e depois há um vocábulo, uma imagem, um efeito que podem ser acrescentados em revisões seguintes. Poderá também dispensar métrica e rima, sempre confiante na inspiração que o domina.

Se a emoção dominar a composição, reforça o risco do excesso, tanto na linguagem, como nas ideias, sem com isso dizer que se torna profundo ou complexo. Os sintomas mais evidentes são a perda de musicalidade, ritmo, clareza, empastelando frases longas (e a divisão da frase nos diferentes versos não a encurta, evidentemente).

-Tudo bem,David.

-Oh,David. Toda a gente sabe que és estúpido. Não precisas de tentar ganhar o campeonato mundial.

Ou seja, há mais preocupação em dizer do que em compor. Mas não será um risco aceitável, o de versejar livremente ao sabor da emoção e do sentimento? Aliás, não será até a característica principal da poesia? A de ser espontânea e vinda do fundo do Ser (ou ‘ do ser’, conforme os gostos)?

Pois, pois…não houvesse tanta negligência por parte dos escrevinhadores-poetas, compondo sem critério, nem auto-crítica.

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Sendo possível o compromisso entre estrutura, emoção (ou sentimento) e critérios (sejam lá quais), o escrevinhador estará a aperfeiçoar a técnica dos futuros poemas. Assim, mais facilmente captará os momentos de inspiração num texto que seja, por sua vez, inspirador.

Passei a vida a amar e a esquecer…/Um sol a apagar-se e outro a acender/nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também…nem eu sei quando… (1)

Pode ser que algumas obras-primas da poesia tenham sido escritas logo à primeira redacção, sem mais do que um ou outro acerto posterior. É possível e é de génio (mas dá muito trabalho). A acontecer, deve ser raro.

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A inspiração, emoção, sentimento, a louca da casa, são fundamentais, mas não dispensam o pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica. Quando combinados, a vida banal do escrevinhador ganha dimensão universal e a poesia, bem…a poesia torna-se força da natureza.

Eventualmente paso días enteros sangrando/(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra/exagerado e implacable como una mujer enamorada./(…)/

No alimentaré a nadie con mi cuerpo/para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo./

Por eso sangro y tengo cólicos/y me aprieto este vientre vacío/y trago pastillas hasta dormirme y olvidar/que me desangro en mi negación  (2)

Madonna (1895), de Edvar Munch

Madonna (1895), de Edvar Munch

 

(1) in Inconstância, do  Livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca

(2) in Eventualmente paso días enteros sangrando, do livro Espejo negro de Miriam Reyes, DVD ediciones

Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

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Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

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Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

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Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

la muse, de jean esparbes

la muse, de jean esparbes

Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Escrever como quem martela ferro frio…

São variados os obstáculos que se põe no caminho do escrevinhador  (bloqueio, inconsistência, desinspiração, etc, etc), faltando-lhe fôlego para animar a obra e dar-lhe ritmo, velocidade, tensão ou qualquer outro ingrediente que provoque a reacção química necessária para que o processo desencadeie.

Claro, tudo isto se pode simular. E simula-se. Com algum trabalho. Mas simula-se. Porque no fundo inspiração talvez não seja mais do que a construção, mais ou menos rápida, de um sistema ou de uma armadilha de palavras que nos prende e nos liberta.(1)

A eterna luta

A eterna luta: levando material daqui para ali.

Na prosa, como na poesia, existe maneira de ultrapassar o problema em termos meramente produtivos: martelando. Que é, no fundo, uma discutível virtude da persistência, da ambição, da vontade, ou o que quer que seja que move o escrevinhador (e que não é, obviamente, a bela Musa).

Você disse que o poeta é um fingidor. Eu o confesso, são adivinhações que nos saem pela boca sem que saibamos que caminhos andámos para lá chegar, o pior é que morri antes de ter percebido se é o poeta que se finge de homem ou o homem que se finge de poeta. Fingir e fingir-se não é o mesmo, Isso é uma afirmação, ou uma pergunta, É uma pergunta, Claro que não é o mesmo, eu apenas fingi, você finge-se, se quiser ver as diferenças, leia-me e volte a ler-se. (2)

"McWit, a tua licença poética expirou

“McWit, a tua licença poética expirou há anos.”

Graças à aplicação correcta das regras gramaticais, do uso de estruturas métricas e/ou de variações estilísticas em moda, copiando a formatação de modelos bem sucedidos, o resultado até pode ser satisfatório, demonstrando conhecimento, trabalho, critério.

Que este método também não é fácil, demonstra-o a legião de ‘marteladores’ justamente ignorados.

Lá de dentro, do fundo da livraria, (…) despegou-se abruptamente esta voz de fúria aflautada:

—É uma besta! Uma grandessíssima besta! Uma besta quadrada!

Bem. Aposto tudo (…) em como estão a falar de um mestre crítico qualquer. (3)

...o Fim

-…o Fim. Bem, hora de dormir. O que estás a escrever?                                 -Uma recensão negativa do livro!

Porém, quando reforçado com recursos não-literários pode obter reconhecimento e sucesso, até um público.

(…) o seu livro não é cano de escorrências muito nauseabundas, nem é canal de notícias úteis, tirante a dos hotéis infamados de percevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo porque custa sete tostões e —vá de calão—como troça e bexiga, é caro. (4)

-És tão ilógica. Nunca conseguiu ganhar uma discussão contra ti! -

-És tão ilógica. Nunca consigo ganhar uma discussão contra ti!
-Não experimentes, nem me confundas com factos.

Invariavelmente, o seu destino é o de se tornar um ‘mono’. Mas, até lá, sempre vai rendendo alguma coisa. De qualquer modo e maneira, já dizia o moralista: sic transit gloria mundi…

Ia (…) tão contente do seu destino de enfeitar selectas, que me apeteceu gritar-lhe, cá de longe, do fundo da inveja irónica do sono escondido:

—Mais depressa, pá! Avia-te! Corre! Enfia pelo futuro adentro! Pois não vês que estão lá todos à tua espera para te dividirem em orações?

Mas contive-me. (Se for como tu e como os teus versos, há-de ser fresco, o futuro!)  (5)

"

“Vamos acrescentar mais umas banalidades. Este é um discurso reconfortante e as frases feitas são um alimento de conforto verbal.”

 

 

(1)in Duas respostas a um inquérito de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(2) diálogo entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, já falecido, in O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago ed.Caminho

(3)in Grupos, grupinhos e grupelhos de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(4)recensão do livro Portugal à Vol d’Oiseau daPrincesa Ratazzi in A Senhora Ratazzi de Camilo Castelo Branco, incluído na Boémia do Espírito ed.Lello e Irmão

(5)in Meditações sobre a estratégia da glória de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes.

 

Por mares nunca antes navegados, Luís Vaz?! Tens mesmo a certeza?

Poderá, ainda, haver a ilusão de ser original depois de dezenas de séculos de Literatura? Homero escreveu sobre a atribulada odisseia* marítima de Ulisses no regresso a casa, Camões descreve a viagem marítima de Gama à Índia, Joyce escreveu Ulysses relatando um dia na vida de um tal Leopold Bloom e Gonçalo M. Tavares relata a viagem à Índia do mesmo Bloom do livro de Joyce.

'EDITORA DO 1º SÉCULO' título do livro A vida de Cristo -Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

‘EDITORA DO 1º SÉCULO’
título do livro:”A vida de Cristo”
-Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

Homero remete para uma anterior obra, Ilíada (que fala dos acontecimentos que explicam a longa ausência de Ulisses) e é, obviamente, devedor de toda uma tradição narrativa mitológica e náutica; Camões é um expoente da tradição épica iniciada pela Ilíada e é, especialmente, tributário assumido do modelo da Odisseia; no Ulysses, Joyce desenvolve a narrativa e seus personagens principais em paralelo com os acontecimentos e personagens da Odisseia; Tavares vai ‘buscar’ o personagem principal de Ulysses e transporta-o para uma viagem que tem, por sua vez, assumida inspiração nos Lusíadas.

Por vezes, no espaço de 20 anos apenas, de Lisboa a S.Petersburgo, passando por Yonville l’Abbaye, surgem personagens literários que partilham idênticos fados, como são Emma Bovary, Ana Karenina e, menos famosa mas igualmente exemplar, Luísa Mendonça de Brito Carvalho.

-Diz algo ORIGINAL.
-Amo-te!
-A originalidade está sobrevalorizada.

Na altura da morte de Emma, o farmacêutico  Homais faz um balanço final:

(…) ou ela morreu em estado de graça (como diz a Igreja), e então ela não tem necessidade nenhuma das nossas orações; ou bem que ela morreu impenitente (que é, creio, a expressão eclesiástica), e então…” (1)

A respeito de Ana, a condessa Vronskaya não tinha dúvidas:

“Diga o que disser, a verdade é que era uma mulher má. Pode compreender uma paixão assim? Que quis ela demonstrar com aquela morte? Perdeu-se a si mesma e estragou a vida de dois homens, qualquer deles de grande mérito: o marido e o meu infeliz filho.” (2)

De Luísa diria o imortal Conselheiro Acácio:

Detendo-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa tão cedo arrancada às carícias do seu talentoso cônjuge. Ali soçobrou, como baixel no escarcéu da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu lar! “(3)

A ela se referiu, também, o Visconde Reinaldo:

(…) mas a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toalete… que diabo! Era um trambolho!“(3)

Pela própria universalidade da condição humana dos escrevinhadores, podem-se listar tradições literárias, sem aparente relação entre si, a tratarem os mesmos temas. 

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!... -Pois fique a saber que penso exactamente igual!

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!…
-Pois fique a saber que penso exactamente igual!

Em nenhum dos casos citados acima há o menor risco de plágio, mas existem notórias evidências de criação e génio literário a partir da ‘contaminação’ de temas, estilos e enredos duma tradição livresca que, desde há muito, se expandiu para outras formas de expressão artística, tornando-se uma referência cultural que, cada vez mais, não passa pela leitura, nem pelo reconhecimento das fontes originais.

-O que disse César quando Brutus o apunhalou? -Ai!

-O que disse César quando Brutus o apunhalou?
-Ai!

É nesse sentido que falo nos ‘novos mundos’ que se abrem: abordando temas que julga serem íntimos, únicos, por terem sido vividos ou por qualquer outro motivo, o escrevinhador irá inevitavelmente encontrar ‘cidades antigas’ em territórios que julgava virgens da presença humana,  assim como descobrirá vestígios de anteriores ‘exploradores’.

O triste é se nem se dá conta de estar a trilhar um caminho bem conhecido. E, para cúmulo, nem tendo consciência do quanto é devedor daqueles que por ali passaram primeiro.

* originalmente, o nome de Ulisses em grego é Odysseus, pelo que ‘odisseia’ significa a ‘história de Odysseus’ e, mais tarde, passou a significar viagem de aventuras e acontecimentos extraordinários.

(1) in Madame Bovary de Gustave Flaubert

(2) in Ana Karenina de Leão Tolstoi trad. João Netto

(3) in O Primo Basílio de Eça de Queirós

Método e improviso

O tempo e esforço dedicados ao plano da obra podem garantir, por paradoxal que pareça, a liberdade e espontaneidade ao longo da sua execução.

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Já aqui trouxe alguns exemplos de livros que podem sugerir, ao leitor mais apressado e impaciente, uma verdadeira cacofonia, desordem e ausência de um fio condutor.

Porém, são obras de um rigor tanto mais extraordinário quando, depois do leitor se aperceber da complexa organização do enredo, o confronta com a torrente de vozes, diálogos, frases soltas, pensamentos, à partes, estranhos vocábulos, tópicos e personagens que formam o texto e dão vida à estória.

O plano funciona como um mapa e bússola que liberta a atenção do escrevinhador para os detalhes, os efeitos sonoros, a recriação oral, as anedotas.

se os escritores fossem medicos - drummond

No meio do caminho
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra”
Carlos Drummond de Andrade

Se o tema é fundamental, o modo como se conta a estória e os artifícios da escrita marcam a diferença entre autores que escrevem sobre o mesmo tema, por vezes a mesma estória com as mesmas personagens.

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Limites do estereótipo, ilimitados horizontes da literatura

Como bem repararam leitores deste blog, provavelmente vivendo noutras latitudes que não a minha, o mês de Dezembro pode significar mais calor, mais horas de luz solar, sendo fim-de-ano e época de Natal na mesma. O que ilustra na perfeição como somos condicionados pelo nosso pequeno mundo e pelos estereótipos dominantes.

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Pergunto, então, como é que a literatura tem lidado com a quadra nessas latitudes mais baixas? Quase arrisco dizer que não é tópico muito relevante, mas confesso minha ignorância.

Certamente, a tradição do presépio e das estórias associadas estão vivas e presentes em contos, poemas, mas…qual será a tendência nestes últimos, vá lá, 50 anos*? O imaginário comercial do Papai Noel, do pinheiro enfeitado e da neve artificial não me parecem suficientes para inspirar a criação literária, mas podem ter o efeito de esterilizar a tradição.

-Quem és tu e porque haveriamos de querer uma foto dele contigo?

-Quem és tu e porque haveríamos de querer uma foto dele contigo?

Mesmo assim, continuo a ter uma perspectiva naturalmente etnocêntrica, pois nada digo daquelas regiões onde boa parte da população, senão mesmo a grande maioria, não partilha o imaginário cristão, nem o calendário gregoriano. Será que suas literaturas orais e escritas estão completamente alheias aos temas de Dezembro?

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Volto a repetir a minha absoluta ignorância sobre tudo isso, mas adivinho aqui excelentes temas para um escrevinhador aprofundar e desenvolver.

* Ou década de 60 do sec.XX, em que a Televisão iniciou a conquista de todos os lares (para não dizer de todas as divisões da casa)
 e de todo o espaço público.

Renovar

Como me venho repetindo frequentemente (sim, sou mesmo chato…), um dos benefícios de uma cultura bibliográfica razoável está no apuro do sentido estético do escrevinhador, levando-o a confrontar a sua mesquinha produção com os gloriosos textos dos grandes autores.

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Não se trata dum exercício masoquista, nem é o meu modo de atirar para o desespero e para o silêncio a esmagadora maioria de nós, aspirantes à Fama e à Fortuna, mas o uso do bom senso que alia o prazer da boa leitura com a prática da auto-avaliação construtiva.

Isso não dispensa que sujeite os seus escritos à leitura de duas ou três boas almas, de preferência gente com algum critério literário, assim como sinceridade ingénua e brutal.

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“Infelizmente é a palavra deles contra a sua.”

Certamente, o escrevinhador ganhará mais do que algumas equimoses na auto-estima, mas na condição de não retaliar denegrindo as boas almas depois da apreciação feita. Principalmente, deve desconfiar se elas se limitarem a considerações muito gerais e a pancadinhas nas costas: a crítica deve expor seus argumentos.

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O tempo depois ajudará a ler o que escreveu, provavelmente com menos compreensão e simpatia, mas mais rigor. E a ponto de duvidar ter sido ele mesmo a escrever ‘aquilo’.

Tudo isso é progresso, evolução, amadurecimento.

Ou, retomando um dos temas da época: a promessa de renovação nestes meses em que a natureza parece adormecida.

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O Fim do Tempo

Último mês do calendario, final do ano, Dezembro suscita reflexões, alegorias e narrativas sobre temas densos como a finitude, a velhice e a morte (e eu já aligeiro o assunto evitando maiúsculas).

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FIM
“Ele era um grande escritor”.

São temas recorrentes suscitados pelas longas, geladas noites, pelos dias curtos e cinzentos, pelas festividades que apelam aos laços familiares e recordam aqueles que ‘o tempo levou’. Como no famoso conto A Christmas Carol de Charles Dickens, a época é propícia a balanços existênciais e ao correspondente saldar de contas (enquanto é tempo…).

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Aí coloca-se o escrevinhador num terreno traiçoeiro: o de lidar temas que mexem com memórias antigas e questionam sua identidade. Frequentemente, ele tropeça e estatela-se numa escrita lamecha, confusa, confessional.

Lamecha porque escorrem lágrimas e ecoam suspiros a cada evocação dum ente querido da infância ou dos momentos irrepetíveis; confuso porque são as emoções que dominam a composição, prejudicando forma e conteúdo; confessional porque reduz-se ao desabafo. 

a Arte da Conversação lição 7: se em algum momento ao longo da conversação pensares: ‘-Estarei a falar demasiado sobre mim?’ então a resposta é ‘SIM’.

Os temas podem ser expressos de modo azedo, melancólico, desesperado, saudosista, amargo, pessimista, e são numerosos os exemplos de grandes textos literários assim escritos. A questão não é essa.

Como em tudo o mais (nisto da escrita, claro está), o escrevinhador deve ter a preocupação de comunicar, desenvolvendo os temas de modo a envolver o leitor. E é aqui que volto a lembrar o discurso de Cecília Meireles citado num post anterior: ‘A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta (…) aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer.’

Dito isto, desista o escrevinhador de procurar álibis para cometer o mais hediondo dos crimes literários: matar o leitor de tédio, por desleixo da capacidade autocrítica.

"A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo."

“A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo.”

Ou dele se poderá dizer o que alguém disse do Dantas: O Dantas é a meta da decadência mental!/E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!/E ainda há quem lhe estenda a mão!/E quem lhe lave a roupa!/E quem tenha dó do Dantas!/E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! (in Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros)

Temas duma época: Dezembro

Duma forma simples e directa, o escrevinhador sente-se interpelado, ou inspirado, pelo simples calendário pendurado numa parede de casa. Se há meses sugestivos, Dezembro pode ser o maior para muita gente: entre poemas e contos, desconfio que nenhum mês é mais prolífico enquanto tema literário.

Pintura de Katsushika Hokusai

Pintura de Katsushika Hokusai

Assim, de repente, qualquer pessoa associa a trilogia ‘natal-passagem de ano-inverno’ ao mês de Dezembro, e cada um desses três temas é um continente que se basta a si mesmo. Aqui está um desafio interessante para quem anda à procura de inspiração, de ideias ou assunto.

...

-Aqui está o Ano Novo, pequeno 1907. Toma. Leva-o.

Já ter lido alguma coisa sobre estes temas ajuda (ler ajuda sempre!), até porque todos partilhamos ideias feitas, estereótipos, a respeito destes mesmos temas sem termos, na maioria das vezes, noção de o serem e, geralmente, sem ter qualquer perspectiva sobre o legado literário donde nos chegam essas mesmas ideias, adaptadas, simplificadas, alteradas, através de filmes, canções, estórias orais e, cada vez mais, através da publicidade e campanhas comerciais características da época.

Que empresa nos vai patrocinar este ano, mãe?

-Que empresa nos vai patrocinar este ano, mãe?

Ora, conforme já o disse antes, não é tanto contra o estereótipo em si que o escrevinhador se deve precaver, mas o facto de o desconhecer. Porque falar do nascimento duma criança como sinal de esperança e promessa de salvação, da passagem inexorável do Tempo ou do ciclo da morte e do renascimento serão temas velhos, bem conhecidos, tratados já de todas as maneiras concebíveis (não que eu acredite nisso), mas o modo como o escrevinhador desenvolve estes temas pode ser, no mínimo, ‘refrescante’ se souber contaminá-los com algo que seja irredutívelmente ‘seu’.

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E aí, sim, o escrevinhador mete-se em trabalhos e expõe-se a grandes perigos…

‘Quem conta um conto, acrescenta um ponto’

 O escrevinhador pode facilitar a sua ‘tarefa’ escrevendo pequenas estórias onde oferece ao leitor outras tantas perspectivas singulares da realidade comum às personagens que nela vivem e se cruzam. Podem ser narrativas independentes, mas ganham dimensão e sentido lidas em conjunto. Esta é uma dica que tem exemplos notáveis.

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Na tradição literária europeia, duas grandes obras, ambas do sec.XIV, utilizam a técnica de recitação de contos através de personagens reunidos num contexto excepcional: O Decameron de Bocaccio e Os Contos da Cantuária de Chaucer.

Cada um destes livros apresenta um determinado número de narradores que se propõem contar uns aos outros uma estória.

No caso d’ O Decameron, os narradores obedecem a um tema (que irá variar dia após dia ao longo dos dez dias que são a origem do título da obra, incluindo dois dias de tema livre), à excepção de um narrador (sempre o mesmo), que tem a liberdade de optar pelo tema que lhe apeteça. Cada conto é independente dos outros, embora possa haver referências e cruzamentos, já que o material literário assenta na tradição medieval e outras mais antigas e exóticas.

Os Contos da Cantuária utilizam uma estrutura semelhante no contexto duma viagem de peregrinos, com a notável diferença das estórias reflectirem a condição social dos narradores (o moleiro, o frade, o cavaleiro, a esposa, a freira, o mercador, etc), tanto na linguagem, como no tratamento dos temas. Alguns narradores, inclusive, exprimem antagonismos recíprocos ao longo das suas estórias.

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O mais interessante, para aquilo que neste blog se trata, está no modelo de curtas estórias que, na sua sucessão, exprimem a visão do autor sobre a vida social, a cultura e costumes, do seu tempo.

Sem pretensões moralizantes, edificantes ou condenatórias, ambas as obras celebram a expressão escrita em ‘língua vulgar’, em contraposição ao uso do Latim, falando das pessoas comuns e da vida quotidiana, polemizando, criticando ou elogiando através de diferentes vozes, o que as relativiza e afasta qualquer propósito de apresentar ‘uma’ verdade ao leitor.

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Graças à estrutura como os contos são apresentados, a sua leitura tem um valor acrescido à da leitura conto a conto, pois há uma história subjacente à recitação dos contos, e é essa história que permite outras leituras, outros horizontes muito além do que cada conto pode oferecer. Na verdade, esses horizontes nem são oferecidos a quem leia todos os contos, se prescindir da leitura do texto que os enquadra e lhes dá sequência.

RESSACA DO LIVRO incapacidade para começar um livro novo porque ainda estás vivendo no mundo do anterior livro

RESSACA DO LIVRO
incapacidade para começar um livro novo porque ainda estás vivendo no mundo do último livro

Quando a bela Musa se deixa seduzir por esta técnica, abre-se ao próprio escrevinhador um outro horizonte: o da evolução para outras estruturas narrativas, comummente conhecidas por ‘romance’ e ‘novela’.

A força do estereótipo

No tempo em que minha filha era pequenita, ela tinha de memorizar uns poemas ou cançonetas para recitar na escola diante de toda a turma. Além do nervoso miudinho de se expor ao ridículo, havia a dificuldade de memorizar todo o texto; quando achava que estava minimamente preparada vinha ensaiar para mim e, geralmente, fazia-o numa toada qualquer que a professora dera na apresentação do trabalho.

Esse é um dos vícios mais comuns de escrita, o de reproduzirmos esquemas que são habituais em determinadas situações e enredos. A esse vício chama-se estereótipo, numa alusão explícita à impressão em série da mesma imagem ou texto (também usamos o galicismo cliché com o mesmo sentido).

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Ora, nada é menos estimulante do que ouvirmos a enésima reprodução duma qualquer abordagem narrativa (seja a dum belo pôr-do-sol que traz melancolia e/ou paz ao espírito, seja a da rapariga má que estraga a vida ao casal tão feliz).

A massificação da produção artística, a sua industrialização, não só na literatura, como no cinema e na televisão principalmente, exploraram os estereótipos ad nauseam. As redes sociais na internet tornaram-nos um problema público de higiene mental.

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Porém, a literatura permite uma autonomia e resistência frente a esse condicionamento cultural que leva a colocar um (in)evitável adjetivo logo a seguir a determinados substantivos (tipo a “lua prateada” e o “sol dourado”). E permite-o porque nós, escrevinhadores, somos criaturas que podemos trabalhar por conta própria, na solidão, no anonimato, fazendo deste modo de vida uma paixão pela bela Musa.

À minha filha, após ela ensaiar a recitação ou cançoneta, sugeria-lhe para repetir, mas dessa vez como se estivesse muito, mas muito feliz. E, a seguir, como se estivesse triste, mas mesmo muito triste. E muito zangada, depois.

Chiclete com Banana

No dia seguinte aquilo acabava por lhe sair bem, dentro do modo convencional e politicamente correcto. E nós divertíamo-nos até às lágrimas nos ensaios; ao nosso modo, tentávamos desconstruir modelos consagrados.

Escrever como duvida

Há temas mais aliciantes do que outros, concedo, mas o critério é pessoal e o que se possa dizer sobre o assunto é meramente estatístico (mais gente gosta do tema x do que do tema y).

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Também há muito autor que estraga bons temas pelo modo banal como lida com eles. Na verdade, o tratamento do tema é que faz a diferença, muito mais do que o tema em si.

É importante o escrevinhador conhecer o modo como o tema já tem sido desenvolvido ao longo dos tempos, como tem sofrido variações. De outro modo arrisca-se ao anacronismo, a produzir textos que são variações de leituras focadas num outro tempo (ou, pior ainda, que são reflexo duma mente anquilosada) sem a frescura da sensibilidade contemporânea.

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Daí a utilidade do diálogo e debate crítico, menos ao estilo dos palestrantes que têm muito a dizer e mais ao modo de quem quer escutar e levantar questões. Para haver polémica frutuosa tem de haver diálogo e dúvida.

"-Harris, quando eu disse "alguma pergunta" estavaa usar uma figura de estilo."

“-Harris, quando eu disse ‘alguma pergunta’ estava a usar uma figura de estilo.”

A escrita, quando amadurecida, torna-se inquietante mesmo sem querer. Talvez porque seja, também, uma desconstrução de certezas e modelos. Porque os põe em causa?! Não necessariamente.

Rumo, contingência e metamorfose da narrativa

Acumular dados para suporte da narrativa, anotar esquemas de possíveis desenvolvimentos, caracterizar personagens com rigor biográfico e/ou detalhe clínico, auxiliado por fotos dos ambientes a descrever, tudo isso revela trabalho de investigação e esforço de conceptualização.

Com o desenvolvimento da obra, podem ser elementos úteis para ancorá-la aos propósitos iniciais, ou para perceber onde e quando começaram, personagens e enredos, a ganhar vida própria e a impor sua verdade, seu tempo, seu espaço.

Observador Australiano: "...interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água."

Observador Australiano: “…interrogatório suspenso às 0235 enquanto o suspeito bebe um gole de água….”

Tratando-se duma obra ‘cerebral’ (didáctica ou memorialista, p.ex.), o esforço em conter os limites do tema, mantendo-o no rumo inicial, faz sentido e é pertinente.

Porém, todo o projecto é sujeito às contingências do Tempo (o distanciamento e a maturidade do escrevinhador podem mudar as perspectiva iniciais, ou o mundo deu mais algumas voltas, entretanto) e às metamorfoses da Verdade (quanto se aprofunda qualquer assunto, mais se percebe o que se desconhece e o que se dava por garantido à partida, revela-se incerto).

"Esta onda de calor tem sido brutal...toda a parte alta da cidade está desinundada..."

“Esta onda de calor tem sido brutal…toda a parte alta da cidade está à tona da água…”

O envelhecimento precoce dos livros é um risco tanto maior quanto o seu autor é indiferente (ou desatento) às variações possíveis do tema, sinal inequívoco de miopia intelectual ou de falta de preparação.

Também pode ser um acto assumido: aproveitar a espuma dos dias que cedo se desvanece, com um propósito quase fotográfico. Ou sociológico. Ou meramente ‘comercial’.

470 a.C: Sócrates responde às difíceis questões sobre a vida
Sócrates: Assim, se o jogador que recebe a bola está atrás do último defesa quando a bola é jogada…

A ter em conta, quando escrever…

"Queridos Mãe e Pai. Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade de me tornar uma escritora."

“Queridos Mãe e Pai: Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade que tivesse de me tornar uma escritora.”

Três tópicos para abordar a escrita de não-ficção: explicar, temperar e vaguear. Juntos ou em separado:

– a pessoa que se propõe escrever tem algo para dizer a propósito de alguma coisa, então convém que se explique ao que vai, como vai, porque vai, e outras minudências que podem incluir ainda o “porquê” ele, autor, a escrever sobre tal ou tais coisas;

– o modo como lida com o tema e outros temas que traga a propósito, o tom e o ritmo como aborda temas e como os relaciona, passando duns para outros, até à (in)conclusão final;

– a objectividade no tratamento dos temas, avançando para uma conclusão anunciada desde o início ou que o enredo vai construindo. Em qualquer dos casos acumulando factos, desenvolvendo raciocínios, citando testemunhos, estudos;

– ou a descarada subjectividade de quem fala seriamente em alhos, jamais esquecendo a importância dos bugalhos, estabelecendo afinidades, antagonismos, relacionamentos, cumplicidades, que tanto podem estar subjacentes à realidade de uns e de outros, como podem depender (quase) exclusivamente da sensibilidade de quem escreve.

Conta a experiência de vida do autor? Como não poderia contar? Para o melhor, ou para o pior, a experiência de vida de cada autor está presente de modo indelével. Até para aqueles autores moralistas, celibatários e castos, que escrevem longamente sobre as virtudes (e os perigos, claro) do amor conjugal, da vida sexual a dois, da educação da prole e outros temas assim.

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E conta, claro, a inevitável cultura, seja académica, seja bibliográfica, seja pelo convívio com outras criaturas da mesma espécie, humana ou outra. Dito de outra maneira: é preciso aprender, é preciso ler, é preciso debater. Sem dúvida, viver plenamente a vida ajuda muito. Mas isso leva a outras discussões, a começar logo pela própria pertinência e sentido desse “viver plenamente”.

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Não se trata aqui de apresentar receitas, sempre insisto em lembrar, mas de sugerir que a escrita goza duma extraordinária liberdade formal, se bem que não isente o seu autor das consequências.

Não importando agora falar das leis contra a difamação ou para proteção da moral e dos bons costumes, nada, nem ninguém, livra o autor da asneira sem o rigoroso trabalho de investigação a desenvolver pelo próprio, temperado pelo exercício saudável e profilático da autocrítica. E, mesmo assim…

Escrever como quem vagueia

Caminhos escritos com um horizonte longínquo cada vez mais perto, mas ao qual nunca chegamos. E a que sempre regressamos. O pretexto como se desenvolvem outros temas à volta do tema central, numa espécie de peregrinação ou viagem cujo destino final é conhecido, mas que o leitor nem pode imaginar qual seja sem chegar ao fim. Paradoxal? Claro que sim. 

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“Nenhum autor foi ferido ou maltratado na preparação desta história.”

Neste caso, o livro que me ocorre com mais nitidez é um outro título falsamente “geográfico”: Danúbio, de Cláudio Magris (ed.Quetzal). Bem, talvez eu esteja a exagerar um pouco, afinal o início do livro coincide com o início do rio Danúbio (a busca da nascente mítica e a verdadeira); e depois acompanhamos o autor ao longo do curso das águas (quase 2900 km) até à foz.

Mas cedo descobrimos que o rio é pretexto, senão metonímia,  duma aventura cultural: a cultura centro-europeia (Mitteleuropa).

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E até as longínquas águas do Tejo reforçam a corrente da bacia cultural do Danúbio: “Utilizar o termo ‘empregado’ como uma injúria não passa duma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. Este não se parece com Aquiles ou Diomedes, que se enfurecem nos seus carros de guerra, mas antes com Ulisses, que sabe não ser ninguém”. 

E mais adiante, continua: “Kafka e Pessoa viajam não até ao fim duma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a essa consciência, uma extrema resistência da verdade.” O curioso contraponto que estabelece à ‘viagem’ de Kafka e Pessoa são a banalidade do mal, a guerra total, a mentira odiosa, a hipocrisia.

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Mas não é do Danúbio que falamos? Não te impacientes, leitor(a): o homem é um professor de Línguas e Literaturas Germânicas e desce a corrente do rio para nos propor conhecer uma paisagem menos evidente. A dado passo diz que para o autor romeno  Mihail Sadoveanu, é “…como se o Danúbio levasse para o mar e espalhasse à sua volta, galgando as margens, destroços de séculos e de civilizações.

Remota fronteira do Império Romano, fronteira belicosa entre os Impérios Austro-Húngaro e o Turco, fortíssima corrente que une países, que nem assentam nas suas margens, numa história comum, este rio imenso arrasta o autor para as águas que lhe são familiares e preferidas, e com ele o leitor que se deixe fascinar por esta viagem pela cultura europeia.

Em sua defesa, a citação do austríaco Franz Tumler: “Escrever sobre o Danúbio não é fácil, porque o rio flui contínuo e indistinto, ignorando as proposições e a linguagem que articulam e cindem a unidade do vivido.”

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Há quem escreva como quem navega, bússola e mapas debaixo do olho, rumo ao incerto horizonte.

E quem escreva como o rio que vagueia sinuoso, depositando sedimentos aqui, arrastando tudo nas águas violentas ali, desaparecendo da superfície por momentos, e logo reaparecendo mais adiante. Por vezes, sua nascente perde-se no tempo, assim como desagua no mar através dum delta tão variável, quanto impreciso.

Ou como contava aquele empregado do patrão Vasques: “Devaneio entre Cascais e Lisboa. (…) Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação dessas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho do visível. (…) O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.” (Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

 

Regressando mais uma vez à primeira das Grandes Questões Existenciais…

Existem inúmeros exemplos de obras escritas por “não-especialistas” que tiveram (têm) merecido reconhecimento. E, mais uma vez, insisto: só o escrutínio crítico permite perceber se a obra tem qualidade. Esse escrutínio exige a apreciação, entre outros, de especialistas na área que o autor se propôs escrever.

Apesar de não me ter transmitido qualquer intenção de escrever sobre fósseis de dinossauros, um senhor que conheci há poucas semanas, da Lourinhã, falou-me com entusiasmo da colecção dos fósseis que recolhia quando trabalhava no seu campo agrícola.

Também me falou do espanto duma “doutora da Câmara” que lhe terá dito que ele acumulava mais exemplares num dia do que ela (e a sua equipa) durante um ano. Ainda que ele percebesse haver ali uma velada crítica, creio que nem compreendeu a ironia da “doutora”, nem as razões metodológicas que a obrigavam a ser tão menos produtiva. Por isso temo pelo dia em que este “paleontólogo” se entusiasme em escrever sobre os seus achados…

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

…E daí ao sentimento de injustiça de que “ninguém” se dê ao trabalho de falar, bem ou mal, do livro, vai um passo.

Mas com a quantidade de livros e textos publicados sobre qualquer assunto, como pode o desconhecido não-especialista atrair a atenção dos críticos e dos especialistas? Pois, não precisamos de recorrer a teorias de conspiração para responder: é mera questão retórica.

Por isso, percebo que quem escreva tenha muitas vezes o escrúpulo de se justificar quando não detém um título académico ou profissional. Se até António Aleixo justificou suas Quadras:

Peço às altas competências/Perdão, porque mal sei ler,/Para aquelas deficiências/Que os meus versos possam ter./(…)/Eu não tenho vistas largas,/Nem grande sabedoria,/Mas dão-me as horas amargas/Lições de filosofia. “

Nos acanhados mundos académicos e literários, o intruso fica exposto ao enxovalho ou ao desprezo militante. Que podem, ou não, ser merecidos.

Mas essa é a ecologia típica da selva editorial, e nem me vou estender aqui a falar da situação diametralmente inversa: a do sucesso da mediocridade e da incompetência graças à boa “crítica” dos media, à “boa” imagem mediática do autor e aos bons amigos que dão um “empurrãozinho” na promoção estratégica do autor/livro.

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questões de método ( e de princípio)

Obras de não-ficção são, por exemplo, os relatos de viagem ou ensaios temáticos.

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Alguns amáveis leitores  deste blogue estão em vias de escrever (ou já estão em fase de elaboração)  livros que se enquadram numa destas categorias e levantam questões curiosas, das quais destaco as seguintes, reformulando-as um pouco:

-é legítimo “apimentar” o relato com alguma ficção, e sendo legítimo, deve-se assumi-la como tal ou mantê-la em segredo?

-faz sentido acompanhar o relato com informação didáctica (tipo História, Geografia, Etnologia, etc)?

-a fotografia será fundamental para o “êxito” dum livro sobre viagens?

-um ensaio deve começar com a apresentação do assunto a desenvolver?

-o autor deve revelar as razões porque se dedica a tal tema, não tendo actividade académica ou profissional que o justifique?

-o autor pode, ou deve,  incluir um lado pessoal, autobiográfico, sobre um assunto mais geral? Ou, pelo contrário, deve manter uma linha objectiva no desenvolvimento do assunto, sem personalizar?

Nos próximos posts darei a minha perspectiva sobre cada questão, mas desde já antecipo a minha máxima favorita: vale tudo e nada está garantido. Na literatura, bem entendido.

"Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas."

“Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas.”

A escrita de ficção e a escrita de não-ficção serão assim tão diferentes?

Às vezes sou agradavelmente surpreendido com a leitura dum livro que me impressiona de diversas maneiras: traz um assunto radicalmente novo para mim, dá informação suficiente para me informar e poder documentar posteriormente, prende a atenção com o ritmo da narrativa, balançando a natural expectativa do resultado final com as peripécias do protagonista, e concluindo de modo a não só não decepcionar, como a motivar-me a saber mais sobre o tema.

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Posso estar a referir-me a um livro de ficção como Nome da Rosa de Umberto Eco: o tema das grandes abadias medievais e o seu papel na preservação de livros antigos, através do custoso trabalho dos monges copistas, a que se associa um livro perdido de Aristóteles sobre o riso, do qual só podemos especular o conteúdo.

Outro tema, menos explícito mas fundamental, é o da força extraordinária das ideias e do conhecimento sobre as paixões dos homens eruditos (e aparentemente cerebrais, racionais). Ou vice-versa.

Mas também posso referir um outro livro, sem ser de ficção ou ter pretensões literárias, em que o autor relata como, no decurso das suas actividades profissionais na Etiópia do anos 80 do sec.XX, foi tomando conhecimento das tradições religiosas e míticas desse país, visitando monumentos históricos e localidades (The Sign and the Seal, de Graham Hancock, que em Portugal foi traduzido sob o título Em busca da Arca da Aliança)

Tempos depois, já na Europa,  Graham Hancock decide regressar à Etiópia (mas em circunstâncias dramaticamente diferentes) para aprofundar a investigação que, entretanto, todo aquele conhecimento lhe suscitara. E o livro prossegue numa excitante mistura de aventura, conhecimento e expectativa, abrindo ao leitor novos horizontes, abordando a história antiga e recente dum país algo remoto, senão mesmo desconhecido. Tudo isto através duma narrativa cuidada, dinâmica e estimulante.

No Nome da Rosa, o autor constrói um cenário, um enredo e seus personagens, tendo como base temas “pesados”, demasiado afastados das preocupações e sensibilidades comuns: filosofia antiga e medieval, história medieval, mentalidades, usos e costumes de monges medievais. Alguém acredita que o autor deste livro terá alguma vez tido a ousadia de sonhar que viria a ser um best-seller?

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No Em busca da Arca da Aliança, o autor “limita-se” a relatar o que se passou em determinada altura da sua vida, dando-nos o contexto pessoal e o do país, utilizando como técnica “obrigar” o leitor a acompanhá-lo na sua busca, partilhando dúvidas e perplexidades, sua ansiedade, seus pensamentos, fazendo o leitor escutar os diálogos que teve em certos momentos e levando-o a ver o que seus olhos viram, tudo numa sequência cronológica normal.

E como estamos a falar da Etiópia, de sua história, religiões, mitos e tradições, em que abundam mosteiros, livros e monges, também nos podemos questionar sobre a sanidade mental do seu autor (para não falar do editor), ao acreditar que um livro assim poderá ter algum interesse para além de meia-dúzia de leitores algo estranhos.

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Antes de se tornar um grande filósofo, Descartes trabalhou para o sector público.
Legenda no mapa: “Você está aqui, logo você existe.”

Tautologias

Volta e meia surge a notícia de alguma grande editora ter recusado a publicação duma determinada obra por razões de falta de qualidade, muito reduzida perspectiva de vir a ganhar leitores, falta de oportunidade editorial, ou outra dessas razões que qualquer autor já recebeu por escrito após envio da cópia dum livro acabado de concluir.

Se é notícia, é porque o livro recusado é, nem mais, nem menos, uma qualquer obra-prima da literatura, sob disfarce de um outro título e autoria. E o que o autor da brincadeira pretende demonstrar é a falta de seriedade e profissionalismo das editoras.

-Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?

“Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?!”

Mas também revela a sensibilidade destas para o gosto dominante do público leitor. Aí, talvez as editoras não estejam tão enganadas assim: muitas das obras que o público aprende a venerar, e até aprecia genuinamente, só merecem essa atenção porque o autor já é um autor consagrado. E o fetichismo dos leitores pelos prémios literários e/ou pelos “best sellers” não deixa dúvidas a esse respeito.

Ou seja: os bons autores são os que têm fama de o ser e os títulos que se vendem melhor são os que têm mais procura.

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Felizmente, bons novos autores vão surgindo, mesmo que misturados num número imensamente maior de novos autores medíocres. A ecologia da literatura nunca foi um Jardim do Éden, e a proliferação de novos títulos/autores com a publicação em formato digital e para a net, não irá favorecer a qualidade da escrita ou apurar o gosto pela leitura.

Nem se espere do obscuro escriba deste blog a solução para o eterno problema da quadratura do círculo.

Poesia e estados de ânimo

A nostalgia do tempo perdido, será esse o tema da poesia? Da dor, da perca, da separação, do repúdio. (ver nota 1)

Há quem desenvolva elaborado misticismo à volta da Saudade. E diga que é um tema nacional.

Como se não houvesse poesia alegre, sensual e toda virada para o presente. (ver nota 2)946588_596544917036820_1077050884_n

 

Música e polifonia na construção do texto

Mazurca para dois mortos, de Camilo José Cela, assenta sobre um texto “oral” dum narrador obscuro, “perdido” entre vozes que vêm a propósito de algo que o narrador acaba de dizer. (ver nota 1)

As “vozes” acrescentam peças ao mosaico (ou ao tema musical, provavelmente) que o leitor terá de montar para concluir o livro. Deste modo, o leitor demorará algum tempo a perceber se há enredo, e havendo, qual seja.

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A forte componente poética do texto associa-se à verbalização incontinente de tantas vozes distintas, todas marcadas fortemente pela língua galaico-portuguesa e pelo imaginário rural do noroeste peninsular, carregando consigo pequenos episódios da vida de pessoas que se vão revelando por fragmentos de suas vidas.

Num registo (aparentemente) circular, formam um texto da maior beleza e harmonia, riquíssimo, fiel ao registo histórico duma época, e simultaneamente intemporal. (ver nota 2)

Por tudo isto, o livro exige do leitor a entrega e a participação na composição, como se fosse mais um dos dançarinos desta mazurca. N’ O Malhadinhas, o narrador desenvolve uma história linear, ainda que volta-e-meia pontuada por reflexões ou à partes; no Grande Sertão: Veredas, o narrador anda perdido nas suas reflexões e memórias, mas o enredo progride até à inevitável conclusão.

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Na Mazurca para dois mortos, o processo é menos evidente dada a polifonia das vozes que se “intrometem” no discurso do narrador, o qual, além de discreto também é vago, dando a ilusão de acumular repetições, quando, na verdade, acrescenta mais um ponto ao conto. (ver nota 3)

Porém, o enredo torna-se claro, dando sentido ao título e a conclusão (previsível a partir de certo ponto) é completada por um “anexo” totalmente alheio aos recursos estilísticos do resto do livro. Anexo, aliás, que é um texto com a  rigorosa formatação técnica do seu género, e por isso surpreende.

Deste modo aparentemente simples e desordenado,  uma estrutura complexa e de grande risco para o autor se vai revelando e permite aceder ao mais íntimo das memórias do narrador, trazendo à vida as pessoas “daquele tempo”, abrindo-se-nos as portas para um mundo que também é o da Língua Portuguesa e o do Norte de Portugal. E inúmeros temas se abrem à curiosidade do leitor, outros tantos caminhos para novas leituras. 

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Registar a oralidade no texto escrito

Apesar do escrúpulo do autor em apresentar O Malhadinhas como um “longo monólogo [que] é menos um registo do som que um registo psicológico” (nota preliminar da edição de 1958), desde as primeiras linhas até ao fim do livro o leitor é arrastado pelo coloquialismo da narração, rico em expressões proverbiais e idiomáticas que sustentam a continuação do trecho citado acima: “Reproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. O que se cometeu foi filtrá-la, mais na substância do que na forma, com o cuidado, por conseguinte, de poupar ao oiro verbal as suas pepitas preciosas.”

Ao escritor não basta o ouvido familiarizado com a linguagem oral, regionalismos, calão, etc, como muitas vezes apreciamos em espontâneos contadores de histórias e anedotas. O filtro da linguagem, “mais na substância do que na forma”, permite explorar as dimensões humanas e literárias dos personagens e dos enredos que, de outro modo, teriam de ser sacrificadas em prol dum “naturalismo” que se pretende fiel à realidade retratada, nem por isso mais verídico.

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Assumindo esta opção, Aquilino coloca um aldeão sem grande instrução (ver nota 1), velhote e esperto, a entreter um grupo de homens de outra condição (ver nota 2) com a história de sua vida, oportunidade para o autor explorar tópicos de um país rural e beirão (ver nota 3), onde a coragem física (ver nota 4), a violência de macho (ver nota 5), o penhor da palavra (ver nota 6), se misturam com artes de navalha (ver nota 7) e jogo do pau (ver nota 8), manhas de feirante (ver nota 9), língua afiada (nota 10) e uma devoção popular que ultrapassa os limites da religião instituída (ver nota 11).

Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço”

Não é preciso que tenham rodado “dois carros de anos” sobre o cadáver do escritor (ou projecto de escritor) contemporâneo para poder ter tido a grata experiência de ouvir algum velhote rural ou urbano, falar com um estilo semelhante e a mesma riqueza vocabular, associados ao raciocínio inteligente ou à meditação filosófica.

Porém, para o leitor do sec.XXI  o resultado é algo estranho num primeiro tempo: a realidade descrita e a linguagem usada, juntamente com a técnica narrativa, parece dum tempo tão longínquo quanto o do protagonista do Lazarilho de Tormes (ver nota 12), cuja 1ª edição é do sec.XVI. Mas se o Portugal rural na 2ª década do sec.XX estava mais próximo dessa realidade do que da actual, Aquilino Ribeiro é uma autor intemporal que se revela na escrita, propiciando o diálogo com o leitor.

E uma das características da boa literatura é o apelo a reler, premiando o leitor com novos sentidos, novas descobertas. E o que já se sabia, ainda sabe melhor.

Choro pela minha vida de almocreve, e dessem-me hoje o machinho, tornassem-me as minhas pernas e a boa disposição, com dias grandes ou noites sem fim, não se furtava o filho de meu pai a recomeçar o fadário por Franças e Araganças. Mas ao tempo o meu pensar era outro (…). E a vida lá vai…ligeira como uma galga doida, esparvada. Já noutro diaço julguei que era chegada a minha hora. (in O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, 1922)

O tédio como experiência estética

A expressão do tédio é um assunto completamente diferente, noutras épocas reservado às classes superiores ou àqueles que tivessem uma vida social relevante (o que pode parecer paradoxal).

Em qualquer dos casos, manifesta-se pela sensação ou sentimento de indiferença para com o meio envolvente, umas vezes assumindo um “vazio” interior, outras uma consciência ou sensibilidade hipercrítica para com a sociedade e os seus costumes.

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Sua expressão literária nasce com o individualismo: a consciência crítica, política ou não, do indivíduo frente às instituições e às normas sociais. Porque o “tédio” é uma experiência individual, acima de tudo.

Como tudo o mais, o passar do tempo irá tornar esta experiência acessível ao comum dos mortais e ganhará matizes diferenciados.

(…) Há um [monstro] mais feio, mais feroz, mais imundo!
Ainda que não faça grandes gestos nem dê grandes gritos
Se pudesse faria da terra uma ruína
E num bocejo tragaria o mundo

É o Tédio-o olho num choro involuntário,
sonha com cadafalsos enquanto fuma a houka.
Tu conhece-lo, leitor, esse monstro delicado,
-Hipócrita leitor-meu semelhante-meu irmão!

(Baudelaire, Ao Leitor in As Flores do Mal 1861)

Neuras literárias

O tédio e a loucura surgem como dois agentes literários por excelência, com variações na melancolia, no desespero, “le mal de vivre”, etc.

“Há dias que deviam vir com um aviso:
Hoje vai ser um dia detestável, por isso larga o café e mete-te nos copos”

A loucura pode ser expressão de amores insatisfeitos: no sec.XVII, as famosas cartas atribuídas a Mariana de Alcoforado (Lettres portugaises) são um exemplo flagrante do género e que se tornou um best-seller mundial. A poesia de Florbela Espanca, no sec.XX, contém a mesma dimensão trágica e intensa.

O tédio, por sua vez, pode levar à infracção social (o adultério em Madame Bovary de Flaubert ou o Primo Basílio de Eça de Queirós). A que se pode associar os sentimentos de indiferença/afastamento/rejeição na relação com a envolvente social, inclusive familiar (ver Kafka, A metamorfose; Camus, O Estrangeiro; Bernardo Soares, O Livro do Desassossego).

Sob o olhar crítico do louco ou do entediado, as normas e hábitos sociais são absurdos e opressivos, as pessoas ditas normais não vivem a vida plenamente, por falta de coragem ou por nem disso serem conscientes, a sociedade é hipócrita.

Para um, o amor proibido seria a redenção; para o outro, não há salvação possível, mas existem paliativos, o cinismo pode ser uma defesa, a ausência de valores torna-se uma filosofia. Comum a ambos, ainda, o recurso à fuga para um mundo interior, donde o exterior é visto através duma lente muito própria.

Terrenos pantanosos para quem se inicia na escrita, mas onde também podem brilhar pérolas extraordinárias.

“vamo-nos sentir realizados e satisfeitos, finalmente?”

Escrevem-se bons livros tendo o tema da viagem como pretexto: real ou imaginária, atravessando regiões imensas ou sem se sair de casa, procurando a objectividade ou assumindo a mais descarada subjectividade.

E ainda podendo assumir o tema para o contrariar e fazer a apologia do oposto a viajar.

Ou descobrindo que a verdadeira viagem é através de um continente no interior de si próprio.

Em todo o caso, creio que as obras de referência, aquelas que nos marcam, são as que nos levam à conclusão que tirou o norte-americano Walt Whitman ao olhar para o céu estrelado, imaginando o que acontecerá quando a Humanidade chegar a todos esses astros distantes: “(…) vamo-nos sentir realizados e satisfeitos, finalmente? /E o meu espírito disse Não, iremos atingir esse nível para passar e continuar adiante.” (in Song of myself 1855)

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Clássicos

Marco Polo “criou” o género ao escrever “As Viagens” (no original Il Milione) sobre a sua própria experiência ao longo da famosa “Rota da Seda”, de Itália à China, no século XIII.

Fernão Mendes Pinto, no sec.XVI, foi um dos mais ilustres continuadores deste género com a “Peregrinação”, relatando suas aventuras e desventuras, da Índia ao Japão, na “Rota das Especiarias”.

Muitos autores limitam-se às viagens de outros, principalmente se forem relatos fantásticos como é o caso das “Aventuras de Gulliver”, de Jonatham Swift (sec.XVIII).

Bem distinto dos anteriores, a “Epopeia de Gilgamesh” (cerca de 2500 a.C) relata a viagem desesperada de Gilgamesh à procura da Imortalidade, sem que disso tire proveito, nem alegria.

Muitos autores se inspiraram em livros como estes para recriarem suas viagens, imaginárias ou não.

Os livros são, por vezes, intoxicantes: viciam o leitor, infectam-no de ideias estranhas, abrem-lhe as “portas da percepção” (Aldous Huxley), metamorfoseando-o em alguém que quer “viver para contá-la” (G.G.Marquez), tornando-se ele próprio, autor. E, com um pouco de talento, o ciclo da contaminação prossegue.

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Modas, revivalismos e recriação

Há temas que exigem um novo olhar ou contexto para serem levados a sério, ou então são anacrónicos, porque ninguém os sente e, muito menos, vive.

Outros, quando regressam por contingência histórica ou revivalismo efémero, são esquecidos assim passe o que quer que seja que os fez regressar da tumba.

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Fora de moda

Há autores que publicam poesia ou prosa e justificam-se pelo amor que nutrem a tal tema ou tal pessoa, pela indignação contra o estado das coisas, pelo interesse neste e naquele assunto, por terem vivido aquele tempo, aquele acontecimento, naquele lugar. Tudo é válido e nada garante o que quer que seja.

Porque se há matéria que envelhece rapidamente, são os propósitos e os temas.

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O Processo

Os personagens acabarão por surgir impondo a sua presença e exigindo atenção, assim o processo narrativo se desenvolva. Este processo pode ser conduzido por um narrador-personagem ou por um narrador omnisciente e impessoal, mas também pode dispensá-los e desenvolver-se num “efeito caleidoscópio”, dando expressão a diferentes “vozes”, que são outras tantas perspectivas parciais cujo somatório é o “trabalho” do leitor. Esta é uma área vocacionada para a criação e a sensibilidade, que na esmagadora maioria das vezes é tratada de modo banal e previsível.

Para quem não está familiarizado com o processo de escrita extensa dum livro, o mais óbvio é seguir o impulso de se dedicar ao tema/enredo num jogo criativo que poderá misturar ficção com realidade, sem se comprometer com matérias que possam distrair do propósito do livro.

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A malha

Pode não haver enredo? Ou seja, não ter história, narração, sequência? Depende do sentido que se queira dar às palavras, mas a ausência dum enredo pressupõe o quê? Na verdade, o enredo é uma malha que o tempo e as palavras formam, sendo assim, impossível de lhe escapar.

A variedade de malhas possíveis para tecer o enredo (cuja etimologia já implica a ideia da tecelagem) é grande, podendo ser aqui um dos desafios que o autor coloca a si mesmo e ao leitor. Leia o resto deste artigo »

Infinitos livros: mais leitores, menos leitura

Uma citação, uma alusão, uma referência, cruciais para a fruição do livro, seja um diálogo, seja uma situação, podem passar completamente ao lado, perdendo-se emoção, ironia ou o próprio sentido.

O paradoxo é o seguinte: hoje há imensamente mais gente a ler livros, na esmagadora maioria dos casos lendo pouco e não lendo livros “fundamentais”; ainda há 50 anos, eram relativamente poucos os que liam, mas tinham, em geral, a noção dos livros que era importante ler, partilhando entre si a informação sobre um universo reduzido de títulos e autores (comparativamente, claro) e que já eram partilhados pelas gerações cultas anteriores.

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Tempos livres e perda de tempo

Ao longo da segunda metade do sec.XX, o livro cedeu terreno à televisão na ocupação dos tempos livres em casa.

Hoje, a situação é ainda mais desfavorável: muito do que se lê é sugerido pelo visionamento dum filme ou pela expectativa criada no final de temporada duma série de culto.

O resultado torna-se caricato, como seja a referência à versão em filme para se falar do enredo, originalmente escrito e de muito maior complexidade. Pior ainda: a importância dada a temas que são intensamente desenvolvidos há séculos, pelas mais variadas formas de expressão artística, mas dos quais muita gente só toma conhecimento, pela primeira vez, quando da publicação dum livro de terceira categoria ou do visionamento dum filme banal.

E o tema, tal como o enredo, as fontes, os personagens, a encenação, ou são clichés, ou são duma vulgaridade atroz.

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Vícios privados, públicas virtudes

Saber gramática, ter vocabulário, cultivar referências literárias e outras,  é essencial e faz a diferença. A escola, primária ou universitária, não são irrelevantes, longe disso!

Mas a gramática, o vocabulário, as referências, tudo isso se pode aprender e exercitar de modo quase intuitivo, se o escritor for um leitor atento e omnívoro.

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Mentiras de Um de Abril

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Muitas vezes desvaloriza-se um relato porque é “ficção”. A ficção como sendo inferior à realidade. A realidade entendida como o factual, o verdadeiro. Enquanto a ficção é do domínio da fantasia, da imaginação. Uma mentira, portanto.

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Por vezes, o autor bloqueia quando sente que não tem conhecimento suficiente para abordar certos temas. Ou, pelo contrário, porque tem e porque irá expor o que muitos amigos ou familiares não lhe perdoarão ter exposto. Se pretende escrever um texto com pretensões históricas (como o testemunho de quem viveu e participou nos factos narrados), esses são problemas sérios. Leia o resto deste artigo »

A Páscoa como tema literário

Aproveitando a época pascal, comum ao judaísmo e ao cristianismo: a festa da páscoa judaica (Pessach, também “Festa da Libertação”), celebra a libertação do povo judeu da escravidão no Egipto, com referência à “passagem” do Anjo que levou a morte a todos os primogénitos egípcios, animais incluídos; na páscoa cristã celebram-se dois temas centrais: a morte (Paixão) e ressurreição de Jesus.

Curiosamente, o nome dado à festividade nas línguas germânicas, dentro da tradição cristã (“easter” e “oestern”,por exemplo) remetem para os cultos pagãos da celebração da Primavera, da fertilidade, do renascimento.

Em todas as narrativas, a passagem da morte para a vida (ou libertação), é comum. Mas como são distintos os personagens, os contextos, as circunstâncias.

No islamismo da corrente xiita, também existe uma narrativa sobre a morte (Ashura) e a reaparição do Mahdi oculto que retoma o tema da morte e ressurreição de modo muito distinto das narrativas referidas atrás.

Eis um bom tema de reflexão para leitura e escrita.

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O gosto de ler?! Mas ler o quê?

Na literatura, que se pode dizer a este respeito?

Passando ao lado das questões da censura e moral pública, o que é a “boa” literatura? E é boa em relação a qual outra literatura?

Será indiferente falar com um apreciador dos “clássicos” ou com alguém que aprecia a literatura “cor-de-rosa”?

 

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Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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Paixão não rima com rotina, certeza ou segurança

O que foi dito atrás sobre as paixões não é de grande utilidade para quem escreva ou pretenda fazê-lo. Não porque seja irrelevante, mas por ser daquelas matérias de estudo e reflexão que só ganham sentido se a vida for vivida plenamente. Disso fala extensamente a literatura universal, e acrescenta que se não dermos o passo para fora da casca da rotina, para o exterior da concha de certezas que nos defendem da dúvida, paixão torna-se uma palavra oca.

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Escritores e Leitores

Se fosse cozinheiro e tivesse de escolher “o” ingrediente para temperar a comida, escolheria a “paixão”. Não exagero quando digo que gosto ler de tudo, pois já me caíram nas mãos pequenos manuais, livros insignificantes, brochuras, onde se fala das coisas mais inverosímeis, da criação de roedores de estimação à aplicação de determinado imposto, suas taxas, isenções e inevitáveis coimas.

Na esmagadora maioria dos casos, se me intriga a existência de quem os escreva, fico abismado com o interesse de quem os procura, paga para leva-los para casa e dedica horas na sua leitura, por vezes de modo obsessivo.

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